Wednesday, October 31, 2012

Está chegando

Atenção a todos que são:
Está chegando a hora...
... da festa dos que já não são.

Direitos autorais


No meio de uma recente discussão bizantina sobre a decisão dos herdeiros de Faulkner de processar Woody Allen pelo uso "indevido" [quer dizer não remunerado] das palavras do autor no filme Midnight in Paris, um advogado ofereceu duas citações que eu achei bastante interessantes:

"The primary objective of copyright is not to reward the labor of authors, but '[t]o promote the Progress of Science and useful Arts.'  To this end, copyright assures authors the right to their original expression, but encourages others to build freely upon the ideas and information conveyed by a work. This result is neither unfair nor unfortunate. It is the means by which copyright advances the progress of science and art."
Justice Sandra Day O'Connor [juíza do supremo estadounidense]
Feist Publications, Inc. v. Rural Telephone Service Co. 499 US 340, 349(1991)

"Only one thing is impossible for God: to find any sense in any copyright law on the planet . . . Whenever a copyright law is to be made or altered, then the idiots assemble."
Mark Twain [dispensa apresentações]

Tuesday, October 30, 2012

Parte 4 - Ah, essa doce monomania...


Os effeitos d'esta paixão são tanto mais apparentes quanto mais violento e mais desenvolvido é o amor. Os caracteres de um amor excessivo podem comparar-se aos da monomania. Com effeito, nos amantes e nos monomaniacos observa-se ordinariamente isto: desprezam ou aborrecem os seus habitos, as suas occupações, e os seus deveres; vivem absorvidos, distrahidos, indifferentes a quanto os cerca; encontram-se freqüentemente sós e mergulhados em profundas meditações, d'onde parecem sahir como de um somno, quando se chama por elles; tudo o que os arranca á sua soledade e ás preoccupaçôes os molesta ou importuna; singularidades de caracter, costumes, feições estranhas, espantam logo as pessoas que estavam costumadas a vèl-os. Nesse estado moral, observa-se uma d'estas duas cousas, ou discursos contínuos sobre o mesmo assumpto, ou uma taciturnidade insólita. Ao mesmo tempo diminue ou foge o somno, perde-se o appetite, emmagrece o corpo; o entorpecimento, a preguiça de se mover suecede á agilidade, as faculdades mentaes, principalmente a memória e attcnção, diminuem de uma maneira sensível.

Monday, October 29, 2012

Ah, amor "vago, comtemplativo e sem objecto determinado"


Desde então pôde ainda o amor conservar-se vago, contemplativo e sem objecto determinado; mas existe. Logo que fôr conhecido, os paes não devem desprezar cousa alguma para dirigil-o ou nullifical-o. Primeiramente prohibir a leitura de romances, cujo effeito é darem pabulo ao fogo que se receia. Mais de uma vêz, n'estas circumstancias, escolhe a imaginação em vez do coração, e Rousseau nos fala de uma menina que estava a ponto de ser victima de sua paixão pelas perfeições de Telemaco. Privar a vista de painéis e espectaculos licenciosos, evitar termos equívocos sobre certos objectos melindrosos, é o que convém; porque a curiosidade dos adolescentes é extrema. Occupai-lhes o corpo e o espirito alternadamente; então chegará um profundo somno, e o coração não occupará na existência senão a parte conveniente.


