Sunday, May 31, 2020

Recomendações

Vou puxar por um lado que suponho ninguém mais vai. 15 filmes muito bons. 2 do Chile e o resto de Argentina ou México. Aí vai:

1. La danza de la realidad [Alejandro Jodorowsky],
2. Crónica de una fuga [Adrián Caetano],
3. Leonera [Pablo Trapero],
4. Garage Olimpo [Marco Becchis],
5. El ciudadano ilustre [Gastón Duprat & Mariano Cohn],
6. Mi obra maestra [Gastón Duprat],
7. La Ciénaga [Lucrecia Martel],
8. Roma [Alfonso Cuáron],
9. Biutiful [Alejandro Iñárritu],
10. En el hoyo [Juan Carlos Rulfo],
11. La camarista [Lila Avilés],
12. El aura [Fabián Bielinsky],
13. El abrazo partido [Daniel Burman],
14. Machuca [Andrés Wood],
15. Luz silenciosa [Carlos Reygadas].

Saturday, May 30, 2020

Obituário: José María Galante

O corona matou José María Galante, um símbolo da resistência ao franquismo e da tentativa (fracassada) de levar aos tribunais os carrascos e torturadores daquele regime fascista que sufocou a Espanho até os anos 70. Galante nunca aceitou a anistia de 1977 na Espanha, semelhante em certos aspectos a que o governo militar baixou na mesma época no Brasil. Seu torturador, Antonio González Pacheco morreu em maio também, ironicamente também por causa do Corona, mas morreu ainda com suas condecorações e sua gorda pensão de aposentadoria. José María Galante perdeu outras batalhas: não queria a Espanha na OTAN nem bases americanas no seu país.

Gonçalves Dias, pensando o Brasil através da poesia

Caderno meu
Todo mundo conhece a canção do exílio, reescrita como paródia tantas vezes no século XX. Mas não se conhece o melhor de Gonçalves Dias. No longo texto "Meditação", Gonçalves Dias segue [e acho que supera] o Lamennais de "Confissões de um crente". É o melhor texto brasileiro da primeira metade do século XIX que eu li até hoje. Prosa poética romântica da melhor qualidade, porque Gonçalves Dias dominava o português como poucos até hoje. Ele supera portanto Lamennais; mas o faz na forma, não no conteúdo. Lamennais articula no seu livro um cristianismo radicalmente democrático quando diz coisas como:

"O que não ama seu irmão é sete vezes maldito, e o que se faz inimigo de seu irmão é maldito setenta vezes sete vezes. É isto porque os reis, os príncipes e todos aqueles que o mundo chama grandes foram malditos: não amaram seus irmãos, e os trataram como inimigos."

Gonçalves Dias não chega a condenar todos os príncipes e "grandes" do mundo por tratarem os seus irmãos como inimigos. Mas tem uma visão bastante dura do período colonial. Os portugueses saem assim:

"Eram homens sordidamente cobiçosos, que procuravam um pouco de oiro, pregando a religião de Christo com armas ensangüentadas.

[…]

Eram homens que pregavam a igualdade tractando os indígenas como escravos—envilecendo-os com a escravidão, e açoitando-os com varas de ferro."

E depois de palavras contundentes de admiração pelos povos indígenas [basta ler o que gente como José Bonifácio escrevia sobre os índios para se ter uma ideia do contraste radical]. Gonçalves Dias nos dá uma descrição da colonização como massacre prolongado por todo o terrritório:

"Começou então a lula porfiada, que de Porto-Seguro lavrou até á margem esquerda do Prata—e d'ali correu às margens do Amazonas com a rapidez do ar empestado.

Ouvia-se de instante a instante o som profundo, cavernoso e agonisante de uma raça que desaparecia de sobre a face da terra.

E era horrível e pavoroso esse bradar do desespero como seria o de milhões de indivíduos que ao mesmo tempo se afundassem no oceano.

E cadáveres infindos, expostos á inclemência do tempo e á profanação dos homens, serviam de pasto aos animais imundos."




