Wednesday, November 28, 2018

O de sempre e as velhas novidades

O de sempre: Sai a enésima reportagem anual sobre pesquisa sobre hábitos de leitura no Brasil que, apesar da pesquisa indicar uma pequena mas constante mudança POSITIVA no número de leitores e no número de livros lidos, gera manchetes e depois inúmeros comentários carregados de complexo de vira-lata sobre "a falta de cultura" do ser fictício mais odiado do Brasil: o brasileiro [que curiosamente sempre exclui aquele que se pronuncia sobre ele, mesmo que via de regra seja ele brasileiro também].
 
A velha novidade: Pessoas importantes do mercado editorial brasileiro lançando cartas ao público nas redes sociais pedindo que as pessoas comprem mais livros em vista da situação periclitante da indústria no fim de 2018. 

Outra velha novidade: Livro com os contos de Lygia Fagundes Telles que acaba de ser lançado pela editora mais importante do país custa simplesmente R$99,90, o que significa mais de 10% de um salário mínimo. Pesquisa do IBGE de 2017 aponta que 50% dos trabalhadores brasileiros recebem por mês, em média, 15% menos que o salário mínimo [reportagem aqui]. Se bobear, em termos de possíveis consumidores de livros, não devemos conter nem um Portugal de leitores em condições financeiras de comprar um livro.

O de sempre: Nem o editor em sincero desespero, nem os leitores indignados com "a falta de cultura" do "brasileiro" (que não inclui o leitor indignado) fazem qualquer menção sobre uma política séria, agressiva de bibliotecas no Brasil. Uma biblioteca deve ser um espaço de democracia, onde o livro chega às mãos dos muitos que não têm acesso a ele. Se todas as universidades, todas as escolas do ensino médio e todas as escolas do ensino fundamental tivessem bibliotecas com um acervo em dia, renovado periodicamente, o "mercado do livro" se beneficiaria e não há nada de mal nisso, muito antes pelo contrário. Mas seriam muito mais beneficiados os brasileiros. Esses livros, entre eles o de contos de Lygia Fagundes Telles, estariam à disposição da metade de brasileiros que não tem dinheiro para montar bibliotecas em casa e dos seus filhos também.

Tuesday, November 20, 2018

Aparece Diadorim

Diadorim aparece pela primeira vez na voz de Riobaldo, ainda naquelas primeiras páginas em que ele divaga uma espécie de prólogo para a história. Fugindo da morte, o cavalo baleado, Riobaldo se embrenha no mato até tomar um susto com um papa-mel:


Conforme pensei em Diadorim. Só pensava era nele. Um joão-de-barro cantou. Eu queria morrer pensando em meu amigo Diadorim, mano-oh-mão, que estava na Serra do Pau-d’Arco, quase na divisa baiana, com nossa outra metade dos sócandelários... Com meu amigo Diadorim me abraçava, sentimento meu iavoava reto para ele...



Desaparecidos e fantasmas

O fenômeno dos desaparecidos na América Latina a partir dos anos 70 é uma antecipação de coisas que mais tarde se espalhariam, aparentemente, pelo mundo todo. Hoje desaparecem mexicanos, sírios, congolenses e filipinos aos montes, sem falar no uso indiscriminado das famigeradas "black ops" patrocinadas pelo serviço secreto de vários países chiques e cheirosos.

O desaparecimento é um ato de terrorismo de estado, e poderia ser parte desse renascer geral do terrorismo no século XXI. Mas o desaparecimento tem um componente particularmente perverso: enquanto outros atos de terrorismo culminam no momento em que um grupo se responsabiliza pela ação executada, o desaparecimento se apoia, ao contrário, no ato de negar publicamente qualquer responsabilidade do estado pelo desaparecimento.

A atitude se repetia de um país para o outro nos anos 70. Os porta-vozes oficiais do governo insistiam enfaticamente: não houve sequestro, não houve denúncia formal de crime, não houve detenção, nem tortura, nem assassinato, nem ocultação de cadáver. Alguns ainda aventavam a hipótese de que o indivíduo em questão teria fugido do país.

Por causa do silêncio e das negações, as famílias das vítimas eram condenadas a viver num longo presente de pesadelo: sem corpo não há atestado de óbito, nem velório, nem enterro. Sem enterro não há luto. Não se dá à família a oportunidade de cicatrização da ferida que a morte violenta abriu. Esse longo presente a que se submeteu tanta gente foi até usado engenhosamente por elementos do judiciário que negaram a prescrição do crime com base na observação de que não há morte datada e estragaram o chá das cinco de Pinochet com Margaret Thatcher. Transforma-se a falta que a morte traz numa dolorosa ausência viva, permanente.

