Monday, June 28, 2010

Ainda sobre a sacanagem: a marrequinha dança na ABL

O blogue Não Gosto de Plágio acertou na mosca de novo, só que agora a mosca anda voando na mais vetusta das vetustas a Academia Brasileira de Letras. A série sobre a premiação bizarra da ABL no quesito tradutor é imperdível. Cá do meu canto eu fico pensando nas minhas raízes maternas pernambucanas e digo: um estado tão rico de história e cultura popular, o estado de Manuel Bandeira, João e Evaldo Cabral de Mello, Ariano Suassuna e Aurélio Buarque de Holanda não merece isso...

Friday, June 25, 2010

Sacanagem, uma vetusta tradição nacional



Para quem acha que a letra de duplo sentido na música brasileira é fruto da recente decadência na moral e nos bons costumes do nosso querido Brasil varonil, ofereço como prova do contrário a letra dum Lundu [avô do samba] muito popular no alvorecer da nossa nação, chamado “A marrequinha” de 1835.

Os olhos namoradores
Da engraçada Iaiazinha
Logo me fazem lembrar
Sua doce marrequinha

Refrão: Iaiá, não teime
Solte a marreca
Se eu não morro
Leva-me à breca

Se dançando à brasileira
Quebra o corpo a Iaiazinha
Com ela brinca pulando
Sua bela marrequinha

Refrão

Quem a vê terna e mimosa
Pequenina e redondinha,
Não diz que conserva presa
Sua bela marrequinha

Refrão

Nas margens da Caqueirada
Não há só bagre e taínha:
Ali é que ela criou
Sua bela marrequinha.

Refrão

Tanto tempo sem beber…
Tão jururu… coitadinha!..
Quase que morre de sede
Sua bela marrequinha.



Poesias de Francisco de Paula Brito, 1863 (67-68) [encontrável online aqui]

A letra é de Francisco de Paula Brito (1809-1861), que começou como tipógrafo, comprou encadernadora e gráfica e criou sua própria editora, tipografia, tipografia e livraria na praça Tiradentes no Rio de Janeiro, onde outro jovem tipógrafo (mulato como ele) chamado Joaquim Maria Machado de Assis começaria a trabalhar. E a música é de ninguém menos que Francisco de Paula Brito (1795-1865), autor do Hino Nacional brasileiro. Tereza Pineschi gravou num CD recente essa mesma canção, com uma letra um pouco diferente, mas igualmente insinuante.
Bem como todos sabemos a marrequinha (fig 2) é uma marreca pequena, sendo a marreca a fêmea do marreco. Diz o igualmente vetusto Tinhorão que marrequinha (fig 1) são os babados dobrados amarrados num laçarote na altura das nádegas para fazer o vestido alargar os quadris e acentuar a cintura fina. O terceiro (ou quarto) significado de marrequinha eu não vou ilustrar nem explicar em detalhes porque, afinal de contas, este é um blogue muito sério e familiar.

Wednesday, June 23, 2010

Recordar é viver: profetas da raça

[Ilustração: flagrante de uma nação de guerreiros mostra crítico que, na falta do autor, é flagrado bem no ato de dar um pontapé desleal no livro do coitado]

Há quem ache que a Veja inventou alguma coisa. Murros e pontapés são coisa antiga Pois veja o que aconteceu há mais de 50 anos, em outubro de 1958: a revista Leitura trazia uma singela reportagem entitulada “Escritores que não conseguem ler Grande Sertão -: Veredas..”

Lá estavam entre outros Adonias Filho, à direita, quase ameaçador, dizendo que Grande Sertão: Veredas, “apesar do interesse que possa oferecer constitui um equívoco literário, que necessita ser imediatamente desfeito”. e, à esquerda, Ferreira Gullar chutando de canela e dizendo que o romance era “uma história de cangaço contada para lingüistasthey were simply “a futile exercise for philologists”.

Tuesday, June 22, 2010

Prosa e poesia

Foto minha de dentro do carro durante uma nevasca.

The Second Coming

TURNING and turning in the widening gyre

The falcon cannot hear the falconer;

Things fall apart; the centre cannot hold;

Mere anarchy is loosed upon the world,

The blood-dimmed tide is loosed, and everywhere

The ceremony of innocence is drowned;

The best lack all conviction, while the worst

Are full of passionate intensity.

Surely some revelation is at hand;

Surely the Second Coming is at hand.

