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O sotaque estrangeiro, veículo escabroso, de um certo Karl transformado em Carlos

O jovem posando de explorador no estúdio No dia 17 de julho de 1888, “Carlos" von den Steinen deu conferência sobre sua viagem ao Xingu na sociedade de Geografia do Rio de Janeiro, na presença da princesa Isabel e seu marido. Já coloquei aqui alguns outros trechos que me chamaram a atenção n essa conferência . Volta a ela com outros dois trechos dignos de nota.  O primeiro deles fala sobre a amizade entre e sobre o choro: “Em Cuyabá zombaram muito de mim em consequencia do qua elles chamavam a minha ‘ amizade com os selvagens .’ Já nem tão jovem Aceito este termo de muito bom grado. Então eu não devia chamar de amigos meus áquelles que nos forneceram comida quando ficamos desprovidos de tudo, áquelles que nos guiaram a salvamento pelas cachoeiras as mais perigosas, áquelles que na nossa volta nos acompanharam todo o rio abaixo , com lagrimas nos seus olhos quando fizemos nossas despedidas? O indio não sómente ri, elle chora tambem ás vezes.” O segundo tre...

Postal do passado recente feito ruína

Um shopping, uma fábrica, um teatro em Detroit: marcas visíveis, cicatrizes na paisagem urbana gritando em silêncio uma das nossas muitas perversas insanidades do capitalismo,   aquilo que Marx chamava de destruição ou aniquilamento [ Vernichtung ]  criativa/o:  a destruição sistemática da riqueza  para que se abra espaço  para a criação de nova riqueza  e a reconfiguração da ordem econômica.  Tem gente que acha lindo .  As fotos são - na minha opinião - lindas não só pela composição e jogo de luz e cores e tal mas porque uma ruína assim nos fala de uma morte íntima e monumental daquele momento em que um passado reconhecível começa a fazer parte da história, quando de repente a nossa própria vida  vira também matéria de arqueologia e as coisas que vimos construírem  pirâmides em ruínas. É na morte que as pedras  que a gente achava mortas revelam-se, paradoxalmente, vidas.

Poesia: 31 Caminhos de Hilda Hilst

"O sinuoso caminho que persigo: um desejo Sem dono, um adorar-te vívido mas livre." "Há o caminhar um descaminho, um arrastar-se Em direção aos ventos, aos açoites E um único extraordinário turbilhão." "Passeio meu caminho de pedra, leite e pêlo." "Como se o sol e o rosto caminhassem Porque vinha de um a luz do outro." "De grossos muros, de folhas machucadas É que caminham as gentes pelas ruas." "Perco meu passo nos caminhos de terra E de Dionísio sigo a carne, a ebriedade." "Caminho junto às cercas, cuidadosa Na tarde de queimadas, tarde cega." "Vou caminhando tuas costas." "Que caminhadas! Que sangramento de passos!" "Sou muito pálida Porque muito caminhei Nas escurezas, no vício De perseguir uns falares teus indícios." "Vida da minha alma: Recaminhei casas e paisagens Buscando-me a mim, minha tua cara." ...

Sobre a parte do meu trabalho que eu amo - Parte 4

É maravilhosa a interpretação que Levi-Strauss dá às diferenças entre os mitos da descoberta do fogo entre os povos de cultura Tupi e aqueles de cultura Gê. Não só dando clareza às diferenças mas também às semelhanças, o texto é uma lição para quem trabalha com literatura.

Postal: Sobre a nossa nudez dos outros

Da série de Bonecas de Bellmer, 1934 “Todos andam inteiramente nus, as mulheres, porém, trajam uma tanga de forma triangular feita de folhas de palmeira bastante modesta , sendo maior do que um olho, mas menor do que uma orelha. Neste respeito o sentimento de vergonha, oriundo da nossa educação é inteiramente desconhecido por elles. Mas também não se póde contestar que já depois de uma curta estada no meio delles a sua nudez não dá mais na vista e pelo costume a falta de todas as vestimentas desapparece diante de nossos olhos. Nós tambem, já disse um philosopho, no final de contas, estamos nus dentro da nossa roupa.” Karl Von Steinen, "O rio Xingu", 1888 [ortografia e outras marcas como no original da Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro, Tomo IV, 3o Boletim]

