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Pindorama e seus indesejáveis

O que é um vagabundo? No Brasil do século XIX o termo se referia a alguém que, não tendo domicílio fixo, "vagava" e portanto não podia responder a qualquer processo em liberdade. No momento em que procurava-se estabelecer formalmente um regime legal teoricamente democrático, os nossos respeitáveis homens de bem no congresso nacional faziam questão de deixar de fora os "vagabundos". Essas pessoas eram, portanto, privadas do direito básico da democracia liberal de serem inocentes até prova do contrário. Essas pessoas eram, na maioria, negros recém libertos com uma mão na frente e outra atrás.  No Brasil do século XXI, o termo vagabundo tornou-se o xingamento clássico do bolsonarismo. Não é por menos. Quem vaga sem domicílio pelas cidades brasileiras são os sem-teto (os sem lar [ homeless ] em inglês). Vejam o caso de declarações recentes do "moderno" governador de Minas Gerais, Romeu Zema. Primeiro ele diz querer "resolver" o problema: Eu quero res...
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RIP - João Adolfo Hansen

João Adolfo Hansen dando um pouco de rigor ao renascimento de Gregório de Matos no Brasil a partir do fim dos anos 60 em trecho do seu livro  Sátira e Engenho (1989), criticando o que ele chama de "anacronismo de noções interessadas":  Categorias como “pessimismo”, “ressentimento”, “plágio”, “imoralidade”, “realismo”, “oposição nativista crítica”, “antropofagia”, “libertinagem”, “revolução”, que vêm sendo aplicadas por várias críticas desde o século XIX aos poemas dittos da autoria de Gregório de Matos, podem ter algum valor metafórico de descrição de um efeito particular de sentido produzido pela recepção. Não dão conta historicamente, contudo, do seu funcionamento como prática discursivo de uma época que, desde a obra de Heinrich Wölfflin, o século XX constitui neokantianamente como “barroca”: como categorias analíticas, são apropriadas antes para o desejo e o interesse do lugar institucional da apropriação do que propriamente para o objeto dela. (33)    Em outras...

Fevereiro de 1987, Brasil

 Cinco momentos importantes do discurso que Ulysses Guimarães fez no dia dois de fevereiro de 1987, quando foi promulgada a Constituição Brasileira.  E é só cidadão quem ganha justo e suficiente salário, lê e escreve, mora, tem hospital e remédio, lazer quando descansa. Temos ódio à ditadura. Ódio e nojo. A sociedade sempre acaba vencendo, mesmo ante a inércia ou o antagonismo do Estado. A sociedade foi Rubens Paiva, não os facínoras que o mataram. (Aplausos acalorados) A Nação quer mudar. A Nação deve mudar. A Nação vai mudar. A Constituição pretende ser a voz, a letra, a vontade política da sociedade rumo à mudança. Que a promulgação seja o nosso grito. Mudar para vencer. Muda Brasil

Música no Entre-Lugar 2

  Música no Entre-Lugar 2 I jumped in the river, what did I see? Black-eyed angels swam with me A moon full of stars and astral cars And all the figures I used to see All my lovers were there with me All my past and futures And we all went to heaven in a little row boat There was nothing to fear and nothing to doubt

Música no entre-lugar

Erik Satie pega o piano e a música romântica do final do século XIX e elimina sem dó nem piedade aquelas orgias de arpeggios derramados. O que sobra são as hoje tão apreciadas Gymnopédies (1888), que hoje vendem desodorante e chocolate e fornecem trilha sonora para momentos melancólicos de telenovela ou vídeos de gatos. Mesmo com essa exposição tão excessiva resta ainda essa estranha música que flutua feito pólen com a suavidade de um quase nada, breve, leve, evanescente:   Ian Penman - um crítico de música inglês - escreveu um estranho livro sobre Satie  ( Erik Satie: Three Piece Suites)  e eu li a excelente resenha de Jeremy Denk no New York Review of Books . Eis um trechinho do livro de Penman: E eis a minha semi-tradução nas coxas: "Todas essas emoções de entre-lugar são difíceis de nomear. Percepções antigas perigando desaparecer. Encarar um espaço versus encarar uma tela. A cultura digital anula nossa capacidade de vazio, de tédio, a capacidade de simplesmente acei...

RIP - Silvio Da-Rin

 Silvio Da-Rin fez um documentário fundamental para entender um período peculiarmente complicado da ditadura militar: entre fins de 1967 e 1970. Hércules 56 era o nome do avião militar que levou os presos políticos libertados em troca do embaixador dos Estados Unidos. Além de material documental cuidadosamente editado, o documentário de Da-Rin reúne depoimentos dos libertadores e dos guerrilheiros que planejaram e executaram a ação.  Da-Rin é pai de Maya Da-Rin, excelente diretora do filme A Febre e documentários sobre a vida indígena na Amazônia.  Só aqui dois filmes fundamentais e muito pouco vistos e discutidos. Uma pena.

Poesia minha - Sem título

Coruja no começo do inverno Toda amizade  tem um quarto trancado onde dormem duas cascavéis. A pressa é irmã do esquecimento. Todos os rostos do mundo  cabem em qualquer rosto. Palavras são só feitas de ar que a gente lavra no papel por capricho. 

Notas sobre a vida em uma teocracia

  Notas sobre viver numa teocracia: 1. Em 2024 o superintendente das escolas públicas de Oklahoma (cargo eleito diretamente) lançou um projeto em que cada sala de aula de todas as escolas públicas teria uma cópia da Bíblia e dos dez mandamentos e todas as turmas a partir da quinta série teriam que incorporar em suas aulas o estudo da Bíblia.  2. Alguns meses depois o mesmo Ryan Walters anunciou que professores vindos de estados "esquerdistas" teriam que fazer uma prova "anti-woke" para verificar se eles não teriam valores anti-cristãos. O salário dos professores em Oklahoma está entre os piores dos Estados Unidos e a educação é considerada a pior do país. 3. Agora em janeiro de 2026, O condado de Cleveland inaugura um baita "In God We Trust" na fachada da câmara. 4. A cidade de Norman, onde moro, tem 131 mil habitantes e 130 igrejas. Desde mega-igrejas até as tradicionais passando pelas pequenas. A cidade também tem a sua mesquita, mas o pedido de autoriza...

Cinema: O Agente Secreto

O filme O Agente Secreto acabou de chegar à OKC. Fomos ver na confortável e chique sala de cinema do Museu de Arte da cidade. Estou ainda profundamente impactado. Acho que estamos todos aqui em casa. Escrevo essas mal traçadas linhas só para registrar minhas primeiras impressões. Mesmo porque é fácil assistir O Agente Secreto várias vezes. Certamente o filme vai fazer parte da minha aula sobre Cinema Latino-Americano no segundo semestre. Assim, serei "forçado" a rever e estudar o filme com cuidade. O filme segue o que é para mim a estética de Guimarães Rosa: amorosamente localista até a medula mais cruel e violenta e recheado de pequenas, grandes, óbvias e obscuras referências [no caso] ao Recife dos anos 70. Mais importante para mim, o filme se livra [de novo] daquele apego documentarista à "realidade" [sigo aqui o conselho de Nabokov e uso o termo com cautelosas aspas], para assim dizer verdades profundas sobre o Brasil durante a ditadura nos anos Geisel e agora...