Thursday, January 28, 2016

Segunda versão: dormindo estamos mortos pro mundo


dormindo estamos mortos pro mundo

dormindo estamos mortos pro mundo
não há dor não há mágoa não há pena
se o mundo não quer dormir conosco
não me diga que é nosso o problema

nos deitamos antes que escureça
acordamos no final da manhã
terminamos a sesta quando cai a tarde
hibernamos no fim de semana

o pijama é nossa segunda pele
a cama escura, nosso endereço certo
ainda que o coração teime em bater

seguimos impenitentemente dormentes,
não há dor não há mágoa não há pena
que nos entorpeça o prazer de não ser

Em nome do Valium,
Arte minha: Braços de Morfeu
do Rivotril
e do Lexotan com Champagne
agradeço pela alface,
pela aveia, pelo maracujá,
pela cachaça e pela camomila
na nossa mesa de todo dia.
Peço auxílio aos santos
Magnésio, Frontal, Lorax e Dalmadorm,
e proteção às deusas
Tranxilene, Maconha e Morfina.
Que todos me embalem,
homo, qui nocturno pollutus sit somnio 
extra casta ad aeternum,
Amém.

Tuesday, January 26, 2016

Última entrevista de Sérgio Buarque de Holanda em 1981

Trechos de entrevista de Sérbio Buarque de Holanda que foi publicada postumamente em Novos Estudos CEBRAP N.° 69, julho 2004

Separei aqui umas coisas que me interessam e que provavelmente os historiadores não querem muito saber:

"... não gosto da linguagem afetada. Gosto da linguagem seca, nítida, precisa, que é um traço característico dos autores modernistas. Mas não acredito que essa convivência com o modernismo tenha me ajudado a escrever bem no sentido gramatical. Às vezes tenho de ir ao dicionário para ver como se escreve uma palavra. Quem me ajudou muito foi João Ribeiro, crítico literário do Jornal do Brasil. Era um grande conhecedor de gramática, e com freqüência eu ia até ele tirar dúvidas de português. Ele dizia que o mais importante não era a correção, mas a eufonia. Achei esse conselho tão bom que guardei até hoje."

"Lewis Hanke me disse que para escrever um livro sobre um país novo bastaria ter vivido nele por três meses: "Três meses ou mais de dez anos", ele dizia."

"... os jornais pagavam artigos de crítica literária. Ou seja, fazer crítica histórica não adiantava nada. Então comecei a comprar livros, a ler. Fiz um esforço danado. Em 1941 fiz uma viagem aos Estados Unidos a convite do State Department e trouxe uma verdadeira biblioteca para me enfronhar nisso. Quando eu estava com falta de dinheiro, era a crítica literária que me ajudava. Eu mandava textos para publicar em São Paulo, Rio, Minas, no Norte. Até que dava um dinheirinho..."

"não sou muito rápido para escrever. É por isso que digo: sou mau escritor porque tenho dificuldade para escrever. Não sou um escritor nato."

"... nos Estados Unidos passei por experiências curiosas. Lá a competição por nota era incrível. Lembro de um aluno que fez um trabalho sobre o modo como o Brasil aparecia na imprensa russa. Ele aprendeu russo, fez uma boa pesquisa e apresentou material inédito, mas não sabia nada do Brasil. Por isso dei nota B+. Ele não ficou satisfeito, arrumou um pistolão para vir reclamar comigo. E precisei explicar que se mudasse a nota dele teria de mudar as de todos os outros. De modo que esse tipo de coisa acontece muito no estrangeiro também."

Saturday, January 23, 2016

Tradução: "Delirante" de Sarah Howe


Sarah Howe acabou de ganhar com o seu primeiro livro dois importantes prêmios na Inglaterra, o TS Eliot e o Young Writer of the Year. Celebrações e comemorações de nascimentos, prêmios, mortes e publicações só fazem sentido para mim como desculpas para conhecer ou conhecer melhor um trabalho interessante. A vida é curta e não tenho muita paciência nem para fofocas sem-graça nem para polêmicas aborrecidas nem para longos elogios emocionados. Então tratei de esboçar uma primeira tradução de um pequeno poema de Sarah Howe: 

Delirante
Conter-se talvez
não passe de outra forma

de necessidade. Sou
ameixa, azul à meia-luz.

