Skip to main content

Posts

Vai trabalhar, vagabundo!

 No século XIX Paul Lafarge, genro cubano de Karl Marx, dizia que o capitalismo agia no sentido de glorificar o trabalho em detrimento dos nossos instintos naturais. O lazer era um direito de todos negado a muitos por um sistema que dava aos trabalhadores o papel de máquina. A ideologia que movia essa forma de opressão se chama produtividade.  No século XXI criou o capitalismo da atenção: a atenção das pessoas é capturada e transformada em mercadoria por corporações que mantém em segredo seus algoritmos. Para se transformar em mercadoria a atenção das pessoas precisa ser quantificada em segundos. E o mais incrível é que os novos operários do século XXI são chamados de produtores de conteúdo e trabalham para essas corporações sob um regime escravizante também administrado por algoritmos.  Gerar atenção é incitar no público amor, ódio, indignação, desprezo, ternura, riso. Tanto faz. Ódio e amor são energia emocional que move a máquina que processa conteúdo em troca de ...
Recent posts

O nazista típico, ou nunca subestime os ridículos

As más línguas na Alemanha diziam que um ariano nazista típico era  Magro e elegante como Göring: Fortão como Goebbels: Louro como Hitler: E esse bando de figurinhas patéticas, mentirosos toscos, rancorosos patéticos, o que fez quando levado ao poder absoluto na Alemanha? 80 milhões de mortos espalhados pelo mundo inteiro.  Nunca subestime os idiotas. 

Diálogo de [ab]surdos

Li recentemente artigo da revista Piauí sobre "polêmicas" referentes a entrevistas e opiniões críticas de professores, ex-professores e autores brasileiros. Atônito, só consigo dizer três obviedades:  Obviedade 1 Não existe forma sem conteúdo nem vice versa. O que você diz e como você o diz são dimensões inseparáveis. Dizer que um determinado romance só tem conteúdo e ignora a forma é um contrassenso. Decisões formais foram tomadas de qualquer maneira. Brigar por causa isso é uma loucura. Obviedade 2 O mesmo ocorre com as noções de universal e particular. Um romance é sempre específico e universal. Não existem romances puramente universais, sem qualquer especificidade. A noção de universalidade tende a ser muito egocêntrica. Universal é aquilo que eu identifico como perfeitamente compreensível para mim. Uma tremenda canoa furada. Obviedade 3 O êxito comercial de um romance não faz dele uma obra admirável e muito menos desprezível. Há ótimos e péssimos romances que tiveram gra...

RIP - António Lobo Antunes

  A coisa mais bonita que vi até hoje não foi um quadro, nem um monumento, nem uma cidade, nem uma mulher, nem a pastorinha de biscuit da minha avó Eva quando era pequeno, nem o mar, nem o terceiro minuto da aurora de que os poetas falam: a coisa mais bonita que vi até hoje eram vinte mil hectares de girassol na Baixa do Cassanje, em Angola. A gente saía antes da manhã e nisto, com a chegada da luz, os girassóis erguiam a cabela, à uma, na direcção do nascente, a terra inteira cheia de grandes pestanas amarelas dos dois lados da picada e uma ocasião  lembro-me  um bando de mandris numa encosta, quietos, observando-nos. Depois cansavam-se de nós e desapareciam na sombra dos caules. A coisa mais bonita que vi até hoje foi Angola, e apesar da miséria e do horror da guerra continuo a gostar dela com um amor que não se extingue. Gosto do cheiro e gosto das pessoas. Talvez os momentos que tive mais próximos daquilo a que se chama  felicidade me aconteceram quando fazia um...

Pindorama e seus indesejáveis

O que é um vagabundo? No Brasil do século XIX o termo se referia a alguém que, não tendo domicílio fixo, "vagava" e portanto não podia responder a qualquer processo em liberdade. No momento em que procurava-se estabelecer formalmente um regime legal teoricamente democrático, os nossos respeitáveis homens de bem no congresso nacional faziam questão de deixar de fora os "vagabundos". Essas pessoas eram, portanto, privadas do direito básico da democracia liberal de serem inocentes até prova do contrário. Essas pessoas eram, na maioria, negros recém libertos com uma mão na frente e outra atrás.  No Brasil do século XXI, o termo vagabundo tornou-se o xingamento clássico do bolsonarismo. Não é por menos. Quem vaga sem domicílio pelas cidades brasileiras são os sem-teto (os sem lar [ homeless ] em inglês). Vejam o caso de declarações recentes do "moderno" governador de Minas Gerais, Romeu Zema. Primeiro ele diz querer "resolver" o problema: Eu quero res...

RIP - João Adolfo Hansen

João Adolfo Hansen dando um pouco de rigor ao renascimento de Gregório de Matos no Brasil a partir do fim dos anos 60 em trecho do seu livro  Sátira e Engenho (1989), criticando o que ele chama de "anacronismo de noções interessadas":  Categorias como “pessimismo”, “ressentimento”, “plágio”, “imoralidade”, “realismo”, “oposição nativista crítica”, “antropofagia”, “libertinagem”, “revolução”, que vêm sendo aplicadas por várias críticas desde o século XIX aos poemas dittos da autoria de Gregório de Matos, podem ter algum valor metafórico de descrição de um efeito particular de sentido produzido pela recepção. Não dão conta historicamente, contudo, do seu funcionamento como prática discursivo de uma época que, desde a obra de Heinrich Wölfflin, o século XX constitui neokantianamente como “barroca”: como categorias analíticas, são apropriadas antes para o desejo e o interesse do lugar institucional da apropriação do que propriamente para o objeto dela. (33)    Em outras...

Fevereiro de 1987, Brasil

 Cinco momentos importantes do discurso que Ulysses Guimarães fez no dia dois de fevereiro de 1987, quando foi promulgada a Constituição Brasileira.  E é só cidadão quem ganha justo e suficiente salário, lê e escreve, mora, tem hospital e remédio, lazer quando descansa. Temos ódio à ditadura. Ódio e nojo. A sociedade sempre acaba vencendo, mesmo ante a inércia ou o antagonismo do Estado. A sociedade foi Rubens Paiva, não os facínoras que o mataram. (Aplausos acalorados) A Nação quer mudar. A Nação deve mudar. A Nação vai mudar. A Constituição pretende ser a voz, a letra, a vontade política da sociedade rumo à mudança. Que a promulgação seja o nosso grito. Mudar para vencer. Muda Brasil