Wednesday, April 29, 2020

Música para quarentena: The Whole of the Moon

Uma das minhas bandas favoritas dos anos 80 era The Waterboys. Recentemente houve um surto de interesse pela banda por causa dessa versão feita pela maravilhosa Fiona Apple para uma série de televisão (o clipe é de uma fã; no YouTube também se encontra as duas cenas [1 e 2] da série onde a música aparece:

Diário do Coronga: "E daí?"

Foto minha
Em mortes, passamos a China.

E Nero me pergunta, "e daí?"

Os sábios do bom senso que me repreendiam toda a vez que comparava o número de mortos e infectados com Suíça ou Itália, talvez se levantassem para fazer seus apartes ajuizados. Nero só me perguntaria, "e daí?"

Mas não aqui nesse canto sossegado da internet. Passaremos rapidamente Irã e Alemanha, creio que ainda essa semana. Afinal temos mais de 8.000 infectados em estado crítico.

Nero me pergunta de novo, irritado, "e daí?" O que você quer que eu faça?"

Continuamos com a menor proporção de testes por 100.000 habitantes, disparado. Continuamos desafiando a morte nas ruas, sem máscaras, buzinando, dando festinhas. Continuamos assistindo a miséria, que tinha voltado às ruas como o dinossauro de Augusto Monterroso.

O novo ministro - o anterior parecia menos disposto a cooperar com a morte - parece estar completamente perdido. Talvez seja por isso mesmo que ganhou o cargo. Pelo menos o governo ficou menos esquizofrênico, com um ministro pedindo cautela e isolamento e planejamento e um presidente dizendo "E daí?"

Ainda no governo, o nosso fascistinha de condomínio pediu o boné e saiu disparando, compartilhando conversas privadas de telefone ao melhor estilo "The Intercept". Os poderes já estão prontos para escolhê-lo como sucessor do Nero, embora ainda faltem mais de dois anos e ninguém consegue articular algo mais que um pedido novo de impeachment e um ou outro pedido patético para que Nero renuncie por livre e espontânea vontade, na esperança que o vice seja apenas um milico troglodita ordinário, como aqueles da ditadura. Aliás Nero conseguiu um milagre: criar algo realmente, concretamente pior do que aquela tragédia que foi a ditadura militar. Nero se irrita com a preocupação com Marielle e pede mais atenção ao celerado que o esfaqueou (de frente) em Juiz de Fora. Mas isso é notícia de ontem. Já foi.

Agora ficamos com Nero, de novo, que nos pergunta, desafiador, "e daí?"

Monday, April 27, 2020

No meio do Coronga, Norah Jones toca a música do seu pai, Ravi Shankar ou quando o Texas se encontra com a Índia



I'm missing you, oh Krishna, where are you? though I can't see you, I hear your flute of all the while please come wipe my tears and make me smile.

Poesía mexicana: Jaime Sabines

Arte minha: Democrazy
Cantemos al dinero
con el espíritu de la navidad cristiana.
No hay nada más limpio que el dinero,
ni más generoso, ni más fuerte.
El dinero abre todas las puertas;
es la llave de la vida jocunda,
la vara del milagro,
el instrumento de la resurrección.
Te da lo necesario y lo innecesario,
el pan y la alegría.
Si tu mujer está enferma puedes curarla,
si es una bestia puedes pagar para que la maten.
El dinero te lava las manos
de la injusticia y el crimen,
te aparta del trabajo,
te absuelve de vivir.
Puedes ser como eres con el dinero en la bolsa,
el dinero es la libertad.
Si quieres una mujer y otra y otra, cómpralas,
si quieres una isla, cómprala,
si quieres una multitud, cómprala.
(Es el verbo más limpio de la lengua: comprar.)
Yo tengo dinero quiere decir me tengo.
Soy mío y soy tuyo
en este maravilloso mundo sin resistencias.
Dar dinero es dar amor.

¡Aleluya, creyentes,
uníos en la adoración del calumniado becerro de oro
y que las hermosas ubres de su madre nos amamanten!
Yuria, 1967

Friday, April 24, 2020

Sobre a importância de não-saber e a escrita de contos

Desenho meu: 
"A verdade é que ninguém sabe como deve ser um conto. O escritor que o sabe é um mau contista, e no segundo conto já se nota que ele sabe, e então tudo soa falso e aborrecido e fuleiro. Há que ser muito sábio para não se deixar tentar pelo saber e a segurança."

