Skip to main content

Masturbação Mental Também é Cultura 2


Às vezes me parece que o mundo dos adultos se divide cada vez mais entre aqueles que adoram as crianças como se fossem semi-deuses ou seres humanos superiores e aqueles outros que acham as crianças estúpidas e simplesmente insuportáveis.

Eu tenho um filho de 7 anos que eu admiro sem reservas nem senso crítico e, portanto, pertenceria certamente ao primeiro grupo, mas tenho muitas reservas quanto à idealização da infância. A infância é fascinante, rica, livre de algumas amarras das quais os adultos padecem, mas daí a transformar isso em uma bondade inata... Acho um exagero quando as pessoas acham que qualquer criança é sempre boa simplesmente porque é pura e inocente – puro ou impuro, inocente ou experiente, o ser humano é um ser freqüentemente vil [e ocasionalmente maravilhoso] e as crianças são seres humanos!

Um exemplo recente do noticiário: um menino de 7 anos invadiu um zoológico e em 35 minutos matou brutalmente vários animais no centro de répteis de Alice Springs na Austrália. O garoto alimentou um crocodilo com diversos animais vivos que jogava na jaula do réptil. Dez répteis, uma tartaruga, quatros lagartos de língua azul, dois dragões-barbudos, dois diabos-espinhosos e um iguana de 20 anos e de 1,8 metro foram jogados para o crocodilo de 200 quilos. Outros três lagartos foram encontrados mortos em seus viveiros. O menino foi interrogado pela polícia, mas se manteve calado. Os policiais afirmaram que não têm a menor idéia do que pode ter motivado o ataque. As imagens do circuito interno de televisão do centro mostram o garoto sorrindo enquanto assistia o crocodilo atacar um lagarto de língua azul.

E os seres humanos ainda têm a cara de pau de usar a palavra réptil como termo ofensivo…

Comments

Fiquei fascinada com essa história. Nem quis saber o contexto: qualquer explicação reduziria o sentido da ação pura.

Ah: você está acompanhando os textos sobre escola no blog do M.Coelho?

Deve ser por isso que a Folha hoje fala muito sobre escolas (na Revista, no Mais).

É um assunto que me interessa muito, e gosto do modo direto com que ele relata as coisas no blog.
Eu tbm gosto muito do blogue do Marcelo Coelho, mesmo se não concordo com ele, acho que ele escreve claro e creio que jogue limpo - duas coisas que se combinam bem em jornalismo.

Popular posts from this blog

Protestantes e evangélicos no Brasil

1.      O crescimento dos protestantes no Brasil é realmente impressionante, saindo de uma pequena minoria para quase um quarto da população em 30 anos: 1980: 6,6% 1991: 9% 2000: 15,4%, 26,2 milhões 2010: 22,2%, 42,3 milhões   Há mais evangélicos no Brasil do que nos Estados Unidos: são 22,37 milhões da população e mais ou menos a metade desses pertencem à mesma igreja.  Você sabe qual é? 2.      Costuma-se, por ignorância ou má vontade, a dar um destaque exagerado a Igreja Universal do Reino de Deus e ao seu líder, Edir Macedo. A IURD nunca representou mais que 15% dos evangélicos e menos de 10% dos protestantes como um todo. Além disso, a IURD diminuiu seu número de fiéis   nos últimos 10 anos de acordo com o censo do IBGE, ao contrário de outras denominações, que já eram bem maiores. 3.      Os jornalistas dos jornalões, acostumados com a rígida hierarquia inst...

Poema meu: Saudades da Aldeia desde New Haven

Todas as cartas de amor são Ridículas. Álvaro Campos O Tietê é mais sujo que o ribeirão que corre minha aldeia, mas o Tietê não é mais sujo que o ribeirão que corre minha aldeia porque não corre minha aldeia. Poucos sabem para onde vai e donde vem o ribeirão da minha aldeia, 
 que pertence a menos gente 
 mas nem por isso é mais livre ou menos sujo. O ribeirão da minha aldeia 
 foi sepultado num túmulo de pedra para não ferir os olhos nem molhar os inventários da implacável boa gente da minha aldeia, mas, para aqueles que vêem em tudo o que lá não está, 
 a memória é o que há para além do riberão da minha aldeia e é a fortuna daqueles que a sabem encontrar. Não penso em mais nada na miséria desse inverno gelado estou agora de novo em pé sobre o ribeirão da minha aldeia.

Os godos e o engodo racial em Machado de Assis e Lima Barreto

Muita gente acha que questões raciais estão ausentes da literatura brasileira mais antiga porque não sabe ver. Trago aqui dois exemplos clássicos, de mais de cem anos, de discussão certeira sobre as falácias do embranquecimento e da valorização da cor branca no Brasil. Os dois exemplos se apoiam num mesmo termo racial, usado de modo sarcástico, em Machado de Assis e em Lima Barreto: "godo", que se refere às tribos bárbaras [ostrogodos e visigodos] que invadiram e tomado entre partes do império romano como a península ibérica e a Itália, vira um sinônimo irônico para branco nos dois textos. Machado de Assis com a ironia fina peculiar lista entre as "moléstias mentais" diagnosticadas por Simão Bacamarte em "O alienista"não apenas a mania do embranquecimento, mas também a hipócrita cegueira a respeito dessa mania: "Alguns cronistas crêem que Simão Bacamarte nem sempre procedia com lisura, e citam em abono da afirmação (que não sei se pode ser aceita...