The Second Coming! Hardly are those words out

When a vast image out of Spiritus Mundi

Troubles my sight: somewhere in sands of the desert

A shape with lion body and the head of a man,

A gaze blank and pitiless as the sun,

Is moving its slow thighs, while all about it

Reel shadows of the indignant desert birds.

The darkness drops again; but now I know

That twenty centuries of stony sleep

Were vexed to nightmare by a rocking cradle,

And what rough beast, its hour come round at last,

Slouches towards Bethlehem to be born?


[O que eu mais gosto nesse poema é que ele é de uma escatologia marcadamente modernista mas não tem nada daquela confiança triunfal e exaltada no futuro de outras coisas da época. Publicado em 1920, esse poema contém ainda o que em prosa seria um certo chororô provavelmente de fundo elitista [The Best lack all conviction while the worst are full of passionate intensity] , que o discurso poético salva e transforma em profecia dos desastres que ainda iriam sacudir a Europa e fazer da grande Guerra Mundial que tinha acabado de terminar apenas a primeira.]

Sunday, June 20, 2010

Lydia Davis: In a House Besieged

Foto minha do parque Sleeping Giant

In a house besieged lived a man and a woman. From where they cowered in the kitchen the man and woman heard small explosions. 'The wind,' said the woman. 'Hunters,' said the man. 'The rain,' said the woman. 'The army,' said the man. The woman wanted to go home, but she was already home, there in the middle of the country in a house besieged.

Aqui entre nós, poderia ser Cortázar...

Monday, June 14, 2010

Recordar é viver: Santa Barbara, 1969



II
O tal negócio preto na areia era piche. Em 1969, ou seja TRINTA E UM ANOS antes da minha chegada naquela praia, uma plataforma de petróleo perto da costa de Santa Barbara vazou entre 80 e 100 mil barris de óleo cru em DEZ DIAS. O desastre marcou uma grande mobilização na Califórnia para fiscalizar de perto as exploração de petróleo com vista à preservação ambiental, com uma moratória da exploração marítima nos EUA que durou até 2008. Dois anos depois do fim da moratória acontece o vazamento da plataforma da BP no Golfo do México, que começou dia 20 de abril e ainda não foi estancado. Alguns dizem que jorram dali entre 12 e 19 mil barris POR DIA e estamos chegando a TRES MESES de vazamento. Um oficial do governo do Obama disse que a limpeza duraria até setembro e teve que se retratar no dia seguinte. Minha experiência em Santa Bárbara indica que eu talvez não esteja mais aqui quando essa meleca acabar. Se é que essa meleca acaba.

Sunday, June 13, 2010

Recordar é viver: praia



I
Há dez anos atrás eu cheguei à Califórnia para estudar na Universidade da Califórina em Santa Barbara. Eram praias lindas e montanhas deslumbrantes num clima tão ameno que nunca fazia calor nem frio demais e quase nunca chovia – só uma suave garoa à noite deixava as plantas molhadas de manhã cedo.
Eu morava bem perto de uma praia vazia toda pontilhada por fiordes, sem acesso nenhum por automóvel – nem nome essa praia tinha, que eu saiba. Logo nos primeiros dias descobrimos como chegar à tal praia e eu todo animado fui caminhar na areia descalço. O ruim de não fazer calor demais é que quando bate um vento fica meio frio na praia. Quase não dá quase para nadar e é melhor levar uma blusa de manga comprida. Caminhamos mais um pouco e resolvemos voltar para casa por causa do frio.
Na volta reparei uns pontinhos pretos minúsculos espalhados na areia molhada e peguei um deles. Seria um bichinho? O negócio grudou nos meus dedos. Eu arrancava da mão direita e ele colava nos dedos da mão esquerda. Eu sacudia com força e o danado não caía no chão. Raspei o dedo numa pedra e ainda um pouco sujo continuei caminhando. Na saída da praia fui colocar o sapato e notei que a sola do meu pé estava toda cheia daqueles pontinhos pretos, formando quase uma sola extra e não conseguia tirar o troço com nem raspando o pé na pedra nem com um pedaço de madeira. Voltei para casa descalço arrastando o pé pela trilha de terra batida e depois pela calçada da minha rua e nada de sair. Cheguei em casa e tentei limpar o pé no capacho e depois com água na banheira e nada. Tentei raspar o negócio com uma colher e nada. Tentei com uma faca e nada. Depois aprendi que aquele troço só saía do pé com óleo de cozinha e mesmo assim com um certo custo e que por isso era melhor andar naquela praia de sapato ou pelo menos chinelo.

