Eu dirigia, meu sobrinho adulto estava calado ao meu lado, minha sobrinha pré-adolescente no banco de trás. Ela dizia alto, o corpo inclinado, ao pé do meu ouvido: - tia, eu vi no tik tok que o mundo vai acabar em 2021. Não sei o que dizer sobre 2021, só que estou mais próxima dos quarenta que dos trinta. Eu, eu, eu... Sempre eu. Como fugir do filtro que é nosso próprio umbigo e através do qual somos obrigados a ver todas as outras coisas, pessoas, rumos, tempos, fins dos tempos, etc.? Por pura nostalgia, minha mãe quer voltar à praia da minha infância esse ano. Há mais ou menos uma década, estivemos lá e já foi decepcionante. O mar tinha comido toda a areia onde, antes, nós jogávamos frescobol, instalávamos espreguiçadeiras e guarda-sóis e então corríamos com os pés queimando até alcançar a água repleta de peixinhos. Quando retornamos, as casas de varandas largas estavam abandonadas e uma gente barulhenta se amontoava em meio aos palitos de picolé, guimbas de cigarro, latas de ce...
Basicamente, mas não exclusivamente literatura: prosa e poesia.