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Showing posts with the label Machado de Assis

Entre a foto e o retrato pintado

 O contraste entre a foto do velho Machado de Assis em 1905 e o retrato feito com base nela pelo pintor Henrique Bernardelli é incontestável. O homem da foto e o retrato pintado têm cores diferentes; um é negro e o outro, nem sequer mulato. Bernardelli, assim como Nabuco no seu famoso comentário sobre o homem da Grécia que Machado de Assis seria e no quão desmerecedor seria chamar atenção para a sua condição racial, considerava esse embranquecimento talvez como uma homenagem a um homem que, admirado e até venerado àquela altura, deveria estar supostamente acima da sua origem racial. O racismo brasileiro tem muitas faces e essa é apenas uma delas. Talvez seja a mais insidiosa, porque é revestida de supostas boas intenções. Deveríamos estar discutindo-o seriamente porque é fácil repudiar a face grotesca do racismo, mas essa sua face pretensamente benévola e gentil é igualmente destrutora.  O Brasil que reconhecemos culturalmente hoje simplesmente não existiria sem Gonçalves Dias...

Coisas que eu vou ter que ler e ouvir pelo resto da vida

1. Rui Barbosa não queimou arquivos sobre a escravidão no Brasil para apagar a memória sobre a instituição. Ele de fato mandou queimar arquivos, mas para acabar com a pressão de ex-escravistas que queriam ser ressarcidos pelas suas "perdas" com a abolição. 2. O homem cordial de Raízes do Brasil  não é um sujeito gentil e bonzinho. A coisa mais interessante desse primeira obra de Sergio Buarque de Holanda é que ela não é nem ufanista nem apocalíptica.   3. Se Graciliano Ramos, Guimarães Rosa e Clarice Lispector são Modernistas (no sentido extra-ambíguo que a palavra tem no português, pelo menos no Brasil), então Machado de Assis, Cruz e Souza e Lima Barreto também o são.  4. Os corruptos em geral não vão para a cadeia nos EUA e, se vão, não esquentam o assento muito tempo por lá. O sistema político é profundamente corrompido pelo dinheiro que financia todas as campanhas políticas aqui.   5. Toda obra literária de excelência é, ao mesmo tempo, profundamen...

Leituras: Diálogo dos mortos

Acabo de ler o Diálogo dos Mortos  de Luciano de Samósata. Nascido na cidade síria [então província romana] às margens do Eufrates, Luciano escreveu em grego e publicou a maior parte da sua obra em Atenas. Os diálogos entre mortos mais ou menos famosos são rápidos e se passam todos nas profundezas do Hades. É comédia desbragada, com um sarcasmo mordente. Exemplo breve: Sócrates jura que foi sincero e literal quando confessou que "nada sabia" mas que seus admiradores e seguidores interpretaram a frase como irônica e continuaram atrás dele mesmo assim. Por que ler literatura clássica se não me especializo nessa área? Por causa de Machado de Assis, ou melhor, por causa de críticos de Machado de Assis que volta e meia levantam a bola de uma certa "sátira menipéia" para falar do escritor carioca e principalmente do Memórias Póstumas de Brás Cubas . Menipeu é o pândego que "entrevista" Sócrates e vários outros defuntos no Diálogo dos Mortos . É dele que vem ...

Recordar é viver: sentidos do meu trabalho

Hoje há uma ruína na Praça Jornal do Comércio, delimitado pela Avenida Barão de Tefé, Rua Sacadura Cabral e pelo limite lateral do Hospital dos Servidores do Estado, no número 178 da Rua Sacadura Cabral. São restos de um cais de pedra, construído a partir de 1811, para o desembarque de africanos escravizados, no porto do Rio de Janeiro. Por ali chegaram mais ou menos 1milhão de pessoas, 25% de todos os africanos sequestrados e depois escravizados nas Américas. Isso faz do Valongo o maior porto escravagista da história da humanidade. Escondido por baixo da reforma de 1843 que o transformou em Cais da Princesa, o porto recebeu a princesa napolitana Tereza Cristina de Bourbon, esposa do Imperador Dom Pedro II. Aterros feito com a terra dos morros do centro do Rio acabaram de enterrar essa história até recentemente. “O enfermeiro” foi publicado por Machado de Assis pela primeira vez na Gazeta de Notícias de 13 de julho de 1884. O conto se passa em 1860 e o narrador se chama Procópio V...

Fantasmas do Rio de Janeiro em oito momentos

El espiñazo del diablo , filme de Guillermo del Toro 1. Assim começa o filme El espiñazo del diablo de Guillermo del Toro: "¿ Qué es un fantasma? --> Un evento terrible condenado a repetirse una y otra vez. Un instante de dolor, quizás. Algo muerto que parece por un momento vivo aún. Un sentimiento suspendido en el tiempo, como una fotografía borrosa, como un insecto atrapado en ámbar." Guillermo del Toro ,  Antonio Trashorras  y David Muñoz 2. A primeira praça pública da Cidade do Rio de Janeiro foi construída em 1843, aproveitando a estrutura de pedra e cal do cais do Valongo, único cais de pedra da cidade construído por decreto da Coroa Portuguesa, pedras do Morro da Conceição. O cais estava desativado desde 1831, mas por ali passaram centenas de milhares de almas sequestradas na África e trazidas para uma vida miserável no Brasil. 3. Assumiu o projeto da praça um orgulhoso membro do  Conselho de Sua Majestade Real, Fidalgo C...