Saturday, October 27, 2012

Amor, adolescência e "costumes secretos" - Parte 2


N'este período tempestuoso, os paes que forem vigilantes devem observar com cuidado a physionomia, os gestos, as palavras, todos os actos dos adolescentes, para descobrir os novos sentimentos que se preparam. É então que nascem ou se aggravam costumes secretos, de que fallarei em outro logar (veja-se ONANISMO) e que tem sobre a saúde influencia muito perniciosa. Principiou nova existência. Mil particularidades moraes revelam esta revolução physica, na qual cada sexo se mostra debaixo de cores differentes. O menino, educado com costumes menos severos, menos pudicos, e naturalmente mais ousado, procura a sociedade das mulheres, sente que as ama mais, e não esconde muito a sua inclinação, ou deixa de a occultar. Entretanto, o amor contemplativo abre-lhe ordinariamente a scena amorosa. O adolescente que não foi corrompido pelas palavras ou exemplos de seus camaradas, faz uma divindade de sua primeira amante, e arde por ella de um amor discreto. A joven virgem, que uma solicitude esclarecida, pia, ou ao menos moral, tem constantemente cercado de sãs impressões, está agitada de mil sensações diversas, cuja fonte ignora; apenas se atreve a interrogar-se a si mesma, e busca dissimular. E por isso a alegria, a candidêz da primeira idade cede o logar a um ar de distracção, de embaraço; que não escapa a nenhum observador. Reconhece logo ella própria que prefere a sociedade dos moços á das companheiras, e que estes produzem n'ella um effeito insólito. D'aqui vem provavelmente, na presença d'elles, a postura contrafeita, a linguagem freqüentemente embaraçada, o olhar incerto, bem que expressivo, os movimentos de pudor, que coram e empallidecem alternadamente seu rosto.Perturbação bella, que denota uma alma que ama, mas ainda innocente.

Friday, October 26, 2012

Amor, século XIX - Parte 1


Na falta de médicos ou até mesmo com eles, o Chernoviz era o livro no século XIX. Estou meio com pressa, então entrego a palavra a quem entende do riscado:

" O 'Chernoviz' foi lido e utilizado por pessoas de diferentes categorias sociais e profissionais, para as quais facilitou o entendimento da hermética ciência médica. Figuram aí os donos de boticas, os patriarcas e líderes políticos e religiosos que freqüentemente cuidavam de pessoas doentes e necessitadas (dos quais o famoso padre Cícero é um exemplo), e as matriarcas da elite latifundiária do Império, que cuidavam das pessoas da casa, dos seus agregados e da escravaria. O 'Chernoviz' também serviu como subsídio científico aos autodidatas e às pessoas leigas que exerceram ofícios de cura, chamados pelos médicos acadêmicos de 'charlatães' ou 'curiosos'." (Cotrim Guimarães em Chernoviz e os manuais de medicina popular no Império)

Vou publicar aqui em partes um verbete sensacional do Chernoviz: 

Parte I
"AMOR. Considerar o amor como uma paixão devorante, lembrar seus caracteres conhecidos, descobrir seus segredos, assignalar seus resultados, e indicar os meios de manter este sentimento nos justos limites, tal é o objecto d'este artigo.

O amor é uma disposição innata, instinctiva, e mais ou menos imperiosa. Durante os primeiros annos da existência este sentimento está adormecido, e só se manifesta na época da puberdade. Então, nos adolescentes de ambos os sexos muda a voz, o systema pilloso cobre partes até então impubescentes, as feições adquirem certa expressão, ordinariamente os gostos mudam; emfim, nas meninas a apparição dos menstruos, o desenvolvimento dos seios são ainda mais característicos."

Thursday, October 25, 2012

Sucesso

Cada vez que eu leio alguém revoltado com com o sucesso gigantesco de algum músico ou de um programa de televisão  ou de um livro, fico pensando:

1. Alguém conhece o Visconde d'Arlincourt? Ele era o rei de Paris nos anos 20 do século retrasado. A inglesa Anna Jameson no seu Diary of an Ennuyée descreveu assim a Paris que ela visitou:

Le Solitaire rules the imagination, the taste, the dress of half Paris: if you go to the theater, it is to see the ‘Solitaire’ either as tragedy, opera or melodrama; the men dress their hair and throw their cloaks about them à la Solitaire; bonnets and caps, flounces and ribbons are all à la Solitaire, the print shops are full of scenes from Le Solitaire; it is on every toilette, on every work table; - ladies carry it about in their reticules to show each another that they are à la mode; and the men – what can they do but humble their understanding and be extasiés, when beautiful eyes sparkle in its defence, and glisten in its praise, and ruby lips pronounce it, divine, delicious, ‘quelle sublimité dans les descriptions, quelle force dans les caracteres! quelle âme! Feu! chaleur! verve! originalité! passion! &c.’
‘Vous n’avez pas lu le Solitaire?’ said Madame M. yesterday. ‘Eh mone Dieu! il est donc possible! vous? mais, ma chére, vous êtes perdue de reputation, et pour jamais!’”