Você é tigre que
come as proprias patas.

O dia em que casamos
as árvores todas tremiam

como se estivessem loucas –
seja gentil comigo, você disse.

Frenzied
Maybe holding back
is just another kind

of need. I am a blue
plum in the half-light.

You are a tiger who
eats his own paws.

The day we married
all the trees trembled

as if they were mad –
be kind to me, you said.

Mais poemas de Sarah Howe aqui. Há um outro excelente poema de Sarah Howe, precedido de um ensaio muito mais ou menos dela, aqui [talvez valha a pena pular o ensaio e ir direto ao poema].

Friday, January 22, 2016

Tradução de trechos de texto de Stuart Hall sobre Gramsci e Thatcher

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Stuart Hall
Li um texto interessante de Stuart Hall escrito na época do pesadelo Thatcher sobre as ideias de Gramsci [original em inglês aqui]. Traduzi alguns trechos fundamentais com bastante liberdade e a pressa habitual com quase tudo que sai nesse meu pobre quintal virtual. Aí vai:

1. Creio que essa primeira passagem vale para o interesse intelectual honesto em qualquer candidato a "profeta do Velho Testamento", seja ele Marx, Foucault, Deleuze, Derrida e cia aparentemente ilimitada:
"Não quero dizer que Gramsci tem as respostas ou possui a chave para nossos problemas atuais. Creio, sim, que devemos pensar nossos problemas de uma forma Gramsciana - que é uma coisa diferente. Não deveríamos usar Gramsci (como temos abusado por tanto tempo de Marx) como um profeta do Velho Testamento que, no momento correto, nos oferecerá uma passagem apropriada e consoladora a citar.”

2. Hall chama o projeto de Thatcher de "modernização regressiva", exatamente aquilo que nós no Brasil chamamos a muito mais tempo de "modernização conservadora". Não deixa de ser curioso [espantoso, na verdade] ver aplicado ao caso inglês [logo onde!] essa fetichização da "civilização burguesa moderna" como algo desejável a se atingir, fetiche que afeta tanta gente inteligente e interessante no pensamento brasileiro desde os anos 50. 
“... um dos fatos históricos mais profundos da formação social britânica: que ela nunca entrou propriamente na era da civilização burguesa moderna. Ela nunca vez aquela passagem para a modernidade. Ela nunca institucionalizou, em sentido adequado, a civilização e as estruturas do capitalismo avançado [...]. Ela nunca transformou suas velhas estruturas industriais e políticas. [...] A Grã-Bretanha nunca sofreu aquela profunda transformação que, no fim do século XIX, remodelou tanto o capitalismo como a classe trabalhadora. “

Antonio Gramsci
3. Uma importante dica sobre crises e triunfalismo: 
“Quando a Esquerda fala sobre crise, tudo o que vemos é o capitalismo se desintegrando e nós marchando e assumindo o poder. Não compreendemos que o rompimento do funcionamento normal da velha ordem cultural, social e econômica dá a ela uma oportunidade de reorganizar-se de novas maneiras, de se reestruturar e remodelar, de modernizar-se e seguir adiante”.

4. Sobre ideologia e contradições:
 “Em nosso intelectualismo, pensamos que o mundo vai entrar em colapso como resultado de uma c ontradição lógica: é a ilusão do intelectual de que a ideologia deve ser coerente, cada pedaço se encaixando aos outros, feito uma investigação filosófica. Na verdade, [...] uma ideologia orgânica articula em uma configuração sujeitos diferentes, identidades diferentes, projetos diferentes, aspirações diferentes. A ideologia não reflete mas, sim, contrói uma "unidade" a partir da diferença."

5. Sobre a efetividade e eloquência de certas ideologias conservadoras:
“O Thatcherismo, como uma ideologia, da conta de medos, ansiedades, identidades perdidas de um povo. Ele nos convida a pensar sobre política em imagens. Ele aborda nossas fantasias coletivas, nossa comunidade imaginária, nosso imaginário social”.