Thursday, June 10, 2010

Mais um fragmento: dois sonhos

Dois pesadelos recorrentes me perseguiram quando eu fui embora do Brasil. O primeiro acontece na velha casa de três andares de madeira onde eu morava. Eu estou andando, apressado, descendo as escadas até chegar num porão velho, escuro e sujo. Ele está logo atrás de mim. Eu não vejo, não ouço nada além dos meus passos mas sei que ele vem descendo as escadas e vem me pegar. Eu corro e me encolho entre duas caixas de papelão vazias mas não consigo me esconder completamente porque sou grande demais. Então eu me levando apressado e bato com a cabeça numa viga de madeira do teto. Junto com a dor uma onda de calor desce pela minha cabeça a partir do ponto do choque com a viga. Eu caio no chão coberto de poeira, de barriga para cima, com as pernas e os braços abertos e quando passo os dedos na cabeça e sinto o sangue mas não vejo nada nas mãos. De repente eu não consigo mais mexer braços e pernas e ouço um barulho abafado, discreto, indiferente, inconfundível: são os ratos se aproximando. Levanto a cabeça e não vejo nada mas sei que são eles, cada vez mais próximos. Quero gritar, mas estou completamente afônico. Escuto passos no assoalho de madeira no andar acima do porão e tento gritar mas só consigo emitir um som abafado. Os ratos são atraídos pelo brilho dos meus olhos, que eu não consigo fechar. De repente um rato imenso, gordo, bigodudo pula na minha barriga. Sem pressa e sem medo ele se aproxima do meu rosto. Finalmente eu consigo soltar um grito e acordo gritando desesperado. O segundo pesadelo acontece no Brasil. Eu estou andando com ela na beira da praia, no inverno. Ela está como era antes, linda. Estava ali de novo comigo por algum motivo que eu não sabia explicar. Eu estou muito feliz mas incomodado porque não sei o que dizer. Finalmente abro a boca e comento que estou feliz de estar com ela e que ela está de novo viva e linda ali na minha frente depois de tantos anos de sofrimento físico. E mal acabo de falar e percebo que cometi um grande erro, porque ela não sabia que tinha morrido. Ela me olha fixamente e o impacto da notícia é terrível: ela passa da alegria serena para a mais profunda tristeza e decepção. Percebo também que a barriga dela começa a inchar de novo. Eu não sei o que fazer para voltar atrás. Não há nada o que fazer? Eu não sei mas tenho medo de tentar alguma coisa e piorar ainda mais a situação. Ela vai inchando toda na minha frente até começar a verter um líquido verde viscoso pela barriga e eu não consigo fazer nada.

Tuesday, June 08, 2010

Poesia Minha: Brincando com o soneto

Os representantes das massas em três movimentos
I

É um grupo muito sério
de pessoas muito sérias
com assuntos muito sérios
para perder tempo com você.
Na engorda ou na espreita,
mosca batendo a cabeça
na vidraça do mercado,
você come cru ou azedo
e não sabe nem quer saber
e rouba no preço e rouba no peso
e rouba na nota e rouba no frete
e tem pressa e tem medo
e não vale muito mais
que esse coração submerso.
II
Quando tem tempo demais
sai correndo, derrubando
estabanado tudo que vale a pena.
Quando tem tempo de menos
dorme seus sonhos mofados,
sempre comendo migalhas,
a água subindo até o pescoço
e a cabeça enterrada na areia.
Hoje você é pasto apaixonado
pelo gado; amanhã será
óleo na máquina pasma
que vende a geléia da verdade
e o elixir do tempo perdido
de quatro em quatro anos.
III
São pessoas muito sérias,
não se encontram no momento
mas retornam assim que puder.
A janela está fechada;
ruge o trânsito lá fora.
Paciência, meu amigo:
não chegou a sua hora.
Você precisa ter fé,
quem alcança sempre espera
se não morre no caminho:
esse mesmo verme que te come
rói também aos poucos
a medula muito séria
dessa gente muito séria.

[ainda vou ter que mudar muita coisa e me debruçar nesse poema em três partes muito tempo. Agora não dá e além do mais quem sabe se alguém me dá uma luz?]

Monday, June 07, 2010

Polca New Wave com letra de Cordel?