2. Já traduziu as letras do Black Eye Peas ou da Beyoncé ou do Queen? Já deu uma boa olhada no guarda-roupa da Britney Spears ou do Elvis em Las Vegas? Porque é que se pega no pé de músicos que fazem sucesso popular no Brasil com letras simples e visual "cafona"? Só porque não entendem as letras em inglês ou porque está se revestindo um preconceito de classe com um conceito estético?

3. Música pode ser para dançar também. Ou só para escutar e cantarolar junto. Conteúdo por conteúdo, rima por rima. as mesmas pessoas que esculhambar os brasileiros não tem a mesma exigência com certos "clássicos" da MPB que tem tantas abobrinhas e rimas pobres como qualquer bobagem que toca no rádio hoje.

3. Fazer um julgamento estético é uma coisa mais complicada do que parece. Que sentido faz dizer que Guimarães Rosa é melhor [ou pior] que Joyce? Que sentido faz comparar um carro popular com um tanque do exército? 

Wednesday, October 24, 2012

Os irmãos Grimm

Foto minha: Union Church, Hudson Valley
Era uma vez dois irmãos escritores, Jacó e Guilherme. Eles moravam juntos e todos os dias desciam dos seus quartos e trabalhavam na mesma mesa, um de frente para o outro. Escreveram juntos oito livros, além de outros que eles escreveram na mesma mesa, só que separados: 21 livros de Jacó e 14 de Guilherme. Quando eles tinham mais ou menos 40 anos eles acabaram de escrever juntos a primeira versão de um livro de contos de fadas. Como muitas histórias desse livro tiravam o sono das crianças, por mais 40 anos Guilherme mexeu no livro que escreveu com o irmão. Não adiantou:

THE STUBBORN CHILD

Once upon a time there lived a stubborn child who never did what mother told the child to do. And so our dear Lord did not look kindly on the child, and let the child become ill. No doctor could cure the child, and before long it was lying on the deathbed. The coffin was being lowered into the grave and they were about to cover it with earth when suddenly one of her little arms emerged and reached up into the air. They pushed it back in again and covered the coffin with more earth, but it was no use. The little arm kept reaching out of the grave. Finally the child's mother had to go to the grave and smack the little arm with a switch. After she did that, the arm withdrew, and the child could finally rest in peace beneath the earth.

Monday, October 22, 2012

Recordar é viver: o Brasil e os índios

Diário do Rio de Janeiro, 2 de agosto de 1860
Eram tempos de escassez de mão de obra com o fim do tráfico de escravos e a expansão do que chamaríamos hoje a "agro-indústria" cafeeira. Daí a irritação palpável no comentário final na nota à reportagem sobre esses 143 índios vivendo "no estado da natureza" tão perto da fazenda do "cidadão" João Carlos Pereira Leite. Quem os terá contado? Com que propósito? "Em outro paiz onde a administração fosse mais amante do trabalho, essa horda indispensavelmente teria sido aproveitada para a lavoura ou para qualquer outro mister social". Na falta dessa tal administração amante do trabalho, talvez ficasse a cargo do tal cidadão João Carlos Pereira Leite o "aproveitamento" dessas 143 almas no moinho de gente chamado Brasil. Deixei de propósito a nota seguinte sobre a chegada ao Rio de Janeiro de 69 escravos da Bahia, mas não há edição da minha parte. As duas notícias com a nota irritada no meio estão assim no jornal.