Margaret Thatcher
6. Sobre a complexidade de qualquer sujeito histórico, inclusive nós mesmos:
“Não há sujeito histórico unitário. O sujeito é necessariamente dividido, um conjunto: uma metade na Idade da Pedra, outra contendo 'princípios avançados da ciência, preconceitos trazidos de fases antigas da história, intuições de uma futura filosofia. Essas coisas todas lutam dentro dos corações e mentes das pessoas para achar uma forma de se articular politicamente. É possível recrutá-las para projetos políticos radicalmente diferentes, é claro.”


7. Algo sempre importante a se considerar:
Gramsci é um dos primeiros marxistas modernos a reconhecer que os interesses não são simplesmente dados mas que têm que ser construídos politicamente e ideologicamente.


Wednesday, January 20, 2016

Cursos que não foram

Arrumando velhos papéis e relembrando tempos semi-antigos. Adaptei uma aula de introdução à narrativa que dei em inglês na UFMG como professor substituto e tentei emplacar um curso de contos em português que no fim das contas nunca foi dado por falta de interesse. Eis a lista dos contos e pequenos textos teóricos:

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Aula 1
Introdução – O que é narrativa de ficção? (1)
Leitura: Kate Chopin – “A história de uma hora” (3)
Extras: Pu-Sung-Ling – “Choei-yun” (6)
Augusto Monterroso – “A Ovelha Negra” (8)
I.L.Peretz – “O Golem” (9)

Aula 2
O conto “clássico”– Decálogo del perfecto cuentista (10)
Leitura: Saki – “A porta aberta” (11)
Extras: Horacio Quiroga – “Travesseiro de penas” (13)
Edgar Allan Poe – “Coração denunciador” (17)
Jacopo de Varazze – “Santa Maria Egipcíaca” (21)

Aula 3
Explorando fórmulas – A composite of a Romance Tip Sheet (23)
Leitura: Nelson Rodrigues – “Casal de três” (27)
Extras: Machado de Assis – “A igreja do diabo”(30)                                        
Margaret Atwood – “Era uma vez” (35)

Aula 4
História e enredo  Questionário sobre o Enredo / Teses sobre o conto (37)
Leitura: William Faulkner – “Uma rosa para Emily” (42)
Extras: Alejo Carpentier – “Viagem à semente” (46)
Luís Fernando Veríssimo – “Conto de Verão n 2: Bandeira Branca”(54)

Aula 5
Personagem e caracterização – Glossário para a análise de personagens (56)
Leitura: Osman Lins – “Vitral” (58)
Extras: Ignácio Loyola Brandão – “Obscenidades de uma dona de casa” (60)
Julio Cortázar – Axolotl (64)

Aula 6
Tempo e espaço – o contexto da narrativa (67)
Leitura: James Joyce – “Eveline” (68)
Extras: Isaac Bashevis Singer – “Gimpel, o bobo” (71)
Ruben Darío – “As perdas de João Bom”(79)
Flannery O’Connor – “A gente boa da roça”(81)

Aula 7
Voz narrativa e foco (97)
Leitura: Juan Rulfo – “Diga que não me matem” (99)
Extras: Clarice Lispector – “Feliz aniversário” (105)
Herberto Helder – “A teoria das cores”(111)

Aula 8
Linguagem: tom e dicção (112)
Leitura: Guimarães Rosa – “Esses Lopes” (114)
Extras: Nélida Piñon – “I love my husband”(117)
Idris Shah / Mulá Nasrudin – “A mulher ideal” (121)
António Lobo Antunes – “A propósito de ti” (122)

Aula 9
Simbolismo (123)
Leitura: Nathaniel Hawthorne – “O jovem Goodman Brown” (124)
Extras: Juan José Arreola – “El guardagujas” (131)
Charles Dickens – “O sinaleiro”
E.T.A. Hoffmann – “O homem de areia” (136)

Aula 10
Tema - Passo a passo de um assunto a um tema (146)
Leitura: Alfonso Reyes - “A mão do comandante Aranda” (147)
Extras: Graciliano Ramos – “Um cinturão” (154)
Murilo Mendes – “Tio Lucas” (156)

