Saturday, May 30, 2015

Sobre música e religião

Nusrat Fateh Ali Khan (1948 – 1997) é um cantor paquistanês de Qawalli, antiga tradição sufi e expressão musical e poética maravilhosa daquele mundo muçulmano não-árabe. 

Na minha vida adulta só me senti tentado a abraçar uma religião [no sentido coletivo da coisa] duas vezes: quando assisti a uma missa gospel ao vivo aqui em New Haven e quando ouço um desses concertos de Qawalli com Nusrat. Sem ofensas mas participar de uma comunidade religiosa deve ser uma chatura, então o encanto se desfaz logo. Agora a música ajuda. As missas que tive que frequentar quando passei um verão na praia na casa de um amigo, por outro lado, me vacinaram completamente contra o catolicismo - não a fé, mas a liturgia fria e chatíssima. Quem sabe uma sessão massiva de Bach numa igreja de Ouro Preto cheia de incenso e mirra? Na base daquelas musiquinhas de devoção naquele chaque-chaque de violão de acampamento, acho que o catolicismo no Brasil estaria extinto.



Adoro nesses concertos a longa e lenta construção de um transe musical coletivo entre músicos e platéia. E que vozes, por Alah!

Mas adoro também o ataque incessante daquelas duas sanfoninhas/caixote, que poderiam facilmente estar levando um baião arretado no interior de Pernambuco.

E não deixo de me espantar com o rosto de todos os cantores da banda, tipos que eu certamente poderia ter encontrado passeando uma tarde pelo centro de Belo Horizonte. Que mistério a facilidade com que me lembro de ver gente com esse aspecto indiano/paquistanês nas ruas da minha cidade. Como é que os mestiços de Minas Gerais acabam ficando com cara de indiano? Seria a carne de zebu? Deve ser um dos efeitos de um excesso de saudade. Talvez um sinal de que está na hora de voltar para casa. 

Aqui o concerto completo e uma ótima entrevista:



Thursday, May 28, 2015

Sobre a solidão, com uma navalha afiada

Seguindo uma sugestão certeira de um amigo mexicano no Feis, assisti no Netaflica o filme Ano Bissexto, de 2010, quando ganhou a Camera d'Or, prêmio dado em Cannes a diretores iniciantes. Michael Rowe é um australiano que escolheu o México como casa quando tinha 23 anos, tendo estudado roteiro com Vicente Leñero, que tem no currículo vários excelentes trabalhos para cinema como O crime do Padre Amaro.
O filme é fortíssimo e tem como destaque a atriz Mónica del Carmen, que se entrega ao papel muito além do que a gente espera de uma atriz de um filme qualquer. Também me chamou a atenção a fotografia e posta em cena preciosas num apartamento absolutamente ordinário na cidade do México. E o uso nada apelativo de cenas gráficas de sexo e violência.

Parece que Rowe quer fazer uma trilogia sobre a solidão. Estou louco para ver o segundo filme, que já saiu, Manto Acuifero.
Aqui os trailers:



Tuesday, May 26, 2015

Viva la mídia loca: praticamente nada do que disseram sobre a morte de Osama bin Laden era verdade

Eis um resumo do artigo chocante que acabei de ler:

Bin Laden era prisioneiro da agência paquistanesa ISI (Inter-Services Intelligence agency) em Abbottabad desde 2006. Os sauditas pagavam as contas para mantê-lo aí sem que os americanos soubessem.

general Ashfaq Parvez Kayani, chefe das forças armadas e o general Ahmed Shuja Pasha, diretor geral do ISI sabiam do ataque americano e trataram de fazer com que os dois helicópteros com os soldados americanos chegassem a Abbottabad atravessando o espaço aéreo paquistanês sem chamar atenção.

A CIA não soube da localizacão de Osama bin Laden seguindo seus mensageiros como a Casa Branca alega desde maio de 2011, mas sim através de um alto oficial do serviço de inteligência paquistanês, que vendeu a informação por grande parte da recompensa de $25 milhões oferecidos pelos EUA pela captura de Osama bin Laden.

Pinóquio perdia uma competição
de nariz comprido para Obama 
Amir Aziz, médico e major do exército paquistanês foi quem forneceu a prova (uma amostra do DNA do sujeito internado em Abbottabad) de que ali estava mesmo Osama bin Laden.

