Friday, October 31, 2008

Wednesday, October 29, 2008

Diário da Babilônia - Eleições 2






Além do fato de que as pessoas aqui se preocupam primordialmente em mobilizar as pessoas para votar [ou às vezes simplesmente tentar impedir certos grupos de votar], a política americana difere da brasileira pela polarização regional dos partidos. Os republicanos dominam certos estados e os democratas outros, sobrando um punhado de estados que oscilam a cada eleição. Por causa disso, o estado em que vivo tem uma campanha presidencial morna, já que é considerado favas contados para Obama.
Um exemplo dessa situação: aqui em Connecticut podemos ver o último deputado republicano da Nova Inglaterra [Maine, New Hampshire, Vermont, Massachusetts, Rhode Island e Connecticut], Chris Shays, perder seu mandato para um democrata nessas eleições. Aliás, que porcaria é o sistema de colégio eleitoral que vigora nos EUA, mas que beleza são as eleições distritais, que põe os deputados numa relação bem mais próxima com seus eleitores diretos…
E para os que acham que tudo aqui são coerências, informo que, apesar de tudo, o governador do estado é uma republicana, Jodi Rell, que uma pesquisa sem vergonha de Princeton que acabou na TV [pelo menos do jeito que foi mostrada pelos jornais – eu não tenho TV] diz que ganhou as eleições porque “parecia” mais competente [estão aí as fotos dos dois para quem quiser conferir quem é o mais "competent-looking" dos dois].

Tuesday, October 28, 2008

Diário da Babilônia - Eleições

Assisti ontem a uma palestra interessante em que os métodos “científicos” de pesquisas e campanhas eleitorais foram impiedosamente criticados como charlatanice pura. Donald Green, que deu a palestra, escreveu com Alan Gerber um livro sobre o assunto chamado Get Out the Vote - a ênfase num país em que o voto não é obrigatório é compreensivelmente fazer o máximo número de pessoas que apoiam seu candidato a sairem de casa e irem votar [ou votar pelo correio, coisa mais ou menos comum por aqui]. A eficiência de coisas como chamadas telefônicas eletrônicas, correio, e-mails, propagandas na TV é posta em dúvida por Greer. Quando comparados a grupos de controle os resultados são quase que invariavelmente pífios e os marqueteiros revelam-se como enganadores que fingem eficiência para vender seu peixe. O que Greer cita como fator capaz de mudar as coisas? Um acompanhamento próximo com mais de uma visita pessoal ao provável eleitor [uma coisa cara e difícil de fazer com profissionais] e a pressão exercida pelos vizinhos e conhecidos – o que se chama em inglês de “peer pressure”.

Sunday, October 26, 2008

Arquivo de inconstâncias

Há uns 6 anos atrás li Gregório de Mattos de trás para frente e, no final das contas, além de um trabalho bastante meia-bomba que nunca mais vai sair da gaveta, fiz esse poema-ventríloquo sobre “Boca do Inferno”, um poeta que representa, para mim, a matriz do rancor do que seria muito tempo depois de uma boa parte da classe média brasileira, um rancor raivoso provocado pelo sentimento [completamente equivocado na minha opinião] de ser melhor que o país em que se vive. Gregório de Mattos é um grande escritor e um grande escritor transforma em ouro qualquer coisa, até mesmo a mesquinharia de classe e raça:

Arquivo de inconstâncias

Para Ignácio Ruiz



Caí de vertigem em verso 1
até o fundo preto do tacho
ferventando esse caldo macho
onde a cana ferve perversa
com o que havia de ser essa merda 5
que atende pelo nome Brasil –
essa puta que me pariu
e que não larga a minha boca
que fede ao suor dessa louca
tesão de eu ser também o anti- 10

Brasil. E confesso que fui
o que fui manco: sendo barro
despencando barranco abaixo
de mim. Sem querer eu ser ruim,
fui ser fogo duro e instruí 15
cana em bagaço de engenho:
resposta em posta no lenho
requeimando as costas quentes –
minhas costas de indigente
no prato frio do meu empenho. 20