Aula 11
Gêneros e estilo (175
Leitura: Carlos Fuentes – “Chac Mool” (176)
Extras: Octavio Paz – “Minha vida com a onda” (180)
Jorge Luis Borges – “O Livro de Areia” (183)

Aula 12
Revisão final - Questionário para uma leitura crítica e estratégias críticas (187)
Leitura: Machado de Assis – “Pai contra mãe”(190)
Extras: Robert Louis Stevenson – “O macaco cientista” (199)
Murilo Rubião – “O ex-mágico da Taberna Minhota” (203)
Jorge Luis Borges – “Aleph”


Leituras finais: Dostoievski – “O grande inquisidor”
Tolstoi – “A morte de Ivan Ilych”
Carlos Fuentes – “Aura” [livro de bolso da LP&M]

Friday, January 15, 2016

Notas para livros impossíveis: Je suis un barbare soumis

Retrato de George Dyer no Espelho de Francis Bacon 
Depois de morar quase 10 anos nos Estados Unidos, acho impressionante como alguns compatriotas meus se sentem tão à vontade em identificar-se com a Europa Ocidental. Essa Europa a que me refiro [cujo miolo central seriam Inglaterra, França, Alemanha] já olha com desprezo para os "moreninhos" espanhóis e portugueses e certamente ririam incrédulos se ouvissem qualquer brasileiro falar em "nossa" civilização ao referir-se à cultura ocidental. Só consigo me lembrar de um dia em que vi um belorizontino desprezando gente do norte de Minas exatamente nos mesmos termos em que certos paulistas desprezam todos os mineiros, os mesmos termos em que certos habitantes dos Estados Unidos desprezam paulistas e todos os outros istas e astas, anos e inos ao sul da fronteira com o México. Ou do dia em que testemunhei um paulistano tentar convencer um bando de estadounidenses incrédulos que o Brasil "ou pelo menos São Paulo" não tinha nada que ver com a América Latina [glosando sem querer Eduardo Prado, um daqueles nossos monarquistas inconformados com a República].
É impressionante que depois de mais de um século alguém ainda se diga chocado com gente ilustre e vetusta como Hegel ou Burckhardt garantindo que não existe nem civilização nem história além daquela peninsolazinha da Ásia que os Europeus tem o topete de chamarem de "continente". Lá estão eles e muitos outros do seu Olimpo Cultural rindo dos nossos pedantismos: "Ah, esse bando de sudacas selvagens... são na melhor das hipóteses bárbaros domesticados". Não enxergar essa imagem que esses outros que prezamos tanto têm de nós mesmos é compreensível porque esse é um espelho que reflete sempre uma imagem muito feia e olhar para ele durante muito tempo muito de perto é altamente nocivo à saúde mental da gente. É um luxo que só pode ter quem mora longe daqui. Eis o principal calcanhar de Aquiles de muitas das nossas melhores cabeças: a idealização embasbacada do processo de mdoernização nesse miolo ocidental.
O resto eu já escrevi num capítulo do meu livro pela UFMG chamado "Aprendizado pela Cegueira"...

Monday, January 11, 2016

Obituário: David Bowie

My Death
David Bowie
My death waits like
an old roué:
So confident,
I'll go his way.
Whistle to him
and the passing time.

My death waits like
a Bible truth
at the funeral
of my youth.
Are we proud for that
and the passing time?
My death waits like
a witch at night
as surely
as our love is right.
Let's not think about
the passing time.
But whatever lies
behind the door,
there is nothing much to do.
 Angel or devil,
I don't care
for in front of that door
there is you.

My death waits like
a beggar blind
who sees the world
through an unlit mind.
Throw him a dime
for the passing time.
My death waits there
between your thighs.
Your cool fingers
will close my eyes.
Let's think of that
and the passing time.

My death waits
to allow my friends
a few good times
before it ends.
So let's think of that
and the passing time.
For whatever lies
behind the door,
there is nothing much to do.
Angel or devil,
I don't care
for in front of that door
there is you.
My death waits there
among the leaves
in magician's
mysterious sleeves,
rabbits and dogs
and the passing time.
My death waits there
among the flowers
where the blackest shadows,
blackest shadows cowers.
Let's pick lilacs
for the passing time.
My death waits there
in a double bed,
sails of oblivion
and my head.
So pull up your sheets against
the passing time.
But whatever lies behind the door
There is nothing much to do
Angel or devil, I don't care
for in front of that door there is,
Thank You.