Ninguém resistiu. Ninguém deu sequer um tiro na equipe de soldados americanos. Eles foram levados diligentemente até o quarto onde Osama bin Laden estava e os “hérois” americanos destroçaram à bala o corpo de um sujeito doente e desarmado, confinado já há anos em prisão domiciliar num balneário. Bin Laden estava em prisão domiciliar sobre controle do governo do Paquistão, não comandava mais nada de grupo nenhum e não tinha nada do poder maquiavélico que costumavam lhe atribuir.

Mais ainda: ele não foi jogado no mar.

Ou seja, nada, absolutamente nada do que o governo americano contou sobre o ocorrido era verdade, embora esteja agora tudo transformado em Hollywood in Zero Dark Thirty.

Chaves é um retrato mais
realista de uma vila na
cidade do México


Eu não vejo benefício algum numa visão paranóica do mundo, na qual nada é o que dizem que é porque tudo está sendo cuidadosamente maquiado para parecer outra coisa. Especialmente porque tudo fica fácil demais de explicar quando se trata de um complô dos senhores do mal para nos manter escravizados e felizes. Mas eu vou te contar: está difícil levar a sério o que dizem os jornais quando eles apenas repetem o que dizem agências de notícias que por sua vez fazem um trabalho dócil e até mesmo “patriótico” . O London Review of Books é um dos poucos lugares onde o jornalismo em inglês de qualidade e independência ainda podem ser encontrados.
  


Wednesday, May 20, 2015

Aventuras no lixão e desvarios da imaginacão

1. Ando trabalhando demais, num ritmo intenso, conjugando umas poucas horas dedicadas ao meu ofício propriamente dito e umas muitas e longas horas dedicadas a coisas chatérrimas que meu ofício agora parece exigir de mim.

2. Para respirar assisti há dois dias atrás a um episódio de uma série americana dessas famosas. Um lixo. Como McDonald's é um lixo. Um lixo que eu, de vez em quando, me permito consumir. Clarice Lispector declarou uma vez num texto curtinho, com aquela ironia séria e intensa dela, que tinha hora para tudo e que aquela era hora de lixo. Pois então. Vamos ao lixão. Com parcimônia, sem passar lá todos os dias. Mas vamos.

3. Caso policial de assassinato envolvendo múltiplas gangues em Washington DC. Uma era de negros com cara de malvado, uma de chineses com cara de malvado, uma de russos com cara de malvado e uma de latinos com cara de malvado. Duzentos profissionais altamente qualificados trabalhando sem medir horas extras ou equipamento de alta tecnologia na investigação do tal assassinato. Todas as mulheres da equipe de salto agulha, corpo e cara de modelo e roupa chique. Na gangue latina, todos os estereótipos possíveis sobre os latinos nos Estados Unidos, homens e mulheres: brincos de argola gigantes, mães gritando e descendo a mão nos filhos, garotas com visual chola dos anos 90, sujeito que só sabem falar meio rosnando e arreganhando as narinas, cabeças raspadas com lenços, tatuagens na cara, etc. Até agora, tudo bem [eu não vou ao McDonald's esperando algum quitute sutil].

Isso é uma  Flauta
4. Eu não me surpreendi nem me indignei. O mesmo seriado uma vez tinha colocado a investigadora sabe-tudo explicar aos seus subordinados que o apelido do personagem brasileiro de nome "Barassa" [certamente Brasa] era "Birimbau", que era uma "flauta" tocada no Brasil. Mas tudo bem. É tudo uma bobeirada total mesmo, um caso de detetive temperado com aquelas patriotadas gringas de sempre.

5. Mas aí eles resolvem chamar a tal perigosa gangue latina de "estrellas locos". Será o São Bendito que não tinha um cristão no meio daquele mar de gente que produz esses troços que não pudesse pelo menos acertar o gênero da palavra "estrella"?! Tudo bem que no McDonald's a carne tem gosto de caldo knorr e uma porção de batata-frita tem 5 bilhões de caloria e 3 kilos de sal, mas esse "estrellas locos" foi como encontrar um esparadrapo dentro do sanduíche. Birimbau ser flauta eu achei até graça, mas uma gangue chamada "estrellas locos"... só me conformei quando pensei que "estrellas locas" também estaria mais para um show de transformistas que para uma gangue de rua. Taí um seriado que seria bem mais divertido. As aventuras da trupe do "Estrellas Locas".

