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Atrás da linguagem da loucura

Escrevi um conto de um par de páginas baseado em um personagem real. Minha idéia era tentar escutar e então me aproximar o máximo possível da linguagem da loucura sem ficar doido. Eis aqui o primeiro parágrafo: "Confesso que era ateu quando o tal pastor apareceu na minha casa e insistiu em conversar comigo. Desci e quando o encontrei reconheci de cara o capitão do disco voador com quem tinha tido contato treze anos antes, em novembro de 1951. Eu disse a ele logo de cara que não queria perder meu tempo com um agente estrangeiro subversivo que se disfarçava em uma forma alienígena simples só para confundir e então dominar povos mais inocentes, mas ele me garantiu que não era verdade. Então convidei-o para almoçar com a intenção de testá-lo, com o cuidado de não transparecer meu intuito. "

Diario de Tenochtitlán 3 - Lomas de Santa Fé

Uma diferença fundamental entre a Cidade do México e as outras metrópolis latino-americanas é que aqui há uma forte tradição de resistência à especulação imobiliária nos bairros mais antigos da cidade. Essa resistência vinha tanto do estado com seu aparato de políticas urbanas como da população dos bairros de classe média que protestavam e não permitiam que se construíssem arranha-céus em seus bairros. Lomas de Santa Fé era primeiro um imenso buraco - daqui se tirava areia para construir a cidade. Depois começaram a encher o buraco com lixo - aqui estava o lixão da cidade com sua conhecida população de miseráveis. Até que governo e iniciativa privada decidiram transformar Lomas de Santa Fé no bairro "moderno" da cidade, onde os prédios de escritórios podiam ser gigantescos como os da Avenida Paulista ou do Centro do Rio.

Diário de Tenochtitlán 2 - Casa Lamm

A casa Lamm é uma das muitas casas do século XIX do Bairro Roma e foi transformada em um charmoso centro cultural.

Diário de Tenochtitlán 1

Os mexicanos são conhecidos por sua polidez. Hoje cheguei e consegui essa foto com o típico aviso de não estacionar em garagem cheio de salamaleques...

Exercício feito na FLIP

[era escolher um personagem de um poema em prosa do Jorge de Lima sobre um desastre de avião. Escolhi as 3 meninas da primeira epígrafe] Nós vamos afundar Vejo três meninas caindo rápidas, enfunadas, como se dançassem ainda. Não é o ‘o quê é arte’ mas o ‘quando é arte’. Antes dos remorsos desse avião despedaçado que nunca passeou com os filhos, antes dos poetas míopes, do homem de chapéu Panamá, e dos colecionadores de nuvens, antes que o sino dobre e o mosquito amigo do rei penetre a pele velada pelo mosquiteiro furado, nós vamos afundar dançando devagar até o fundo da garrafa e lá vamos nos reencontrar transformadas em bestas de corpo fosforescente, criaturas vivendo sem luz, no fundo mais fundo, submersos no lodo, sem olhos para abrir e ver, só um par de antenas cravadas no couro velho e duro. E, no momento mais agudo, esses monstros lá de baixo vão nos mastigar devagar e, como nossas irmãs hienas, vão nos enterrar na areia e voltar para comer o resto mais tarde. Mas um corp...

o mundo inteiro entre uma maiúscula e um ponto final

Enfiar o mundo inteiro entre uma maiúscula e um ponto final, mas só depois de botar aquele vagabundo pra fora de casa e consertar de novo o alarme da minha alegria e aí pronto: é o mundo inteiro contido entre a maiúscula e o ponto final, ainda que depois ninguém entenda patavinas de piripitibas e mesmo assim se ofendam os stalinistas do grande espírito das grandes letras greco-latinas ocidentais e os stalinistas defensores por procuração dos frascos e comprimidos do departamento e estejamos assim todos mal pagos e fodidos; mesmo assim há que se continuar até o fim porque, entre o universo dito e o infinito omitido, o ponto final da frase onde cabe o mundo inteiro é possível, sem truques baratos nem truques raros porque entre populismos para gente que não gosta mesmo de ler e elitismos para gente que não gosta que ninguém leia lá vamos nós nos foder outra vez, mas, sinceramente, quem nunca se fodeu pelo menos doze vezes não merece o papel e a caneta que tem, muito menos o esplendoroso f...

