Erik Satie pega o piano e a música romântica do final do século XIX e elimina sem dó nem piedade aquelas orgias de arpeggios derramados. O que sobra são as hoje tão apreciadas Gymnopédies (1888), que hoje vendem desodorante e chocolate e fornecem trilha sonora para momentos melancólicos de telenovela ou vídeos de gatos. Mesmo com essa exposição tão excessiva resta ainda essa estranha música que flutua feito pólen com a suavidade de um quase nada, breve, leve, evanescente:
Ian Penman - um crítico de música inglês - escreveu um estranho livro sobre Satie (Erik Satie: Three Piece Suites) e eu li a excelente resenha de Jeremy Denk no New York Review of Books. Eis um trechinho do livro de Penman:
E eis a minha semi-tradução nas coxas: "Todas essas emoções de entre-lugar são difíceis de nomear. Percepções antigas perigando desaparecer. Encarar um espaço versus encarar uma tela. A cultura digital anula nossa capacidade de vazio, de tédio, a capacidade de simplesmente aceitar sem grilos a passagem do tempo; deixar as coisas se interromperem, flutuarem, dispersarem. Medidas não-capitalistas do tempo. Os jogos de azar, de acordo com Walter Benjamin, fazem do tempo um narcótico. De forma análoga a música pode nos conceder acesso a certos estados limite: sonhar acordado, saudades, delírios. Um tipo diferente de aquisição."

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