Friday, May 29, 2020

Gonçalves Dias, patrono dos letristas da MPB

A caricatura

Na caricatura, como em outras imagens, Gonçalves Dias parece um romântico francês. Observem a diferença com relação à foto abaixo. Não preciso nem comentar mais, né?

Quem conhece as letras de grandes canções de Pixinguinha, Cartola ou Nelson do Cavaquinho, às vezes se deixa enganar por quem diz que eram parnasianas. Isso demonstra desconhecimento do poesia parnasiana. O primeiro grande poeta musical do Brasil é Gonçalves Dias. Não conto aqui com Domingos Caldas Barbosa, porque este era mais que tudo letrista mesmo. E indico a sua precedência com relação a Castro Alves, que era muita vezes mais bombástico, mas, nos seus momentos mais líricos, também era um grande "letrista".

Várias estrofes de Gonçalves Dias me parecem muito adequadas para a música brasileira do século XX. Fico, na brevidade daqui, com apenas dois exemplos. O homem era fera musical em dois metros fundamentais para o português. Os decassílabos, um pouco mais lentos e introspectivos:

Simpáticas feições, cintura breve,
Graciosa postura, porte airoso,
Uma fita, uma flor entre os cabelos,
Um quê mal definido, acaso podem
Num engano d'amor arrebatar-nos.
Mas isso amor não é; isso é delírio,
Devaneio, ilusão, que se esvaece
Ao som final da orquestra, ao derradeiro


O homem era mais fera ainda nas redondilhas, verso da oralidade por excelência: 
A foto

Enfim te vejo! — enfim posso,
Curvado a teus pés, dizer-te,
Que não cessei de querer-te,
Pesar de quanto sofri.
Muito penei! Cruas ânsias,
Dos teus olhos afastado,
Houveram-me acabrunhado
A não lembrar-me de ti!

Monday, May 25, 2020

Diário da quarentena no fim de Minas II

Eu estava numa vídeo-chamada com um primo querido de Belo Horizonte. Falávamos de arte, de oportunidades para a arte. Verdade seja dita, meus sentimentos estão em câmera lenta. A palavra arte está batendo numa parte de mim que amortece o impacto. Penso sem querer pensar: para que serve a arte em um mundo sem futuro? Para distração de isolados e desesperados? Então não é arte, é entretenimento. Mas haverá outro mundo depois desse que se esvai? Haverá arte?
Entro numa vídeo-conferência, uma reunião de trabalho. Sou sempre a pessoa que escreve as atas e não será diferente dessa vez. Vejo o rosto da minha chefe e tento escutar o que ela está dizendo. De repente, quando dou por mim, percebo que estou numa vídeo-conferência. Vejo o rosto da minha chefe e tento escutar o que ela está dizendo. De repente, quando dou por mim, percebo que estou em uma vídeo conferência. Vejo o rosto da minha chefe e tudo em volta parece rodar. Onde está minha atenção? Sumiu de novo. E voltou. E sumiu. E voltou. Não tenho controle de mim.
Tive um sonho louco essa noite. Não consigo transformá-lo em narrativa de tão doido. Lembro porém, com clareza alucinatória, que acordei ouvindo: - Não se preocupe, Pero Vaz de Caminha está relatando nossa chegada.


R.M.C

Perplexidade

Otimistas e pessimistas, informo-lhes que pertenço a um minoritário, o grupo dos perplexos. Mas digam-me aí, o que vou dizer para os que já perderam alguém para a pandemia? Tenho uma conversa assim marcada para amanhã. Parentes muito queridos que perderam um pai, um avô.

E talvez alguém possa aproveitar e tentar me fazer entender outras coisas. Faz mesmo alguma diferença se os mortos eram contra ou a favor do confinamento? Alguém pode me explicar como tanta gente pode atribuir intenções políticas a um vírus? E pior até, como se pode falar tanto em conspirações que envolvem milhões de pessoas nos quatro cantos do planeta?

