Thursday, July 31, 2014

Poema: "Pequeña oda a un negro boxeador cubano" de Nicolás Guillen, 1931

Pequeña oda a un negro boxeador cubano
 Nicolás Guillén


Tus guantes
puestos en la punta de tu cuerpo de ardilla,
y el punch de tu sonrisa.

El Norte es fiero y rudo, boxeador.
Ese mismo Broadway,
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que en actitud de vena se desangra
para chillar junto a los rings
en que tú saltas como un moderno mono elástico,
sin el resorte de las sogas.
ni los almohadones del clinch;
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ese mismo Broadway [119]
que unta de asombro su boca de melón
ante tus puños explosivos
y tus actuales zapatos de charol;
ese mismo Broadway,
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es el que estira su hocico con una enorme lengua húmeda,
para lamer glotonamente
toda la sangre de nuestro cañaveral.

De seguro que tú
no vivirás al tanto de ciertas cosas nuestras,
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ni de ciertas cosas de allá,
porque el training es duro y el músculo traidor,
y hay que estar hecho un toro,
como dices alegremente, para que el golpe duela más.
Tu inglés,
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un poco más precario que tu endeble español,
sólo te ha de servir para entender sobre la lona
cuanto en su verde slang
mascan las mandíbulas de los que tú derrumbas
jab a jab.
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En realidad acaso no necesitas otra cosa,
porque como seguramente pensarás,
ya tienes tu lugar.
Es bueno, al fin y al cabo,
hallar un punching bag,
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eliminar la grasa bajo el sol,
saltar,
sudar,
nadar, [120]
y de la suiza al shadow boxing,
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de la ducha al comedor,
salir pulido, fino, fuerte,
como un bastón recién labrado
con agresividades de black jack.

Y ahora que Europa se desnuda
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para tostar su carne al sol
y busca en Harlem y en La Habana
jazz y son,
lucirse negro mientras aplaude el bulevar,
y frente a la envidia de los blancos
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hablar en negro de verdad.

Poema do livro Sóngoro cosongo de 1931, que está disponível aqui.



Wednesday, July 30, 2014

Outra vez, água

Ilustração minha em cartão de biblioteca descartado
Codex
Colin Greenwood / Jonny Greenwood / Ed O'Brien / Phil Selway / Thom Yorke 

Slight of hand
Jump off the end
Into a clear lake
No one around
Just dragonflies
Flying to the side
No one gets hurt

You've done nothing wrong
Slide your hand
Jump off the end
The water's clear
And innocent
The water's clear
And innocent

O vídeo é uma adaptação de alguém no Youtube e é bem legal, ainda que substitua libélulas [dragonflies] por borboletas monarca. 

Monday, July 28, 2014

Recordar é viver: O Retrato de uma tragédia



Faz tempos que eu fiz este post mas encontrei na animação acima [que vem desse saite incrível] a ilustração perfeita da tragédia descrita com tanta argúcia por Tocqueville:


Em 1831, durante sua longa viagem pelos Estados Unidos, Tocqueville viu os índios Chickasaw e Choctaw, expulsos do estado do Mississippi, atravessando o rio Mississippi  em direção a Oklahoma, uma longa e dolorosa peregrinação conhecida como Trail of Tears [Trilha de Lágrimas]:

“Os índios traziam suas famílias consigo; entre eles estavam os feridos, os doentes, crianças recém-nascidas e idosos a ponto de morrer. Eles não tinham barracas nem carroças; apenas algumas provisões e armas. Eu os vi embarcar para atravessar o grande rio, e o que vi nunca vai se apagar da minha memória. Nenhum soluço ou queixa se levantava daquele agrupamento silencioso. Suas aflições vinham de muito tempo e eles as sentiam como irremediáveis.”

Segue-se uma reflexão arguta para quem quer realmente compreender a cultura dos Estados Unidos:

 “Os espanhóis, com atrocidades que os marcaram com vergonha indelével, não conseguiram exterminar a raça indígena nem puderam fazer com que os índios não compartilhassem seus direitos. Os Estados Unidos conseguiu ambos resultados com incrível facilidade, calmamente, legalmente e filantropicamente, sem derramar sangue e sem violar sequer um dos grandes princípios da moralidade ante os olhos do mundo. Impossível destruir seres humanos com mais respeito pelas leis da humanidade.” 

Falta, é claro, encontrar um mapa semelhante do Brasil, embora nossa tradição não seja esse legalismo cínico típico dos Estados Unidos. Digamos que poderíamos então confrontar dois métodos de espoliação: do lado estadounidense as letras miúdas e emendas em longos contratos assinados e registrados em cartório; do lado brasileiro o famoso "jeitinho", que nos coloca a nós brasileiros mais para a desfaçatez de inquéritos acusando Bakunin de atividades subversivas, seja antes ou depois da independência.

PS. Os Choctaw and Chicasaw são presença marcante na obra de Faulkner e foi através dele que cheguei a Tocqueville.

Thursday, July 24, 2014

Poesia minha: Vida em degelo

Vida em degelo

uma aresta gigantesca de gelo
emerge do fundo ermo do mar
rasga com o corpo o ar frio e seco
ajusta-se ao seu leito desigual
encara o sol da meia-noite indiferente
flutua dura e cega aresta de água e sal
dissolvendo-se em regresso
é só um fantasma banal
do nosso longo epílogo lento
uma imensa lápide em branco
um Titanic às avessas
não há nada
por trás do seu silêncio

além de indiferença por nós