Mais de um mês em casa. Casa para mim, quero esclarecer, é Belo Horizonte. Ainda que eu viva 10 meses por ano fora daqui. 250 cafezinhos e muitas conversas depois, chegando aos poucos o momento de ir embora, começa a apertar o meu coração. Não é um sentimento claro. Sinto alegria por ir reencontrar minha família e sinto tristeza por ter que ir embora da minha casa.
Reconheço que vivo uma situação sui generis. Mais o que é que isso significa?
Minha língua mãe é impregnada de saudade, desde os portugueses que se metiam pelo mundo afora desde o século XV até os indígenas e africanos que tomaram a língua para si depois de ter sido desenraizados na porrada, o português foi todo impregnado de saudades. Falar de saudades, da falta, do desejo por aquilo que está longe e das mais sutis misturas de dor e prazer é território do Português.
Viver assim partido significa viver solidão de verdade. Porque não consigo trocar ideias com alguém que esteja na minha condição, com a família num hemisfério e a casa no outro. Se eu pudesse me tele-transportar de um lado pro outro como no Jornada das Estrelas... ao invés disso vivo todos os anos esse peculiar sentimento de saudade ao meio que nem ninguém em português tem. Ou seja, eu vivo um sentimento que não desperta nem interesse nem empatia de ninguém. Uma estranheza.
Onde está hoje minha família, meu jardim, meus cães, meus amores mais arraigados, há uma verdadeira guerra contra o que eu sou: latino-americano, imigrante, professor e pesquisador das humanidades. Querem nos expulsar, acabar com os nossos empregos, com nossos alunos. Querem nos ver pelas costas. Gente como eu, que nunca peguei numa arma de fogo, que não vivi nem vivo frequentando igreja, que não gosto de futebol americano, que não consigo comer só sanduíche, pizza, sopa e lasagna. Proteger meu lar para mim é trancar a porta da frente. Igrejas eu até respeito mas uma comunidade construída em torno de uma vontade de regulamentar tudo, eu não compro. Futebol americano, eu não tenho paciência para entender porque tenho certeza que, mesmo se entender, não vou me apaixonar como sou apaixonado pelo muitas vezes chatíssimo futebol. Como dizia Sérgio Buarque de Holanda, nada que não tenha um forte fundo emocional nos interessa de verdade. Sem paixão, não vale a pena. Além do mais, lá sou estranho, falo alto demais, rio alto demais, acho graça em coisas que os outros lá nem entendem, me horrorizo com o que eles lá acham o mais normal.
Nem tudo são espinhos por lá. Amo a música e a literatura, gosto dos jornais e revistas, aprecio algumas comidas. Amo a cultura mestiça que indígenas e negros construíram lá. Minha ojeriza pelos horrores de lá nunca será tão visceral como a que sinto pelos horrores daqui, que são meus. O racismo argentino me aborrece; o racismo brasileiro me exaspera.
Mas sinto que os horrores daqui são, em última instância, meus também. E é inegável que qualquer ser humano se relaciona melhor com a sua própria merda do que com a merda dos outros.

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