Estrela Maior do Meu Seriado Imaginário

Saturday, May 16, 2015

Poesia minha: São muitas as nossas possibilidades

Igreja de São José da Boa Morte em Macacu,
foto de Vítor Gabriel
São muitas as nossas possibilidades:

No coração basta um tiro certeiro;
No pescoço, uma forca bem feita;
Pela boca ou pela veia,
uma injeção ou um copo cheio
de remédio ou de veneno.
Basta um toque dum dedo
num fio desencapado.
Na cabeça basta um saco plástico.
Basta uma lâmina afiada
que corra do pulso ao antebraço.
Longe dos trópicos,
basta uma noite fria
passada ao relento.
Pode-se pular dum lugar bem alto
ou cercar-se de água por todos os lados.
Pode-se dormir com o motor ligado
numa garagem fechada.
Pode-se atirar-se na frente de um trem
ou atirar barranco abaixo o próprio carro.

Ou então basta seguir vivendo
até que o coração pare
ou os rins se estraguem.
Até que venha um câncer
na bexiga, no útero, no seio,
no cólon, no baço, no reto,
no sangue, na pele, no pulmão,
na próstata, no pâncreas, nos rins,
na bendita tireoide.
Até que um pulmão murche
ou um vaso estoure.
Até que nos encontre numa esquina
desprovidos de antibióticos
a tuberculose, essa velha senhora,
ou suas irmãzinhas velhacas,
a pneumonia e a influenza.
Até que leiamos no próprio corpo
um catálogo de inflamações.
Até que os ventos do tempo tragam
as nuvens carregadas de nada da demência
ou as marés de doçura venenosa da diabetes:


São muitas as nossas possibilidades.

Friday, May 15, 2015

Poesia minha: Intraduzível

Intraduzível

Encerrado no claustro da leitura,
flutuando entre três tristes línguas,
não sinto conceito
sem sentir palavra
e não sinto palavra
sem sentir caminho.

Palavras tocando
o tambor dos tímpanos
até o coração sentir-se
prensado na boca
e caminhos que convergem
ou bifurcam, dependendo
do sentido do moinho
que me rói de fora para dentro.

Qual o sentido das palavras e caminhos
que me cabem e não cabem em mim?

Senso e sentido
flutuando em três línguas
me consomem por dentro
desse claustro que me engole.
Não sinto conceito
sem sentir palavra
e não sinto palavra
sem sentir caminho.

E sou, confesso, feliz.


Wednesday, May 13, 2015

Dois assuntos sumamente cansativos [e cheios de maiúsculas e pontos de exclamação] ou como perder tempo com nada

1.
- Rará, meu time ganhou! Roró, seu time perdeu.
- Ganhou roubado!
- Você é chorão!
- Time de favelado!
- Time de veado!
- Essa camisa feia eu não quero nem para limpar o chão.
- Essa camisa horrorosa eu não queria nem para limpar a bunda.
- Seu time é feio demais e fulano é um perna-de-pau.
- Seu time é nojento e sicrano é um perna-de-pau.
- É, mas nós ganhamos 13 Copas da Lagoa Funda.
- Copa da Lagoa Funda não vale nada. Nós ganhamos 17 campeonatos interestelares.
- Blá, blá, blá. [descamba ainda mais]

Esclarecimento: tenho, sim, um time de futebol pelo qual sofro e grito e me descabelo. Isso não significa que eu me disponha a perder tempo com esse bate-boca estúpido.

Batedores de Panela Diferenciados e Bolivarianos do Bradesco em cena de seu interminável "debate"
2.
- Rará, ganhamos a eleição! Roró, você perdeu a eleição.
- Ganharam porque o povo é burro.
- Você não sabe perder.
- Corrupto, vá prá Cuba. Só no Brasil mesmo que blá-blá-blá.
- Golpista, vá prá Miami. Nunca antes no país blá-blá-blá.
- Lula é não-sei-o-quê, ignorante e ladrão e Dilma é gorda e feia.
- FHC foi muito pior e é cara-de-pau além de ladrão e Aécio cheira cocaína e vive na praia.
- José Dirceu! Bolivariano! Nordestino burro! Morto de fome!
- Telhada! Fascista! Classe média burra! Playboyzinho!
- Blá, blá, blá.  [descamba ainda mais]

