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Poema: Drummond

 Nos momentos difíceis, como este em que temos que aceitar que 50 milhões de brasileiros ainda escolhem votar em Jair Bolsonaro depois de 4 anos de pesadelo, eu me agarro naqueles poemas que Carlos Drummond de Andrade escreveu numa época muito mais dura do que essa. Entre 1935 e 1945, as pessoas tiveram que encarar nada menos que o Estado Novo, Franco, Hitler, Mussolini, o império japonês e a Segunda Guerra Mundial. Compartilho aqui um deles:  Foto minha: Caderno de notas

Drummond em inglês

Um boi vê os homens Tão delicados (mais que um arbusto) e correm e correm de um para outro lado, sempre esquecidos de alguma coisa. Certamente, falta-lhes não sei que atributo essencial, posto se apresentem nobres e graves, por vezes. Ah, espantosamente graves, até sinistros. Coitados, dir-se-ia não escutam nem o canto do ar nem os segredos do feno, como também parecem não enxergar o que é visível e comum a cada um de nós, no espaço. E ficam tristes e no rasto da tristeza chegam à crueldade. Toda a expressão deles mora nos olhos — e perde-se a um simples baixar de cílios, a uma sombra. Nada nos pelos, nos extremos de inconcebível fragilidade, e como neles há pouca montanha, e que secura e que reentrâncias e que impossibilidade de se organizarem em formas calmas, permanentes e necessárias. Têm, talvez, certa graça melancólica (um minuto) e com isto se fazem perdoar a agitação incômoda e o translúcido vazio interior que os torna tão pobres e carecidos de emitir sons absurdos e agônicos: ...

Minha tradução para "Áporo"

Insatisfeito com as duas traduções que encontrei do "Áporo" de Carlos Drummond de Andrade, fiz outra. Claro que li atentamente  o "Insect" de John Nist   ( I n search of poetry,  69 ) e o "Áporo" de Rosemary Arrojo ( Oficina em tradução – Teoria na prática , 55-6 ), tentando aprender tanto com os acertos como com os equívocos das duas. Resumo aqui minha diferença em relação a eles tem a ver com a nossa noção de equivalência, do que precisa por ser essencial existir também no texto traduzido.  Não costumo fazer traduções de poesia para o inglês, por motivos óbvios. Mas a minha saiu assim: An insect bores bores with firm resolve piercing the ground to find no way out.   What to do, burnt out, in this sealed-off country, this entangled nighttime roots and iron rocks?   And lo, that maze (oh reason and riddle) quickly unravels:   in green, alone, non-Euclidian,             one orchid unfolds.  Aqui o original: Áporo ...

Poema de Drummond [ilustrado]

A flor e a náusea Carlos Drummond de Andrade Preso à minha classe e a algumas roupas, vou de branco pela rua cinzenta. Melancolias, mercadorias, espreitam-me. Devo seguir até o enjôo? Posso, sem armas, revoltar-me? Foto minha: Dente de Leão na Greta Olhos sujos no relógio da torre: Não, o tempo não chegou de completa justiça. O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera. O tempo pobre, o poeta pobre fundem-se no mesmo impasse. Em vão me tento explicar, os muros são surdos. Sob a pele das palavras há cifras e códigos. O sol consola os doentes e não os renova. As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase. Vomitar este tédio sobre a cidade. Quarenta anos e nenhum problema resolvido, sequer colocado. Nenhuma carta escrita nem recebida. Todos os homens voltam para casa. Estão menos livres mas levam jornais e soletram o mundo, sabendo que o perdem. Crimes da terra, como perdoá-los? Tomei parte em muitos, outros escondi. Alguns achei belos, f...

João Cabral de Melo Neto glosando Drummond [segunda e última parte]

JOÃO: Teresa aqui está, ao alcance de minha mão, de minha conversa. Por que, entretanto, me sinto sem direitos fora daquele mar? Ignorante dos gestos, das palavras? RAIMUNDO: Maria era também uma árvore. Um desses organismos sólidos e práticos, presos à terra com raízes que a exploram e devassam seus segredos. E ao mesmo tempo lançados para o céu, com quem permutam seus gases, seus passáros, seus movimentos. JOAQUIM: O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água. JOÃO: O sonho volta, me envolve novamente. A onda torna a bater em minha cadeira, ameaça chegar até a mesa. Penso que, no meio de toda esta gente da terra, gente que parece ter criado raízes, como um lavrador ou uma colina, sou o único a escutar esse mar. Talvez Teresa… RAIMUNDO: Maria era também a garrafa de aguardente. Aproximo o ouvido dessa fo...

João Cabral de Melo Neto glosando Drummond [primeira de duas partes]

Os Três Mal-Amados “João amava Teresa que amava Raimundo  que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili…” (Carlos Drummond de Andrade) JOÃO: Olho Teresa. Vejo-a sentada aqui a meu lado, a poucos centímetros de mim. A poucos centímetros, muitos quilômetros. Por que essa impressão de que precisaria de quilômetros para medir a distância, o afastamento em que a vejo neste momento? RAIMUNDO: Maria era a praia que eu frequentava certas manhãs. Meus gestos indispensáveis que se cumpriam a um ar tão absolutamente livre que ele mesmo determina seus limites, meus gestos simplificados diante de extensões de que uma luz geral aboliu todos os segredos. JOAQUIM: O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome. JOÃO: Olho Teresa como se olhasse o retrato de uma antepassada que tivesse ...