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Música: Muralha da China do Letuce

Muralha da China Eu te vejo em febres que me esqueci em redes que balancei Na esquina da vida Na Muralha da China Se desse pra escolher eu quero os cantos, os montes, os planos, os tantos. Eu quero o antes Se desse pra escolher Tudo fica suspenso no mundo Tudo fica mudo Tudo fica suspenso no mundo Tudo fica mudo porque Lá no fundo estamos indo e vindo eu e você Pois lá no fundo estamos indo e rindo eu e você

Diário de Pindorama: Odete Roitman, torcida organizada e o mar de lama

No Brasil somos todos profundamente formados por uma cultura de massa muito moralista e maniqueísta. Desde a infância recebemos regularmente todos doses cavalares de melodrama barato na televisão [onde o que separa as pessoas, sejam ricas ou pobres, é a completa "bondade" ou a completa "maldade" que elas têm no coração] e doses cavalares de rivalidade doentia no futebol [onde torcer contra o "inimigo" parece ser cada vez mais importante]. Não adianta não assistir televisão ou não ir ao estádio - somos cercados por parentes, amigos e colegas que articulam uma visão de mundo que se divide entre galãs cheios de boas intenções e canalhas traiçoeiros Em grande medida por causa disso, acho que não existe debate político de verdade no Brasil. Desde o fim da ditadura - quando não havia disposição nem liberdade para nenhum tipo de debate - simplesmente nos acusamos uns aos outros de ruindade, desonestidade e venalidade. Atribuímos hipocritamente a nós mes...

Diário da Babilônia: olhando para trás para entender o que vem pela frente

KKK na luta contra os católicos degenerados Reza a lenda que os Estados Unidos são um país aberto aos refugiados políticos [principalmente aqueles vindos dos países socialistas durante a Guerra Fria]. Reza a lenda que os Estados Unidos são também um país que precisa precaver-se contra os imigrantes "oportunistas", motivados apenas pelos seus próprios ganhos financeiros. Há desconfiança também quanto aos refugiados políticos, seja como "falsos exilados" [imigrantes oportunistas disfarçados de exilados] ou seja como potenciais "agentes estrangeiros infiltrados" - comunistas infiltrados durante a Guerra Fria, terroristas islâmicos infiltrados hoje. Mas reza a lenda de um país aberto, concebido fora das linhas étnicas/raciais/religiosas específicas que servem de base para a identidade dos europeus. [Em todos os países, suponho, "a lenda reza". Nos países que eu conheço é assim. Cada país é claro reza sua própria lenda, e todos rezam sempre piam...

Postal: Turner

Máscara mortuária de Turner feita por Thomas Woolner em 1851 "Ninguém acreditaria,  ao ver uma imagem da minha pessoa,  que fui eu que pintei esses quadros." JMW Turner Quadro de Turner com o qual convivi por nove anos. Perdi a conta das vezes em que me sentei na frente dele.

Faulkner e seus fósforos

Faulkner rindo da nossa cara em Los Angeles Faulkner usou essa cena lindíssima de um fósforo aceso no meio da noite mais de uma vez. Acho que a mais famosa é essa aí, de Luz em Agosto [ Light in August ], onde a coisa é quase um motive – volta e meia aparece o personagem principal acendendo um fósforo no meio do escuro: "So Christmas lit the cigarette and snapped the match toward the open door, watching the flame vanish in midair. Then he was listening for the light, trivial sound which the dead match would make when it struck the floor. And then it seemed to him that he heard it. Then it seemed to him, sitting on a cot in a dark room, that he was hearing a myriad sounds of no greater volume-- voices, murmurs, whispers, of trees, darkness, earth, people, his own voice, other voices evocative of names and times and places-- which he had been conscious of all his life without knowing it, which were his life, thinking God perhaps and me not knowing that too . He could see it ...

Música: "Freight Train" de Elizabeth Cotten

Elizabeth Cotten é uma dessas canhotas danadas que autodidaticamente acabam inventando coisas fantásticas "brigando" com instrumentos e objetos feitos para destros. Falando de forma egoísta, Elizabeth Cotten é também um desses talentos maravilhosos que a pobreza muitas vezes nos esconde e nos nega. Desde esse ponto de vista, a história dela é uma história feliz. Cotten passou 25 anos sem fazer música mas, trabalhando como babá numa casa de músicos, reencontrou o violão e tocou para seus patrões essa canção, "Freight Train" (Trem de Carga), que ela compôs quando tinha 11 anos.  Já imaginou uma menina de 11 anos cantando “when I’m dead and in my grave [...] Place the stones at my head and feet]!? A letra se encaixa na música de uma forma de certa forma infantil, mas a canção tem uma gravitas  incomum. Há uma maravilhosa economia de palavras: a conexão causal entre "Please, don't tell what train I'm on" e "They won't know what route I'...