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Showing posts with the label Diário da quarentena no fim de Minas

Enigma de fim do mundo

Eu dirigia, meu sobrinho adulto estava calado ao meu lado, minha sobrinha pré-adolescente no banco de trás. Ela dizia alto, o corpo inclinado, ao pé do meu ouvido: - tia, eu vi no tik tok que o mundo vai acabar em 2021. Não sei o que dizer sobre 2021, só que estou mais próxima dos quarenta que dos trinta.  Eu, eu, eu... Sempre eu. Como fugir do filtro que é nosso próprio umbigo e através do qual somos obrigados a ver todas as outras coisas, pessoas, rumos, tempos, fins dos tempos, etc.? Por pura nostalgia, minha mãe quer voltar à praia da minha infância esse ano. Há mais ou menos uma década, estivemos lá e já foi decepcionante. O mar tinha comido toda a areia onde, antes, nós jogávamos frescobol, instalávamos espreguiçadeiras e guarda-sóis e então corríamos com os pés queimando até alcançar a água repleta de peixinhos. Quando retornamos, as casas de varandas largas estavam abandonadas e uma gente barulhenta se amontoava em meio aos palitos de picolé, guimbas de cigarro, latas de ce...

Desaperfeiçoamento online de professores

No início do isolamento social, precisei comprar um microfone para gravar os áudios das minhas aulas. Não encontrei em nenhuma loja aqui, nem na cidade ao lado, nem na cidade há duzentos quilômetros. Sempre que eu comunicava o que queria, os lojistas diziam: - ah, aquele microfone de live .?.. tem não. A única live que assisti durante o boom das lives foi a do Caetano. Enquanto eu ouvia as músicas e as coisas que ele dizia, pensava: esse país não merece esse homem.  A essa altura da pandemia, as lives saíram de moda por aqui. Em contrapartida, estão acontecendo muitos eventos de "aperfeiçoamento" para professores. Todos os bancos, todas as indústrias, todas as associações de industriais, trabalhadores rurais, de proprietários ruais, de donas de casa, absolutamente todo mundo que não é professor quer ensinar aos professores como é que se faz para dar aulas. O interessante é que esses grupos, essas associações, essas pessoas, contratam acadêmicos da área da pedagogia para ensi...

Considerações irresponsáveis de uma Renata qualquer sobre Devoção da Patti Smith

Escrevo em blogs desde 2005. Quando comecei, eu trabalhava numa agência de viagens e minha mesa ficava ao lado da mesa do chefe. Muitas vezes eu estive realmente ocupada, mas outras, na falta de clientes, convinha que eu me mantivesse concentrada, digitando, franzindo a testa enquanto olhava para a tela do computador. Foi ali que comecei a escrever. Antes, eu nunca tinha achado que pudesse fazer isso, que pudesse fazer isso por prazer e, ainda pior, deixar que os outros lessem.  Eu não sei muito bem onde eu quero chegar com essa introdução, só intuo. Não sei onde quero chegar quando começo a escrever, quase nunca. Tenho apenas uma vaga ideia que me atormenta em forma de pensamentos rápidos, início meio e fim numa só frase, vez após vez, até que... Voilà, estou aqui escrevendo e tentando fazer sentido. Então, meus blogs sempre foram espaços onde eu pensava para fora e isso virou um hábito, um vício, uma tradição. Quero dizer que o discurso não está planejado, ele se faz, irresponsa...

Considerações irresponsáveis de uma Renata qualquer sobre Só Garotos da Patti Smith

  Só Garotos , da Patti Smith, era o que eu estava lendo antes do isolamento social começar. Minha amiga de apê trabalha como recepcionista numa unidade de saúde e, assim que a pandemia se oficializou, ela virou secretária especial da médica que atenderia somente os casos suspeitos de covid-19. Por esse e por outros motivos eu tive que arranjar um carro, fazer as malas com pressa e vir correndo para a cidade onde minha mãe está morando: se não, além de ter que lidar com meus próprios quadros de risco aumentados, não poderia visitar a mãe até que saísse uma vacina. Aí, na pressa e na falta de vontade de continuar lendo, eu acabei deixando o livro para trás.  Há poucos dias, eu estava zapeando pelo Instagram e vi uma bonita foto da Patti Smith com a máscara - assessório tendência - pendendo do bolso da calça preta. Não lembro se foi a revista New Yorker que postou, mas deve ter sido. A foto teve impacto em mim, sei lá por quê, e estou desde então matutando com meus botões o m...

Diário de Quarentena no fim de Minas (perdi a conta)

Que a respiração siga e esteja nesse ritmo por todo o dia. Renata.

Diário da quarentena no fim de Minas II

Eu estava numa vídeo-chamada com um primo querido de Belo Horizonte. Falávamos de arte, de oportunidades para a arte. Verdade seja dita, meus sentimentos estão em câmera lenta. A palavra arte está batendo numa parte de mim que amortece o impacto. Penso sem querer pensar: para que serve a arte em um mundo sem futuro? Para distração de isolados e desesperados? Então não é arte, é entretenimento. Mas haverá outro mundo depois desse que se esvai? Haverá arte? Entro numa vídeo-conferência, uma reunião de trabalho. Sou sempre a pessoa que escreve as atas e não será diferente dessa vez. Vejo o rosto da minha chefe e tento escutar o que ela está dizendo. De repente, quando dou por mim, percebo que estou numa vídeo-conferência. Vejo o rosto da minha chefe e tento escutar o que ela está dizendo. De repente, quando dou por mim, percebo que estou em uma vídeo conferência. Vejo o rosto da minha chefe e tudo em volta parece rodar. Onde está minha atenção? Sumiu de novo. E voltou. E sumiu. E voltou....

Diário da quarentena no fim de Minas Parte I

Há tanto silêncio quanto barulho aqui. Cinco horas da tarde, faça chuva ou faça sol, seja feriado, domingo ou segunda, as vacas caminham pelas ruas mugindo baixinho em direção ao estábulo que fica no outro quarteirão. Minha cadelinha entra em desespero e começa a latir. Se alguém tiver esquecido o portão de casa aberto, ela foge e avança nas vaquinhas que respondem com coices que nunca acertam o alvo. Dia desses fui tentar pegá-la e quase levei chifrada. No terreno vizinho existe uma pequena matinha que o proprietário tentou arrancar. Ele não usou motosserra na tentativa, não. Ele usou calcário e bodes. Foi multado, mas não pagou e talvez nunca pague. O calcário sumiu. A mata está  verde. Os bodes ainda estão lá. E como berram! Há uma estradinha rural ao término da rua. Vejo carros passarem. Placas do Rio de Janeiro, do Espírito Santo, de São Paulo e Brasília. Ao que tudo indica, as pessoas já estão fugindo para os montes. E trazem consigo um vírus bárbaro invisível. Já são três...