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Pesadelos Paralelos

 O neo-liberalismo é a ideia de que o mercado capitalista governado pelo lucro deve tomar conta de todas as esferas de atuação humana do mundo: da comunicação, da saúde, dos relacionamentos amorosos, dos transportes, da educação, da geração de energia, da segurança e até da guerra. E assim o capital segue se expandindo livremente do átomo ao espaço sideral com aquela fúria cega que lhe é particular.  Vejam como o neo-liberalismo tem afetado profundamente os conflitos armados no mundo.  Tanto Estados Unidos como Rússia (que poderíamos chamar de países que estão na ponta de lança do assunto) têm usado e abusado de forças mercenárias em seus combates. Não são mercenários contratados para serem incorporados ao exército regular. São corporações, empresas que contratam, treinam, armam, transportam e comandam mercenários mediante contratos. É como um par de espelhos fantasmagóricos: com os Estados Unidos a Blackwater fez e desfez, por exemplo, na Somália, no Iraque e no Afeganis...

Diário da Babilônia

 Entre as heranças malditas do governo de George W. Bush está uma particularmente embaraçosa: há uma boa chance de que os culpados pelos ataques terroristas do início deste século morrerão presos num limbo legal absurdo. Semana passada o juiz da corte militar considerou as confissão de uma dessas pessoas inadmissível no seu julgamento. Como muitos outros casos daquele período, o acusado passou quatro anos comendo o pão que o diabo amassou em "prisões secretas" da CIA sendo torturado. Depois ele foi mandado para Guantánamo, onde equipes do FBI interrogaram o homem acusado de ter planejado um atentado a um navio estadunidense no Iêmen de acordo com os parâmetros do estado de direito. Só que o juiz não aceitou a confissão feita nesse segundo período como admissível no caso, mesmo porque o acusado recuou na confissão em 2007. 

RIP José Murilo de Carvalho

 Hoje foi publicada excelente entrevista a José Murilo de Carvalho feita por Rogério Tavares. Eis dois trechos: "Quando veio (o golpe militar de) 1964, a sensação que eu tive foi de perplexidade. Eu me lembro de a gente andar por Belo Horizonte, no dia 1º de abril, perplexo. Não é que as pessoas não esperassem o golpe. Havia uma expectativa. Expectativa havia. Pessoas que falavam na viabilidade do golpe. Mas ninguém previu o tipo de golpe que foi dado. Isso é... Os militares tomaram o poder e ficaram no poder. Isso era inédito no Brasil. Em 1930 não foi assim, em 1937 não foi assim, em 1945 não foi assim, em 1954 não foi assim. Aí comecei a me perguntar: 'Mas por que ninguém previu isso?' Como aluno eu comecei (a pensar): ‘Não, então eu vou ver que tipo de gente é essa, o que aconteceu no Exército que fez eles mudassem de posição em relação à intervenção política’. E aí comecei a estudar os militares. O Boris Fausto também havia me pedido um estudo sobre militares. No CPDO...

Sobre o Santuário de Faulkner

  Depois de escrever uma obra-prima que acabou vendendo quase nada ( The Sound and The Fury ), casado, dono de uma casa de fazenda caindo aos pedaços e duro de dar dó, Faulkner resolveu chutar o balde:  Comecei a pensar em um livro em termos de dinheiro… tentei adivinhar o que uma pessoa no Mississippi acha que são os assuntos do momento, escolhi os que me pareciam os mais prováveis e inventei uma história, a mais escabrosa que eu conseguisse imaginar.  Conta a lenda que, quando leu o primeiro manuscrito de Sanctuary , o editor Harrison Smith teria dito “pelo amor de Deus, eu não posso publicar isso. Vamos acabar os dois sendo presos!” Não era a primeira nem a última vez em que Faulkner tinha um manuscrito seu rejeitado. O escritor simplesmente deu de ombros e foi escrever As I Lay Dying nos intervalos quando trabalhava alimentando de carvão a caldeira da Universidade do Mississippi.   Qual foi a surpresa de Faulkner quando um tempo depois recebeu de Harrison S...