Moinho de gente que eu nego
até que moas o meu peito só
e meu juízo inteiro em pó,
eu bem conheço teu nó cego:
és braseiro, és cruz, és prego, 25
és caralho a quatro empunhado,
bainhado, contraprumado
no oco da sede de ferro.
Não há cona com que esse berro
de bode desencapado 30

que é o meu desejo no Mato
recôncavo possa. Só
voltei porque sei ser pó
na fé, em carne, em Deus, em ato
de arrepensamento fátuo – 35
Pó de onde vim, pra onde eu vou,
nó do que fui do que sou:
esse é o estofo da minha musa
essa desrazão que lambuza
a carne que me forrou. 40

Não forra – hoje não sou carne.
Eu sou papel mudo e mofo
no fundo do arquivo morto
de onde reveio esse alarme
falso de que eu era carne 45
de novo, que eu estava vivo
que não só existi, que existo.
E a que ponto chegaste,
Amigo, não me cheiraste?
Não vês que estou consumido? 50

Friday, October 24, 2008

E agora, Guimarães? A rose is a Rosa is a rose?

Um canadense interessado no assunto me pediu uma opinião sobre a tradução para o inglês de Grande Sertão: Veredas. Eu não quis explicar em termos gerais; achei que era melhor simplesmente tomar um trecho da tradução e fazer uma avaliação detalhada. Escolhi o óbvio, a abertura do livro.

A abertura do livro no original:
Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvore, no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade.


A tradução para o inglês:
It’s nothing. The shots you heard were not men fighting. God be praised. It was just me there in the back yard, target shooting down by the creek, to keep in practice. I do it because I enjoy it; have ever since I was a boy.


Os comentários [estão em inglês porque eu não ganho dinheiro escrevendo blogue, mas acho que dá para entender]:
1. Nonada is old Portuguese; it means trifles. The translator explains the term in standard English instead of looking for some equivalent.
2. The second sentence is non-standard Portuguese again, this time taken from the vernacular in Minas Gerais [literally something like “shots you hear were from men-fighting not” but part of the local vernacular]. The sentence ends with a “Deus esteja”, one of typical ellipsis that are either created by GR or adapted from spoken language or both. It means literally “God be”. The “praised” is only implied, and it could be “with us” or something else as well. An example from everyday language: in Minas Gerais the famous catholic interjection “Nossa Senhora!” [Our Lady, i.e. Virgin Mary] is turned into only “Nó!” [literally also “knot”]. The translation again fills in the blanks, smoothes what is odd and unusual, turns the sentence into standard everyday English.
3. “alvejei mira em árvore” is local vernacular – odd sounding to urban Brazilian from other parts of the country – the whole sentence means more or less “I was target-shooting on a tree, in the yard, at the bottom, on the creek.” The punctuation and syntax articulation of GR’s sentences are alternately or even simultaneously derived from poetry and from oral non-standard Portuguese.
4. “Por meu acerto” was incorporated into the last sentence in the English version. It is again unusual Portuguese. Literally it means “By my account”, also “By my right” also “To get it right”, and perhaps even “To get me right.” There is a difference between what the narrator means and how he says what he means. This gap the translation invariably erases, opting usually for spelling out what the narrator means in “plain English”.
5. I’d translate the last sentence in this opening as “Every day I do it, I like it; since I was barely into my young age”. I am doing it to get as close as possible to the feel I get it when I read it in my own language. This language is understandable with an effort on my part, it is from time to time even recognizable as bearing traces of the vernacular I speak, but it is a kind of “new language”, unique.

Meus alunos começam hoje a ler The Devil to Pay in the Backlands...

Thursday, October 23, 2008

Soneto da fúria (uma constatação e um pedido)

Porém meu ódio é o melhor de mim

A minha fúria só viu pasto
de onde come a sua ira,
que à distância zero parecia
merda pura, contra a qual achava
que lutava a luta justa.

Injusta e errada – eu assumo –
(não é pura, a merda, nem é tudo)
é ainda a minha mesma fúria
o motor maior que me comove.

Que a minha fúria, com a sua crosta,
açucarado rancor profundo
repetente na sua sina pobre
de chocar o medo em sua cova,
não me impeça a comunhão com o mundo.

