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Leituras: Doze pepitas de ouro nas cartas de Mário de Andrade pra Câmara Cascudo

Desenho de Anitta Malfatti 1. 1924: Uns imitam por incapacidade. Outros, para ensaiar asas. [32] 2. 1925: Não misturo amizade com valor. [37] 3. 1925: [sobre Oswald de Andrade] ... é o sujeito mais atabalhoado do mundo. Promete tudo de coração, se esquece e tem dez milhões de negócios complicadíssimos vai-se embora pra Europa sem a gente saber. [...] também ele é um pouco malabarista das vicissitudes. Brinca com elas e se diverte. [40-1] 4. 1926: [sobre Menotti del Picchia et caverna] "Esse homem está cada vez ficando mais pedante e como arranjou um grupinho de sequazes como ele deram pra patriotas por não poderem compreender a elevação de idea em que estamos alguns fazendo brasileirismo sem nacionalismo... [...] ... não me confundam com essa corja de nacionalisteiros de última hora que por aqui andam ganindo."[50] 5. 1926: [sobre Marinetti] Nunca me interessei pela obra dele que acho pau e besta porém esperava um sujeito vivo e mais interessante. Me deu a impressão dum sujei...

Entre a foto e o retrato pintado

 O contraste entre a foto do velho Machado de Assis em 1905 e o retrato feito com base nela pelo pintor Henrique Bernardelli é incontestável. O homem da foto e o retrato pintado têm cores diferentes; um é negro e o outro, nem sequer mulato. Bernardelli, assim como Nabuco no seu famoso comentário sobre o homem da Grécia que Machado de Assis seria e no quão desmerecedor seria chamar atenção para a sua condição racial, considerava esse embranquecimento talvez como uma homenagem a um homem que, admirado e até venerado àquela altura, deveria estar supostamente acima da sua origem racial. O racismo brasileiro tem muitas faces e essa é apenas uma delas. Talvez seja a mais insidiosa, porque é revestida de supostas boas intenções. Deveríamos estar discutindo-o seriamente porque é fácil repudiar a face grotesca do racismo, mas essa sua face pretensamente benévola e gentil é igualmente destrutora.  O Brasil que reconhecemos culturalmente hoje simplesmente não existiria sem Gonçalves Dias...

Mário de Andrade: Nova canção de Dixie

 

Cinco pontos de reflexão sobre a gravação da vida

Arte minha: Auto-Retrato 1. A biografia é um gênero literário. Não basta ser fidedigno e fazer pesquisa. É preciso montar com os dados que se tem e as interpretações que se inventa um livro que conta a história da vida de alguém de um jeito que toca e provoca o leitor. Nesse sentido a biografia de Benjamin Moser da vida de Clarice Lispector é muitíssimo superior à biografia de Eduardo Jardim da vida de Mário de Andrade. 2. Uma autobiografia é sempre um livro incompleto pelo simples motivo de contar a história de uma vida que não chegou ao ser ponto final. Há apenas uma gloriosa exceção: o Brás Cubas de Machado de Assis. 3. Todo autor consagrado sofre com os amigos de sua obra. Nada pior do que virar santo/gênio. Nem virar monstro, como acontece com frequência em biografias escritas nos EUA. Como o biógrafo de Lou Reed, que chama o músico de "monstro" com base em detalhes sórdidos da vida pessoal do cantor. Mas as obras do santos do panteão literário tem tantas arestas...