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Keren Ann - I'm not going anywhere

Keren Ann: “Time will rise and fall along the bay And I’m not going anywhere I’m not going anywhere People come and go and walk away But I’m not going anywhere I’m not going anywhere” [Essa é para aqueles que se preocupam com a recente transformação do "Às moscas" em "Às traças"...

Diário de Curitiba 3

Imagem: gravura de Poty com as araucárias que são símbolo da cidade e [oh incorrigível narcisismo!] do jardim no quintal da nossa casa na Serra em Belo Horizonte. 1. New Haven aparece no noticiário da TV sobre onda de calor nos EUA! A imagem mostra a ponte sobre o Quinnipiac em Fair Haven que o locutor diz que foi fechada por causa da dilatação da estrutura de ferro! Em Curitiba aproveito um dia morno e chuvoso [compro um guarda-chuva nas Lojas Americanas no caminho para o congresso] teima em contrariar a imagem de “capital mais fria do Brasil”. 2. De novo: travar um primeiro contato com uma cidade desconhecida é resistir à tentação de ler em tudo o que acontece significados além daquela experiência banal: um vendedor bem educado vira exemplo de uma cidade cordata; um mendigo no centro demonstra indiferência com a desigualdade social; pai e filho conversando em japonês indicam uma colônia japonesa que preserva sua identidade; um engarrafam...

Diário de Curitiba 2

1. Em minhas incansáveis [bom, na verdade estou exausto] andanças pelo centro de Curitiba, trombei com uma exposição excelente de Debret no Centro Cultural da Caixa Econômica. Uma gentil funcionária da caixa me deu um catálogo da mostra quando eu tentei tirar fotos desses e outros tropeiros [ou eu ando dando muita sorte ou as pessoas em Curitibas são de uma gentileza impressionante]. 2. Nunca vi uma fila tão grande numa caixa de supermercado. Ia comprar umas maçãs e depois de uns quinze minutos, longe ainda de ser atendido, acabei desistindo. 3. Fui tomar um café no mercado: limpo, cheiroso e arrumado. Descobri um tal "café mineiro" com doce de leite que me deu idéia da nossa fama de comedores ou fabricantes de bom doce de leite, mas preferi o café normal mesmo. Esqueci meu casaco por lá - prova de que o terrível frio curitibano ainda não deu as caras. Mas sinceramente quem vive onde eu vivo não pode ter medo de frio no Brasil... 4. Descobri que não consigo entender uma coisa...

Diário de Curitiba

1. A gente fica tentado a interpretar o que vê, mas de que vale um passeio cego pelo centro num par de horas? Gosto das calçadas de pedra portuguesa, dos prédios e casas mais ou menos antigos que não foram demolidos e estão bem cuidados, das ruas para pedestres, das pracinhas de interior, da gente na rua, dos velhos confabulando como na antiga praça 7, do português cantado e dos erres a maneira do Sul de Minas. 2. Minha Curitiba é uma sombra de Belo Horizonte: coisas iguais, coisas parecidas, coisas diferentes. Se Belo Horizonte tivesse tido um prefeito muito bom desde os anos 70, a cidade poderia ter um centro tão aprazível e bonito. Apesar disso o tom menor, de uma cidade que vive para si mesma e se esconde um pouco dos turistas vale para cá também, pelo menos nessa primeira caminhada no centro. Curitiba, como Belo Horizonte, não se entrega de bandeja ao turista acostumado a cidades turísticas que vivem de encantar visitantes. 3. Entro numa livraria - péssima - mas qual a probabilida...

Poesia Minha - Browning e o Mundo

BROWNING E O MUNDO A tap at the pane, the quick sharp scratch And blue spurt of a lighted match, And a voice less loud, thro' its joys and fears, Than the two hearts beating each to each! ELE fez da gente essa carne salgada, essa bolha inflada, a massa socada que gruda e engarrafa ao chão a alma amarga, esse bafo ínfimo, vertigem de cinza e de nada. Mas também traçou com engenho e arte nessa mesma massa os picos e rachas por onde escapa esse fino vapor engenhoso, esse fogo esbelto, essa música delgada, essa coluna de silêncio puro, esse doce rio quente, assombroso que se levanta do leito e flui pelos ares. Corpo, alma e orgasmo: eis o Seu artesanato. Formigueiro que cresce na caixa de ferro soldada até não caber.

