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Poesia minha: Glória da Ciência Nacional


Glória da ciência nacional

Já estavam quase
aprendendo a viver
quase sem comer
quando vieram a falecer,
deixando pra trás os que,
sem poder adormecer
seus doces sonhos de consumo,
acabaram comprando
com uma arma na mão,
disposição
e uma idéia na cabeça
quatorze passos lacrimosos
até Ribeirão das Neves
onde,
antes de finalmente aprender
a ser pobre sem trauma de pobreza,
vieram a falecer.
não sem antes dar a César
o que é de César:            
esse medo que move                                                        
esse ajustamento duro,     
esse consenso asmático
que faz de quinhentos anos
de crassa violência
companheira nossa
diária, fiel,
nossa identidade nacional             
(se tiver esôfago,
pergunte à esfinge
brasileira média                                      
se ela não acha               
que bandido bom
é bandido morto).

E enquanto isso,                                    
uma cabeça na mão
e as idéias enterradas
na areia fresca da praia,                            
fazendo as pazes conosco
ou vivendo em guerra conosco,                              
queremos não ver
todas as vidas moídas
da cana ao açúcar duro                 
que adoça o café amargo                           
que chega sempre quentinho
logo após a sobremesa.    

Comments

São 5:39 e eu agradeço por ninguém estar acordado. Teria que explicar por que estou chorando.
Cada palavra, cada palavra me corta como faca afiada.
Bom dia e obrigada
Norma
Valeu, Norma! É bom saber que alguém está lendo e mais, gostando. As vezes dá uma certa angústia de estar mesmo escrevendo para as moscas...
Anonymous said…
Duro.
(e isso pra mim é o mesmo que dizer "o poema está muito bom").
Tata.
Duro pra mim também, Tata.
Unknown said…
Paulo, compartilho com a Norma o agradecimento por estar sozinha e poder sentir fundo suas palavras. Continue escrevendo, pode saber que não é pras moscas. Grande abraço, amigo, que mesmo tão distante é dos mais presentes.
Obrigado, Ju. Escrevo do aeroporto louco para chegar no Brasil. Vcs vão a BH em julho?

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