Wednesday, October 22, 2008

Fartura de Curtura

Manchetes listadas como link “Cultura” na página online do jornal O Globo nos últimos três dias:

Dia 1
* Morre autor da lista de astros que se vestem mal
* 'High School Musical 3' chega aos cinemas esta semana
* Tatuagem nas costas de músico é vendida por US$ 200 mil
Cultura

Dia 2
* Zaha Hadid assina sapato para Lacoste
* Homem de L.A. se diz inocente de pirataria do Guns N' Roses
* Grupo RBD lançará uma coletânea de grandes sucessos

Dia 3
* Festival de Cinema de Roma homenageia Al Pacino
* Mendigo encontra cabeça de cera de Paul McCartney
* Aumentam boatos sobre caso entre Madonna e jogador de beisebol

Monday, October 20, 2008

Voltaire e McCain



Antes de eleger Bush pela segunda vez, 53% dos americanos achavam que Saddam estava diretamente envolvido no atentado de 11 de setembro. Esse tipo de insanidade coletiva promovida pelo partido republicano está se repetindo com relação a Obama, com a mensagem de que ele é amigo de terroristas e muçulmano. Uma coisa me chamou a atenção quando vi os videos em que John McCain parece ter um momento de lucidez e decide tentar contrapor essa insanidade que sua campanha vem alimentando contra Obama num país em que, ainda por cima, a violência política e racial não é brincadeira [Lincoln e Kennedy não foram os únicos presidentes americanos assassinados e o número de linchamentos nos Estados Unidos era maior que cem até 1900 e maior que 50 até 1922]. Uma velhinha diz a McCain “ele é árabe” e McCain responde “Não, senhora. Ele é um homem decente.” Esse foi o momento de “humanidade” de McCain? Ser árabe ou muçulmano [pelo amor de Deus, quando é que vão aprender que não é a mesma coisa] significa não ser decente?
Vejam então um trecho do Lettres Philosofiques de Voltaire em que ele faz uma parábola veemente contra as religiões organizadas, eis o que aparece sobre os “desumanos” maometanos:

"Since you wish to instruct me," I said to the genius, " tell me if there have been peoples other than the Christians and the Jews in whom zeal and religion wretchedly transformed into fanaticism, have inspired so many horrible cruelties."
"Yes," he said." The Mohammedans were sullied with the same inhumanities, but rarely; and when one asked amman, pity, of them, and offered them tribute, they pardoned. As for the other nations there has not been one right from the existence of the world which has ever made a purely religious war. Follow me now." I followed him.

Quem puder leia o Voltaire todo. Vale a pena.

Friday, October 17, 2008

Personagens menores e memoráveis de Guimarães Rosa: Don'Ana

"Don’Ana do Janjão e Janjão da Don’Ana são respectivamente esposo e esposa, e, pois, co-proprietários da fazenda da Panela-Cheia. Janjão da Don’Ana é um paspalhão, e não conta. Mas Don’Ana do Janjão é uma mulher-homem, que manda e desmanda, amansa cavalos, fuma cachimbo, anda armada de garrucha, e chefia eleitorado bem copioso, no município."

Thursday, October 16, 2008

Abobrinhas a propósito da lei seca, dos cristãos novos, dos escravos que nunca vieram e dos países independentes ma non troppo


Aconteceu o que sempre acontece: primeiro, o impacto de uma lei draconiana que proíbe terminantemente qualquer motorista de beber qualquer quantidade de bebida; depois, uma fiscalização inversamente proporcional à rigidez da lei; finalmente a “surpresa” decepcionada com o aumento dos acidentes de trânsito.
Descobri essa nossa matriz profunda da nossa cultura política quando li que o rei de Portugal resolveu simplesmente acabar com a questão judaica no império através de um decreto que simplesmente convertia todo o mundo compulsoriamente. “Pronto; agora ninguém mais é judeu e acabou-se o nosso problema.”
Continuamos até hoje de decreto em decreto “resolvendo” nossas questões sumariamente “para inglês ver” [expressão aliás cunhada para descrever um exercício de ficção legal perpetrado por um império, aliás, já sumariamente brasileiro, por decreto].
Mas vá você fazer piadas com a família de alguém que morre atropelado por alguém que dirije encarando as leis de trânsito como esse mesmo cinismo hipócrita que converte à força judeus em cristãos novos, transforma colônias de fato em países independentes no papel e faz do tráfico de seres humanos uma simples farsa inconsequente.
Eu vivo em um país essencialmente puritano e sei que todo o moralismo é hipócrita, mas não precisava exagerar…