Definição de literatura, ou o diabo mora nos adjetivos

Leyla Perrone-Moyses disfarça mas acaba tentando definir literatura na Folha de São Paulo no último Domingo: "... textos escritos numa linguagem particular, que interrogam e desvendam o homem e o mundo de maneira aprofundada, complexa, surpreendente." Bom, o diabo mora mesmo é nos adjetivos. Resta saber - para começar - o que significa exatamente "particular". Depois vamos a "aprofundado", "complexo" e "surpreendente"... Se a literatura morreu ou está morrendo, deve ser uma daquelas intermináveis mortes de melodrama, quando o personagem do pai honesto mas pobre fazia um longo monólogo no leito de morte enquanto a mocinha segurava a sua mão e sutentava sua cabeça. A melhor parte da "Ilustríssima" (que devia chamar-se mesmo "Caderno Magérrimo") foi o (particular, aprofundado, complexo e surpreendente?) poema de Ana Martins Marques, "O relógio" . Não fosse essa última página, eu diria que quem está a beira de...

Poesia Minha - LUNA PARK

Escrever poesia para mim é ficar sempre balançando entre fragmentação e coesão. Um exemplo: escrevi há tempos um poema chamado LUNA PARK, que era assim: Mash-up: LUNA PARK Nací cuando del sollozo del último siglo, No se oía ni un solo eco Luis Cardoza y Aragón O soluço do último século abriu a fenda onde passaram galopando as montanhas. O século seguinte ofereceu a Dom Quixote um aeroplano, lastre lançado ao passado. Do trigo dos campos de batalha um grão de loucura germinou nas minhas entranhas. O rio suicida me piscou um olho; sua suave sonolenta corrente noturna não quer os barcos que singram, fumando, pacientes, sobre trilhos, no mar. Nesse bosque de chaminés fumantes escuto o músculo obediente, fiel, sonoro, da máquina, construindo castelos no ar. Para as vidas sublinhadas em vermelho pela guerra o choro veste os rostos com caretas de máscaras de clown: o futuro é um feto que não vem. ...

Uma guerra neo-liberal: TCNs, ou uma nova legião estrangeira de civis

Em dez anos mais de dois mil civis contratados - muitos deles estrangeiros contratados de forma ilegal em países de terceiro-mundo por empresas de recursos humanos que prometem empregos em lugares como Dubai e mandam os caras para a guerra lavar pratos, cortar cabelo ou fazer batata frita para os soldados - morreram e mais 51 mil ficaram feridos em bases americanas no Iraque e Afeganistão. Pela primeira vez, as perdas de funcionários de empresas privadas se equiparam com as de tropas americanas nas duas zonas de guerra, chegando a 53% das vítimas do lado americano nos primeiros seis meses de 2010. Mais aqui . O nome dessa gente na burocracia da guerra é TCNs [Third-Country Nationals]. Um exemplo de TCN, para dar stofo ao esqueleto das estatísticas: Constantine Rodrigues, homem de 38 anos deixa mulher grávida em Goa atrás de um emprego que paga $450 por mês no Pizza Hut num acampamento americano no Iraque. Depois da explosão de um foguete que matou dois dos seus colegas de t...

Recordar é viver: Transporte público e segregação racial/econômica

“They seem to think we're animals or something. They just don't want us to be able to get the kind of education they've already got.” 12 de Setembro de 1974. Margie, estudante negra que passou a frequentar a South Boston High School. Essa história de não querer estação de metrô em Higioenópolis me lembra um dos momentos mais tristes da segunda metade do século XX nos Estados Unidos: a criação de um grupo em Boston chamado "Restore Our Alienated Rights (ROAR)" para combater a desegregação racial das escolas públicas através do sistema de ônibus escolares que levavam crianças dos bairros mais pobres [em geral negros] para ter aulas nas escolas públicas dos bairros ricos [em geral brancos]. [Aliás guarde bem essa história para jogar na cara de qualquer americano que tentar te convencer que o sul é o único vilão quando se trata de problemas raciais nos Estados Unidos.] Uma breve explicação primeiro. As escolas públicas primárias e secundá...