Minha perplexidade só aumenta com o passar dos dias. Quer dizer que agora usar máscara no rosto ou lavar as mãos quando chega em casa passou a ser um gesto político? Um gesto até mesmo provocativo? Faz um mês que o governo dos EUA (o país mais rico do mundo) anunciou uma parceria pomposa com grandes gigantescas cadeias de comércio para criar centros de testes. Uma dessas empresas, a Target, até agora abriu UM centro! Como não estar perplexo?

E como assistir a uma reunião de ministério pior do que uma reunião de torcida organizada e não ficar perplexo? "Ah, eu já sabia que seria isso mesmo!" Dizem uns. "O que é que tem falar muito palavrão?" Perguntam retoricamente outros, como se minha perplexidade fosse um hipocrisia pudica. E a minha perplexidade se dirige ao fato de que, ainda assim, a pesar de tudo, um em cada cinco ou seis brasileiros ainda apoiam, mesmo com esse desastre, o governo do "e daí?" Alguns balbuciam, "mas, e o Petê?" ou "ele não é o único a dizer besteiras." Mais de 500 mortos por dia e a sua resposta é essa?

E deixe-me explicar que quando falo de perplexidade não falo de surpresa. Por exemplo, que algumas pessoas aqui nos EUA pensem que mesmo assim está tudo bem, não me surpreende. Mas isso não significa que eu não possa continuar perplexo. Já me espantava a capacidade de um país de manter-se em guerra durante 19 ANOS e trilhões de dólares gastos sem obter nada com isso e mesmo assim muita gente achar que continua tudo bem. Parece que os aspectos mais absurdos do 1984 de George Orwell viraram o novo normal. O livro era uma sátira, não era uma profecia!

Daí a minha perplexidade, me desculpem a franqueza. Pode parecer inocência ou hipocrisia, mas não é. Mantenho os olhos bem abertos. Continuo tentando me informar e continuo refletindo. Talvez daqui há uma década alguém consiga dar um formato narrativo coerente a tudo isso. Agora, no presente, está difícil.

Wednesday, May 20, 2020

Saudades da Pedra

Foto minha: Brumadinho
O soneto é de Cláudio Manoel da Costa:

Destes penhascos fez a natureza
O berço, em que nasci! oh quem cuidara,
Que entre penhas tão duras se criara
Uma alma terna, um peito sem dureza!

Amor, que vence os tigre por empresa
Tomou logo render-me; ele declara
Contra o meu coração guerra tão rara,
Que não me foi bastante a fortaleza.

Por mais que eu mesmo conhecesse o dano,
A que dava ocasião minha brandura,
Nunca pude fugir ao cego engano:

Vós, que ostentais a condição mais dura,
Temei, penhas, temei; que Amor tirano,
Onde há mais resistência, mais se apura.

Saturday, May 16, 2020

Diário da quarentena no fim de Minas Parte I

Há tanto silêncio quanto barulho aqui.
Cinco horas da tarde, faça chuva ou faça sol, seja feriado, domingo ou segunda, as vacas caminham pelas ruas mugindo baixinho em direção ao estábulo que fica no outro quarteirão. Minha cadelinha entra em desespero e começa a latir. Se alguém tiver esquecido o portão de casa aberto, ela foge e avança nas vaquinhas que respondem com coices que nunca acertam o alvo. Dia desses fui tentar pegá-la e quase levei chifrada.
No terreno vizinho existe uma pequena matinha que o proprietário tentou arrancar. Ele não usou motosserra na tentativa, não. Ele usou calcário e bodes. Foi multado, mas não pagou e talvez nunca pague. O calcário sumiu. A mata está  verde. Os bodes ainda estão lá. E como berram!
Há uma estradinha rural ao término da rua. Vejo carros passarem. Placas do Rio de Janeiro, do Espírito Santo, de São Paulo e Brasília. Ao que tudo indica, as pessoas já estão fugindo para os montes. E trazem consigo um vírus bárbaro invisível. Já são três mortes confirmadas.
Mês passado eu fui ao supermercado com a mãe. Estávamos de máscara. Um senhor se sentiu ofendido com a nossa cautela e começou a fazer discurso político contrário ao isolamento como se não fosse pra nós.
Hoje, desci para o centro de carro. Todos na rua usavam máscara. Umas protegiam o queixo, outras o nariz e ainda havia algumas enroladas no pescoço do ser humano enquanto ele tomavam sorvete. Temos uma UTI com respirador e, até onde eu sei, nenhum médico especialista em cuidados intensivos. O fim do mundo se aproxima.

