A coisa mais bonita que vi até hoje não foi um quadro, nem um monumento, nem uma cidade, nem uma mulher, nem a pastorinha de biscuit da minha avó Eva quando era pequeno, nem o mar, nem o terceiro minuto da aurora de que os poetas falam: a coisa mais bonita que vi até hoje eram vinte mil hectares de girassol na Baixa do Cassanje, em Angola. A gente saía antes da manhã e nisto, com a chegada da luz, os girassóis erguiam a cabela, à uma, na direcção do nascente, a terra inteira cheia de grandes pestanas amarelas dos dois lados da picada e uma ocasião lembro-me um bando de mandris numa encosta, quietos, observando-nos. Depois cansavam-se de nós e desapareciam na sombra dos caules. A coisa mais bonita que vi até hoje foi Angola, e apesar da miséria e do horror da guerra continuo a gostar dela com um amor que não se extingue. Gosto do cheiro e gosto das pessoas. Talvez os momentos que tive mais próximos daquilo a que se chama felicidade me aconteceram quando fazia um...
O que é um vagabundo? No Brasil do século XIX o termo se referia a alguém que, não tendo domicílio fixo, "vagava" e portanto não podia responder a qualquer processo em liberdade. No momento em que procurava-se estabelecer formalmente um regime legal teoricamente democrático, os nossos respeitáveis homens de bem no congresso nacional faziam questão de deixar de fora os "vagabundos". Essas pessoas eram, portanto, privadas do direito básico da democracia liberal de serem inocentes até prova do contrário. Essas pessoas eram, na maioria, negros recém libertos com uma mão na frente e outra atrás. No Brasil do século XXI, o termo vagabundo tornou-se o xingamento clássico do bolsonarismo. Não é por menos. Quem vaga sem domicílio pelas cidades brasileiras são os sem-teto (os sem lar [ homeless ] em inglês). Vejam o caso de declarações recentes do "moderno" governador de Minas Gerais, Romeu Zema. Primeiro ele diz querer "resolver" o problema: Eu quero res...