Friday, January 08, 2016

Tradução: "Os teósofos" de Felisberto Hernández

O uruguaio Felisberto Hernández [1902-1964]
Os teósofos
Felisberto Hernández

Os teósofos brincam de cabra-cega e se abraçam o tronco de uma árvore, dizem que é a cintura de uma jovem, e se lhes tiram o pano dos olhos, dizem que a jovem se transformou em árvore, e se lhes mostram a jovem, dizem que é uma reencarnação, e se a jovem diz que não, dizem que lhe falta fé.

Original em espanhol pode ser lido aqui.




Tuesday, January 05, 2016

Cinema: A Velha a Fiar



O curta metragem "A Velha a Fiar", de Humberto Mauro, é de 1956. Quem faz a velha é Matheus Collaço, técnico da equipe de Humberto Mauro e funcionário do INCE, antecipando o look "velha coroca" do Psicose de Hitchcock. Além de pioneiro na hoje mui difundida arte de cativar espectadores com gatinhos e cachorrinhos, Humberto Mauro mostra que entendia tudo de montagem nessa brincadeira de criança despretensiosa. 

Monday, January 04, 2016

Poesia minha: um esboço para uma "Ode à Redondilha"


Ode à Redondilha


a matéria prima
de todo o meu canto
cabe em cinco toques
d’uma redondilha
desde a minha infância
quando eu escutava
d’um canto da sala
minha mãe cantando
que você não vinha
pela estrada nova
não chegava hoje
não chegava nunca
minha mãe cantava
como era triste
a raiva, a mágoa
com que a avó contava
do seu casamento
aos quatorze anos
com um homem velho
que não conhecia
“eu brincava ainda”
ela se trancava
no quarto sozinha
era em cinco toques
que sua voz pulsava
se desenrolando
pela noite escura
eram em cinco toques
que se apresentava
cada verso branco
um golpe preciso
de ponto em linha
trêmula escultura
traçada na luz
e na sombra imensa
sussurrada a gás
de dois lampiões
“tira a mão, menino,
isso não é brinquedo”
até os pés batiam
cinco toques claros
na tábua corrida
da casa cansada
balançando as pernas
da mesa de cartas
cujo feltro verde
me esquentava a mão
até o meu silêncio
de menino novo
no frio estrelado
da alto da Serra
tinha cinco pulsos
cada baforada
do charuto aceso
na mão do meu tio
desenhava sonhos
nos meus olhos mansos
e um dente brilhava
entre a barba branca
cheirando à tabaco
era um sorriso
que hoje é meu sorriso
era em cinco toques
são em cinco toques
serão cinco toques
a matéria prima
d’uma redondilha
da minha lembrança
e todo o meu canto

Saturday, January 02, 2016

Traduzindo Augusto Monterroso

 
Jan de Bray (1627-1697) Ulisses e Penélope
O tecido de Penélope ou quem engana a quem
Augusto Monterroso 
Há muitos anos atrás vivia na Grécia um homem chamado Ulisses que, apesar de ser bastante sábio, era também muito astuto. Ulisses era casado com Penélope, mulher bela e singularmente dotada cujo único defeito era sua desmedida afeição por tecer, costume graças ao qual conseguia passar longas temporadas sozinha.
Diz a lenda que cada vez que o astucioso Ulises observava que, apesar de suas proibições, Penélope se preparava para começar outro de seus intermináveis tecidos, podia-se vê-lo à noite arrumando às escondidas suas botas e uma boa barca até que, sem dizer nada à sua esposa, ele saía a percorrer o mundo em busca de si mesmo.
Dessa forma ela conseguia mantê-lo longe enquanto flertava com seus pretendentes, fazendo com que eles acreditassem que ela tecia enquanto Ulisses viajava, quando, na verdade, Ulisses viajava enquanto ela tecia. Assim pode ter imaginado Homero, que, como se sabe, às vezes dormia e não se dava conta de nada.

O original em espanhol pode ser lido aqui.