Thursday, October 18, 2012

escavando notas: opilados e alugados





Não era só o legislativo que se mexia para apaziguar a crise da falta de escravos com o fim do tráfico. Nosso inventivo setor privado também apresentava suas soluções. Um possível sintoma da falta de escravos no mercado em 1860 era a aparição de empreendedores dedicados a explorar ao máximo os escravos à disposição. como esse aí em cima, uma espécie de retificador de gente. Forçados a andar sempre descalços, muitos escravos sofriam com doenças infecciosas como a opilação [atualmente ancilostomíase]  que "contribuía para a debilitação geral e provocava a 'franqueza' ou a 'preguiça' de que os senhores tanto reclamavam." O tratamento aplicado aos opilados que o anúncio aí em cima procurava era provavelmente o seguinte: " ... substituísse por uma dieta suculenta e animalizada a dieta farinácea; que forma geralmente a base do regime dos opilados; administrar a limalha de ferro na dose de doze grãos até uma oitava por dia, aumentando progressivamente as primeira doses; dar meia onça até uma onça de xarope antiescorbútico do Portal, sem adição de muriato supra-oxigenado de mercúrio, ou substituir pelo elixir amargo de Peyrilhe, e associar à estes medicamentos todos os recursos higiênicos necessários ...” [83] Acabo de citar o Manual do fazendeiro ou tratado doméstico sobre as enfermidades dos negros de autoria de Jean-Baptista Alban Imbert, que aparece em “Das páginas ao corpo: escravidão e práticas de saúde em manuais de fazendeiros do século XIX”, dissertação de mestrado de de Kassia Rodrigues. 



Mas talvez o tal dono do negócio não passasse de um atravessador de escravos. Afinal, no mesmo dia, um pouco mais abaixo nos classificados, o mesmo endereço [rua do parto 120] oferecia também o serviço de gerente de uma espécie de agência locadora de escravos, singelamente descrita como "descanso para os senhores de escravo":


Machado de Assis nos faz passar pela mesma rua do parto, acompanhando um outro jovem empreendedor, Cândido, protagonista do conto "Pai contra Mãe":


"Naquela reviu todas as suas notas de escravos fugidos . As gratificações pela maior parte eram promessas; algumas traziam a soma escrita e escassa. Uma, porém, subia a cem mil-réis. Tratava-se de uma mulata; vinham indicações de gesto e de vestido. Cândido Neves andara a pesquisá-la sem melhor fortuna, e abrira mão do negócio; imaginou que algum amante da escrava a houvesse recolhido. Agora, porém, a vista nova da quantia e a necessidade dela animaram Cândido Neves a fazer um grande esforço derradeiro. Saiu de manhã a ver e indagar pela Rua e Largo da Carioca, Rua do Parto e da Ajuda, onde ela parecia andar, segundo o anúncio. Não a achou; apenas um farmacêutico da Rua da Ajuda se lembrava de ter vendido uma onça de qualquer droga, três dias antes, à pessoa que tinha os sinais indicados. Cândido Neves parecia falar como dono da escrava, e agradeceu cortesmente a notícia. Não foi mais feliz com outros fugidos de gratificação incerta ou barata."

Miécio Táti nos informa que a Rua do Parto é a atual São José, entre a rua Rodrigo Silva e o Largo da Carioca no centro. Quando passar por lá da próxima vez, não rezarei porque não sou de rezar, mas juro que pensarei nas almas dos opilados e alugados de 1860 da Rua do Parto. 

Tuesday, October 16, 2012

Maria Rosa Menocal

O nome do capítulo do livro Shards of Love de onde vem a citação abaixo é "The Horse Latitudes"


Ontem à noite morreu a medievalista Maria Rosa Menocal, minha colega de departamento. Nunca disse a ela que havia lido e gostado imensamente do seu livro Shards of Love. Nunca tivemos contato além das reuniões de departamento e achei que poderia parecer puxa-saquismo de professor junior com uma Sterling Professor [nível mais alto de um professor em Yale] que era ainda diretora do Centro de Humanidades Whitney.  