Creio que estamos nos preparando para uma nova onda de desaparecimentos no Brasil parecida com o holocausto que atingiu o México com Felipe Calderón e sua estúpida guerra ao narco. A prática nunca foi abandonada por aqui mesmo depois do fim da ditadura - há centenas, possivelmente milhares de Amarildos espalhados pelo país inteiro, fantasmas da violência estatal ou feita com a conivência do estado. No México os desaparecimentos se multiplicaram justamente no século XXI, impulsionados por um governo afundado em relações venais e propaganda fútil feita com pompa e circunstância. O moralismo cristão cobra um preço caríssimo pelas suas hipocrisias. E onde é que está mesmo o Amarildo? Tomando chá com os assassinos invisíveis de Marielle Franco? Quantos outros brasileiros pobres desaparecidos não tiveram sequer a visibilidade do Amarildo e são enterrados nas estatísticas? O que dizer das famílias desses fantasmas.

Um filme de terror passado na Guerra Civil espanhola definia esses fantasmas com precisão:

Saturday, November 17, 2018

Natalia Lafourcade: finalmente um tesouro da música mexicana

Natalia Lafourcade começou a aparecer no começo do século, com uma canção bem típica do pop mexicano:



Confesso que não me interessei muito. Entendia, reconhecia a qualidade da letra e da execucão, mas achava um pouco bonitinho demais, planejado demais para o meu gosto. Era o anúncio de que ela não era mais presa fácil da máquina de produzir sucessos adolescentes [comparada com a máquina de produzir sucessos adolescentes dos anos 60, dá dó - quanto mais controle mais desanda a fórmula que um dia nos deu aqueles Beatles de "She Loves You"]. No refrão dizia:

Ya no soy, ya no soy
La infantil criatura, la inocencia se acabó
Ya no soy, ya no soy
La de ese cuerpo extraño
Ahora siente el corazón

Depois ela se juntou a um dos membros do Café Tacvba e lançou um lance meio Bossa-Nova de gringo chamado Natalia y La Forquetina. Era bonitinho:



E às vezes até interessante:



No refrão:

No se pueden quejar soy un ser humano!
No me puedo quejar estoy condenado!

Ninguém pode negar que ela sabia cantar e às vezes fazia coisas bem interessantes como "Tiempo al viento" de 2010:



Mas quem diria que eu finalmente me interessaria para valer no trabalho dela depois de quinze anos! Quando ela resolveu se debruçar sobre o cancioneiro mexicano sem aquelas gritarias lacrimosas dos Luises Miguéis da vida e seus arranjos barangosos, Natalia Lafourcade chegou mais longe, além do bem feito. Agustín Lara e companhia tem um tesouro de canções que não deixam nada a desejar ao baú de tesouros que os grandes artistas da MPB escarafuncham de tempos em tempos. Abaixo um pequeno show [uma série da rádio pública dos Estados Unidos] com quatro canções dessa fase maravilhosa:

Wednesday, November 14, 2018

Os melhores da América Espanhola em 2018


A banda venezuelana La Vida Boheme pergunta no refrão [em português]:

"E o que você vai fazer?"




Já a vocalista dos colombianos da banda Bomba Estéreo diz com simplicidade no refrão:

Es amar así, 
como te amo yo.

Es amar así, 
sintiendo el calor.

Es amar así,
como te amo yo.
Es amar así,
cuerpo y corazón.




Num trabalho lindo de reviver os gloriosos clássicos do passado, a mexicana Natalia Lafourcade nos pede:

Un alma que al mirarme, sin decir nada, 
Me lo dijese todo con la mirada.



Café Tacvba não cansa de espantar e nos presenteou assim:

La muerte dijo sí,
Yo digo que no.

Yo digo que sí,

La vida dijo no.
Al final ¿qué importa,
si muerto en vida sobreviví?



Outro veterano, o Residente do Calle 13 de Porto Rico [ai, pobre Porto Rico] grita:

Somos anormales:

Lo que me gusta de ti 
Es que tu eres anormal.

¡Soy anormal!

Saturday, November 10, 2018

100 anos do fim da Primeira Guerra Mundial

“(...) the old 19th century doctrines – 
Romantic humanism, liberal individualism, 
dreams of social progress – 
had all failed to survive the Somme”. 
[Figures of Dissent, 79]

“[…] as velhas doutrinas do século xix – 
o humanismo romântico, o individualismo liberal, 
os sonhos de progresso social – f
oram todos incapazes de sobreviver ao Somme”.


Amanhã comemora-se 100 anos do fim da Primeira Guerra Mundial.