R.M.C.

Thursday, May 14, 2020

Obituário: Sérgio Sant'anna

"O sujeito que o recrutara por um salário mínimo lhe dissera que ele ainda tinha sorte, pois o desemprego grassava no país. Era um sujeito que gostava de usar verbos desse tipo, de dicionário, que lhe pareciam conceder dignidade e pompa às suas palavras, embora ele não chegasse a materializar em sua mente tais substantivos abstratos. Autoridade e importância, sim, eram prerrogativas das quais ele se revestia em seu cargo, ele ali sentado com a gravata e a palavra, enquanto que os homens que desfilavam à sua frente permaneciam de pé e mudos, a não ser por certas respostas quase monossilábicas como "sim senhor", ou "não senhor" quando se tratava de vícios como a cachaça. Se audiência fosse um pouco mais qualificada, ele discorreria também um pouco mais sobre os problemas do país, que provinham do atraso do povo, a desonestidade e incompetência dos políticos, agravadas pelo gigantismo do estado. Na intimidade do lar, ele apontava ainda causas como as condições climáticas, uma colonização de degredados e a mistura de raças. Ele era um homem da iniciativa privada numa posição de comando intermediário, embora achasse que ganhava pouco, o que era amenizado pela perspectiva de subir alguns degraus, desde que fosse perseverante e duro até o ponto da inflexibilidade."

Trecho de "Um discurso sobre o método" de Sérgio Sant'anna, onde ele descreve com precisão e brevidade um homem comum que foi o gérmen do homem comum que elegeu o atual presidente da república do Brasil 

"O Brasil é um filme de terror." 
Último post do perfil de Sérgio Sant'anna no FCBK

Saturday, May 09, 2020

Obituário: Little Richard



Nos meio dos anos 50 ele era claramente, obviamente gay na sua performance. O topete Madame Pompadour, a maquiagem, as roupas, os gritos agudos. E era um negro da Georgia, criado num humilde cortiço, trabalhando como lavador de pratos, nos anos 50. E tocava uma música "selvagem": gritada, repetitiva, sensual, obsessiva, rápida. Primeiro, em 1956, vieram "Tutti Frutti" e depois "Long Tall Sally"; depois veio "Lucille" em 1957 e "Good Molly Miss Molly" em 1958. Naquele domínio total do puritanismo classe média, Little Richard rebolava, revirava os olhinhos, fazia caras e bocas, tocava piano com violência - Jerry Lee Lewis era muito superior no mesmo estilo de música. As letras às vezes eram poemas non-sense e não tinham importância pelo "conteúdo": no breque de Tutti Frutti, o que era: "a wop bob alu bob a wop bam boom"? Era o veículo para uma voz que era pura alegria sexual despudorada e livre.

Claro que, numa sociedade segregada e racista, ainda iriam esperar por um Elvis Presley para fazer aquela música estourar de verdade. Nenhuma delas chegou ao topo da parada. Simultaneamente, Pat Boone fazia versões [aguadas] das mesmíssimas canções e chegava ao topo da parada - qualquer semelhança com a dinâmica racial da "Axé Music" não é mera coincidência.

E aí, no final dos anos 50, Little Richard abandonou tudo e foi para um seminário virar pastor! E pela vida afora ele iria e voltaria entre o roque e o gospel. Desde que foi expulso de casa pelo pai [adivinhem porque motivo...] E alternaria entre entrevistas em que se dizia gay ou "omnisexual" e entrevistas em que chamava o homossexualismo de um horror "contagioso" e uma ofensa a Deus.