Tuesday, October 14, 2008

Poesia Prosaica Minha: Uma gota de fenomenologia

Uma coisa é a coisa que a gente vive nos ossos, nos nervos, na carne e na pele; aquilo que chega e esfria ou esquenta o sangue do caboclo. Outra coisa bem outra é assistir essa mesma coisa mais ou menos de longe. Nem a mãe de um caboclo que passa fome sabe o que é passar fome do jeito que o caboclo que passa fome sabe. A mãe sabe outra coisa, que é o que é ser mãe de um caboclo que passa fome. Isso nem o caboclo sabe: o que ela sabe é dela só, diferente do caboclo e diferente do médico que recebe o tal caboclo e a mãe dele no hospital. O médico sabe da fome do cabloco de um outro jeito porque ele já ficou mais longe daquela fome um tanto mais que a mãe e outro tanto bem mais que o caboclo. O jeito que o médico sabe da fome daquele caboclo pode ser mais ou menos só dele ainda, mas isso só se ele pôr muito reparo no caboclo e na mãe dele. O que geralmente atrapalha o médico é que ele geralmente acha que sabe mais da fome do caboclo que o próprio caboclo e a mãe do caboclo e por isso ele não presta atenção nos dois e por isso ele acaba que sabe de uma fome que é igual à fome que qualquer outro médico em qualquer outro hospital sabe. Mais longe ainda que esse médico fica o jornalista que aparece do nada na porta do hospital para ver e falar com o caboclo e a mãe dele e o médico para depois escrever sobre eles no jornal. O jornalista é geralmente pior só porque geralmente ele acha que já sabe o que o caboclo, a mãe dele e o médico sabem e que por isso sabe mais que eles todos. Agora, a pior raça mesmo de todas é a do fé-da-puta que vem escrever sobre a história da fome do caboclo, da mãe do caboclo, do médico e do jornalista porque esse já ficou tão longe, mas tão longe, que o que ele escreve ainda parece ser mas já não tem quase nada que ver com aquela fome do caboclo: o que ele escreve é essa tal de literatura. Não custa lembrar que se a fome passar nem o caboclo sabe mais a mesma coisa que sabia quando passava fome. O que ele tem depois que a fome passa e só uma idéia (mais uma idéia) do que era a fome que ele um dia passou. Quando ele pára de passar fome e ainda acha que sabe o que é passar fome do mesmo jeito que o outro caboclo que ainda passa fome ele arrisca pretensão quase tão grande quanto a do médico e a do jornalista; pior só a pretensão do bosta do escritor.

Sunday, October 12, 2008

Diário da Babilônia – um pequena provocação

Quando se discute a educação superior no Brasil, especialmente o debate entre educação pública e privada, me espanta a desinformação [que eu não sei se é intencional ou não] a respeito do sistema Americano, onde trabalho. Deixo aqui apenas dois dados provocativos:

1. A maior parte do sistema universitário americano é pública, instituições financiadas pelos estados e mesmo minicípios.

2. Yale, assim como todas as outras universidades privadas de maior destaque nos Estados Unidos, fornece algum tipo de auxílio financeiro a 49% dos seus alunos de graduação. Qualquer família que ganhe menos de 60.000 dólares por ano não precisa pagar um tostão para seu filho estudar aqui [se ele conseguir uma vaga – menos de 10% dos candidatos entra]. A universidade agora cogita, inclusive, deixar de cobrar mensalidades de todos os alunos indistintamente [isso não é filantropia ianque: o pagamento de mensalidades representa apenas 17% da renda da universidade].