A homenagem possível, a melhor homenagem, talvez, é a releitura:

“[…] We can see the constant struggle, the insistent demands from others, from within ourselves, that we find a simple way of defining ourselves, of telling a neat story with a satisfying ending, even if that endeavor means the sacrifice of the powerful but wild creatures, those odd beasts that must certainly be weighing down the ship and making the winds die down.” [51]

Monday, October 15, 2012

Um animal curioso


Desenho meu
O conservadorismo brasileiro é um animal curioso, pois raramente mostra a sua cara. Isso dificulta sobremaneira todos os que desejam combatê-lo além dos quintais da internet, onde um grupo pequeno de aprendizes de Gustavo Barroso cospem seu veneno. For a daí, NENHUM político no Brasil é contra a distribuição de renda ou a educação e a saúde públicas e TODOS eles são contra o racismo e a injustiça social. A primeira estratégia é não fomentar o debate; a segunda é escamotear o debate; depois vem a total perversão do debate, que revolve invariavelmente sobre o sexo dos anjos. Para contrapor-se a esse conservadorismo “líquido" de forma efetiva é preciso muito mais que disposição para debater; é preciso estar sempre atento aos termos do debate que se está travando, pois a estratégia do campo conservador é quase sempre a de deslizar esses termos do debate para tangentes que nos levam invariavelmente a lugar nenhum – para que assim fiquemos todos sempre na mesma, o que é o sonho dourado de todo conservador.  

Para ilustrar meu ponto vista, nada melhor que voltar ao passado remoto. Eis aqui o meu resumo de 10 objeções levantadas no parlamento brasileiro contra a Lei do Ventre Livre em 1871:


1.     Queremos todos acabar com a escravidão, porém devemos fazê-lo pelo método mais seguro e conveniente, sem apelar para o radicalismo de uma “justiça absoluta” [Perdigão Malheiros].
2.     A Lei do Ventre Livre é um atentado ao direito à propriedade, uma vez que a mãe do escravo é propriedade do seu dono. [Andrade Figueira]
3.     A violência da escravização não foi perpetrada pelo fazendeiro mas sim pelo chefe tribal africano; o erro foi permitir o tráfico de escravos e é injusto penalizar agora o proprietário do escravo. [Visconde de Itaboraí]
4.     A indenização que o governo pagaria ao proprietário da escrava quando a criança chegasse aos oito anos era pequena, principalmente tendo em vista que só a metade das crianças de escravas chegava a tal idade. [Barão da Vila da Barra, Bahia].
5.     A Lei do Ventre Livre é uma interferência indevida que não leva em conta as forças naturais do mercado; o proprietário ganha muito mais do que o valor estipulado pela indenização enviando o bebê a casa dos expostos e alugando a mãe como ama de leite. Por isso, a Lei do Ventre Livre deveria ser chamada de “Lei de Herodes”, já que provocará uma mortandade indiscriminada de crianças indesejadas [Deputado Capanema, MG], “uma verdadeira hecatombe de inocentes!” [Perdigão Malheiro, MG].
6.     As bases jurídicas do país seriam abaladas. É perigoso e anti-constitucional considerar como “ingênuo” uma criança que de fato era um “liberto”, pois apenas um filho gerado em um útero livre poderia receber o título de “ingênuo”, que detinha direitos politicos plenos pela constituição, ao contrário dos libertos. [Barros Cobra]
7.     Previa-se uma anarquia pelo fomento do espírito de rebelião dos escravos, que não tinham discernimento para entender que seus filhos tinham direito à liberdade mas não eles, resultando em “dias tristes, de cenas criminosas, horríveis e escandalosas” [José de Alencar]
8.     A lei causaria uma terrível comoção econômica, com a paralização do setor mais importante da economia, a agricultura, uma queda brusca no valor das terras e das propriedades agrícolas, resultando no colapso econômico do país. [Andrade Figueira]
9.     A falta de imparcialidade do imperador ao manifestar-se a favor da Lei do Ventre Livre o fez perder a neutralidade que a constituição lhe exigia; de juiz ele tornou-se portanto “um mero ditador” [José de Alencar].
10.  Como já disseram na razão No 1, somos TODOS contra a escravidão, mas melhor seria um programa parcelado de emancipação, favorecendo os maiores de 65 anos e um grupo selecionado de mulheres e crianças de forma a promover o fim gradual da escravidão até o final do século XIX sem desrespeitar o direito à propriedade. [Calmon]