Esclarecimento: tenho, sim, uma opinião formada e bastante clara sobre aqueles que nos governaram nos anos 90 e aqueles que nos tem governado desde então. Acho o governo dos que nos governaram no século XXI muitíssimo superior, pelo menos até os momentos atuais de "ajuste", que me parecem extremamente parecidos com aquele ajuste interminável dos anos 90. Isso não significa que eu me disponha a perder tempo com esse bate-boca estúpido entre aqueles que eram pragmáticos em nome da governabilidade possível antes e agora são revoltados com a corrupção e aqueles que eram revoltados com a corrupção antes e agora são pragmáticos em nome da governabilidade.

E enquanto uns acusam de comunista um governo que tem sua economia governada por um executivo de banco e os outros xingam todo mundo que reclama do governo de serem donos de helicóptero e clientes VIP da Daslu:

1. A polícia continua matando gente pobre feito moscas e muitos dos que não morrem executados na rua são jogados em prisões que ser humano nenhum merece conhecer;
2. são quase 200 anos desde independência e continuamos a esculachar com os povos indígenas de forma absurda como se fossemos colonizadores do próprio país e, por tabela, esculhambamos com o meio-ambiente até que saia esgoto das torneiras [da periferia de São Paulo, por enquanto];
3. os professores da escola pública e privada são tratados como se fossem lixo [até reciclagem de professores já inventaram] e nem começamos a poder discutir um ensino que deveria ser crítico e libertador e não conformista e aprisionador, perpetuando o racismo, o sexismo e a homofobia perversos e descarados que negam a si mesmos para continuarem a existir impunemente;
4. apesar de profissionais da área cultural cada vez mais bem qualificados, continuamos oferecendo nada a uma maioria da população que só tem acesso a bens culturais pela televisão, sem bibliotecas públicas equipadas nos bairros onde as pessoas não tem dinheiro para comprar livros, deixando que 98% das nossas salas de cinema mostrem lixo, sem museus com políticas agressivas de abrir as portas a todos etc;
5. nossas cidades andam mal, apesar de termos um corpo imenso de profissionais muito bem formados na área, e dá desânimo ver um requentado de políticas da habitação dos anos 70 ser oferecido como solução inovadora;
6. e continuamos, ainda por cima, nos desindustrializando e voltando a ser uma nação exportadora de matéria-prima, governados de fato por uma coalizão BBBB [boi, bala, bíblia e banco] que promete nos levar de volta ao ano 1900 rapidinho. 

Recomendação musical: Baleia

Ora, para que servem as amizades de internet? Para mim, amizade não tem que servir para nada, mas minhas amizades na internet [criadas aqui, na internet] são criadas nas afinidades de temas e na garimpagem de pedras preciosas nesse Amazonas enlameado de [des]informação. Renata Marques, além de ter um CD muito legal flutuando por aí para quem quiser ouvir e de escrever com um ouvido muito sensível para a língua portuguesa suja de capim e minério que circula por Minas Gerais, já me apresentou a poesia da irmã dela e, com grande animação, essa banda do Rio de Janeiro que eu, no meu bairrismo instintivo, pensei ser de Minas Gerais. Passo para frente, na esperança que outros se entusiasmem. O álbum deles está também disponível por aí.

Casa
Cairé Rego, David Rosenblint, Felipe Ventura, Gabriel Vaz, João Pessanha, Sofia Vaz


Minha casa é simples, mas é forte todavia. Chove todo dia uma calma solidão.
Vento que arranca dos varais uma lembrança – tudo que me alcança - era sonho,
agora, não.

Da janela, vejo luzes da cidade, o peso, todo o desejo de um lugar nesse clarão. Como eles correm tão certinhos quanto à sorte; rima com a morte. Mando um grito, mando um sinal.

Ninguém nunca vê a minha casa.
Ninguém nunca entra.

Minha casa é simples, mas é minha toda vida. Chove todo dia – uma brava solidez.
Onda que me lança, nunca quebra, só avança, faz da dor bonança. Soa o sino –
agora, sim.

Sei que já é tarde. Hoje desço pra cidade – algo que se parte. Dou à sorte o meu amor.
Em cima de um morro nem tão alto, nem tão baixo. Será que eu encaixo? Era sonho.
Agora, não.