Li recentemente artigo da revista Piauí sobre "polêmicas" referentes a entrevistas e opiniões críticas de professores, ex-professores e autores brasileiros. Atônito, só consigo dizer três obviedades: Obviedade 1 Não existe forma sem conteúdo nem vice versa. O que você diz e como você o diz são dimensões inseparáveis. Dizer que um determinado romance só tem conteúdo e ignora a forma é um contrassenso. Decisões formais foram tomadas de qualquer maneira. Brigar por causa isso é uma loucura. Obviedade 2 O mesmo ocorre com as noções de universal e particular. Um romance é sempre específico e universal. Não existem romances puramente universais, sem qualquer especificidade. A noção de universalidade tende a ser muito egocêntrica. Universal é aquilo que eu identifico como perfeitamente compreensível para mim. Uma tremenda canoa furada. Obviedade 3 O êxito comercial de um romance não faz dele uma obra admirável e muito menos desprezível. Há ótimos e péssimos romances que tiveram gra...
A coisa mais bonita que vi até hoje não foi um quadro, nem um monumento, nem uma cidade, nem uma mulher, nem a pastorinha de biscuit da minha avó Eva quando era pequeno, nem o mar, nem o terceiro minuto da aurora de que os poetas falam: a coisa mais bonita que vi até hoje eram vinte mil hectares de girassol na Baixa do Cassanje, em Angola. A gente saía antes da manhã e nisto, com a chegada da luz, os girassóis erguiam a cabela, à uma, na direcção do nascente, a terra inteira cheia de grandes pestanas amarelas dos dois lados da picada e uma ocasião lembro-me um bando de mandris numa encosta, quietos, observando-nos. Depois cansavam-se de nós e desapareciam na sombra dos caules. A coisa mais bonita que vi até hoje foi Angola, e apesar da miséria e do horror da guerra continuo a gostar dela com um amor que não se extingue. Gosto do cheiro e gosto das pessoas. Talvez os momentos que tive mais próximos daquilo a que se chama felicidade me aconteceram quando fazia um...