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O Brasil de luto em festa e os "muchachitos del 'exacto'"

Uma das cenas finais de "El día del derrumbe" conto magistral de Juan Rulfo, no qual o funéreo e o político também saíram para dançar. O governador vem visitar uma cidade arrasada por um terremoto e o grande banquete degringola de um discurso pomposo numa pancadaria épica:    Lo que dijo después no me lo aprendí porque la bulla que se soltó en las mesas de atrás creció y se volvió retedifícil conseguir lo que él siguió diciendo.         —Es muy cierto, Melitón. Aquello estuvo de haberse visto. Con eso les digo todo. Y es que el mismo sujeto de la comitiva se puso a gritar otra vez: “¡Exacto! ¡Exacto!”, con un chillidos que se oían hasta la calle. Y cuando lo quisieron callar saco la la pistola y comenzó a darle de chacamotas por encima de su cabeza mientras la descargaba contra el techo. Y la gente que estaba allí de mirona echó a correr a la hora de los balazos. Y tumbó las mesas en la caída que llevaba y se oyó el rompedero de platos ...

Postais do Inferno: Lima Barreto e a polícia torquemadesca e otomana

O trecho é de um texto em que Lima Barreto discute a situação dos pescadores de alto-mar originários de Póvoa em Portugal, que estavam sendo compelidos a naturalizar-se, mas fala de um problema ainda vigente 100 anos depois. "Seja qual for a emergência, pouco a pouco, não só nos Estados longínquos, até mesmo nos mais adiantados, e no próprio Rio de Janeiro, capital da República, a autoridade mais modesta e mais transitória que seja procura abandonar os meios estabelecidos em lei e recorre à violência, ao chanfalho, ao chicote, ao cano de borracha, à solitária a pão e água, e outros processos torquemadescos e otomanos." Lima Barreto, "A questão dos Poveiros"  

Recordar é viver: o que deveria ser leitura nas escolas secundárias no Brasil

Nas escolas públicas, cheias de rapazes e moças negros que ouviram mais de uma vez que não deveriam "se iludir" e procurar, na melhor das hipóteses, completar o segundo grau e arrumar um emprego logo, devia-se estudar, por exemplo, a carta que o jurista abolicionista Luiz Gama escreveu a Lúcio de Mendonça em 1880, dois anos antes de morrer. Eis um trecho: "Sou filho natural de uma negra africana livre da Costa Mina [Nagô de nação] de nome Luiza Mahin pagã que sempre recusou o batismo e a doutrina cristã. Luiz Gama  Minhã mãe era de baixa estatura magra bonita a cor era de um preto retinto e sem lustro tinha os dentes alvíssimos como a neve era muito altiva geniosa, insofrida e vingativa. Dava-se ao comércio - era quitandeira muito laboriosa e mais de uma vez na Bahia foi presa como suspeita de envolver-se em planos de insurreições de escravos que não tiveram efeito. Era dotada de atividade. Em 1837, depois da revolução do Dr. Sabino ...

Postal: Aduana

Remedio Varos, "Tránsito en espiral", 1962 “El que ama de veras la lengua castellana  tiene que amar a la vez la lengua portuguesa.  Ambas se fertilizam la una por la otra,  y mutuamente se acarician y halagan.” Alfonso Reyes, “Aduana lingüística”

Prosa minha: Saudades

Trilha sonora para a leitura: Saudades Todas as cartas de amor são Ridículas.             Álvaro Campos O Arrudas, por exemplo, é muito mais sujo que o ribeirão que corre minha aldeia. Conheci um sujeito que caiu dentro do Arrudas e ficou meses tratando tifo e outras coisas. Mas o Arrudas para mim não é mais sujo que o ribeirão que corre minha aldeia simplesmente porque não corre minha aldeia. Poucos sabem pronde vai e donde vem o ribeirão da minha aldeia e poucos já deitaram (como eu) os pés descalços na água gelada do ribeirão da minha aldeia. Ele pertence a menos gente e acho que nunca foi cantado por ninguém. Nem por isso é menos sujo. Foto minha: Crateras O ribeirão da minha aldeia está agora quase todo sepultado debaixo do asfalto para não ferir o direito de ir e vir pelas duas artéreas de asfalto da minha aldeia (chamadas, naturalmente, do ouro, a que sobe, e chumbo, a que desce). Sepultado d...