Quem quiser saber um pouco mais sobre a discussão aqui nos EUA pode dar uma olhada em http://www.yaledailynews.com/articles/view/25659

Thursday, October 09, 2008

Poesia Mexicana - Jaime Sabines


¿Qué putas puedo hacer con mi rodilla,
¿Qué putas puedo hacer con mi rodilla,
con mi pierna tan larga y tan flaca,
con mis brazos, con mi lengua,
con mis flacos ojos?
¿Que puedo hacer en este remolino
de imbéciles de buena voluntad?
¿Que puedo con inteligentes podridos
y con dulces niñas que no quieren hombre sino poesía?
¿Que puedo entre los poetas uniformados
por la academia o por el comunismo?
¿Que, entre vendedores o políticos
o pastores de almas?
¿Que putas puedo hacer, Tarumba,
si no soy santo, ni héroe, ni bandido,
ni adorador del arte,
ni boticario,
ni rebelde?
¿Que puedo hacer si puedo hacerlo todo
y no tengo ganas sino de mirar y mirar?
Tarumba, 1956

Wednesday, October 08, 2008

Pase Libre / Crónica de una fuga





O cineasta Adrián Caetano tomou o livro de memórias de Claudio Tamburrini e fez o melhor filme até hoje sobre a repressão das ditaduras militares latino-americanos na “guerra suja”. O filme Crónica de una fuga, baseado em Pase Libre é uma lição sobre muitas coisas importantes sobre o que poderíamos chamar de período pós-atrocidades na América Latina. Por exemplo, sobre o que Adorno, falando da arte pós-holocausto, dizia ser a necessidade de falar de “meaning and truth and suffering that neither deny nor affirm the existence of a world transcendent to the one we know” e do que ele chamava de um novo imperativo categórico, que é “arrange their thought and action that Auschwitz would not repeat itself, [that] nothing similar would happen”.

Acho que o final do livro ilustra o que eu estou dizendo. O protagonista está num carro, livre e reflete:

“Estoy inmensamente feliz. Siento que mi vida y mi destino me pertenecen. Y me imunda un optimismo desbordante sobre el futuro. Después de Atila, ya no será possible recaer en los mismos errors y vicios de antes. Siento que me he vuelto más sabio. Salvar la vida habrá sido un ejercicio fútil, so no hace seres humanos mejores que nosotros. A partir de ahora, prometo vivir con la Mirada puesta en la felicidad de la gente.

Aí então o tom da discussão entre o Gallego e seu o pai no banco da frente esquenta e o volume das vozes sobe, voltando a atenção do narrador para a conversa entre eles. O pai, furioso e apavorado, critica o envolvimento do filho com política, lhe pergunta o que é que ele fez de errado para ter sido preso e diz simplesmente que o filho vai ter que se entregar! Para os brasileiros terem uma idéia do que isso significa, estima-se dos 5.000 sequestrados que passaram pelo “Campito” [um dos principais entre centenas de centros clandestinos de detenção da ditadura argentina] só 43 sobreviveram para contar a história!

O narrador então retoma sua reflexão e fecha o livro:

“La dureza de este diálogo, más violento y despiadado que la peor de las torturas, me arroja nuevamente a la realidad con la fuerza de una revelación. ¿Entregarse? Sí. ¡El padre del Gallego le acaba de dar esta orden a su hijo! Por lo visto, las crueldades más atroces se originan no en la distancia, sino en la cercanía afectiva de las personas.

‘Más vale no hacer promesa ninguna’ – pienso para mis adentros.

Parece ser un rasgo común delos humanos ensañarse los unos con los otros.

Sólo cambia la manera de inflingir el daño.”

Monday, October 06, 2008

O menor livro do mundo [em sete capítulos]

Andam fazendo de tudo de para popularizar a leitura no leitor: videoclip de livro, trailer de livro, até "Copa de Literatura" já inventaram. Quero dar a minha contribuição com uma idéia que certamente aumentará dramaticamente o número de livros lidos per capta no Brasil: o micro-livro, que você compra por R$1, cabe no bolso da camisa, e pode ser lido em 1 minuto. Eis aí minha primeira obra, ainda sem título [Quem sabe, "História de Tudo no Mundo"?]:

0. Primeiro aniversário
Mal abre a boca o sujeito.

1. Fenomenologia em gota
Se fica alegre, é a cachaça.

2. E pur si muove
Duas muletas, as dele: a ciência e a fé.

3. Dialética da corrupção moralista
Crio dificuldade hoje; vendo facilidade amanhã.

4. Escreveu, não leu...
Emprestava ao diabo a alma dos outros.

5. Extrema Unção
Deus e Diabo, juntos desligaram meu relógio.

6. O sol se apaga depois do Apocalipse
A Terra e a Lua, enfim, sós.

Sunday, October 05, 2008

Masturbação Mental Também é Cultura 2


Às vezes me parece que o mundo dos adultos se divide cada vez mais entre aqueles que adoram as crianças como se fossem semi-deuses ou seres humanos superiores e aqueles outros que acham as crianças estúpidas e simplesmente insuportáveis.