Entre 2 países

Dois trechos interessantes de entrevista com a excelente escritora Sandra Lorenzano ao jornal argentino Página12 no dia 9 de junho . –¿Por qué en los poemas no aparece una lengua permeada por el habla mexicana? –Tampoco por la lengua argentina; como mi poesía no tiene coloquialismo, queda muy abierta. Mi conciencia sobre la lengua surge con el exilio. Como llegué en la adolescencia a México, hice un gran esfuerzo por volverme una adolescente mexicana. Yo puedo estar acá hablando con un mexicano y me doy vuelta y te hablo a vos en argentino. Así he funcionado a lo largo de 35 años. Yo uso poco la lengua coloquial; es un constructo que he armado y que es el resultado de juntar esas dos lenguas que tengo ahí... Y por ahí ronronea, en lo profundo de su ser, una palabra con la que ha titulado una de sus novelas, Saudades. “Tabucchi dice algo genial sobre el tema. Las saudades portuguesas no sólo son nostalgias de lo que fue, de lo que pasó, de lo que perdimos, sino nostalgia de a...

Poesia Mexicana: Xavier Villaurrutia

Volver Volver a una patria lejana, volver a una patria olvidada, oscuramente deformada por el destierro en esta tierra. ¡Salir del aire que me encierra! y anclar otra vez en la nada. La noche es mi madre y mi hermana, la nada es mi patria lejana, la nada llena de silencio, la nada llena de vacío, la nada sin tiempo ni frío, la nada en que no pasa nada. Mais poemas de Villaurrutia aqui .

Música: My Morphine

Um dos preconceitos mais persistentes na nossa cultura é a idéia de que a vida e as pessoas no campo ou nas cidades pequenas são “simples”, “descomplicadas” ou “menos complexas”. Certos conflitos da modernidade podem ser até mais agudos for a dos centros econômicos/culturais – prova disso é a riqueza e complexidade da própria literatura brasileira. Porque nos Estados Unidos ou na Europa, o Brasil é Teófilo Otoni/Cuiabá/São Luís/Rio Branco/etc. A questão não é negar que somos Teófilo Otoni/Cuiabá/São Luís/Rio Branco/etc no sistema capitalista mundial, mas descobrir que Teófilo Otoni/Cuiabá/São Luís/Rio Branco/etc tem sempre potencial para literatura de primeira. Esse preconceito com relação ao interior já atrapalhou muita gente inteligente a entender melhor autores como Guimarães Rosa, Faulkner ou Juan Rulfo. Além de ser francamente ridículo ver um paulista desprezar um belohorizontino que por sua vez despreza um cuiabano que por sua vez despreza alguém de Rondonópolis etc etc etc. ...

Cenas do centro do Rio de Janeiro do início do século passado 3

[Clique no mapa para vê-lo inteiro e saber onde estava o sebo de João Martins] III - João Martins, português da Ilha da Madeira, chegou ao Brasil ainda jovem em meados do século XIX, com 4 tostões nos bolsos. Trabalhou em várias livrarias do centro até abrir seu próprio sebo na Rua São José [naquela época Rua do Pardo]. Mudou-se depois para Uruguaiana e finalmente para a Rua General Câmara, onde vivia com a família nos fundos. Construiu um acervo maravilhoso de impressos e manuscritos, que ele comprava a granel antes de 1880, quando ninguém no Rio dava nada por “um monte de papéis velhos” – do seu sebo saíram os originais de História do Brasil de Frei Vicente do Salvador, que ele doou à Biblioteca Nacional. João Martins vivia enfiado no sebo, tendo se tornado um especialista respeitado na cidade em questões bibliográficas apesar de não ter quase nenhuma educação formal. Era tão recluso que recusou-se terminantemente a conhecer a Avenida Rio Branco e, quando os filhos compraram o i...

Cenas do centro do Rio de Janeiro do início do século passado

II – Enquanto Gustavo Barroso – futuro fascista, anti-semita, acadêmico – frequentava a já decadente Colombo com suas polainas e luvas, a roda de Lima Barreto se reunia no Café Jeremias ou na Americana e depois no Café Papagaio. Única regra do grupo: proibido conversar de literatura. “E bebíamos café, só café, pois as finanças não permitiam o luxo da cerveja ou do uísque.” [Vida literária no Brasil, 35]. Ali o grupo criaria a Revista Floreal em 1907 [ disponível na Brasiliana da USP].