Obituário: Nicolau Sevcenko

Essa aí em cima é a abertura de "Lima Barreto, a consciência sob assédio". Ler Sevcenko foi um prazer que devo ao meu pai. Quem não fica com vontade de continuar a ler o texto acima? Pois leiam, é a melhor homenagem que alguém pode fazer a um escritor morto.

Postal: Andando na África Brasileira, Andando em New Haven

Foto minho: Andando em New Haven andando afobado,  a neném,  a passo de cágado,  banzando,  cambaleiando,  candongando,  de sunga,  de tanga,  empigaitado,  gingando,  macambúzio,  marombando,  na camueca,  na gandaia,  no passo do jocotó,  pelo mangue,  sarapantado,  se encachaçando,  zonzo. Obs. Expressões encontradas na página 205 do livro Africanos no Brasil de Nelson de Senna

Vozes de Tenochtitlán

Biblioteca pessoal de Alfonso Reyes na sua casa na Cidade do México, conhecida como "Capilla Alfonsina" O Octavio Paz ensaísta é um malabarista incessante de paradoxos que nos piores momentos parece querer nos convencer do impossível desde que compartamos com ele a adoração da palavra, principalmente a palavra criada pelo grande poeta novo-profeta, cujo modelo é o grande faraó/pavão das letras mexicanas: o próprio Paz. Metade do espanto com a beleza dos sofismos de Octavio Paz se esvai quando lemos o seu hoje muito pouco lido grande mestre: Alfonso Reyes. Basta um trecho de  "Notas sobre la inteligencia americana"  : "3.  Nuestro drama tiene un escenario, un coro y un personaje. Por escenario no quiero ahora entender un espacio, sino más bien un tiempo, un tiempo en el sentido casi musical de la palabra: un compás, un ritmo. Llegada tarde al banquete de la civilización europea, América vive saltando etapas, apresurando el paso y corriendo de una forma ...

Sobre tradução e o que faz falta de verdade...

Capturei esse flagrante do meu amigo Rocky depois que expliquei para ele o que significava "cafuné" Acho que toda essa história sobre a palavra saudade  ser uma coisa única do português virou um clichê meio cacete. Em primeiro lugar porque existem centenas e centenas de línguas espalhadas pelo planeta afora e não sei como alguém pode ter tanta certeza sobre a existência de um substantivo dessa natureza. Nas línguas que conheço a gente consegue expressar mais ou menos a mesma ideia, obviamente com outras palavras e uma estrutura um pouco diferente. Acho que quem diz "estou morrendo de saudades do Brasil" pode se arrumar muito bem dizendo "I miss Brazil so much" ou "hecho de menos a Brasil". Claro que não é a mesma coisas mas dizer que não é mesma coisa é bobagem porque é claro que quase tudo em uma língua acaba não sendo a mesmo coisa em outra língua justamente porque é outra língua, ora! Acho que nada é perfeitamente equivalente e igual entr...

Música: Curefix Riddim, um outro exemplo

Outro exemplo curioso de riddim: o “The Cure / Curefix” feito em cima da base instrumental de “Close to Me” do The Cure. O riddimguide  aponta mais de 10 canções feitas em cima do “The Cure / Curefix” riddim. Sizzla Kalonji, que mistura o rastafarismo e o dancehall [gênero em geral não muito dado a religiosidades], usa o Curefix riddim para a canção “Show The Interest”: Ce’cile faz uma dessas muitas misturas de elogio e repreensão à vida na marginalidade dos “rude boys” jamaicanos em "Rude Bwoy Thug Life": O grupo Seeed [na Alemanha o dancehall também é muito forte] faz uma dessas músicas de festa viva-a-vida-vamos-dançar chamada “Release”: A música popular, mesmo antes da indústria cultural, funcionava na base desse incessante retrabalhar de temas e motivos reconhecíveis, misturando repetição e inovação, alheio ao conceito de propriedade privada intelectual.  Não, eu não sou nenhum defensor românti...