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Partido ao Meio

 Mais de um mês em casa. Casa para mim, quero esclarecer, é Belo Horizonte. Ainda que eu viva 10 meses por ano fora daqui. 250 cafezinhos e muitas conversas depois, chegando aos poucos o momento de ir embora, começa a apertar o meu coração. Não é um sentimento claro. Sinto alegria por ir reencontrar minha família e sinto tristeza por ter que ir embora da minha casa.  Reconheço que vivo uma situação sui generis . Mais o que é que isso significa? Minha língua mãe é impregnada de saudade, desde os portugueses que se metiam pelo mundo afora desde o século XV até os indígenas e africanos que tomaram a língua para si depois de ter sido desenraizados na porrada, o português foi todo impregnado de saudades. Falar de saudades, da falta, do desejo por aquilo que está longe e das mais sutis misturas de dor e prazer é território do Português.  Viver assim partido significa viver solidão de verdade. Porque não consigo trocar ideias com alguém que esteja na minha condição, com a famíli...
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Um ponto fora da curva: Manoel Bomfim

Parasitismo Século XXI - Nas Terras Ianomâmis Parasitismo Século XXI - Cobalto no Congo Manoel Bomfim  Manoel Bomfim publicou América Latina: Males de Origem em 1903. O então jovem médico e psicólogo tinha tudo para que escrever mais um tratado positivista brasileiro - os positivistas não faziam muita distinção entre relações humanas e animais - condenando a América Latina ao atraso por sua composição étnica heterogênea e não-branca. Ao invés disso, Bomfim usa criativamente o vocabulário das ciências sociais positivistas da época para caminhar na direção oposta. Bomfim usa o termo parasitismo para caracterizar as relações sociais nas colônias européias na América. Assim   América Latina: Males de Origem  antecipa vários temas da crítica desenvolvimentista e dos teóricos da dependência sem compartilhar do horizonte teórico das duas, com uma ênfase bem menor na socio-economia. Na verdade, Bomfim pode parecer antecipar até a chamada crítica pós-colonial e sua cria, a ...

Fagundes Varela e o sonho de Duchamp

 Contam que quando Fagundes Varela começou a escrever poesia ele estudava com um professor de filosofia, o desembargador aposentado João Cândido de Deus e Silva. O professor desembargador detestava poesia e passou-lhe duas pragas: que, escolhendo a poesia, "a pobreza seria a sua sorte" e que Fagundes Varela "nunca seria um bom poeta". O poeta adolescente decidiu se vingar. Então Fagundes Varela escreveu duas oitavas e apontou como autor Luiz de Camões; em seguida tomou duas oitavas do Lusíadas  e declarou-se autor delas. Quando mostrou as quatro oitavas ao professsor ele não hesitou em elogiar fartamente as primeiras e espinafrar as outras.  Fagundes Varela ignorou as pragas do seu professor e foi ser poeta e boêmio. Infelizmente valeu a primeira praga que o professor lhe passou: Fagundes Varela morreu na miséria. Isso porque o sonho de Duchamp - que pudéssemos um dia viver num mundo em que os vagabundos tivessem seu lugar ao sol - não era e nunca foi (até hoje) rea...

O Resolvedor Mor, ou o homem das redes sociais (tradução minha)

Carta 72 De Rica para Usbek, de *** Estava com amigos outro dia e encontrei um sujeito extremamente satisfeito consigo mesmo. Em quinze minutos ela tinha resolvido três questões de ética, quatro problemas de história e cinco pontos científicos. Nunca na minha vida encontrei um resolvedor tão universal. Em sua mente nunca passava sequer uma sombra de dúvida. Deixamos as ciências e fomos para notícias atuais. Ele resolveu todas as questões atuais. Tentando pegar o sujeito pensei comigo mesmo – melhor me colocar numa posição mais segura e encontrar um assunto melhor; vou me refugiar no meu próprio país – e mencionei a Pérsia, mas mal havia dito umas quatro palavras e ele já tinha me desmentido duas vezes, baseado na autoridade de livros dos senhores Tavernier e Chardin. – “Deus do céu – pensei comigo mesmo – que tipo de sujeito é esse? Daqui a pouco e ele vai conhecer as ruas de Isphahan melhor que eu! – Logo me resolve: calei minha boca e deixei ele falar. E ele está resolvendo coisas at...

Música: A arte de não morrer de Capinam e Jards Macalé

  A arte de não morrer [Capinam / Jards Macalé] No tempo de todas as dores. A arte de ainda ver Na escuridão das cores. Vivo dentro de um poema Preso na minha canção A arte de viver livre Nas grades do coração. Vivo dentro de um poema Preso na minha canção A arte de viver livre Nas grades do coração. A arte de não morrer No tempo de todas as dores. A arte de ainda ver Na escuridão das cores. A arte de viver livre Nas grades do coração. Vivo dentro de um poema Preso na minha canção A arte de ainda ver Na escuridão das cores. A arte de não morrer No tempo de todas as dores.

Vai trabalhar, vagabundo!

 No século XIX Paul Lafarge, genro cubano de Karl Marx, dizia que o capitalismo agia no sentido de glorificar o trabalho em detrimento dos nossos instintos naturais. O lazer era um direito de todos negado a muitos por um sistema que dava aos trabalhadores o papel de máquina. A ideologia que movia essa forma de opressão se chama produtividade.  No século XXI criou o capitalismo da atenção: a atenção das pessoas é capturada e transformada em mercadoria por corporações que mantém em segredo seus algoritmos. Para se transformar em mercadoria a atenção das pessoas precisa ser quantificada em segundos. E o mais incrível é que os novos operários do século XXI são chamados de produtores de conteúdo e trabalham para essas corporações sob um regime escravizante também administrado por algoritmos.  Gerar atenção é incitar no público amor, ódio, indignação, desprezo, ternura, riso. Tanto faz. Ódio e amor são energia emocional que move a máquina que processa conteúdo em troca de ...

O nazista típico, ou nunca subestime os ridículos

As más línguas na Alemanha diziam que um ariano nazista típico era  Magro e elegante como Göring: Fortão como Goebbels: Louro como Hitler: E esse bando de figurinhas patéticas, mentirosos toscos, rancorosos patéticos, o que fez quando levado ao poder absoluto na Alemanha? 80 milhões de mortos espalhados pelo mundo inteiro.  Nunca subestime os idiotas.