Friday, October 12, 2012

Escavando notas: dia das crianças

 Ariel é um texto dedicado a juventude das Américas e nele Rodó fala - entre muitas outras coisas - sobre a necessidade de vencer as tendências paralisantes do pessimismo. Ele entretanto adverte contra o que ele chama de "ignorancia voluntaria" e defende, em certas ocasiões, um certo tipo de pessimismo:


"Hay pesimismos que tienen la significación de un optimismo paradójico. Muy lejos de suponer la renuncia y la condenación de la existencia, ellos propagan, con su descontento de lo actual, la necesidad de renovarla."

José Enrique Rodó, Ariel, 8

Olivia comendo sorvete

Wednesday, October 10, 2012

Ainda mais uma vezinha, Joyce

No dia 29 de maio de 2002, a ministra da cultura da Irlanda chegou no aeroporto de Dublin, onde o primeiro ministro e uma multidão de repórteres esperavam. Descendo as escadas do avião ela segurava como um relicário uma caixa com um manuscrito de Ulysses e as provas de Finnegans Wake compradas pela bagatela de 15 milhões e meio de dólares. O avô dessa ministra, que qualificou sua chegada com os manuscritos como “um evento monumental para a história literária e cultural da Irlanda,” era Éamon de Valera, figura central na política irlandesa durante boa parte do século XX, quando as obras de Joyce eram proibidas na Irlanda [nascido em Nova Iorque, o sobrenome da família vem do pai de Éamon, um cubano]. Num artigo recente do The New York Review of Books, Fintan O’Toole resumiu assim essa situação paradoxal:

“For those of us who had known the thrill of reading Joyce when he was still the scandalous author of dirty books, this was a bittersweet moment. It was good, of course, that one of the greatest of Irishmen was at last being honored in his own country, and especially in the city that was, even after he left it for the last time in 1912, his imaginative universe. But Joyce really is dirty and scandalous. Those precious pages, for each of which the Irish government paid around $30,000, stink of flesh, ordure, and bodily fluids. They are steeped in forbidden thoughts and dishonorable desires, in secrets, blasphemy, and sex. They were not made to become holy relics. Censorship and opprobrium may have been a cruel fate for the living Joyce, but elevation to sainthood after his death is not necessarily a better one.”

Por essas e outras eu nunca me animo muito com comemorações oficiais em museus e feiras de livros e outras cerimônias solenes com trófeus e medalhas, principalmente quando alguém enche o peito para cantar loas celestiais a figuras literariamente queridas como Guimarães Rosa, William Faulkner e Juan Rulfo.  

Monday, October 08, 2012

Recordar é viver: classificados de 1860

Anúncios de 1860 no jornal Diário do Rio de Janeiro

Cansado dos eventos e seus jornais remelentos, ando agora lendo esse velho e vetusto jornal de quatro páginas onde Machado de Assi trabalhou. As sete colunas praticamente sem ilustrações são cansativas, mas tremendamente informativas também. Política, economia, obituários, tudo muito informativo.
Separei esses destaques aí de cima, dos classificados:
1. Anúncio do técnico de choque eléctrico-magnético que tem todo o equipamento e aplica o tratamento "com muita pachorra e certeza." Os anúncioss anunciando tratamentos médicos e remédios de todo o tipo são comuns no jornal e sempre incríveis. Ainda coloco aqui um outro dia o genial anúncio do "Ungüento Holloway."
2. O seco anúncio da Rua do Sabão que vende duas crianças, "dois molequinhos bonitos." Desse tipo há vários no jornal. Recordar as coisas duras do passado para remediar as injustiças do presente, é o meu lema.
3. Ainda no mesmo veio o anúncio de aluguel da escrava-babá ["uma preta para andar com crianças"] me impressiona pelo detalhe de que o locatário enfatiza que a babá "é muito fiel com a condição de não sahir à rua".  
4. O uso do termo "alcova" como, suponho, cômodo no último anúncio.