A batalha de Somme, que começou no verão de 1916, consumiu quase 20.000 soldados britânicos apenas no seu primeiro dia. Depois de quatro meses 300.000 pessoas morreram num batalha que resultou, em alguns pontos da linha que dividia os dois lados, num avanço de no máximo 5 milhas na posição das trincheiras. A escala é tão monumental que os seres humanos chafurdados na lama do Somme viraram insetos insignificantes. A carnificina fútil da Batalha de Somme é símbolo da Primeira Guerra Mundial, resultado da industrialização aplicada ao ofício fútil do assassinato em massa. Uma guerra que, na minha opinião, não acaba em 1918, mas em 1945. A carnificina do Primeira chocaria o ovo da Segunda, outro espetáculo de violência no qual os brasileiros tiveram a sorte de participar muito discretamente - por exemplo, pelo menos 20 milhões de russos morreram na Segunda Guerra.

Memorial do artista Rob Heard no Parque Olímpico em Londres
No Brasil o número de assassinatos vai subindo até chegar a níveis absurdos na segunda década do século XII. Não chegamos a uma carnificina como a do Somme na sua intensidade de quatro meses, mas vamos cozinhando em fogo lento números igualmente superlativos sem que nenhuma guerra tenha sido declarada. Algumas das reflexões mais agudas sobre o assunto datam dos anos 90 - por exemplo, o documentário Notícias de Uma Guerra Particular de Kátia Lund e João Moreira Salles. Alguns poucos avanços no começo do século e entramos numa espiral de violência ainda mais intensa. Só no primeiro semestre em 2016, mais de 44.000 mortos por armas de fogo. Os números não são uniformes no país inteiro. A escala monumental mais uma vez dificulta a compreensão humana do problema. Uma carnificina inútil, e desorganizada. Na Primeira Guerra Mundial eram "leões comandados por burros" - os ingleses viam um bando de oficiais elevados ao comando por causa de seu sobrenome fazerem burradas que custavam milhares de vidas. Não temos sequer burros. Nossa guerra é "particular", privatizada, neo-liberal. A polícia, com importantes exceções, acaba apenas participando no banho de sangue matando e morrendo também como moscas. 

Deixemos por um instante essas gentes transformadas em moscas e formigas esmagadas há mais de um século e nessa cabeça de século em que vivemos. Um soldado americano, Henry Nicholas John Gunther, foi o último a morrer na Primeira Guerra Mundial, justamente no dia 11 de novembro um minuto antes do armistício começar a valer às 11 da manhã. Neto de imigrantes alemães, nascido nos EUA em Baltimore, católico. Quando era sargento, escreveu uma carta a um parente aconselhando-o a evitar o alistamento e reclamando das condições de vida precárias no front. Todas as cartas eram censuradas e qualquer crítica era muito mal-vista. Foi punido, por isso e talvez também por sua ascendência alemã que talvez o fizesse suspeito aos olhos dos outros, e perdeu a patente de sargento sendo rebaixado a soldado raso. Os países envolvidos na guerra haviam assinado o armistício às 5 horas da manhã do dia 11. Faltando 5 minutos para que o armistício começasse a valer. Gunther saiu correndo com a sua baioneta na direção da linha alemã, contra as ordens do seus superiores. Os soldados alemães a princípio apenas acenaram e gritaram para que ele parasse mas Gunther continuou correndo e disparou alguns tiros de baioneta até ser metralhado pelos alemães.

Façamos o mesmo no Brasil. Sejamos específicos e digamos Belo Horizonte. Sejamos mais específicos e digamos o bairro Floramar. Luiz Carlos Gomes Coelha era um rapaz de 17 anos voltando para casa depois da escola, quando recebeu uma saraivada de tiros e caiu morto num matagal. A polícia chega e, constatando a cor do morto, completa um boletim de ocorrência que aventa uma briga de traficantes e um ajuste de contas. Não fosse a intervenção vigorosa da irmã, o boletim de ocorrência selaria a estatística. Diariamente os mortos negros e pobres são transformados em "bandidos" e assim desprovidos de história. Morreram porque queriam morrer, mereceram morrer portanto. Luizinho não fumava nem sequer tabaco. Sequer bebia. Tinha começado a querer namorada uma colega da escola e alguém que se julgava dono da menina se julgou no direito de matá-lo. Uma tragédia tipicamente adolescente, tragédia da precipitação violenta, como Romeu e Julieta.

O quanto vale uma vida humana? Uma patente de sargento? Uma noção qualquer de orgulho e honra? Alguma noção exaltada de pátria e nacionalidade? Uma ideia estúpida de orgulho e honra masculina? O quanto vale uma vida? Uma em 45.000 vidas, quanto vale? O que nos cabe celebrar numa data assim? A estupidez humana?