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Leituras da semana

1. Ainda as crônicas de um jovem Machado de Assis editadas com notas por Lúcia Granja e Jefferson Cano, livro que terminei de ler: Ainda no quesito das críticas políticas incisivas que contradizem a versão do personagem público absenteísta e mesmo indiferente aos acontecimentos. No dia 24 de março de 1862 Machado de Assis bate duro no governo que levantava notícias falsas de uma revolta liberal. Seria aquilo que hoje se chama, por modismo, de fake news , como se isso não fosse parte do dia-a-dia político brasileiro desde o império, ou factoide, se preferirem. Apontando a absoluta falta de fontes e ainda no uso de uma apreensão de rotina de pólvora numa fabriqueta de fósforos, Machado de Assis não mede palavras: Insisto na minha apreciação: o ministério estéril, tacanho, rameraneiro, como é, busca a confiança imperial na prevenção de revoltas imaginárias. E o jogo é bonito e fino. Passando, como há de passar, o dia 25 sem demonstração alguma, é ao terror...

Leituras da semana

1. Crônicas de um jovem Machado de Assis: Impressiona a contundência dos comentários políticos, particularmente com os Conservadores então no poder. A ironia de Machado frequentemente deságua em ácido sarcasmo quando se refere a distribuição de prêmios e mordomias a nulidades no governo e no parlamento: O país real, esse é bom, revela os melhores instintos; mas o país oficial, esse é caricato e burlesco. A sátira de Swift nas suas engenhosas viagens cabe-nos perfeitamente. No que respeita à política nada temos a invejar ao reino de Liliput. (142) Impressiona também o relativo convencionalismo dos comentários sobre teatro e mesmo sobre outros eventos culturais do Rio de Janeiro de 1861. Apesar desse relativo convencionalismo que elogia o quão bem feito esse ou aquele aspecto de uma peça lhe pareceu, me chamou a atenção a defesa que Machado de Assis faz do apoio governamental ao teatro com a criação de uma Escola Normal de Teatro. Nos seus comentários da s...

Currais Novos e a velha chama

Visitei Currais Novos esta semana. Currais Novos fica há três horas de Natal, no sertão do Rio Grande do Norte. A UFRN tem lá um campus, simples, mas muito bem cuidado, atendendo alunos em geral das localidades ali em volta além da própria cidade. Fui lá dar um curso sobre Guimarães Rosa e Machado de Assis. Foi sensacional. Alunos interessados, participantes e inteligentes nos seus questionamentos. Acho que parte disso é fruto do trabalho de um colega de trabalho que leciona por lá, gaúcho da serra formado pela excelente pós-graduação da UFMG, onde tive o privilégio de fazer algumas matérias para completar o meu doutorado. Tenho certeza que a qualidade dos seus alunos e a atitude deles na sala são frutos da postura dele, séria e ao mesmo tempo verdadeiramente aberta, livre daquele ranço autoritário que aparecia em tantos [bons e maus] professores que eu tive no Brasil, ranço que encarava uma pergunta do aluno como um desafio à autoridade do professor e um comentário qualquer como ...

De Balbúrdia em Balbúrdia II

         Há alguns meses atrás, lá pelas cinco horas da tarde, eu dava minha última aula de uma sexta-feira insuportavelmente quente num terceiro ano do Ensino Médio esvaziado por muitos alunos faltosos. Não havia sinal de que a paz  estivesse por um tris, mas estava. Sem aviso prévio, um barulho de conversa e música no corredor da escola interrompeu minha linha de raciocínio. Pedi licença aos que tentavam me escutar dentro da sala e abri a porta para dizer com a voz bem empostada: - ow! Isso aqui é uma escola, estou tentando dar aula e quero silêncio e respeito! O problema foi que quando comecei a falar, eu não tinha tomado consciência nem de quantos, nem de quais alunos estavam envolvidos naquela, digamos assim, balbúrdia. O enunciado ainda se  desenrolava da minha língua a medida que eu me dava conta de que era contra muitos que eu dizia o que dizia, que seus rostos estampavam uma certa vitória prévia e que, sim!, competíamos espaço e finalidade na...

Poesia: Cavalos de Murilo Mendes

Foto minha: Cavalo na Janela Cavalos  Murilo Mendes Pela grande campina deserta passam os cavalos a galope. Aonde vão eles? Vão buscar a cabeça do delfim rolando na escadaria. Os cavalos nervosos sacodem no ar longas crinas azuis. Um segura nos dentes a branca atriz morta que retirou das águas, Outros levam mensagens do vento aos exploradores desaparecidos, Ou carregam trigo para as populações abandonadas pelos chefes. Os finos cavalos azuis relincham para os aviões E batem a terra dura com os cascos reluzentes. São os restos de uma antiga raça companheira do homem Que os vão substituir pelos cavalos mecânicos E atirá-los ao abismo da história. Os impacientes cavalos azuis fecham a curva do horizonte, Despertando clarins na manhã.