A música ranchera do norte do México é uma mistura curiosa: a velha polca martelada impavidamente quase como um rock da época do New Wave com baixo, bateria, violão e sanfona quase minimalistas e canções que são versões modernas do corrido, uma letra comprida sem refrão que conta uma história, no mínimo, verdadeira com floreios. Hoje em dia histórias de pelejas com a Migra americana e narcocorridos, sobre traficantes. É música popular proletária ou camponesa que conta as histórias dessa gente e é também música de baile: Los Tigres del Norte – que também tocam boleros e cumbias – não têm uma lista de canções preparada para os seus shows; as pessoas jogam papeizinhos no palco e eles vão tocando os pedidos do público até os papeizinhos acabarem ou o dono do recinto apagar a luz. Abaixo um exemplo:



Señor Locutor – Los Tigres del Norte

Hombre 1: Hola, Señor Locutor,
Si me hace un favor,
Póngame una canción
Que no hable de amor.
Quiero que sepa esa mujer
Que su adiós me dolió
Que me dio un gran dolor.

Locutor: ¿Qué le pasa, mi amigo?
Se le nota en la voz
Que la quiso en el alma
Con amor verdadero.

Hombre 1: Es verdad, compañero.
Yo la quise a morir.
La adoré como a nadie
Pero no hubo dinero.
Y se fue tras el brillo
Que produce el metal
Y, Señor Locutor,
Eso me hace llorar.

Locutor: Bueno, bueno, dígame...

Hombre 2: Señor Locutor,
Si me hace el favor,
Dígale a ese señor
Que no mienta, por Dios.
Dígale que si ya se olvidó
Que a esa buena mujer él fue quien le falló

Locutor: No me cuelgue, mi Amigo,
entiendo que es usted
El tercero en discordia
De esta historia de amor

Hombre 2: No es así, no, Señor.
Cierto que a esa mujer
Yo la llevo en el alma
Con el más limpio amor.

Hombre 1: Usted me la robó!

Hombre 2: No diga tonterías,
Ella siempre lo amó.

Locutor: No cuelguen, por favor!
¡Qué historia de amor! ¡Qué historia!
Oigan, escúchenme los dos,
El amor es así:
A unos hace gozar
Y a otros hace sufrir.
Usted, el primero que habló,
Si la hizo llorar,
Hoy pídale perdón.

Hombre 1: Si me estás escuchando
Donde quiera que estés, por favor, te suplico
Que perdones mi error.

Hombre 2: Ya es demasiado tarde.
Esa santa mujer
Se murió de tristeza
El día que nací yo.

Hombre 1: ¡Es que eres tu mi hijo!

Hombre 2: Discúlpeme, Señor,
Padre no es quien engendra
Un padre es todo amor.

Hombre 1: Perdóname, hijo mío!

Hombre 2: No puedo perdonar,
Pero a mi santa madre
Déjela descansar.

Thursday, June 03, 2010

Um fragmento

A beleza em ação: uma marca, um gesto provoca um momento breve e intenso de reconhecimento que atinge qualquer um dos cinco sentidos. A realidade, quando dela nada se espera, nos entrega seu melhor presente: a beleza acidental, improvisada, inacabada, apropriada e absorvida sem culpa nem hedonismo, quase irreconhecível. Num detalhe o sinal de um mundo novo. Daí o desarme rápido das soluções apressadas que resolvem os dilemas mais dolorosos de deus e o mundo com uma dessas barbaridades simplistas – uma teoria, uma citação, uma generalização em abstrato – no fundo em nome apenas de parar de pensar no que dói.
Exemplos de beleza: Minha avó escutando meus medos pacientemente – eu explicava que já tinha preparado a dinamite mas não estava pronto para acender o pavio – e ela então dizendo: quem espera sempre alcança, se não morre no meio do caminho. Eu querendo afugentar do presente os demônios da história e meu pai tentando me ensinar através do exemplo que a gente não é só o que faz mas o que a gente não se dispõe a fazer. Meu filho, este mistério de delicadeza, avesso a tudo o que mais me moveu grande parte da minha vida: rancor, ressentimento, crueldade, vingança. Quando ele chora com um desespero que eu reconheço e compreendo eu quero morrer.

Wednesday, June 02, 2010

Érico Veríssimo - Fim de México, Diário de uma viagem

Vejo semelhanças entre o trecho que postei do livro do Fábio Durão e esse trecho do livro do Érico Veríssimo, que nos anos 50 se vê também perdido [no bom sentido] em um triângulo de culturas.

"Eu sabia que o epílogo deste livro não podia ser feliz! Estou talvez condenado a oscilar o resto da vida entre esses dois amores, sem saber exatamente o que desejo mais, se o mundo mágico ou o mundo lógico. Só me resta uma esperança de salvação. É a de que, entre a tese americana e a antítese mexicana, o Brasil possa vir a ser um dia a desejada síntese.
Y quién sabe?"