Sunday, October 07, 2012

Ressaca

1. Belo Horizonte teve um segundo turno adiantado; com apenas dois candidatos com mais de 3%, as coisas tendiam a se resolver no primeiro turno mesmo. Achei a administração do Márcio Lacerda uma porcaria, particularmente na área da cultura, que acompanho mais de perto, e em várias obras inexplicáveis e intermináveis que me parecem, de longe, uma mistura de patetice e safadeza. Obviamente a maioria da população de BH que se animou a votar em alguém nessa eleição não concorda comigo. Mas foi um resultado apertado e o mundo não acabou. Em quatro anos tem mais. Para falar a verdade acho que "perdi" mais da metade das eleições para cargos executivos e talvez mais no caso do senado, onde nunca tive  prazer de dizer que tinha um senadorzinho sequer eleito por mim. Azeite.
2. Vejo ainda com pesar a muito pouca atenção que é dada ao resultado da eleição legislativa, mas o fato é que certos pulhas instalados na câmara tiveram que suar para se reeleger e uns poucos se ferraram. Sabe como é: de pulha municipal a pulha estadual a pulha federal a pulha executivo. Essa gente é um bando de pulhas miúdos e torço para que, pelo menos, continuem miúdos. A grande novidade não aconteceu durante a campanha, mas antes, com o movimento Ocupe Câmara marcando de perto  e divulgando a atuação dos vereadores, no meu caso, pelo fcbk. Tomara que a ideia cresça, apesar das claras derrotas, com a reeleição de certas figuras execráveis.
3. A tendência de perder uma eleição e sair xingando "o povo" que não sabe votar me parece cada vez mais ridícula. Também é triste, mas revelador, ver muita gente progressista apelar para as piores pérolas da casa-grande quando estão frustrados. Nossa cultura ainda é muito autoritária e assim logo taxamos todos os nossos opositores de canalhas, energúmenos, imbecis, ladrões. Às vezes eles até merecem, mas os adjetivos pesados, usados com tanta frequencia assim, perdem o sentido.
4. Tenho respeito e admiração pelo Joaquim Barbosa, na humilde condição de leigo que acompanha o Supremo Tribunal pelos jornais. Acho positiva a atenção que o Supremo tem recebido de uns tempos para cá, mas tenho acompanhado pessoas inteligentes reduzirem seus juízos a pérolas dignas de torcedor em estádio de futebol. Assim, os juízes e políticos vão de heróis a vilões absolutos dependendo da opinião pessoal que a pessoa sobre um caso específico. Já vi gente inteligente, que ue respeito muito, dizer durante a eleição para presidente que a Dilma, tendo estado no ministério das minas e energia e sendo tão "técnica," ia saber exatamente o que fazer com Belo Monte e hoje anda cuspindo marimbondos e dizendo que a Dilma é uma assassina que solta uma corja de bandeirantes do século XXI para trucidar índios na Amazônia. Eu, quando quero ver um Fla-Flu, procuro o canal de esporte. Que os políticos falem assim, eu acho até lícito. Mas eu no máximo declaro voto e olhe lá. 

Thursday, October 04, 2012

Escavando notas: Bens de evento



Em 1859 o Brasil Imperial passava por uma tremenda crise de mão de obra e nossos legisladores resolveram tomar uma atitude sobre o assunto, legislando sobre o que se chamou de "bens de evento," “as cousas achadas de vento, as que andam vagando de uma parte para outra, sem dono, ou mudando como o mesmo vento muda." O regulamento de 1859 "classifica como bens de evento os escravos, gado ou bestas achadas sem se saber do senhor ou dono a quem pertençam.” A ideia era reintegrar na força de trabalho nacional certos indivíduos suspeitos que apareciam de repente vindos não se sabia de onde, achados "de vento" e, tomados de súbita amnesia, não eram capazes de dizer a quem pertenciam. 

