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Uma janela para o meu ofício: escrevendo sobre Machado de Assis

Em dias difíceis como os desse abril que passou e desse maio que está custando a passar, tive momentos prazeirosos de paz com Machado de Assis. Estar com Machado é, por tabela, estar com meu finado pai, que era um grande admirador de Machado e é uma sombra imensa na minha vida. Não estive esses dias com Machado de Assis como um todo ou Machado em geral; mas sim com um conto específico de Machado: " A causa secreta ". Encontrei o levantamento muito útil e bem feito por  Mauro Rosso sobre os contos de Machado de Assis e recomendo o trabalho dele como primeiro passo para qualquer um que quiser trabalhar com qualquer uma das histórias do Machado. Desenterrei então a primeira versão do conto na primeira página do jornal Gazeta de Notícias em 1885, num sábado primeiro de agosto: Cortesia da hemeroteca da Biblioteca Nacional Desenterrei depois a primeira versão em livro, de 1896, e encontrei algumas revisões muito interessantes: Investiguei com prazer as datas ...

Para não dizer que não falei do dia das mães

A tradição narrativa ocidental é implacável com as mulheres e todas as personagens femininas de grande parte da produção narrativa (em especial aquela ligada à indústria cultural) ainda se enquadra em três rígidos grupos: 1. A virgem [que na produção contemporânea pode não ser mais anatomicamente virgem], objeto de "desejo elevado" dos personagens masculinos, que como pais precisam defender e como pretendentes precisam cortejar esse tipo. Hoje ela pode até andar fazendo faculdade, trabalhando e coisa e tal, mas continua uma mulher "séria" ciente do "seu valor" e em busca do pretendente certo. Usando as figuras do velho conto de fadas, o maior desafio da virgem ainda é saber separar os "lobos maus" e "vovós pervertidas" dos "caçadores" e "mamãezinha é um anjo bom da sua vida": não se misturam com homens e mulheres "que não prestam" e buscar a boa companhia dos homens e mulheres "direitos".   R...

Dia das mães: E la nave va

É dia das mães mas eu não quero ficar de cafonagens. Então fico com uma pequena memória especial. Minha mãe me levava de vez em quando para o há muito finado Cine Pathé. Ali assistimos juntos, sem pipoca nem refrigerante, filmes como E la nave va .

Poesia minha: Um par de mitos

Colagem minha: Um par de mitos Um par de mitos Eis aqui meu novo mito: Escrever é cantar e dançar por dentro. Tudo distante, tudo deserto, tudo cantado, tudo perfeito: nada mais a fazer senão repetir. Mas a cada novo respiro, um poema e um novo intercâmbio com o mundo. Somos animais de suspiros, animais musicais que amam a dança e se recriam no canto. E escrever é cantar e dançar por dentro. Eis meu mito mais antigo: Havia um tempo antes de todos nós, quando a terra girava em torno do sol, que parecia cruzar o céu de leste a oeste iluminando tudo mais que já existia e quando a lua aparecia e sumia do céu de noite, justo com o inchar e desinchar das marés silenciosas. E os animais nasciam, viviam e morriam na mais pura e inocente injustiça, e ninguém dava pela falta de absolutamente nada. Tudo distante, tudo deserto, tudo cantado, tudo perfeito: nada mais a fazer senão assistir descarnado a crueza e o sofrimento desse deserto...

Recordar é viver ou o que o Brasil pode ter a ver com o tal "Cinco de Mayo"

O Cinco de Mayo virou um grande evento nos Estados Unidos, mais ou menos como se fosse um St. Patrick's Day para os Chicanos. Suponho que como andam importando o Halloween e mesmo St. Patrick's para o Brasil, não tardam a importar o Cinco de Mayo também - os restaurantes de comida supostamente mexicana que eu conheci em Belo Horizonte eram "puro gringo", não digo tipo Taco Bell mas pelo menos como a cadeia Chili's. O fato é que as pessoas gostam de festas, gostam de se divertir, gostam de arrumar desculpas para entornar cerveja preta ou tequila e dançar e se agarrar e não vou ser eu que vou ficar bancando o estraga-prazeres. Deixa o povo brincar. Mas não custa aproveitar a data para uma sessão  proverbial de "recordar é viver" e para aprender um pouquinho sobre história mexicana. Para quem não sabe, depois de ser esculachado pelos Estados Unidos e perder metade do seu território antes de completar trinta anos de conturbada   independência, o porto...

Música feita nos Estados Unidos da América Latina: Miércoles

Duas observações para você ler enquanto escuta a canção abaixo: 1.      Uma vocalista Mexicana pop com uma discreta carreira como atriz coadjuvante em novelas, um guitarrista porto-riquenho virtuoso nascido nos Estados Unidos e um contra-baixista filho de mexicanos nascido nos Estados Unidos. Se existe uma coisa chamada América Latina, ela definitvamente não termina mais na fila da imigração nos Estados Unidos da América. 2.     Ximena Sariñana, Omar Rodríguez López e Aaron Cruz Bravo lançaram um único álbum [na minha opinião] muito bom: Ciencia de los inútiles , em 2010. Não tocou no Sabadão do Fostão nem na caçarola do Hulk, nem fez parte da trilha sonora da novela Mulheres de Plástico, nem nos seus equivalentes mexicanos, portoriquenhos ou estadounidenses.   Também não tocou nem na abertura nem dos créditos do Homem Abelha 5, de Melosos e Atrozes 4, de Hora do Espelho 3 ou no “grande” filme do Oscar de 2010 que ninguém mais sabe qual foi. N...