Friday, August 31, 2007

Notícias do Império 1

No Brasil costumam me perguntar como vão os americanos com esse clima todo de guerra ao terrorrismo. Nunca sei bem o que responder, mesmo porque é difícil precisar o que sejam "os americanos" quando se vive no meio deles - são tantos e tão diferentes quando os brasileiros...
Bom, mas ainda dá para dar um exemplo concreto de como anda o clima por aqui. Em vários lugares, suponho eu "estratégicos" (estacionamentos, cabines de cobrança de pedágio nas estradas), vê-se placas pedem às pessoas que reportem qualquer atividade suspeita à polícia. Pois bem, outro dia aqui em New Haven viram um casal "vestido de negro" em atitude suspeita: a mulher do casal espalhava um pó branco no estacionamento de uma loja de móveis imensa, uma multinacional sueca meio tipo TokStok, a Ikea. Chamaram a polícia que chamou os bombeiros que chamaram uma equipe especialmente treinada para lidar com materiais perigosos que chamou um grupo de combate a atos de terrorrismo e mais uns tantos meganhas de cidades vizinhas treinados para esse tipo de emergência. Usando escaneadores de última geração, essa verdadeira multidão de funcionários da lei e da ordem descobriu que o tal pó branco era... farinha de trigo!
O casal faz parte de um grupo nacional chamado Harsh House Harriers, que descreve a si mesmos como "um clube de bebedores com problema de corrida" (a drinking club with a running problem, um trocadilho, aqui entre nós, infame). Pelo que entendi eles enchem a cara juntos e, nas horas vagas, saem correndo pela cidade - fazendo uma brincadeira em que um grupo pequeno (as lebres) deixa um rastro de farinha para os outros membros do grupo (os perdigueiros) seguir depois.
Farinha ou não os meganhas não quiseram saber de conversa: o casal foi preso por distúrbio à paz e pode pegar cinco anos de cadeia e ter que pagar $50,000 em restituição aos gastos com a "operação anti-farinha" dos cofres públicos.
Já consigo imaginar o júbilo dessa horda de gente de inunda de e-mails os jornais brasileiros com gritos indignados pelo fim da impunidade e pela morte por esquartejamento aos criminosos e corruptos em geral, o bombardeamento do congresso com todos os deputados e senadores dentro e coisas do tipo. Mas qual será o oposto de impunidade? Não há de ser faascismo, não é mesmo?
Aqui a sorte do casal de desperdiçadores de farinha de trigo vai depender de julgamento e provavelmente uma pequena brigada de advogados dos direitos humanos deve se apresentar para defender o casal. Diga-se de passagem que vários grupos dos HHH fazem a mesma coisa há anos em Washington D.C. e nunca foram molestados pela polícia... Mas quando se trata do sistema legal, quem sabe?

Thursday, August 30, 2007

Melodrama

Acabaram-se as minhas longas férias e volto a escrever aqui pelo menos duas vezes por semana. Enzo, a peça que vimos nas aulas de introdução à literatura inglesa era um melodrama inglês do século XIX, "A Drunkard's Dilemma" ou em bom português "O dilema de um bêbado". Muitas obras inglesas importantes como os romances de Walter Scott caíram na boca do povo na Inglaterra graças a centenas de versões teatrais melodramáticas. Como todo melodrama que se preze "O dilema de um bêbado" tem uma mocinha casta e honesta a níveis absurdos, vilão cruel e libidinoso que esfrega as mãos em júbilo enquanto trama suas maldades, um velho pai bondoso mas impotente pelo vício e finalmente um jovem belo e nobre que salva a mocinha. É despudoradamente divertido em seu exagero despudoradamente adolescente e ao mesmo tempo mexe com o espectador de forma visceral, sem permitir as defesas habituais da razão, essa senhora respeitável que insiste em nos convencer que tudo nesse mundo há de ser sempre razoável. O excelente diretor de cinema mexicano Guillermo del Toro (Labirinto do Fauno e A espinha do Diabo) bem diz que o melodrama é uma das formas mais poderosas de comunicação humana. E viva Waldick Soriano!!!