Commonplace Book - Maio 2023

"O futuro só é escuro quando visto de fora. De um salto para o futuro - e ele EXPLODE em luz !"  Mina Löwy, 1914 "O termo "mahatma" fede até arder as narinas - eu não sou um Deus; sou um ser humano." Gandhi "Tentar entender o mundo digital só estudando o Facebook ou o Google é querer entender uma obra arquitetônica estudando só os frescos pintados nas paredes." Resenhista do New York Times  falando sobre livro sobre a produção de chips de computador, atualmente concentrada em Taiwan [40%]

A música não acabou 1: Duas canções maravilhosas da banda Paramore

Em "Ain't it Fun" baixou o espírito do Michael Jackson mais roqueiro de Thriller  na banda Paramore. Um irônico convite à vida adulta, traduzida como viver o mundo real world, estar sozinho, ser um de nós e não poder voltar chorando para o colo da mamãe, com direito a um coro gospel na parte final.  Na mais recente "This is Why" baixou o espírito do Talking Heads. De novo muita ironia para tratar da vontade de nunca mais sair de casa depois da pandemia por causa da chuva de opiniões e convicções descabeladas que inundam a gente todos os dias. 

Poesia meu - "Atormentações"

 

Diário da Babilônia: Um conto de duas cidades

 Existe uma Monterey [assim, com um r só] na Califórnia. É uma cidade com um passado industrial já bem remoto, hoje aprazível. As fábricas foram transformadas em hotéis ou galerias de lojas e o aluguel de um apartamento de um quarto não sai por menos de dois mil dólares por mês. Uns 12 quilômetros ao norte de Monterey está uma comunidade bem menos conhecida: o Vale do Pájaro, construída próxima a um rio de mesmo nome. Com o dinheiro do aluguel de um apartamento de um quarto em Monterey dá para alugar uma casa inteira em Pájaro. Lá moram os cozinheiros, camareiros, faxineiros, porteiros, caixas, atendentes, jardineiros, pedreiros, carpinteiros e pintores de paredes que trabalham em Monterey além de trabalhadores das várias fazendas da área. Praticamente quase todo mundo fala espanhol em Pájaro.  Desde de os anos 60 todo mundo sabe que o sistema de barragens do rio não é adequado, mas não há "vontade política" de investir nesse terceiro mundo do primeiro mundo entre os...

Notas para livros impossíveis

 

Minhas Leituras: Dodie Bellamy

 Em um ensaio do livro Bee Reaved  [que eu li março do ano passado], a escritora Dodie Bellamy faz uma advertência importante para qualquer escritor brasileiro no século XXI: "Se eu fingir que o que eu escrevo se posiciona fora do vexame que é os Estados Unidos, que o meu ego-id-superego não é impulsionado por esse vexame, eu não estou apenas mentindo para os meus leitores, eu estou mentindo para mim mesmo." [19-20] As redes sociais exercem uma pressão constante para que nos coloquemos nesse lugar supostamente superior, além e portanto fora, daquilo que criticamos. Isso acontece porque as redes sociais nos requisitam a fazer o papel de juízes de tudo e de todos, necessariamente gostando ou desgostando de tudo. Essa postura narcisista em si mesma já é muito ruim para a inteligência de qualquer pessoa, mas é particularmente ruim para um escritor. No mínimo deveríamos, por exemplo, ao fazer análises sobre o que é ou deixa ser o Brasil, usar a primeira pessoa do plural. Nossas fa...

Diário de Babylon no Natal - "É o jingo!"

 1. Aqui em casa, no meio do sertão de Oklahoma, costumo dizer umas dez vezes por dia, "é o jingo" como sinal das festas de fim de ano. 2. O troféu Herodes desse Natal vai para o governador do Texas que mandou na noite do dia 25 mais de cem homens, mulheres e crianças que tentaram passar pela fronteira pelo seu estado para a porta da vice-presidente Kamala Harris enquanto os termômetros marcaram -7oC em Washington DC. 3. Aqui em Norman a rapaziada do Norman  Care-A-Vans se mobilizou para dar teto a todos os sem casa da cidade antes que o frio literalmente de matar chegasse. Destaque natalino positivo para eles - digamos que seja o nosso troféu manjedoura - para o dono do modesto Travelodge, hotel da cidade que liberou mais de vinte quartos para acomodar os miseráveis da cidade durante o Natal. Minha Ti também merece menção especialíssima porque participou do esforço de levar comida e auxílio ao sem-casa! 4. Nossa cidade é bacana demais, mas nem tudo são rosas. Temos vereador...