Abril de 1954

Imagem: http://www.brasilescola.com/upload/e/big%20bang.jpg [O acesso à internet anda bem restrito e o acúmulo de tarefas terrível, mas garanto aos meus inumeráveis leitores que eu ainda não desisti desse troço aqui.] Rio, abril, 1954 "Foi assim: eu estava fazendo o livro de novelas - que iam ser 9 (número favorável, cabalisticamente) e estavam saindo enormes, algumas parecendo verdadeiros romances. Pois bem, já prontos os rascunhos das seis primeiras aconteceu que a sétima começou a revoltar-se. Os motivos requeriam espaço e mais espaço, o cartapacio crescia, crescia, por mais que eu tirasse, cortasse, comprimisse, empurrasse a coisada para dentro do saco. Fui ficando seriamente angustiado; até que, de repente, me veio a solução salvadora: mudar o escrito para um romance. Foi o que passei a fazer. A pulso, de cabeçada em cabeçada. Ei-lo, pois, que já chegou à página 219, ontem à noite. (...) A coisa está quente, os assuntos são tremendos, quase terroríficos. Não há capítulos, ne...

Casualidade ou fatalidade?

fonte: blogue Sobre Fotografias Um fragmento de "Arabescos" de Joaquín Bartrina Sale un hombre a la calle y, no os asombre, una piedra sobre él cae y le arredra: 10 ¿cae la piedra cuando pasa el hombre?, ¿o pasa el hombre cuando cae la piedra? Resolvedme problema tan profundo, y creeré, os lo aseguro muy sincero, en la casualidad, si es lo primero, 15 en la fatalidad, si es lo segundo.

Diário da Babilônia - Terrorismo Made in USA

Em abril deste ano o departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos divulga relatório advertindo que as condições atuais lembram muito aquelas do começo dos anos 90, quando um aumento nas atividades de grupos de extrema-direita culminou no atentado à bomba de Oklahoma City que matou 168 pessoas e feriu mais de 600. O relatório causou protestos indignados da direita americana, acostumada a acusar os outros mas não de ser acusada de terrorismo. Em maio Dr. George Tiller foi assassinado por um militante anti-aborto em Wichita e agora em junho um guarda do Holocaust Memorial Museum [que fica a dois quarteirões da Casa Branca] foi morto por um militante de 88 anos de idade. Corram para as colinas!

Nunca tinha pensado nisso

Victor Fleming dirigiu em um mesmo ano [1939] "O mágico de Oz" e "E o vento levou". Lendo sobre esse hoje esquecido "Spielberg" dos anos de ouro de Hollywood, me deparei como uma qualidade importante para diretores de cinema na qual eu nunca tinha pensado: "Fleming had learned something essential (...) how to position a performer within the frame and time his performance in such a way that the camera brought out his temperament and his strength. This would seem an essential skill for any filmmaker, yet a surprising number of directors, obsessed with visual expressiveness, are inattentive to it. Fleming didn’t give detailed instructions to his actors; rather, he talked about the character, and located and enlarged a set of defining traits—a strain of feeling or humor—in whomever he was working with. Then the actors, working intimately for the camera, performed what in effect were idealized versions of themselves, creating a persona that connected with ...

Blogues Chatos

"Gente, hoje a noite vou estar inaugurando a exposicao de figurinhas do meu filho na casa do amigo dele, Geraldinho, e amanha quem puder apareça la no bar do juju para a festa de lançamento do meu novo projeto - surpresa o nome ainda. Ah, Fabiolo: aquele lance continua de pe, ok?"

Daniel Sada sobre escrever

Entonces, ¿por qué escribe? ¡Escribo porque es un reto! Yo escribo por entusiasmo. Mi acceso a la literatura es con un goce y un placer absoluto. No escribo por desesperación ni por angustia ni porque me sienta en la incertidumbre de no entender el mundo. Yo creo que el acto creativo tiene que ser absolutamente gozoso. De pronto, claro, el gozo se permea con la angustia, con las bajas pasiones, con todo lo feo y lo horrendo del ser humano, pero ante todo está el gozo. Un creador necesita como premisa establecer una pasión gozosa. http://www.revistaenie.clarin.com/notas/2009/02/14/_-01858528.htm

Reciclando

Mote: Fernanda Montenegro disse em entrevista que “a única opção para fugir do envelhecimento é a morte.” Glosa: Ponha um ponto final no envelhecimento. Você detesta envelhecer, não é mesmo? Você luta com as forças que tem, faz de tudo, mas nada parece capaz de realmente parar o tal do envelhecimento, não é mesmo? Cada pequena vitória contra o dragão da velhice não passa de uma ilusão fugaz que se desfaz em um par de anos, não é mesmo? Não demora muito e as águas do tempo vêm e levam embora as barragens que construímos com tanto zelo e aí só nos resta o espelho implacável a nos dizer que mais uma vez perdemos… Quem não daria tudo para dar um fim definitivo a esse terrível processo de enfeiamento: os músculos cada vez mais flácidos, as gorduras cada vez mais despudoradamente localizadas, as rugas cada vez mais fundas, as papadas despejando-se em dobras, os cabelos caindo aos tufos ou embranquecendo ou então migrando misteriosamente para dentro de orelhas e narinas cada vez maiores? Pois...

