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Showing posts with the label traduções

O Resolvedor Mor, ou o homem das redes sociais (tradução minha)

Carta 72 De Rica para Usbek, de *** Estava com amigos outro dia e encontrei um sujeito extremamente satisfeito consigo mesmo. Em quinze minutos ela tinha resolvido três questões de ética, quatro problemas de história e cinco pontos científicos. Nunca na minha vida encontrei um resolvedor tão universal. Em sua mente nunca passava sequer uma sombra de dúvida. Deixamos as ciências e fomos para notícias atuais. Ele resolveu todas as questões atuais. Tentando pegar o sujeito pensei comigo mesmo – melhor me colocar numa posição mais segura e encontrar um assunto melhor; vou me refugiar no meu próprio país – e mencionei a Pérsia, mas mal havia dito umas quatro palavras e ele já tinha me desmentido duas vezes, baseado na autoridade de livros dos senhores Tavernier e Chardin. – “Deus do céu – pensei comigo mesmo – que tipo de sujeito é esse? Daqui a pouco e ele vai conhecer as ruas de Isphahan melhor que eu! – Logo me resolve: calei minha boca e deixei ele falar. E ele está resolvendo coisas at...

Tradução livre de texto da revista Jacobin

 

Tradução: Emily Dickinson

  Recentemente não sei quem voltou pela enésima vez ao tema de que haveria escritores demais e leitores de menos hoje em dia. Disse a tal pessoa que deveríamos escrever menos. Logo pensei em Emily Dickinson, que pubicou menos de uma dúzia de poemas em vida e escreveu mais de 1.800. Estes aqui, chamados de "sobras"[scraps] ou "maravilhosos nadas" [gorgeous nothings], foram escritos no verso de envelopes e são pequenos tesouros. Minha rápida e [como sempre no caso de Dickinson] insuficiente tradução: Este é o livro:

Tradução minha: Emerson

 

Tradução minha: "Primeiro poema" de Robert Haas

Primeiro poema No sonho ele era um falcão com sangue no bico. No sonho ele era um falcão. No sonho ele era uma mulher, nua, indolente depois do gozo, uma centelha de esperma nos lábios vaginais. No sonho ele era uma mulher. (Ele podia ao mesmo ser a mulher e ver o fluido viscoso no sonho.) No sonho ele era um pássaro turquesa feito de pedra sabão por um povo que o cavava da terra e achava que ele era o céu despedaçado de um mundo antigo. No sonho ele era um pássaro turquesa. No sonho seus pés doíam, ainda havia muito que caminhar, os lagartos escapulindo na poeira. No sonho seus pés doíam. No sonho ele era um velho, sua mulher falecida, que acordava cedo todo dia e fazia o café e cortava pedacinhos de melão para os lagartos e os deixava no chão duro perto do muro do jardim. No sonho ele era um velho. As bocas tranquilas dos lagartos que esperavam, eles mesmos da cor da poeira, significava que todas as criaturas da terra eram singulares e solitárias. No sonho a mulher no elevad...

Drummond em inglês

Um boi vê os homens Tão delicados (mais que um arbusto) e correm e correm de um para outro lado, sempre esquecidos de alguma coisa. Certamente, falta-lhes não sei que atributo essencial, posto se apresentem nobres e graves, por vezes. Ah, espantosamente graves, até sinistros. Coitados, dir-se-ia não escutam nem o canto do ar nem os segredos do feno, como também parecem não enxergar o que é visível e comum a cada um de nós, no espaço. E ficam tristes e no rasto da tristeza chegam à crueldade. Toda a expressão deles mora nos olhos — e perde-se a um simples baixar de cílios, a uma sombra. Nada nos pelos, nos extremos de inconcebível fragilidade, e como neles há pouca montanha, e que secura e que reentrâncias e que impossibilidade de se organizarem em formas calmas, permanentes e necessárias. Têm, talvez, certa graça melancólica (um minuto) e com isto se fazem perdoar a agitação incômoda e o translúcido vazio interior que os torna tão pobres e carecidos de emitir sons absurdos e agônicos: ...