Tradução: Emily Dickinson

  Recentemente não sei quem voltou pela enésima vez ao tema de que haveria escritores demais e leitores de menos hoje em dia. Disse a tal pessoa que deveríamos escrever menos. Logo pensei em Emily Dickinson, que pubicou menos de uma dúzia de poemas em vida e escreveu mais de 1.800. Estes aqui, chamados de "sobras"[scraps] ou "maravilhosos nadas" [gorgeous nothings], foram escritos no verso de envelopes e são pequenos tesouros. Minha rápida e [como sempre no caso de Dickinson] insuficiente tradução: Este é o livro:

Música

A dupla caipira contemporânea Gillian Welch and David Rawlings se apresenta normalmente assim: dois violões ou violão e banjo e duas vozes.  Como toda a boa canção parece que ela fala comigo, apesar da história sobre um lavrador miserável e sua mula amada dando duro o dia inteiro não ter nada a ver comigo. "Quando o dia encomprida como ele tem encompridado esses dias" eu também me lembro do refrão dessa canção tão simples e tão tocante: "esses tempos difíceis não vão tomar conta da minha cabeça". O lavrador perdeu sua mula e já não canta mais, diz a canção, então chegou a hora de outros vozes humildes, exaustas, vivendo de vinho e lágrimas pegar os instrumentos e cantar essa canção e dançar até "tirar a poeira das rachaduras do chão".   Hard Times Gillian Welch and David Rawling There was a camp town man.  Used to plow and sing 'n he loved that mule and the mule loved him When the day got long as it does about now I'd hear him singing to his mule c...

Poesia da Guiné-Bissau: Odete Semedo

As minhas lágrimas   Odete Semedo As lágrimas  escapuliram  esboçaram  no chão do meu rosto  um fio de mágoa profunda  queimando  bem fundo   Nenhum grito...  nenhum gemido...  palavra nenhuma  letra alguma  jamais traduziu  tanto sofrer  os olhos sentiram  a minha gente viu  E eu?  E eu?  Odete Semedo, No fundo do canto. Belo Horizonte: Nandyala, 2007.

Paulo Freire

Colagem minha: "Cursed Century" Paulo Freire em entrevista de 1993: "Um terceiro risco que estamos correndo no começo do milênio em face de todo esse desarranjo histórico é exatamente o poder do neofascismo, que se assanha sobretudo na Europa, mas também no Terceiro Mundo (seja o surto de neonazismo em São Paulo, essas ameaças de fuzilar nordestinos, esse racismo de direita). É uma ameaça assustadora, que é de natureza material mas sobretudo espiritual, ideológica - o que não se via anteriormente. O educador não pode estar distante dessa preocupação. Isso tem que estar sendo discutido nas classes primárias, com linguagem de menino." A entrevista está aqui .

Lista de 10 coisas que enchem o meu saco e passam desapercebido [eu acho]:

1. A forma como jornais na TV e no rádio fabricam um português pseudo-culto [que eu chamaria de "português curto"], e a maneira como esse monstrengo cheio de clichês, empréstimos inúteis do inglês, erros de concordância se espalha entre a gente que consome esse jornalismo, gente que geralmente se acham o supra-sumo do mundo - cem mil vezes QUALQUER outro português; 2.  A maneira como certas pessoas acham que eventos como o Oscar ou o Nobel tratam de qualidades artísticas e realmente escolhem os melhores do "mundo" [que mundo?]; 3. Os periódicos lamentos por uma suposta perda de qualidade da cultura em geral ou na música popular em particular, e a expectativa de que os meios de comunicação de massa funcionassem de acordo com critérios estéticos como guias iluminadores das massas; 4. A maneira como professores em geral são achincalhados e desvalorizados pelo governo, pela polícia, pelos pais, pelos administradores e pelos alunos enquanto algumas pessoas ficam fazendo ...
"Um artista faz algo novo de forma que outra pessoa faça daquilo algo bonitinho."  Pablo Picasso "Dizem que as crianças fingem que as coisas que elas amam tem vida. Bobagem - elas têm vida." Mary Butts "O colonizado é uma pessoa perseguida cujo sonho mais constante é tornar-se um perseguidor." Franz Fanon "História é ironia em movimento." E. M. Cioran
 ˙osíɐɹɐd ɯn ɹǝs ǝʌǝp oxᴉɐq ɐɹɐd ɐçǝqɐɔ ǝp opunɯ o

Tradução minha: Emerson

 

Poesia minha: Contabilidade Parte 2