Mas os Beatles, os Rolling Stones, Bob Dylan, Elton John e outros da mesma geração tocavam Little Richard nas suas respectivas garagens e shows de espelunca - há versões deles para todas elas. E sem Ricardinho na música americana não haveria James Brown e não haveria Prince. Os Beatles ainda adolescentes abriam os concertos de Little Richard em Hamburgo! Aqui uma canção deles que é claramente calcada em Little Richard:



Jimi Hendrix na banda de Little Richard
E o sucesso dessa geração trouxe Little Richard de volta, pela primeira vez em 1964, com um rapazinho chamado Jimi Hendrix na guitarra [com quem ele teve atritos porque Hendrix era "aparecido demais"]. De volta à música "profana" [e põe profana nisso!]. Abaixo em 1973, vemos Little Richard no que eu acho que seu auge, proclamando-se "rei do roquenrrol" para uma platéia completamente entregue:

Friday, May 08, 2020

Música de Quarentena: "Invasion" de Macka B


Invasion
Macka B

"Look here old chap it's us who gave you civilization!"
Invasion!
If a man in your house told you to come out
And told you to live in the garden
If it happened to you tell me what would you do
Wouldn't you fight and fight and fight them?
Those old old Europeans, they had a lot of men.
They went over to other peoples' land
To conquer was their intention.
Those old old Europeans, they had a lot of men.
They went over to America to conquer the red Indians.
Well, I don't know about you, but I tell you what I do
When I am looking at a western.
When I'm watching the telly, I'd don't really see
The red Indians as the real bad man.
They had a lot to give, because they did not want to live
In a little old dirty reservation.
Cause they didn't care cause they were just there
Defending their own homeland.
Europeans come not 1 by 1 but in their tens and thousands
With the intention of taking all the best land
And giving the Indians the bad one.
Well you must understand that the red Indian
Were not just savages and madman.
I am aware that they were just there
Reacting like any human.
If a man in your house told you to come out
And told you to live in the garden.
If it happened to you, tell me what would you do,
Wouldn't you fight and fight and fight them? 
Those old old Europeans they had a lot of man.
They went over to other peoples land
To conquer was their intention.
Those old old Europeans they had a lot of man.
They went over to South Africa to try and conquer the South Africans.
Cecil Rhodes and his posse of Europeans they came to we African land.
They came for a fight with the gun in their right
And the Bible in their left hand.
They treated us with nuff disgust,
Never treated us like man and woman.
Treated us like something from outer space,
Like something that you wouldn't spit on.
We were first class citizens in Africa,
They made us second class citizens.
It is mad and bad and so so sad
To be a prisoner in your own land.
But me people fight for the truth and right
And truth and right must stand,
So that system apartheid must be destroyed.
It can't carry on too long.
If a man in your house told you to come out
And told you to live in the garden
If it happened to you tell me what would you do
Wouldn't you fight and fight and fight them? 
Those old old Europeans they had a lot of man
They went over to other peoples land
To conquer was their intention
Those old old Europeans were a very cheeky man
They would turn round and say that they gave us civilisation:
"Look here old chap, it's us who gave you civilisation.
If it wasn't for us the you'd be running around
Without any clothes on.
We taught you to eat with a knife in your right and the fork in your left hand.
If it wasn't for us you would be fighting with spears instead of which shotguns.
We think your gold and silver is sufficient payment
For bringing you out of the past and into the present.
You owe a lot to us I'm sure you are in agreement,
So anything we say to do just do it and keep silent.
These so-called civilised men came with their big weapons.
Killed off Tigers, elephants, rhinoceroses and Lions.
Then put their heads in dining rooms for decoration.
Now tell me does that sound like a civilised person?
Those old old Europeans they had a lot of man
They went over to other peoples land
To conquer was their intention.
Those old old Europeans were very clever man.
They always made it seem like that they were the righteous one.
Now everybody in here has got a television.
And each and every body must have seen Tarzan.
You know the one, where you see a whole heap of Africans,
Looking kinda mean with their war paint on.
And from one tree swings a white man
Shouting aaaaaah like any mad man.
And with 1 dry piece of knife in his hand
He kills all the Africans one by one.
Well me and you know it's imagination,
But to some people it is confusion.
It's just another trick, a diversion
Created by those grand old Europeans.
Those old old Europeans, they had a lot of men.
They went over to other peoples land
To conquer was their intention.
Those old old Europeans they had a lot of men.
They went over to America, went over to South Africa
Went over to India, went over to Australia, went over to Canada
Went over the Jamaica, went ...

