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O Resolvedor Mor, ou o homem das redes sociais (tradução minha)

Carta 72 De Rica para Usbek, de *** Estava com amigos outro dia e encontrei um sujeito extremamente satisfeito consigo mesmo. Em quinze minutos ela tinha resolvido três questões de ética, quatro problemas de história e cinco pontos científicos. Nunca na minha vida encontrei um resolvedor tão universal. Em sua mente nunca passava sequer uma sombra de dúvida. Deixamos as ciências e fomos para notícias atuais. Ele resolveu todas as questões atuais. Tentando pegar o sujeito pensei comigo mesmo – melhor me colocar numa posição mais segura e encontrar um assunto melhor; vou me refugiar no meu próprio país – e mencionei a Pérsia, mas mal havia dito umas quatro palavras e ele já tinha me desmentido duas vezes, baseado na autoridade de livros dos senhores Tavernier e Chardin. – “Deus do céu – pensei comigo mesmo – que tipo de sujeito é esse? Daqui a pouco e ele vai conhecer as ruas de Isphahan melhor que eu! – Logo me resolve: calei minha boca e deixei ele falar. E ele está resolvendo coisas at...
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Música: A arte de não morrer de Capinam e Jards Macalé

  A arte de não morrer [Capinam / Jards Macalé] No tempo de todas as dores. A arte de ainda ver Na escuridão das cores. Vivo dentro de um poema Preso na minha canção A arte de viver livre Nas grades do coração. Vivo dentro de um poema Preso na minha canção A arte de viver livre Nas grades do coração. A arte de não morrer No tempo de todas as dores. A arte de ainda ver Na escuridão das cores. A arte de viver livre Nas grades do coração. Vivo dentro de um poema Preso na minha canção A arte de ainda ver Na escuridão das cores. A arte de não morrer No tempo de todas as dores.

Vai trabalhar, vagabundo!

 No século XIX Paul Lafarge, genro cubano de Karl Marx, dizia que o capitalismo agia no sentido de glorificar o trabalho em detrimento dos nossos instintos naturais. O lazer era um direito de todos negado a muitos por um sistema que dava aos trabalhadores o papel de máquina. A ideologia que movia essa forma de opressão se chama produtividade.  No século XXI criou o capitalismo da atenção: a atenção das pessoas é capturada e transformada em mercadoria por corporações que mantém em segredo seus algoritmos. Para se transformar em mercadoria a atenção das pessoas precisa ser quantificada em segundos. E o mais incrível é que os novos operários do século XXI são chamados de produtores de conteúdo e trabalham para essas corporações sob um regime escravizante também administrado por algoritmos.  Gerar atenção é incitar no público amor, ódio, indignação, desprezo, ternura, riso. Tanto faz. Ódio e amor são energia emocional que move a máquina que processa conteúdo em troca de ...

O nazista típico, ou nunca subestime os ridículos

As más línguas na Alemanha diziam que um ariano nazista típico era  Magro e elegante como Göring: Fortão como Goebbels: Louro como Hitler: E esse bando de figurinhas patéticas, mentirosos toscos, rancorosos patéticos, o que fez quando levado ao poder absoluto na Alemanha? 80 milhões de mortos espalhados pelo mundo inteiro.  Nunca subestime os idiotas. 

Diálogo de [ab]surdos

Li recentemente artigo da revista Piauí sobre "polêmicas" referentes a entrevistas e opiniões críticas de professores, ex-professores e autores brasileiros. Atônito, só consigo dizer três obviedades:  Obviedade 1 Não existe forma sem conteúdo nem vice versa. O que você diz e como você o diz são dimensões inseparáveis. Dizer que um determinado romance só tem conteúdo e ignora a forma é um contrassenso. Decisões formais foram tomadas de qualquer maneira. Brigar por causa isso é uma loucura. Obviedade 2 O mesmo ocorre com as noções de universal e particular. Um romance é sempre específico e universal. Não existem romances puramente universais, sem qualquer especificidade. A noção de universalidade tende a ser muito egocêntrica. Universal é aquilo que eu identifico como perfeitamente compreensível para mim. Uma tremenda canoa furada. Obviedade 3 O êxito comercial de um romance não faz dele uma obra admirável e muito menos desprezível. Há ótimos e péssimos romances que tiveram gra...

RIP - António Lobo Antunes

  A coisa mais bonita que vi até hoje não foi um quadro, nem um monumento, nem uma cidade, nem uma mulher, nem a pastorinha de biscuit da minha avó Eva quando era pequeno, nem o mar, nem o terceiro minuto da aurora de que os poetas falam: a coisa mais bonita que vi até hoje eram vinte mil hectares de girassol na Baixa do Cassanje, em Angola. A gente saía antes da manhã e nisto, com a chegada da luz, os girassóis erguiam a cabela, à uma, na direcção do nascente, a terra inteira cheia de grandes pestanas amarelas dos dois lados da picada e uma ocasião  lembro-me  um bando de mandris numa encosta, quietos, observando-nos. Depois cansavam-se de nós e desapareciam na sombra dos caules. A coisa mais bonita que vi até hoje foi Angola, e apesar da miséria e do horror da guerra continuo a gostar dela com um amor que não se extingue. Gosto do cheiro e gosto das pessoas. Talvez os momentos que tive mais próximos daquilo a que se chama  felicidade me aconteceram quando fazia um...

Pindorama e seus indesejáveis

O que é um vagabundo? No Brasil do século XIX o termo se referia a alguém que, não tendo domicílio fixo, "vagava" e portanto não podia responder a qualquer processo em liberdade. No momento em que procurava-se estabelecer formalmente um regime legal teoricamente democrático, os nossos respeitáveis homens de bem no congresso nacional faziam questão de deixar de fora os "vagabundos". Essas pessoas eram, portanto, privadas do direito básico da democracia liberal de serem inocentes até prova do contrário. Essas pessoas eram, na maioria, negros recém libertos com uma mão na frente e outra atrás.  No Brasil do século XXI, o termo vagabundo tornou-se o xingamento clássico do bolsonarismo. Não é por menos. Quem vaga sem domicílio pelas cidades brasileiras são os sem-teto (os sem lar [ homeless ] em inglês). Vejam o caso de declarações recentes do "moderno" governador de Minas Gerais, Romeu Zema. Primeiro ele diz querer "resolver" o problema: Eu quero res...