Eu tenho um filho de 7 anos que eu admiro sem reservas nem senso crítico e, portanto, pertenceria certamente ao primeiro grupo, mas tenho muitas reservas quanto à idealização da infância. A infância é fascinante, rica, livre de algumas amarras das quais os adultos padecem, mas daí a transformar isso em uma bondade inata... Acho um exagero quando as pessoas acham que qualquer criança é sempre boa simplesmente porque é pura e inocente – puro ou impuro, inocente ou experiente, o ser humano é um ser freqüentemente vil [e ocasionalmente maravilhoso] e as crianças são seres humanos!

Um exemplo recente do noticiário: um menino de 7 anos invadiu um zoológico e em 35 minutos matou brutalmente vários animais no centro de répteis de Alice Springs na Austrália. O garoto alimentou um crocodilo com diversos animais vivos que jogava na jaula do réptil. Dez répteis, uma tartaruga, quatros lagartos de língua azul, dois dragões-barbudos, dois diabos-espinhosos e um iguana de 20 anos e de 1,8 metro foram jogados para o crocodilo de 200 quilos. Outros três lagartos foram encontrados mortos em seus viveiros. O menino foi interrogado pela polícia, mas se manteve calado. Os policiais afirmaram que não têm a menor idéia do que pode ter motivado o ataque. As imagens do circuito interno de televisão do centro mostram o garoto sorrindo enquanto assistia o crocodilo atacar um lagarto de língua azul.

E os seres humanos ainda têm a cara de pau de usar a palavra réptil como termo ofensivo…

Friday, October 03, 2008

Cansado

Aqui está um traço da mancha da espuma da baba do verso raivoso, escrito no meu travesseiro, num pesadelo: o som abafado do osso esmagado por entre os ferros da porta do carro que arde no fogo; esvai-se o corpo em fumaça e em um punhado de cinza que o vento carrega do chão e a chuva retorna fundida na lama que o sol do meu sonho resseca num pó preto, amargo e fino, que irrita a garganta e desce ao pulmão. Como é que vem cá, no meio do sonho, e amarra a sua égua o velho cansado que espera o futuro aqui dentro, no centro no meio de mim?


3 dias dormindo depois das 4 da manhã e levando no máximo às 9 e meia, resolvi reescrever esse pequeno poema, agora em prosa. Antes ele era assim:

Cansado

Aqui está um traço
da mancha da espuma
da baba do verso
raivoso , escrito
no meu travesseiro,
num pesadelo:
o som abafado
do osso esmagado
por entre os ferros
da porta do carro
que arde no fogo;
esvai-se o corpo
em fumaça e em um punhado
de cinza que o vento
carrega do chão
e a chuva retorna
fundida na lama
que o sol do meu sonho
resseca num pó
preto, amargo e fino,
que irrita a garganta
e desce ao pulmão.
Como é que vem cá,
no meio do sonho,
e amarra a sua égua
o velho cansado
que espera o futuro
aqui dentro,
no centro
no meio
de mim?

Wednesday, October 01, 2008

O rei está nú!


"Quizás indignará a algunos hacer notar el paralelismo entre el pensar paciano y el cantinfleo. En Paz la dicotomía se resuelve en la eufonía; critica códigos con una dialéctica que empareja los opuestos, distendiéndolos. Cantinflas falla al rehacer (repetir) el discurso preexistente, ¡lo revuelve!, lo hace bolas, pedazos, lo vuelve incoherente; Paz logra rearticular los discursos preexistentes, los hace elocuentes, los reimagina, los embellece. Es Cantinflas corregido y estetizado." - Heriberto Yépez