Música: Dor de cotovelo no século XXI

Sprained Ankle Julien Barnes wish I could write songs about anything other than death but can’t go to bed without drawing the red, shaving off breaths each one so heavy each one so cumbersome each one a lead weight  hanging between my lungs Spilling my guts  sweat on a microphone breaking my voice whenever I’m alone can’t talk but isn’t this weather nice?  are you okay? should I go somewhere  and hide my face? A sprinter  learning to wait A marathon runner My ankles are sprained Tornozelo torcido queria poder escrever canções sobre qualquer outra coisa  que não fosse morrer mas não dou conta de ir pra cama sem tirar sangue  raspando cada suspiro cada um tão pesado,  cada um um gigante cada um um chumbo  pendurado nos meus pulmões Desembuchando as entranhas,  suor no microfone,  a voz se quebrando quando estou sozinha contigo não dou conta de nada além  de “nossa que dia bonito,  tudo bem com você?” será que eu devia arruma...

Dois corações: Mikhail Bulgákov e Paulo Mendes Campos

Minha tradução para "A cana dos outros" de João Cabral

A cana dos outros João Cabral de Melo Neto Serial e antes , 279-80 1 Esse que andando planta os rebolos de cana nada é do semeador que se sonetizou. É o seu menos um gesto de amor que de comércio; e a cana, como a joga, não planta: joga fora. 2 Leva o eito o compasso, na limpa , contra o mato, bronco e alheadamente de quem faz e não entende. De quem não entendesse por que só é mato este; por que limpar do mato, não da cana, limpá-lo. 3 Num cortador de cana o que se vê é a sanha de quem derruba um bosque: não o amor de quem colhe. Sanha fúria, inimiga, feroz, de quem mutila, de quem, sem mais cuidado, abre trilha no mato. 4 A gente funerária que cuida da finada nem veste seus despojos: ata-a em feixes de ossos. E quando o enterro chega, coveiro sem maneiras tomba-a na tumba-moenda : tumba viva, que a prensa. The Cane of Others trans. Paulo Moreira   1 Walking and scattering away sugarcane cuttings, he has none of the Sower of so many sonnets.   It’s less than a gesture of love...

Minha tradução para "Áporo"

Insatisfeito com as duas traduções que encontrei do "Áporo" de Carlos Drummond de Andrade, fiz outra. Claro que li atentamente  o "Insect" de John Nist   ( I n search of poetry,  69 ) e o "Áporo" de Rosemary Arrojo ( Oficina em tradução – Teoria na prática , 55-6 ), tentando aprender tanto com os acertos como com os equívocos das duas. Resumo aqui minha diferença em relação a eles tem a ver com a nossa noção de equivalência, do que precisa por ser essencial existir também no texto traduzido.  Não costumo fazer traduções de poesia para o inglês, por motivos óbvios. Mas a minha saiu assim: An insect bores bores with firm resolve piercing the ground to find no way out.   What to do, burnt out, in this sealed-off country, this entangled nighttime roots and iron rocks?   And lo, that maze (oh reason and riddle) quickly unravels:   in green, alone, non-Euclidian,             one orchid unfolds.  Aqui o original: Áporo ...

Sobre a importância de não-saber e a escrita de contos

Desenho meu:  "A verdade é que ninguém sabe como deve ser um conto. O escritor que o sabe é um mau contista, e no segundo conto já se nota que ele sabe, e então tudo soa falso e aborrecido e fuleiro. Há que ser muito sábio para não se deixar tentar pelo saber e a segurança." Trecho de Augusto Monterroso em "La mano de Onetti"

Notas para livros impossíveis

Foto minha: Tulipas no começo da primavera "Existem dois tipos de conhecimento: há o conhecimento que aprendemos nas universidades, que é o conhecimento do saber, que tem a ver com domínio; e há outro tipo de conhecimento, que não deriva da educação superior, mas da mais superior de todas as educações, e que é conhecer através do prazer - é o prazer em si mesmo." Helene Cixous “There are two types of knowledge: there is the knowledge we learn here in universities, which is the knowledge of knowing, which has to do with mastering; and there is another type of knowledge, which does not derive from higher education, but from the highest education, and that is knowing through pleasure – it is pleasure itself.”

Traduzindo: Tomás Rivera

"Uma tarde o pastor de uma das igrejas protestantes da vila veio ao rancho e lhes avisou que ia vir um fulano ensinar-lhes trabalhos manuais para que eles não tivessem que trabalhar só na lavoura. Quase todo mundo se animou. Ia ensiná-los a ser carpinteiros. Mais ou menos duas semanas depois apareceu o fulano numa caminhonete com um trailer. Trazia como ajudante a esposa do pastor que ia traduzir para ele. Mas nunca ensinaram nada. Passavam o dia inteiro dentro do trailer. Depois de uma semana foram embora sem dizer uma palavra. Souberam depois que ele havia roubado a esposa do pastor." Fragmento do livro  ...Y no se lo tragó la tierra

Tradução minha: Brenda Ríos

"Agora me vem a ideia de que a literatura europeia cuida dos adjetivos como se fossem jóias que estivessem trancafiadas na caixa forte de um hotel elegante. Os latino-americanos escrevem como se só pudessem fazer um livro que diga tudo de todas as maneiras possíveis. A narrativa europeia é um homem vestido de terno num anúncio de perfume. A narrativa latino americana é um jovem imprudente dum anúncio de motocicletas. Ainda que não seja ninguém para opinar sobre o assunto, é essa a minha opinião." Fragmento de "1 de mayo", crônica de Brenda Ríos contida em Empacados al vacío - Ensayos sobre la nada

Anne Enright

Anne Enright é uma escritora irlandesa contemporânea e não deve nada aos grandes escritores dessa tradição tão rica e tão viva da lingua inglesa. Li uma série curta de ensaios dela que ela escreveu sob o impacto da gravidez e do nascimento da sua primeira filha. A série chamada Babies [na verdade fragmentos de um livro dela chamado Making Babiesi ] me tocou profundamente pela maneira sensível e ao mesmo tempo avessa aos clichês cafonas ou engraçadinhos que costumam proliferar nesse tipo de texto sobre paternidade. Abro um parêntesis necessário. Meu convívio com pessoas que optaram por não ter filhos foi muito positivo para me alertar sobre a tolice de sair empilhando superlativos para descrever uma experiência pessoal e intransferível, falsificando uma ideia de que a paternidade é boa para todo mundo em qualquer situação o tempo todo. Claro que isso não impede que alguém escreva sobre suas experiências e consiga compartilhá-las sem fazer cabotinismo. Não se trata de qualquer tipo de ...

Traduzindo "A fórmula secreta" de Juan Rulfo

O incêndio do Museu Nacional no Rio de Janeiro já seria suficientemente triste. Quando penso que recentemente cogitei fazer concurso e tentar voltar para o Brasil, me arrepio. No momento atual me sentiria como um judeu voltando à Alemanha antes da Noite dos Cristais. As perspectivas por aqui estão muito longe de excelentes, mas é inegável que no Brasil entramos num novo ciclo de auto-destruição, ainda mais intenso que os anteriores. Sua intensidade, com direito à expulsão de refugiados venezuelanos em Roraima, não parece ter criado qualquer senso de urgência em ninguém. Este ciclo, como aquele longo inverno que começou num 1o de abril de 1964, está sendo calmamente recebido por imprensa e judiciário, e visto por alguns como chance de "redenção" de um país perdido. A mesma dupla que apoiou 1964 e depois lavou as mãos como se não tivesse nada a ver com aquilo, hoje nos assegura que as nossas prezadas instituições republicanas continuam funcionando em perfeito estado. O incêndi...