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Showing posts with the label Cruz e Souza

Entre a foto e o retrato pintado

 O contraste entre a foto do velho Machado de Assis em 1905 e o retrato feito com base nela pelo pintor Henrique Bernardelli é incontestável. O homem da foto e o retrato pintado têm cores diferentes; um é negro e o outro, nem sequer mulato. Bernardelli, assim como Nabuco no seu famoso comentário sobre o homem da Grécia que Machado de Assis seria e no quão desmerecedor seria chamar atenção para a sua condição racial, considerava esse embranquecimento talvez como uma homenagem a um homem que, admirado e até venerado àquela altura, deveria estar supostamente acima da sua origem racial. O racismo brasileiro tem muitas faces e essa é apenas uma delas. Talvez seja a mais insidiosa, porque é revestida de supostas boas intenções. Deveríamos estar discutindo-o seriamente porque é fácil repudiar a face grotesca do racismo, mas essa sua face pretensamente benévola e gentil é igualmente destrutora.  O Brasil que reconhecemos culturalmente hoje simplesmente não existiria sem Gonçalves Dias...

Prata Preta e Cruz e Souza

Vida Obscura Cruz e Souza Ninguém sentiu o teu espasmo obscuro, Ó ser humilde entre os humildes seres. Embriagado, tonto dos prazeres, O mundo para ti foi negro e duro. Atravessaste num silêncio escuro A vida presa a trágicos deveres E chagaste ao saber de altos saberes Tornando-te mais simples e mais puro. Ninguém te viu o sentimento inquieto, Magoado, oculto e aterrador, secreto. Que o coração te apunhalou no mundo. Mas eu que sempre te segui os passos Sei que cruz infernal prendeu-te os braços E o teu suspiro como foi profundo! "... para não andarem dizendo que o povo é carneiro. De vez em quando é bom a negrada mostrar que sabe morrer como homem! [...] ... mostrar ao governo que ele não põe o pé no pescoço do povo".  Depoimento dado por cidadão anônimo sobre a Revolta da Vacina recolhido pelo jornal A Tribuna  ainda em 1904. Caricatura de Horacio José da Silva, estivador e capoerista conhecido como Prata Preta, líder das barricadas no bairro da Saúde no Rio de Janeiro em...

Coisas que eu vou ter que ler e ouvir pelo resto da vida

1. Rui Barbosa não queimou arquivos sobre a escravidão no Brasil para apagar a memória sobre a instituição. Ele de fato mandou queimar arquivos, mas para acabar com a pressão de ex-escravistas que queriam ser ressarcidos pelas suas "perdas" com a abolição. 2. O homem cordial de Raízes do Brasil  não é um sujeito gentil e bonzinho. A coisa mais interessante desse primeira obra de Sergio Buarque de Holanda é que ela não é nem ufanista nem apocalíptica.   3. Se Graciliano Ramos, Guimarães Rosa e Clarice Lispector são Modernistas (no sentido extra-ambíguo que a palavra tem no português, pelo menos no Brasil), então Machado de Assis, Cruz e Souza e Lima Barreto também o são.  4. Os corruptos em geral não vão para a cadeia nos EUA e, se vão, não esquentam o assento muito tempo por lá. O sistema político é profundamente corrompido pelo dinheiro que financia todas as campanhas políticas aqui.   5. Toda obra literária de excelência é, ao mesmo tempo, profundamen...

A infortuna crítica de Cruz e Souza

Ando lendo a fortuna crítica de Cruz e Souza. Acho que seria melhor chamá-la de “Infortuna Crítica.” O conteúdo é, em geral, positivo e simpático ao poeta e à obra. Mas o caminho para o inferno está pavimentado de boas intenções. São, na verdade, textos de uma involuntária alcatéia de amigos da onça, que fazem um melodrama barato da vida de Cruz e Souza e dão uma interpretação de fundo biográfico furadíssima para a obra de um poeta que falava com grande fluência e articulação sobre questões estéticas e existenciais complexas. A quantidade de bobagens racistas que se escreveu sobre a obra de Cruz e Souza só não é mais impressionante que a facilidade com que essas bobagens se repetem impunemente de prefácio em prefácio, de artigo em artigo, de livro em livro.  Dentro do espírito fundamentalmente preguiçoso desse blogue, resolvi me explicar melhor simplesmente tomando um parágrafo típico da "Infortuna Crítica", substituindo o nome de Cruz e Souza por outro poeta famoso no P...

Filhos que resgatam pais: Cruz e Souza

Ando às voltas com o maravilhoso João da Cruz e Souza, pedra no sapato de quem acha que a poesia modernista começou em 1922, quando começou a vanguarda que adotou esse nome tão ambíguo. Cruz e Souza dedicou o poema abaixo a seu filho. Gosto muito das suas redondilhas rimadas em duplas, esquema que Cruz e Souza usa com igual perícia e astúcia no também maravilhoso "Litania dos Pobres". E gosto principalmente da ideia de que os filhos resgatam seus pais  dos seus próprios infernos e demônios . Isso creio que acontece pelo menos certos pais, pelo menos parcial ou provisoriamente. São os que têm sorte. Tem sido assim comigo há mais de 10 anos. Sou um sortudo.    Recolta* de estrelas                                 *colheita (1 out. 1895) A Tibúrcio de Freitas Filho meu, de nome escrito Da minh'alma no Infinito. Escrito a estrelas e sangue No farol da lua langue... Das tuas asas serenas Faz ma...