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Pindorama e seus indesejáveis


O que é um vagabundo? No Brasil do século XIX o termo se referia a alguém que, não tendo domicílio fixo, "vagava" e portanto não podia responder a qualquer processo em liberdade. No momento em que procurava-se estabelecer formalmente um regime legal teoricamente democrático, os nossos respeitáveis homens de bem no congresso nacional faziam questão de deixar de fora os "vagabundos". Essas pessoas eram, portanto, privadas do direito básico da democracia liberal de serem inocentes até prova do contrário. Essas pessoas eram, na maioria, negros recém libertos com uma mão na frente e outra atrás. 

No Brasil do século XXI, o termo vagabundo tornou-se o xingamento clássico do bolsonarismo. Não é por menos. Quem vaga sem domicílio pelas cidades brasileiras são os sem-teto (os sem lar [homeless] em inglês). Vejam o caso de declarações recentes do "moderno" governador de Minas Gerais, Romeu Zema. Primeiro ele diz querer "resolver" o problema:

Eu quero resolver esse problema. Se alguém deixa o carro estacionado num lugar proibido, o carro não é guinchado? Agora vai ficar alguém na porta de um comerciante que paga imposto, que gera emprego, fazendo sujeira, atrapalhando, ameaçando o cliente. Ninguém pode fazer nada.

Resolver aqui significa claramente remover. Mas remover para onde? O ferro-velho? A prisão? Numa declaração que deveria explicar essa primeira, o governador resolve que o problema são os direitos humanos:

Esse pessoal de direitos humanos, que fala tanto que são os protetores dessas pessoas, eles deveriam fazer uma placa na porta da casa deles: 'sem-tetos, acampem aqui na porta da minha casa'. Aonde eles chegam, residência ou comércio, só causam perturbação. Um cheiro horrível.

Quem faz sujeira, perturba, ameaça o cliente e ainda cheira mal, deveria ser preso sumariamente, sem direito a responder processo em liberdade? Parece ser essa a solução 

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