My Last Duchess

Robert Browning (1812-1889) escrevia uma poesia vitoriana difícil e pesada, cheia de versos cortados em enjambements e sentenças longuíssimas. Browning teve uma grande sacada que usou nos seus melhores poemas: inventar personagens complexos [geralmente figuras históricas mais ou menos obscuras] e escrever então monólogos dramáticos, nos quais esses personagens/vozes poéticas vão se revelando ao leitor aos poucos. Nesse "My Last Duchess" o leitor em atirado en media res [em plena ação] quando o Duque de Ferrara recebe um emissário da família da sua noiva, a "next duchess" e exibe um retrato pintado da falecida duquesa, a do título, que ele mantém coberto com uma cortina que só ele pode abrir. Segue um estudo do orgulho, dos ciúmes e da prepotência doentios do tal duque, uma figura meio “barba azul”. My Last Duchess FERRARA 1 That's my last Duchess painted on the wall, 2 Looking as if she were alive. I call 3 That piece a wonder, now: Frà Pandolf's...

Joaquín Bartrina

Casos comunes Joaquín Bartrina Juan envidia de Bruno la nobleza y Bruno a Juan envidia la riqueza; ambos envidian a Luis la calma, y éste envidia a los dos, con toda el alma, honores y fortuna ¡qué simpleza! 5 Bruno con lo de Juan feliz sería, Juan sería feliz con lo de Bruno; lo de Luis a los dos contentaría y a Luis feliz lo de los dos haría; ¡y con lo propio no es feliz ninguno! 10 Podemos deducir de esos extremos que, de la vida atados en el potro, felicidad es lo que no tenemos. Tal vez mejor diremos: felicidad es lo que tiene el otro. 15

Prosa Minha - Fragmento de Conto

4 Não, essa voz não é tua. Paulo Henriques Britto Só muito tempo depois, depois que as duas irmãs viúvas e todos os meus irmãos morreram e foram enterrados; depois que eu passei do inferno da dor aguda ao purgatório da dor crônica e depois que a morte como idéia, abstrata, transformou-se nessa morte que desabrocha do corpo, concreta, é que eu voltei ao Brasil e vim parar aqui no Rio, de onde, de certa forma, eu nunca saí. Agora o Rio é meu, tão meu como de quem nunca tirou os pés daqui. Agora, livre da vulgaridade autoritária da memória do dia-a-dia, a beleza radiante dessa cidade se revela, generosa. Agora, velho, sou um mosaico desajeitado feito com cacos de toda essa gente que encobre delicada como a sombra de uma fumaça esguia todos esses fragmentos esparsos da minha cidade, que em mim adquirem uma unidade tenebrosa e profunda. Tenho as mãos e os cabelos do meu pai, os olhos e a boca da minha mãe, os pés do tio Chico, tiques dos meus quatro avós, pequenos gestos dos meus quatro irm...

Dúvida Cruel

Leio os comentários dos jornais online e no youtube e, entre um sujeito que acha que o ABBA é o máximo da música ocidental e outro que, revoltado com a violência, prega suplícios e torturas das mais hediondas contra os “bandidos”, eu fico pensando: será que os doidos sem-noção são super-representados no mundo da internet ou será que o cidadão comum mediano é mesmo tipicamente demente?

Porque eu gosto de ler coisas a esmo

James Wood escreve sobre V.S. Naipaul numa resenha sobre biografia recente sobre o mesmo: "a combination of conservative vision and radical eyesight" >>>> Eu penso comigo mesmo: que frase perfeita para explicar Nelson Rodrigues!

Diário da Babilônia - Creative Writing

Existem 822 programas de "creative writing" nas universidades dos Estados Unidos, 27 deles concendendo PhD. É uma máquina que cresce ainda vigorosamente e há quem pense que toda a ficção da segunda metade do século XX para cá nos Estados Unidos foi, de alguma forma, influenciada por esses programas. Ensinaram ou tiveram aulas neles Thomas Wolfe, Robert Frost, John Barth, Robert Coover, Donald Barthelme, E.L. Doctorow, Toni Morrison, Joyce Carol Oates, Raymond Carver, Andrés Dubus, Tillie Olsen, Alice Sebold, Kurt Vonnegut, Philip Roth. Enfim, parece que é mais fácil citar algum escritor que não tenha feito parte desse sistema do que o contrário. Esses programas partem da premissa de que oficinas de escrita dentro de universidades podem ensinar uma pessoa a escrever. Eu, cá do meu canto, acho difícil que uma instituição tão "sistemática" [nos dois sentidos da palavra], que tem uma cultura fortíssima de conformidade, possa ensinar as pessoas a serem criativas. Quando ...