Cenas do centro do Rio de Janeiro do início do século passado

I- Constantino Pacheco parece que nunca publicou um livro, mas recitava suas poesias pelas ruas do centro “com voz soturna, a sacudir umas grossas manoplas de pugilador.” Nos intervalos entre um poema e outro proclamava: “O Brasil é um ótimo país para os olhos do artista e para a bolsa dos patifes.” Do livro Vida Literária no Brasil de Brito Broca.

Recomendação

Uma das melhores avaliações do governo Lula no terceiro número de uma das melhores revistas da América Latina.

Cenas de um casamento – Bergman

Ingmar Bergman cria, com um orçamento curtíssimo, uma mini-série de televisão de seis capítulos, quase toda filmada em Faro com dois de seus atores favoritos em mente como um casal: Liv Ullman e Erland Josephson. Liv Ullman volta de Hollywood correndo em troca do salário mínimo da categoria e de uma temporada sem luxos mas com um trabalho que a entusiasma. A série de cinco horas é praticamente toda feita dos dois atores falando sem parar o texto de Bergman, que não admite improvisos nas falas mas coloca câmera, fotografia, luz, enfim, tudo a serviço dos dois atores. Liv Ullman comentou que o filme poderia ter sido feito por algum seguidor do Dogma95, mas sinceramente, só se algum deles chegasse aos pés de Bergman em termos de clareza e contundência sem ostentação de pobreza franciscana. O surpreendente é que a mini-série fez um sucesso estrondoso na Suécia quando foi lançada e o filme [condensado das cinco horas de mini-série] rodou o mundo inteiro com enorme sucesso. Em pleno a...

Poesia Minha - Quinnipiac

[Foto: vista do rio Quinnipiac em New Haven. Do lado de cá o bairro latino e as fábricas abandonadas. Do lado de lá, mais do mesmo...] Eu não costumo escrever poesia em inglês, mas apareceu um concurso numa livraria da minha cidade - iam dar um prêmio em vale-livros e pendurar o poema no café da livraria - e eu resolvi que queria concorrer. Adoro esse trecho do rio Quinnipiac, cortando a cidade pouco antes de chegar ao mar. Há quem diga que o rio Charles [que passa perto de Harvard], rio que tem papel importante na parte narrada por Quentin Compson em The Sound and the Fury é na verdade o Quinnipiac, que Faulkner conhecia de perto por ter passado um tempo sapeando por New Haven. Misturei nesse caldo ainda uma pitada de Clarice Lispector e meia xícara de Guimarães Rosa, cujos contos estava ensinando em inglês nesse longo e tenebroso inverno que passou, e deu nisso aí. Bom, terminei o trem uns cinco dias antes do prazo e fui cuidar da minha vida. Quando vi, deixei passar ...

Duas frases

Duas frases de Politzer József aka Joseph Pulitzer Uma imprensa cínica, mercenária, demagógica com o tempo produz um povo do mesmo quilate. "A cynical, mercenary, demagogic press will in time produce a people as base as itself." Todo reporter é uma esperança e todo editor, um desapontamento. “Every reporter is a hope, and every editor is a disappointment.”

Minas Gerais e o código de [des]florestamento

Para refletir e lembrar. Votaram pelo SIM: De partidos [pelo menos nominalmente] da esquerda Ademir Camilo PDT Sim Zé Silva PDT Sim Jô Moraes PCdoB Sim Geraldo Thadeu PPS Sim Júlio Delgado PSB Sim Gabriel Guimarães PT Sim Weliton Prado PT Sim Reginaldo Lopes PT Sim Odair Cunha PT Sim Gilmar Machado PT Sim De partidos do centro: Bonifácio de Andrada PSDB Sim Carlaile Pedrosa PSDB Sim Eduardo Azeredo PSDB Sim Eduardo Barbosa PSDB Sim Paulo Abi-Ackel PSDB Sim Domingos Sávio PSDB Sim Marcus Pestana PSDB Sim Antônio Andrade PMDB Sim João Magalhães PMDB Sim Newton Cardoso PMDB Sim Paulo Piau PMDB Sim Saraiva Felipe PMDB Sim De partidos da direita: Aelton Freitas PR Sim Aracely de Paula PR Sim Bernardo Santana de Vasconcellos PR Sim Diego Andrade PR Sim Lincoln Portela PR Sim Dimas Fabiano PP Sim Luiz Fernando Faria PP Sim Márcio Reinaldo Moreira PP S...