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Posts

Diário da Babilônia: eleições presidenciais de 2016, parte 2

Arte Minha: O Senhor é o meu pastor 4. Chegam dois candidatos à campanha presidencial. De um lado, um sujeito que traz em seu currículo seis falências, sete trocas de partido político e 3.350 disputas na justiça. Esse sujeito proporciona um ciclo interminável de discursos absurdos – colagens de frases soltas e afirmações ao mesmo tempo vagas e esdruxulas – em comícios grotescos cheios de gente que grita coisas como “Lock her up” [bota ela na cadeia] e ”Hang that Bitch!” [enforca aquela vaca]. Do outro lado, uma candidata que é uma política experiente “normal” em tudo o que isso poderia representar de ruim [dando limites claros para a sua ação] como de bom [com um currículo de atuação pública concreta e uma carreira política respeitáveis]. Quase que num reflexo do sistema bipartidário, insiste-se na imprensa num paralelismo entre os dois candidatos, tão desiguais. Discute-se, por exemplo, como equivalentes uma política externa detalhada por uma pessoa que dirigiu a política ext...

Diário da Babilônia: Eleições presidenciais de 2016, parte 1

Foto minha: Fábrica abandonada   1. Um país atravessa complexas mudanças econômicas que produzem uma brutal concentração de renda com a combinação de um quase desaparecimento de empregos na indústria [eliminados por máquinas automatizadas ou exportados para outros países com mão-de-obra mais barata], um longo processo de redução na taxação do capital, uma educação pública dilapidada, uma saúde pública inexistente e conflitos militares de altíssimo custo que se arrastam por quinze anos sem qualquer perspectiva de resolução. Não é de se espantar que nesse país viva uma grande massa de gente muitíssimo amargurada com toda essa situação, principalmente quando a situação significa passar pela dura experiência concreta do empobrecimento.   Foto minha: Outra fábrica abandonada   2. Dentro dessa massa de gente tentando se segurar para não cair na pobreza, um grupo considerável que recebe diariamente, via redes sociais, rádio ou televisão, uma dose constante de um agress...

Notícias do Novo Mundo

Com um mercado muito pequeno e empobrecido, é raro no Brasil termos edições anotadas de obras literárias. Hoje em dia há gente preparada nas universidades para fazer esse tipo de trabalho sobre muitos autores importantes, e a internet oferece, pelo menos potencialmente, oportunidades para viabilizar isso. Um projeto muito interessante que busca contornar as limitações reais do mercado do livro de papel [que custa caro para imprimir, armazenar e distribuir] foi feito com a obra de Machado de Assis . Claro que Machado de Assis oferece a vantagem de pertencer ao domínio público e assim dispensar tretas cabeludas com famílias e direitos autorais. Com essas coisas, pelo jeito, não há internet que possa. Aliás, o fechamento da internet, daquele campo meio bagunçado em que cada um  armava uma barraquinha de camelô ou um palco mambembe num blogue ou num canal próprio de iutubio acabou faz tempo. Tudo [ou quase tudo] passa agora pelos peneirões do gúgol, feicibuque e compania limitadíssima...

Sobre políticas públicas para a leitura e os livros

Provocado por um post da minha amiga de feicibuque Denise Bottman, comecei a pensar sobre as mazelas da indústria do livro no Brasil. Na atual conjuntura política a gente só pode mesmo conversar sobre essas coisas no nível mais hipotético possível, mas tenho uma modestíssima opinião, muito incerta e precária: um papel do estado [na esfera federal, estadual ou municipal] na questão do livro deveria estar concentrado em manter uma biblioteca pública com acervo "em dia" em cada cidade mais de 200 mil habitantes e um número proporcional a esse nas cidades maiores [2 milhões=10 bibliotecas]. Isso teria que ser um primeiro objetivo, pois o número não é nada bom. O dinheiro teria que vir preferencialmente dos três níveis. Veja bem, não é uma biblioteca para guardar tudo o que se compra para todo o sempre amém; como as bibliotecas municipais de qualquer porcariazinha de cidade aqui nos EUA, seriam bibliotecas que de tempos em tempos vendem parte do seu acervo para fazer espaço para n...

Sobre Música, Máquinas e Mãos

Era uma vez um jovem compositor chamado Steve Reich brincando com fitas magnéticas no começo dos anos 60. Ele começa a tocar duas ao mesmo tempo e se maravilha com as pequenas diferenças entre duas gravações de uma voz humana, pequenos desencontros que crescem e eventualmente se reencontram em estranhas abstrações sonoras, hipnóticas, maquinais. Ele chama esses micro-encontros/desencontros de "phasing". "Come Out" é uma das composições mais famosas do período, de 1966: Os anos passam e Reich parece que começa a se sentir sufocado no meio de tanta máquina e tanto fio e tanta fita. Ele começa então a compor música para instrumentos convencionais operados por músicos, mas com a ideia "... transformar as fantasias da máquina em eventos humanos" [o caderno de notas de Steve Reich]. Daí vem as "Fases" como a que está no vídeo abaixo. "Violin Fase" é de 1967: Reich passou um tempo longe das máquinas e mesmo quando voltou a elas, o fez ...

Big Food - A democracia no século XXI

Eles atendem pelo singelo nome de “Big Food”, uma indústria que monopoliza toda a comida que é plantada, criada, colhida, abatida, processada, empacotada e vendida nos Estados Unidos. Na base “Big Ag”: basicamente um grupo seleto de produtores gigantescos de milho e soja [e outras “commodities”] mamando alegremente em subsídios generosos do governo americano e produtores de todo o aparato de sementes e agrotóxicos na base dessa indústria. Big Ag ganha uma grana preta fornecendo ração para Big Meat, outro grupo seleto que “produz” milhões de cabeças de gado, galinhas e porcos, enfia eles todos dentro de fábricas/matadouros gigantescos e empacota milhões e milhões de quilos de carne e outras coisas carnívoras. Aí vem mais um grupo igualmente seleto de empresas que processam com toda a ingenuidade química que produz sabores, cores, texturas e sabores de todos os tipos, empacotam e rotulam o que Big Ag e Big Meat produzem. Basicamente o milho vira xarope açucarado, a soja vira...