"If it wasn't for us, you'd be running around without any clothes on."

Wednesday, May 06, 2020

Coronga Blues: tolerância ou rigor?

Desenho meu
1. Postei há muito tempo atrás sobre uma polêmica envolvendo pai e filho, Increase and Cotton Mather, ambos professores e pastores, no tempo dos julgamentos das "bruxas" de Salem. Os dois eram igualmente contra as bruxas, mas o pai, Increase Mather, dizia que preferia deixar escapar uma bruxa ou outra a matar uma inocente e seu filho dizia que valia a pena arriscar a morte de um inocente desde que nos livrássemos para sempre das bruxas.

2. Esse confronto retórico é recorrente: arriscar-se a ser leniente ou arriscar-se a ser severo demais? Tolerar a existência daquilo que você combate em nome da justiça? Ou agir com máximo rigor contra o inimigo para finalmente destruí-lo? Seria melhor arriscar-se a prender alguns inocentes ou arriscar-se soltar alguns culpados?

3. Diga-se de passagem que o confronto das ideias [e das palavras] apresentado em 1 e 2 tem a beleza de uma coluna Barroca. Pai contra filho, leniência contra severidade, tolerância contra rigor, amarrados numa mesma frase adornada por rocailles de interrogação.

4. Uma coisa fica clara, algo que vai além das duas posições e as incorpora: mesmo com a melhor das disposições para viver eticamente, é simplesmente impossível viver sem correr riscos. Temos que correr riscos, sempre.

5. O Coronga não escapa a esse velho embate retórico travado entre os dois pastores puritanos da Nova Inglaterra. Ele reaparece de forma dramática, igualmente Barroca: é melhor confinar alguns imunes em nome de salvar os outros ou deveríamos deixar sacrificar alguns não-imunes em nome da liberdade geral?

6. No caso da Nova Inglaterra eu fico com Increase Mather e no caso do Coronga eu fico com Cotton Mather. Contradição? Ao contrário. A minha posição tem a ver com a defesa da vida. Nenhuma das duas posições é mais válida que a outra independente do seu contexto.

7. Defender [hipoteticamente, infelizmente] a vida em Salem era combater o rigor dos caçadores de bruxas e defender a vida [agora] no Coronga é combater a ideia de que podemos dispor de vidas humanas. Tolerância com os seres humanos, rigor contra o vírus que existe para matar e se multiplicar.

8. Principalmente porque é odioso defender o sacrifício dos velhos e doentes e dos que, por ventura, sem serem velhos nem doentes, morrem com o Covid-19. Especialmente odioso quando esse sacrifício é defendido em nome da economia.

9. Porque economia [e mercado] não passam de eufemismos para o Capital. E se a volta urgente da "normalidade" significar a volta da submissão completa aos interesses do Capital, eu digo: fiquemos confinados, dando teto e o de comer a quem necessita, sem fome nem desabrigo.

Tuesday, May 05, 2020

Quando chega o inverno e a comida rareia,
os corvos passam a viver em grandes bandos,
que se reúnem assim, em qualquer lugar
para "conversar" em congresso.  
1. A gente sonha com uma vacina, mas aí se lembra: o HIV começou a matar gente há quase quarenta anos. Até agora nada. Mesmo porque a indústria farmacêutica não é muito fã de vacinas. Ela prefere que você primeiro fique doente para depois vender uma penca de tratamentos, possivelmente por um período de tempo bem maior.