Sobre a parte do meu trabalho que eu amo - Parte 3

Decobri que Levi-Strauss cita os trabalhos de Horace Banner e Schultz a partir das fontes brasileiras em que eles foram publicados primeiro, a Revista do Museu Paulista e a Revista de Antropologia da USP. Assim a históri a da onça e do índio e do fogo começa na língua dos Kayapo [e dos Krahôs] e passa do português para o francês. Teria Walnice ido direto às versões em português? Sim, ela mesmo deixa isso bem claro no seu famoso artigo:  "escolho de propósito, como se verá, a versão que Horace Banner publicou em seu trabalho 'Mitos dos índios Kayapó', intitulado 'O fogo da onça.'" Mas eu estou curioso mesmo para conhecer em português a versão que eu já encontrei em inglês.  Enquanto isso mais uma página da versão quadrinhos do Samuel:

Sobre a parte do meu trabalho que eu amo - Parte 2

Essa é a primeira página da história em quadrinhos que meu filho Samuel fez com base na versão que eu contei de memória da história da posse do fogo. Para ver a imagem melhor é preciso clicar em cima dela. O desenho menino foi baseado na observação d esta imagem . O tio do menino foi reduzida a um retângulo com a palavra "uncle" dentro.  

Sobre a parte do meu trabalho que eu amo - Parte 1

Alguém escuta um mito de índios Kayapó sobre a conquista do fogo. Esse alguém possivelmente transcreve o mito na língua original e logo traduz, provavelmente para a sua língua nativa [no caso o inglês]. Ainda não está claro para mim se esse alguém - Horace Banner - era um antropólogo ou um missionário. Seu livro tem um nome muito estranho - a princípio que tinha feito um erro na transcrição do título: On the trail of the Three Freds. Um antropólogo francês muito famoso traduz então esse mito Kayapó, entre outros coletados por várias pessoas diferentes. Provavelmente o antropólogo traduz o tal mito do inglês, talvez corroborando com o texto original, mas provavelmente não. Há uma chance de ele ter travado contato com o tal mito em português, já que Banner publicou os mitos que coletou em português em revistas acadêmicas em 1957 e 1961 - o livro do antropólogo francês é de 1964. Além disso o que o antropólogo francês faz no seu livro não se trata propriamente de uma tradução, mas ape...

Sobre a papoula da história

Desenho Meu: História Recente  Eric Hobsbawn uma vez disse que a história era a matéria prima das ideologias nacionalistas, etnocêntricas e fundamentalistas que têm assolado o planeta, assim como a papoula era a matéria prima da heroína. Sinceramente acho que o historiador estava subestimando consideravelmente as qualidades da heroína, uma bichinha danada de perigosa também mas bem mais agradável do que essas outras drogas malhadas que se espalham pelo planeta de tempos em tempos. Se o hedonismo e o escapismo abastecem o desejo pela heroína, o desejo pelo nacionalismo, o etnocentrismoe fundamentalismo é abastecido, imagino, por impulsos sado-masoquistas. Digamos que o nacionalismo, o etnocentrismo e o fundamentalismo que andam grassando por aí deveriam ser comparados mais adequadamente com um vício mais besta como o tabaco [me desculpem os amigos e amigas fumantes que me juram sentir mil prazeres com o cigarro, mas o tabagismo é um vício quase tão besta quando a cafeína]. A hi...

Poesia Mexicana: Xavier Villaurrutia

NOCTURNO DE LA ESTATUA A Agustín Lazo Soñar, soñar la noche, la calle, la escalera y el grito de la estatua desdoblando la esquina. Correr hacia la estatua y encontrar sólo el grito, querer tocar el grito y sólo hallar el eco, querer asir el eco y encontrar sólo el muro y correr hacia el muro y tocar un espejo. Hallar en el espejo la estatua asesinada, sacarla de la sangre de su sombra, vestirla en un cerrar de ojos, acariciarla como a una hermana imprevista y jugar con las fichas de sus dedos y contar a su oreja cien veces cien cien veces hasta oírla decir: «estoy muerta de sueño».