Skip to main content

Posts

Fagundes Varela e o sonho de Duchamp

 Contam que quando Fagundes Varela começou a escrever poesia ele estudava com um professor de filosofia, o desembargador aposentado João Cândido de Deus e Silva. O professor desembargador detestava poesia e passou-lhe duas pragas: que, escolhendo a poesia, "a pobreza seria a sua sorte" e que Fagundes Varela "nunca seria um bom poeta". O poeta adolescente decidiu se vingar. Então Fagundes Varela escreveu duas oitavas e apontou como autor Luiz de Camões; em seguida tomou duas oitavas do Lusíadas  e declarou-se autor delas. Quando mostrou as quatro oitavas ao professsor ele não hesitou em elogiar fartamente as primeiras e espinafrar as outras.  Fagundes Varela ignorou as pragas do seu professor e foi ser poeta e boêmio. Infelizmente valeu a primeira praga que o professor lhe passou: Fagundes Varela morreu na miséria. Isso porque o sonho de Duchamp - que pudéssemos um dia viver num mundo em que os vagabundos tivessem seu lugar ao sol - não era e nunca foi (até hoje) rea...
Recent posts

O Resolvedor Mor, ou o homem das redes sociais (tradução minha)

Carta 72 De Rica para Usbek, de *** Estava com amigos outro dia e encontrei um sujeito extremamente satisfeito consigo mesmo. Em quinze minutos ela tinha resolvido três questões de ética, quatro problemas de história e cinco pontos científicos. Nunca na minha vida encontrei um resolvedor tão universal. Em sua mente nunca passava sequer uma sombra de dúvida. Deixamos as ciências e fomos para notícias atuais. Ele resolveu todas as questões atuais. Tentando pegar o sujeito pensei comigo mesmo – melhor me colocar numa posição mais segura e encontrar um assunto melhor; vou me refugiar no meu próprio país – e mencionei a Pérsia, mas mal havia dito umas quatro palavras e ele já tinha me desmentido duas vezes, baseado na autoridade de livros dos senhores Tavernier e Chardin. – “Deus do céu – pensei comigo mesmo – que tipo de sujeito é esse? Daqui a pouco e ele vai conhecer as ruas de Isphahan melhor que eu! – Logo me resolve: calei minha boca e deixei ele falar. E ele está resolvendo coisas at...

Música: A arte de não morrer de Capinam e Jards Macalé

  A arte de não morrer [Capinam / Jards Macalé] No tempo de todas as dores. A arte de ainda ver Na escuridão das cores. Vivo dentro de um poema Preso na minha canção A arte de viver livre Nas grades do coração. Vivo dentro de um poema Preso na minha canção A arte de viver livre Nas grades do coração. A arte de não morrer No tempo de todas as dores. A arte de ainda ver Na escuridão das cores. A arte de viver livre Nas grades do coração. Vivo dentro de um poema Preso na minha canção A arte de ainda ver Na escuridão das cores. A arte de não morrer No tempo de todas as dores.

Vai trabalhar, vagabundo!

 No século XIX Paul Lafarge, genro cubano de Karl Marx, dizia que o capitalismo agia no sentido de glorificar o trabalho em detrimento dos nossos instintos naturais. O lazer era um direito de todos negado a muitos por um sistema que dava aos trabalhadores o papel de máquina. A ideologia que movia essa forma de opressão se chama produtividade.  No século XXI criou o capitalismo da atenção: a atenção das pessoas é capturada e transformada em mercadoria por corporações que mantém em segredo seus algoritmos. Para se transformar em mercadoria a atenção das pessoas precisa ser quantificada em segundos. E o mais incrível é que os novos operários do século XXI são chamados de produtores de conteúdo e trabalham para essas corporações sob um regime escravizante também administrado por algoritmos.  Gerar atenção é incitar no público amor, ódio, indignação, desprezo, ternura, riso. Tanto faz. Ódio e amor são energia emocional que move a máquina que processa conteúdo em troca de ...

O nazista típico, ou nunca subestime os ridículos

As más línguas na Alemanha diziam que um ariano nazista típico era  Magro e elegante como Göring: Fortão como Goebbels: Louro como Hitler: E esse bando de figurinhas patéticas, mentirosos toscos, rancorosos patéticos, o que fez quando levado ao poder absoluto na Alemanha? 80 milhões de mortos espalhados pelo mundo inteiro.  Nunca subestime os idiotas. 

Diálogo de [ab]surdos

Li recentemente artigo da revista Piauí sobre "polêmicas" referentes a entrevistas e opiniões críticas de professores, ex-professores e autores brasileiros. Atônito, só consigo dizer três obviedades:  Obviedade 1 Não existe forma sem conteúdo nem vice versa. O que você diz e como você o diz são dimensões inseparáveis. Dizer que um determinado romance só tem conteúdo e ignora a forma é um contrassenso. Decisões formais foram tomadas de qualquer maneira. Brigar por causa isso é uma loucura. Obviedade 2 O mesmo ocorre com as noções de universal e particular. Um romance é sempre específico e universal. Não existem romances puramente universais, sem qualquer especificidade. A noção de universalidade tende a ser muito egocêntrica. Universal é aquilo que eu identifico como perfeitamente compreensível para mim. Uma tremenda canoa furada. Obviedade 3 O êxito comercial de um romance não faz dele uma obra admirável e muito menos desprezível. Há ótimos e péssimos romances que tiveram gra...

RIP - António Lobo Antunes

  A coisa mais bonita que vi até hoje não foi um quadro, nem um monumento, nem uma cidade, nem uma mulher, nem a pastorinha de biscuit da minha avó Eva quando era pequeno, nem o mar, nem o terceiro minuto da aurora de que os poetas falam: a coisa mais bonita que vi até hoje eram vinte mil hectares de girassol na Baixa do Cassanje, em Angola. A gente saía antes da manhã e nisto, com a chegada da luz, os girassóis erguiam a cabela, à uma, na direcção do nascente, a terra inteira cheia de grandes pestanas amarelas dos dois lados da picada e uma ocasião  lembro-me  um bando de mandris numa encosta, quietos, observando-nos. Depois cansavam-se de nós e desapareciam na sombra dos caules. A coisa mais bonita que vi até hoje foi Angola, e apesar da miséria e do horror da guerra continuo a gostar dela com um amor que não se extingue. Gosto do cheiro e gosto das pessoas. Talvez os momentos que tive mais próximos daquilo a que se chama  felicidade me aconteceram quando fazia um...