Fugido há um ano, Benedicto poderia estar muito longe mas, mesmo livre do seu dono, ainda poderia ser transformado em "bem de evento" e assim "reintegrado ao mercado de trabalho"

Tratava-se de uma lei de "ação desafirmativa," que tentanva empurrar de volta para a escravidão aqueles escravos que ousavam atentar contra o direito à propriedade. Não se faz qualquer referência na lei a uma diferenciação importante: muitos desses "bens" haviam sido comprados depois de 1831 e portanto eram contrabando ilegal de acordo com as próprias leis do país. 

Monday, October 01, 2012

Obituário

1. Eugene Genovese morreu. Ele escreveu Roll, Jordan, Roll e depois se converteu ao catolicismo e virou um conservador de carteirinha. Era um sulista empedernido que nasceu no Brooklin. De certa forma, eu sempre pensei no livro dele como uma espécie de Casa-Grande e Senzala dos Estados Unidos. Mas isso é etnocentrismo de brasileiro.
2. Autran Dourado morreu. Antes de morreu escreveu "Escrever é uma imitação. A gente escreve feito um menino que vê o livro como um brinquedo e pensa ah, eu quero um". Gostei bastante do que li dele, o que foi pouco, mas nunca me entusiasmei muito, ao contrário de outras pessoas que admiro muito. Pelo tamanho da repercussão da morte dele, eram muito poucas. Acabei de pegar um romance dele que nunca li na biblioteca. Acho uma homenagem justa, embora não faça evidentemente a menor diferença.
3. O marido da prima da minha esposa morreu. Um câncer fulminante no cérebro. Parecia ser um bom sujeito, nas poucas vezes em que troquei meia-dúzia de palavras com ele. Não sei se é a idade, mas esse ano fiquei sabendo, ao voltar a BH, de duas pessoas amigas que morreram de câncer também. Bate na madeira.
4. Arthur Sulzberger morreu. A família é dona do New York Times desde 1896. Ele esteve no comando desde 1963. É o único jornal nacional dos Estados Unidos. Os republicanos reclamam que o jornal é liberal. De fato, uma semana de leitura do New York Times dá a dimensão exata dos grandes limites do liberalismo americano, ainda mais na versão água com açúcar desse milênio. Infelizmente, fora dele, aqui, só a mais miserável barbárie.
5. Acompanhar a desfaçatez da campanha política nas grandes capitais brasileiras é um ótimo antídoto para qualquer ilusões a respeito da política partidária brasileira. Numa cidade o PSB é o capeta, na outra é parte das "forças progressistas", cujo progresso aliás inclui várias das forças reacionárias, umas até um mês antes da campanha e algumas outras agora mesmo; isso sem falar que esse tal progresso das forças progressistas fica cada vez parecido com o que eu achava que se chamava "modernização conservadora". Obituário de que esse número 5? Mortas todas as ilusões no processo, tudo se transforma num imenso segundo turno desde o primeiro turno, no sentido de que tudo o que nos resta é votar no mesmo pior, tentar não deixar fulano ganhar e coisas desse tipo. Um diálogo deprimente me vem à mente: "Ei, eles vão asfaltar a Amazônia mas pelo menos eles não deixam as universidades à mingua." "Ué, mas e a greve?" "Bom, mas pelo menos eles ainda são a favor do estado laico." "Pelo menos quando eles não conseguem apoio das igrejas evangélicas, mais ou menos." O diálogo vai seguindo assim e percebo que se trata de escolher entre uma porcaria total e uma porcaria relativa. Uma pena que a retórica política não tenha nada a ver com a realidade das coisas, porque se fosse assim eu poderia me integrar hoje na campanha do PPR, partido da porcaria relativa. Mas sem entusiasmo, porque esse já morreu também.
6. Eric Hobsbawn também morreu. Li muitos de seus livros, ainda não acabei o texto introdutório de em seu último livro, não tenho certeza se é o último, no qual Hobsbawn dizia o seguinte sobre as reformas que o governo inglês enfiava goela abaixo das universidades:
"The needs of 21st capitalism require universities that subordinate intellectual creativity, discourage individual initiatives and restrict the number of disciplines with which higher education has usually been associated."