2. Sobram as universidades. Sejam públicas ou privadas, se o dinheiro da pesquisa vem da indústria farmacêutica, as mesmas prioridades problemáticas de 1 se repetem. Os governos estaduais aqui nos EUA cada vez dão menos dinheiro às suas universidades, e cada vez mais indicam às universidades que se virem com financiamento externo ou federal.

3. As universidades, para fazer esse tipo de pesquisa, teriam então que ser financiadas por dinheiro público, do governo. E esse dinheiro teria que vir, é claro, de impostos. E nos últimos quarenta anos conseguimos nos EUA chegar aos níveis de taxação de antes da depressão.

4. O dinheiro mingua nos cofres do governo enquanto os "investidores" sentam em cima de bilhões de dólares, não sem antes financiar fartamente as campanhas de políticos que prometem cortar impostos ainda mais.

5. O ciclo já se repetiu inúmeras vezes, mas a narrativa é sempre a mesma:
a) são feitos cortes nos impostos, beneficiando principalmente os mais ricos;
b) faz-se anúncio de uma série crise fiscal;
c) os políticos dizem e a imprensa repete a mesma explicação: a crise fiscal é por causa do excesso de gastos, não da redução de receita;
d) o governo privatiza ou sucateia empresas e instituições públicas em nome da "austeridade fiscal";
e) Empresas privadas oferecem serviços "diferenciados" para saúde, educação e até segurança e as pessoas passam a pagar pelo que deveriam receber em troca dos seus impostos.

6. Só que agora, uma crise dessas proporções exige uma ação racional em larga escala e dentro de uma lógica que não é a do capital, especialmente a do capital financeiro. Isso, por si só não muda nada. Certamente não para melhor.

7. Suspeito que a ansiedade pelo fim da quarentena por parte da extrema-direita tem a ver com o pavor de ver mudanças realmente profundas nas coisas como estavam antes do corona. Pode ser também a percepção que agora é a hora da Revolução Reacionária de Steve Bannon e companhia.

8. Não sei. Não tenho bola de cristal. Não sou nem cientista político. Observo as coisas como estudioso de literatura, cultura e linguagem desde a perspectiva de um cidadão sem cidadania.

Monday, May 04, 2020

Obituário: Aldir Blanc

Em tempos de coronga, a ocupação principal aqui neste meu canto é escrever obituários. Uma letra de Aldir Blanc que eu adoro é essa aqui:


Incompatibilidade de gênios
Doutor,
jogava o Flamengo, eu queria escutar;
chegou,
mudou de estação, começou a cantar.

Tem mais:
um cisco no olho, ela em vez de assoprar
Sem dó,
falou que por ela eu podia cegar.

Se eu dou
um pulo, um pulinho, um instantinho no bar,
bastou:
durante dez noites me faz jejuar.

Levou
as minhas cuecas pro bruxo rezar.
Coou
meu café na calça pra me segurar.

Se eu estou
devendo dinheiro e vem um me cobrar
Doutor,
a peste abre a porta e ainda manda sentar.

Depois,
se eu mudo de emprego que é pra melhorar,
vê só,
convida a mãe dela pra ir morar lá.

Doutor,
se eu peço feijão ela deixa salgar.
Calor,
mas veste casaco pra me atazanar.

E ontem
sonhando comigo mandou eu jogar.
No burro
e deu na cabeça a centena e o milhar.

Ai, quero me separar

Aldir Blanc é um embaralhador de tudo que outros insistem em organizar. Nessa canção com João Bosco está uma espécie de ponte misturando tudo o que as pessoas insistem em colocar numa fila "evolucionária", toda certinha. Aqui se encontram o samba de terreiro e o samba de roda, o samba baiano e carioca, o samba do começo e do final do século. Quem prova o que estou dizendo é Clementina de Jesus: