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Showing posts with the label Tenho preguiça de

O milésimo lamento ou um efeito colateral de eu estar ficando velho

Crítico rabujento preparando-se para passar a faca, ou Lord Byron fantasiado de albanês  Depois de ler o milésimo lamento pela decadência da cultura dos tempos da literatura da arte da inteligência da poesia blá blá etc e tal, eu fico aqui pensando com os meus botões que pelo jeito tudo desce ladeira abaixo nesse mundo exceto o pedantismo, que podia pelo menos ser menos repetitivo: s enão vejamos o que o venerável Lord Byron [aquele que achava que escrever para mulheres era ofensa] escreveu em seu diário nos anos 20 do século XIX: “There are  more  poets (soi-disant)  than ever there were,  and proportionally  less  poetry.” O mundo seria um lugar bem menos chato se essa legião de imitadores de Lord Byron tentasse escrever Don Juan ao invés de ficar repetindo essas bobagens. E digo mais: as pessoas que se lamentam sobre a decadência geral provavelmente [no caso do Brasil] dizem mais a respeito da sua rabujice do que a respeito dos nossos tempo...

Rir para não chorar: quebrando um tabu

Sexta-feira 13, aniversário do AI-5. Hoje pela primeira depois de quase dez anos vou quebrar meu juramento de nunca escrever nem comentar sobre o violento esporte bretão que já ocupa espaço demais nesse mundo. Laudo do Tribunal Celestial da Justiça Esportiva de autoria do Desembargador Abdúlio Ferreira Neto: Influenciado pelo clima sanguinário de Sta Catarina jovem arrimo de família vai do Sax-Gospel ao Heavy-Mental 1. Uma vez que o recente tumulto entre torcedores na partida entre o Clube Atlético Paranaense e o Clube Regatas Vasco da Gama aconteceu num estádio em Santa Catarina, o tribunal punirá o Criciúma Esporte Clube [única equipe catarinense na competição] com a perda de dez pontos e multa convertida em pelotas de carvão mineral. Está claro que os ares bélicos dos catarinenses contaminaram de tal forma os torcedores que até um pacífico saxofonista de igreja evangélica e arrimo de família pegou numa barra de ferro com um prego na ponta para bater n...

O decálogo do esquema novelão de política, de ponta a ponta no espectro político

Foto minha: A na Visão de B Foto minha: B na visão de A 1. Quando vai falar de política logo cai no esquema A x B no qual A é bom e bonito  e B é malvado e feio. Está sempre incondicionalmente a favor de A e incondicionalmente contra B. Tudo o que A faz está certo ou pelo menos é justificável e tudo o que B faz está completamente errado e é injustificável. O estado de espírito é de permanente indignação. 2. Os tempos mudam e as opiniões também, mas o esquema permanece inalterado. O A de hoje pode se transformar no B de amanhã e vice-versa, mas o esquema em preto e branco sem direito a semi-tons continua. Por exemplo, a candidata a presidente que conhecia como ninguém a área de desenvolvimento e saberia equilibrar preservação e desenvolvimento se transforma numa presidente desenvolvimentista autoritária que imita o general Geisel mal e porcamente. O valoroso companheiro de ontem é o safado governista de hoje. O aliado razoável de ontem é o inimigo n...

Pautando-se pela imbecilidade alheia

Me desculpem muitos amigos e conhecidos de fcbk mas é bater em cachorro morto e perder seu precioso tempo ficar falando de coisas como: -        Roqueiros aposentados que “viraram” conservadores; -        Colunistas de jornal hiper-conservadores que só falam bobagem com a intenção de agredir; -        Fotografias de globetes de luto, videos de iutubio e passeatas do tipo “Cansei” e qualquer outra “manifestação” de “artistas de novela”, “ídolos da MPB” ou outras celebridades do tipo; -        Reportagens daquela revista que virou pasquim de conservadorismo feroz; -        Outras coisas bizarras do tipo: programa de televisão onde mulheres de biquini tentam pegar sabonetes numa banheira, diretor de teatro que apalpa perua de programa de humor sem graça, piada racista e/ou machista de humorista sem graça etc;...

Viva la mídia loca: sobre reportangens sobre a dengue [parte 2]

PARTE 2 Li um artigo na revista New Yorker [ TheMosquito Solution, July 9&16, 2012 ] sobre o assunto. Eis o que aprendi: 1. Calcula-se que os vários tipos de mosquitos que picam humanos são responsáveis por metade das mortes na história do ser humano no planeta. Uma grande parte pela Malária. 2. O Aedes aegypti provavelmente chegou nas Américas à bordo de navios negreiros. Os ovos podem sobreviver até um ano sem incubar, se necessário, mas depois de quatro dias basta água na temperatura de 27oC e em menos de uma hora os ovos estão “chocados”. 3. A dengue é uma das doenças virais que mais se espalha no mundo. A OMS calcula que pelo menos 50 milhões de pessoas contraem dengue por ano. O número de afetados pela doença cresceu 30 vezes desde 1965. E já saímos da obsessão do brasileiro com tudo o que acontece no seu país e sua profunda ignorância sobre o que acontece em qualquer outro lugar do mundo que não seja uma magra seleção de “fatos” sobre o...

Viva la mídia loca: sobre reportagens sobre a Dengue [parte 1]

PARTE 1 Foto do blogue Natural Unseen Hazard . Uma fêmea do Aedes aegypti se abastece de sangue Quantas reportagens você já leu sobre dengue nos jornais brasileiros? O que é que você aprendeu a respeito da dengue com elas? Eu li várias e divido essas reportagens em dois tipos: Tipo 1: Já são [número] de pessoas infectadas com o virus da dengue em [nome de estado ou cidade] este ano. Um aumento de [porcentagem]! Tipo 2: [nome uma celebridade qualquer] está com dengue! Com elas eu basicamente não aprendi nada. Tantos os números quanto os nomes das vítimas ilustres felizmente se dissolvem na minha memória, numa poça de dados inúteis e desprovidos de sentido. Se eu morasse no Brasil talvez servisse para jogar conversa fora com um motorista de táxi ou o meu açougueiro. Como moro fora, nem isso. Passo os olhos pela manchete e sigo em frente. Eu só conheço uma reação nas mídias sociais a essas reportagens: gente vociferando contra o abismo da saúde p...

Manual de Poeta em três lições de treze minutos

Lição 1: como escrever um texto de poética A. Use e abuse de substantivos de cunho religioso/ritualístico, como: Ritual, comunhão, irmandade, o sagrado, o profano, transcendência, sacerdote, espírito, fantasmas, mácula, manto, oração, promessa, heresia. 2. Na hora de usar adjetivos, prefira as palavras proparoxítonas. Se não der para ser uma proparoxítona, que sejam pelo menos palavras de umas três sílabas. Alguns exemplos: ritual sarcástico, comunhão orgiástica, irmandade labiríntica, a transcendência fálica, o sacerdote babélico, fantasmas sáficos, oração drástica. 3. Volta e meia combine 1 e 2 em oxímoros chiques como: paternidade orfã, iniciação terminal, oratória blásfema, mácula regeneradora, fantasmas de carne e osso, sacerdotes orgiásticos, manto que desnuda e por aí vai. 4. Pronto você já tem os elementos básicos do seu texto, mas não se esqueça de um ponto essencial. Você precisa agora ser enfaticamente caga-regra. ...

Ainda mais uma vezinha, Joyce

No dia 29 de maio de 2002, a ministra da cultura da Irlanda chegou no aeroporto de Dublin, onde o primeiro ministro e uma multidão de repórteres esperavam. Descendo as escadas do avião ela segurava como um relicário uma caixa com um manuscrito de Ulysses e as provas de Finnegans Wake compradas pela bagatela de 15 milhões e meio de dólares. O avô dessa ministra, que qualificou sua chegada com os manuscritos como “um evento monumental para a história literária e cultural da Irlanda,” era Éamon de Valera, figura central na política irlandesa durante boa parte do século XX, quando as obras de Joyce eram proibidas na Irlanda [nascido em Nova Iorque, o sobrenome da família vem do pai de Éamon, um cubano]. Num artigo recente do The New York Review of Books , Fintan O’Toole resumiu assim essa situação paradoxal: “For those of us who had known the thrill of reading Joyce when he was still the scandalous author of dirty books, this was a bittersweet moment. It was good...

Rir para não chorar: 15 minutos e 17 segundos

[Ilustração: Retrato de Lucian Freud feito por Francis Bacon] Então deixa ver se eu entendi: o "debate da sociedade" sobre Belo Monte vai ser feito em torno de argumentos apresentados em um filme de 8 minutos com um monte de atores famosos falando em segmentos de 10 segundos e outro filme de 7:17 com um batalhão de estudantes da UNICAMP falando do mesmo jeito? Quer dizer que em exatos 15 minutos e dezessete segundos eu vou saber tudo o que preciso saber para emitir meu juízo também? Seria coincidência que juntos eles dão os tais 15 minutos de fama de que o Warhol falava?

Nacional e importado

O Halloween é uma festa popular nos Estados Unidos. Uma multidão de crianças e jovens e alguns adultos de todas as classes veste fantasias de todo tipo [com destaque para o tétrico, especialmente nas crianças após os dez anos e adultos]. Várias lojas vazias [coisa muito comum na economia atual] são alugadas durante um mês por gente vendendo todo tipo de fantasia, inclusive uma farta sessão de lingerie mais ou menos vagamente erótica. Quando cai a noite ou logo depois do jantar [que aqui é servido bem mais cedo], essa multidão mascarada e fantasiada sai pelas ruas pedindo doces e dando trotes no frio ainda suportável do outono. Quem quer receber os “foliões” compra baldes e baldes de doces e balas e decora a casa com motivos de terror. Parece que o Halloween está sendo adotado no Brasil, suponho que adaptado, mesmo que por ignorância. Isso causa horror em algumas pessoas que vêem nisso uma babação de ovo para com tudo o que vem dos Estados Unidos [verdade] e uma perigosa ...

Da série tenho preguiça de:

4. E finalmente [já estou com preguiça dessa série preguiçosa] tenho preguiça de críticos que, muitas vezes partindo de um dado biográfico qualquer, tascam um rótulo vago no trabalho de alguém. Se o autor é mulher o cara já vem logo dizer que é uma escrita “delicada” ou “feminina”. Esse uso meio descabelado de adjetivos só é pior na música, onde críticos que às vezes mal sabem tocar campainha falam em “harmonias de fundo”, “melodias hipnóticas”, “ritmos alucinantes”, “tambores selvagens”, “guitarras nervosas”, “vocais pungentes” e outras combinações igualmente estrambóticas.

Da série tenho preguiça de:

3. Críticos que falam mal de um determinado projeto pressupondo que o autor quisesse fazer uma coisa que ele obviamente nunca quis. Assim, você perde seu tempo lendo o sujeito que reclama que um livro de hai-kais é lacônico, que um romance de 1200 páginas é muito longo, que um livro confessional é muito confessional, que um filme de Hollywood é comercial, que uma peça de teatro sem diálogo não tem diálogo etc. A maior das enrolações críticas é julgar um filme do Spielberg pelos parâmetros do Bergman e um filme de Bergman pelos parâmetros do Spielberg: só dá obviedades.