Trecho de Augusto Monterroso em "La mano de Onetti"

Wednesday, April 22, 2020

Leituras infecciosas

De notícias sobre o coronga, música para o isolamento, minhas leituras erráticas e obituários vive este quintal que a mim pertence ultimamente.

Hoje me lembrei de uma leitura antiga, da adolescência. O diário do ano da peste de Daniel Defoe, livro que ganhei de presente da minha madrinha inglesa e que fora traduzido pelo meu padrinho, esposo dela. As casas onde viviam os já infectados era fechadas. As portas marcadas por uma cruz vermelha bem grande e um cartaz que dizia "Senhor, tenha piedade de nós". 

Também me lembrei de um livro que comecei a ler para estudar italiano: o Decamerão de Giovanni Boccacio, onde os personagens se revezam contando histórias para passar o tempo enquanto estão trancadas por causa da Peste Negra. Instado por um sujeito mal intencionado a escolher entre Deus, Alá e Yaweh, um judeu responde com uma parábola sobre três irmãos que ganham anéis idênticos [dois deles, entretanto, falsos] para que não houvesse preferência de nenhum deles pelo pai amoroso.

E fiquei com vontade de deixar tudo o que ando fazendo [ou tentando fazer] de lado para ler The Last Man  de Mary Shelley, que fala sobre um mundo inteiro devastado por uma doença terrível, uma pandemia. O último sobrevivente é o narrador dessa ficção científica que mostra o regresso do ser humano ao silêncio: ele absurdamente escreve um livro contando a sua história para ninguém ler.

Mas, como dizia Borges em citação que usei a pouco,"A la realidad le gustan las simetrías y los leves anacronismos..." Só isso explica ler uma epígrafe latina numa crônica de Augusto Monterroso e reconhecer nela o tema de um conto de Eça de Queiróz, "O tesoiro": três irmãos abrutalhados pela pobreza e a ganância são destruídos pela descoberta de um tesouro, numa comédia de erros grotesca. Os livros infectam mais [e melhor] do que os vírus. 

Tuesday, April 21, 2020

Obituário duplo: Luiz Alfredo Garcia-Roza e Rubem Fonseca

"Eu era muito amigo do Zé Rubem [Fonseca], a gente ia na casa um do outro, ele dizia pra mim. Ó, meu livro sai na terça-feira, e na terça-feira lá estava eu na livraria pra pegar o livro.
Garcia-Roza sorri. Sugiro um volume de Dennis Lehane e ele deixa separado numa pilha.
– Quando resolvi escrever, fugi do Rubem. Não houve animosidade nenhuma, continuamos nos falando, mas nunca sobre literatura. Eu sabia que ele ia querer me dar conselho, e eu não podia escrever literatura policial pedindo dica pro Rubem Fonseca.
– Mas ele leu seus livros?
– Sei lá. Nunca falamos sobre isso. Virou uma espécie de muro invisível, falamos de tudo, menos dos nossos livros. Mas, repito, sem nenhuma animosidade. Somos ótimos amigos. Ele é um doce de pessoa."

Trecho de matéria da revista Piauí que você encontra aqui.

Futebol e Fascismo

Gol
Umberto Saba

Il portiere caduto alla difesa
ultima vanacontro terra cela
la faccia
, a non veder l’amara luce.
Il compagno in ginocchio che l’induce
con parole e con mano, a rilevarsi,
scopre pieni di lacrime i suoi occhi.                           
scoprire: descobrir

La folla - unita ebbrezza - par trabocchi                        folla: multidão; ebbrezza: embriaguez trabocchi: transborda
nel campo. Intorno al vincitore stanno,
al suo collo si gettano i fratelli.                                     
gettarsi: atirar-se
Pochi momenti come questo belli,
a quanti l’odio consuma e l’amore,
è dato
, sotto il cielo, di vedere.

Presso la rete inviolata il portiere                               presso: perto
- l’altro - è rimasto
. Ma non la sua anima,                     rimanere: remain
con la persona vi è rimasta sola.
La sua gioia si fa una capriola,                                        
capriola: cabriolagem
si fa baci che manda di lontano.
Della festa - egli dice - anch’io son parte.



Monday, April 20, 2020

Realidade e destino

Foto minha de parede de Sol LeWitt
Sobre o sujeito que encontrou um tesouro quando queria se matar com uma forca
Magno Ausonio

Um homem, no momento de se matar com uma forca, encontrou ouro e no lugar do tesouro deixou a forca; mas quem havia escondido o tesouro, ao não encontrar o ouro, prendeu-se pelo pescoço à forca que ali encontrou.



Foto minha: Parede no DA da Faculdade de Belas Artes



E Borges, sem querer, explica o epígrama de Magno Ausonio em "Sur" 

"A la realidad le gustan las simetrías y los leves anacronismos..."

&

"Ciego a las culpas, el destino puede ser despiadado con las mínimas distracciones".

Sunday, April 19, 2020

Música para quarentena: Anoushka Shankar

Anoushka Shankar é irmã por parte de pai da cantora Norah Jones. O pai das duas é o músico indiano Ravi Shankar, famoso mundialmente e um dos patrocinadores do lendário concerto para Bangladesh. Ravi foi o professor particular de Anoushka desde que ela tinha nove anos. Aqui ela toca um clássico indiano num show ao vivo na Espanha:



Aqui ela regrava composição em dueto com violino feita por Zubin Mehta. "Raga Piloo" ficou famosa na interpretação do violinista com Ravi Sahnkar, pai de Anoushka, em 1968:



Anoushka Shankar também tem um lindo álbum chamado Traveller, onde ela promove justamente um encontro entre as tradições espanholas e indianas. Sandra Carrasco canta lindamente "Casi uno":

Friday, April 17, 2020

Lá vem ele de novo: I Contain Multitudes



I Contain Multitudes
Bob Dylan

Today and tomorrow
and yesterday, too, The flowers are dying like all things do.
Follow me close.
I'm going to Balian Bali I'll lose my mind if you don't come with me
I fuss with my hair and I fight blood feuds.
I contain multitudes. Got a tell-tale heart,
like Mr. Poe. Got skeletons in the walls of people you know.
I'll drink to the truth
and the things we said. I'll drink to the man that shares your bed.
I'll paint landscapes and I'll paint nudes.
I contain multitudes. Red Cadillac
and a Black Mustache, Rings on my fingers that sparkle and flash.
Tell me what's next,
what shall we do? Half my soul, baby, belongs to you.
I rollick and I frolic with all the young dudes.
I contain multitudes. I'm just like Anne Frank,
like Indiana Jones, And them British bad boys, the Rolling Stones.
I go right to the edge,
I go right to the end, I go right where all things lost are made good again.
I sing the songs of experience,
like William Blake. I've got no apologies to make. Everything's flowing
all at the same time. I live on a boulevard of crime. I drive fast cars while I eat fast foods.
I contain multitudes. Pink Pedal Pushers,
Red Blue-Jeans, all the pretty maids, and all the old queens,
All the old queens
from all my past lives.
I carry four pistols and two large knives.
I'm a man of contradictions. I'm a man of many moods.
I contain multitudes. You greedy old wolf,
I'll show you my heart, But not all of it,
only the hateful part. I'll sell you down the river,
I'll put a price on your head. What more can I tell you?
I sleep with life and death in the same bed. Get lost madam.
Get up off my knee. Keep your mouth away from me I'll keep the path open,
the path in my mind. I'll see to it that there's no love left behind.
I play Beethoven's sonatas, Chopin's preludes.
I contain multitudes.

Diário do Coronga

Foto minha: Esperança/A culpa é do povão/Menos Globo 
Resolvi tirar férias do FCBK, aborrecido com algumas coisas que por lá se passaram e pela futilidade que impera em certas conversas e atitudes de lá. Talvez por isso escreverei mais aqui, mesmo sabendo do impacto reduzidíssimo. Infelizmente existe uma barreira [artificial] entre impactar e dizer algo que valha a pena ser dito. Reverbera o que coopera com a cacofonia histérica. Uma frase que se arrisque a dizer isso dessa maneira não pode reverberar. Reverbera o que reverbera a pauta do momento, e eu, em geral, não consigo/não tenho paciência/não tenho tempo para a pauta do momento. Eu escrevo assim mesmo e reverbero coisas que me interessam mesmo. Então eu percebo que não dou conta de impactar muitas pessoas. Não tenho talento, não consigo nem se quisesse e não quero de qualquer maneira. Continuo acompanhando aquelas pessoas que conseguem fazer as duas coisas, mas são poucas e em geral não estão no FCBK de qualquer maneira. Postar isso aqui por lá seria contribuir para um dos gêneros mais patéticos que as redes sociais já criaram: o desabafo/adeus. 

Leituras: Diálogo dos mortos

Acabo de ler o Diálogo dos Mortos de Luciano de Samósata. Nascido na cidade síria [então província romana] às margens do Eufrates, Luciano escreveu em grego e publicou a maior parte da sua obra em Atenas. Os diálogos entre mortos mais ou menos famosos são rápidos e se passam todos nas profundezas do Hades. É comédia desbragada, com um sarcasmo mordente. Exemplo breve: Sócrates jura que foi sincero e literal quando confessou que "nada sabia" mas que seus admiradores e seguidores interpretaram a frase como irônica e continuaram atrás dele mesmo assim.

Por que ler literatura clássica se não me especializo nessa área? Por causa de Machado de Assis, ou melhor, por causa de críticos de Machado de Assis que volta e meia levantam a bola de uma certa "sátira menipéia" para falar do escritor carioca e principalmente do Memórias Póstumas de Brás Cubas. Menipeu é o pândego que "entrevista" Sócrates e vários outros defuntos no Diálogo dos Mortos. É dele que vem o [horrível] termo "sátira menipéia". Sinceramente acho que Luciano está mais para aquela sátira ácida (e no fundo moralista) de Jonathan Swift do que para Machado de Assis, mas agora, sim, posso entender melhor o que dizem aqueles que insistem nessa filiação clássica.

Há muito anos tomei por princípio que não faz sentido estudar crítica literária ou teoria sem ler em primeira mão os textos aos quais elas se referem. Tudo começou com "O narrador" de Walter Benjamin, que eu li pela primeira vez em um curso [bem fraco] de teoria ainda na graduação e depois de novo na graduação e de novo na vida profissional pós-doutorado. Ali Benjamin se refere diversas vezes aos contos de um certo Nicolai Leskov - e se o contador de histórias/narrador do ensaio parece partir da leitura de Leskov, onde é que eu [que nem sei ler em alemão] fico o texto de Benjamin?

E me diverti muito com o Diálogo dos mortos, leitura excelente para esses tempos de Coronga.

Thursday, April 16, 2020

A Morte informa 3:

Foto minha: Parede no RJ

Orgulhosos brasileiros, companheiros da nossa pátria amada Rivotril: ninguém segura esse trem descarrilhado ladeira abaixo. Em nada menos que um par de dias deixamos para trás Suiça, Holanda e Canadá no número de infectados. Éramos 15o na segunda passada e já somos 11o hoje! E isso com a menor proporção de testes per capita entre os campeões de Coronga. São apenas 296 testes para cada milhão de habitantes. Imaginem que na Turquia são mais de 6.000 testes por milhão! E mesmo assim em mortos deixamos a Turquia no chinelo e estamos entre os TOP TEN!!! Ninguém segura a "gripezinha" do Miliciano-Presidente. Mais de 1.900 mortos e 30.000 infectados. Num país normal o ministro da saúde seria demitido para tentar parar o Coronga, mas no Brasil de BolsoNero troca-se o ministro porque é preciso AJUDAR o coronga "a passear mais", como disse um outro celerado. O presidente do Banco Central, Bob Fields III, até disse que precisamos matar mais rápido para ajudar à economia [de quem sobreviver]. E continuamos saindo de casa para protestar contra quarentena ou comer coxinha com refrigerante, só agora quando voltamos para casa vamos tomando logo um vermífugo Anitta!

Obituário: Rubem Fonseca 2

Foto minha: Árvore grampeada
"Em várias ocasiões ele ouvira dizer que pela mente do indivíduo que está morrendo afogado desfilam em vertiginosa rapidez os principais acontecimentos da sua vida e sempre achara absurda essa afirmativa, até que um dia ocorreu que ele estava morrendo, e enquanto morria se lembrou de coisas esquecidas, da notícia de jornal segundo a qual na sua infância pobre ele usava um sapato furado, sem meias, e pintava o dedão do pé para disfarçar o furo, mas ele sempre usara meias e sapatos sem furos, meias que sua mãe cerzia cuidadosamente, cerzindo todos os anos de sua infância..."

Começo meteórico de "Orgulho", outro conto de Rubem Fonseca

Wednesday, April 15, 2020

Obituário: Rubem Fonseca

Foto minha: Dente de Leão
"Um dia saí para o meu passeio habitual quando ele, o pedinte, surgiu inesperadamente. Inferno, como foi que ele descobriu o meu endereço? "Doutor, não me abandone!" Sua voz era de mágoa e ressentimento. "Só tenho o senhor no mundo, não faça isso de novo comigo, estou precisando de um dinheiro, esta é a última vez, eu juro!" — e ele encostou o seu corpo bem junto ao meu, enquanto caminhávamos, e eu podia sentir o seu hálito azedo e podre de faminto. Ele era mais alto do que eu, forte e ameaçador.

Fui na direção da minha casa, ele me acompanhando, o rosto fixo virado para o meu, me vigiando curioso, desconfiado, implacável, até que chegamos na minha casa. Eu disse, "espere aqui".

Fechei a porta, fui ao meu quarto. Voltei, abri a porta e ele ao me ver disse "não faça isso, doutor, só tenho o senhor no mundo". Não acabou de falar ou se falou eu não ouvi, com o barulho do tiro. Ele caiu no chão, então vi que era um menino franzino, de espinhas no rosto e de uma palidez tão grande que nem mesmo o sangue, que foi cobrindo a sua face, conseguia esconder."

Trecho do conto "O outro" de Rubem Fonseca

Tuesday, April 14, 2020

Diário de Babylon sob o signo do Coronga

Aqui no condado de Cleveland, no estado de Oklahoma, a curva parece que se achatou mesmo. Saímos de dobrar o número de casos em meros 2.5 dias para dobrar o número de casos a cada 13 dias. Claro que, em circunstâncias normais [sem quarentena], estamos intimamente ligados à capital do estado e mesmo a Tulsa e a Dallas no Texas. Então o achatamento da curva por aqui não é sinal de relaxamento na quarentena em absoluto. Continuamos trancados em casa. O principal objetivo é conseguir não aumentar o número de casos tão bruscamente que cause um colapso no frágil e ineficiente sistema de saúde daqui. A universidade, coração do condado, continua fechada. Damos aulas e fazemos reuniões pela internet. E vamos vivendo de um dia para o dia seguinte, sem pensar muito num futuro mais distante. As aulas do semestre vão acabar no começo de maio e esse é meu horizonte máximo. Pessoalmente, passar o verão em Babylon ao invés de voltar para uma temporada em Pindorama é desesperador. Mas o que será, será.

No país como um todo a crise é muito aguda neste momento. São mais de 200.000 casos só no estado de Nova Iorque. E são mais de 25.000 mortos, morrendo agora no ritmo de 1.000 ao dia. O desemprego é brutal [reflexo do mercado de trabalho neo-liberal, que prima pela "flexibilidade" na hora de botar gente no olho da rua]: do [já falso] pleno emprego atingimos a marca de 13% em dias. A falta de preparo [psicológico, cognitivo e de caráter] do atual presidente - que já era muito preocupante antes no cenário internacional - agora é absolutamente exposta. Só não vê o despreparo nas entrevistas coletivas diárias, quem não quer. 

Monday, April 13, 2020

Obituário: Moraes Moreira



O violão de Moraes Moreira é uma síntese fantástica, inventiva. Uma medida clara da força desses bando de garotos de chinelo e camiseta tocando num sítio perdido numa época triste e amarga do Brasil é o silêncio de certos outros baianos sobre eles. O violão de Moraes Moreira, a guitarra de Pepeu Gomes, o baixo de Dadi, mas principalmente o violão de Moraes Moreira era uma coisa muito forte e especial. Não era brinquedo, não. Era puro brinquedo. Era hippie, era doidão, mas era musicalmente muito foda. E no começo de tudo estava o violão de Moraes Moreira.

A morte informa 3:

Foto minha: Cidade do México
Somos TOP TEN!!! Em mortes ninguém pode com a gente, queridos patriotas da Nação Rivotril. Em infectados ainda estamos atrás de Canadá e Suécia, mas tenho fé que passaremos os dois para trás esta semana - falta pouco. No quesito que realmente importa e vale, nas mortes matadas e irreversíveis, seguimos subindo mais rápido que qualquer outro país na nossa frente, com a exceção dos Estados Unidos. Mas estamos só começando, e já estamos acompanhando nosso irmão do norte, mesmo sem querer testar ninguém. Afinal como é que vamos promover o nosso colossal MORTFEST se ficarmos testando todo mundo, não é mesmo. A ideia do nosso Nero de Plantão é deixar morrer sem choro, nem teste, nem vela. Eu imagino que ele imagina que serão todos índios, negros e outros pés de chinelo enchendo as covas de Pindorama. Mas creio que vai dar para todos.

Friday, April 10, 2020

A morte informa 2:


Orgulhosos brasileiros, companheiros da nossa pátria amada Rivotril: informo que seguimos escalando rapidamente posições no quadro mundial de infectados [do 15o lugar na segunda para o 14o hoje] e principalmente de mortos [13o na segunda; 11o hoje!]. Ninguém segura o Coronga, a "gripezinha" do Miliciano-Presidente.
O chefe da nação, aliás, foi hoje continuar a fazer seu papel de Nero, comemorando nosso primeiro dia com mais de 1.000 mortos comendo salgadinho e bebendo refrigerante numa padaria em Brasília. Ele até esfregou o nariz no braço antes de abraçar uma velhinha, imaginem que afinco! Com tanto afinco e empenho, logo, logo deixaremos Canadá no chinelo no número de infectados. A Holanda é um adversário forte [morreram mais de 1.500 por aí em um só dia], mas chegaremos lá, com certeza. Lá no topo estão os EUA, que estão matando mais de 1.600 por dia, com a contribuição do Nero Laranja, que só pensa na sua reeleição este ano. Os coveiros que não caem infectados, vão abrindo buraco atrás de buraco. São filhos e pais, amigos e colegas, famosos e anônimos, e vão todos deixar um país inteiro marcados pela morte. 
O Sol Morto
A tal cloroquina continua sendo objeto de discussão [absolutamente inútil quando se fala em prevenção]. É um medicamento bastante tóxico receitada em casos graves que não respondem a outros tratamentos. Exige cuidados porque ataca fígado, rins e o coração e podem causar cegueira e surdez, mesmo no caso de lupus e malária. E os estudos clínicos para o Coronga ainda não terminaram. Portanto, nada que possa prevenir o que está por vir. 
Bares, igrejas, ruas e praças continuam cheios de gente cheia de fé na cloroquina e no nosso Nero de Arminha. Mas eles não morrerão sozinhos, levarão com eles pais, irmãos e filhos, colegas, amigos e até desconhecidos! 

Monday, April 06, 2020

A morte informa:

Desenho meu: Festa da Torcida Campeã!
Orgulhosos brasileiros, companheiros da nossa pátria amada Rivotril: informo que vamos escalando rapidamente posições no quadro mundial de infectados [15o] e principalmente de mortos [13o] pelo Coronga, a "gripezinha" do Miliciano-Presidente.

Com praticamente o mesmo número de infectados que Portugal e Austria hoje temos já mais que o dobro de mortos deles. E são dois países com muito mais gente idosa [nossa média de idade anda pelos 30 e a média deles nos 40].

Imaginem só o que vem por aí depois de tantas praias e praças cheias de gente no país inteiro! E os templos abarrotados de fiéis? Como dizia o profeta Renato Russo, vai ser a festa da torcida campeã!

Ninguém segura nossos hospitais já sucateados, nossos necrotérios enferrujados, nossos cemitérios dos mambembes aos elegantes e nem nossos crematórios de primeiro-mundo! Se a Itália, com meros 60 milhões de habitantes já enterrou mais de 15.000, imagine nosso potencial com mais de 200 milhões! Façam as contas se puderem! Pelo menos 50 mil defuntos, para embasbacar o mundo. Como diziam na Espanha da Guerra Civil aqueles outros celerados fanáticos religiosos de arma na mão, "viva a morte! viva!"

Sunday, April 05, 2020

Lendo em quarentena

Leio contos de Eça de Queiróz por prazer e por trabalho. Fico encantado com o manejo fino da norma culta da língua portuguesa, com direito a pencas de adjetivos e longas frases que escorrem na velocidade perfeita pela página. Digo isso porque li "Singularidades de uma rapariga loura" em voz alta, o que aguçou a minha percepção das idas e vindas da prosa do Eça.

Autor europeu do século XIX não faltam a Eça aquelas tradicionais sombras do pensamentos colonialista e imperialista. Mas um grande escritor consegue se superar no papel, ir mais longe do que ele mesmo. Captamos na obra seus limites e superações que têm a ver com a capacidade da literatura (nas suas raras expressões além do trivial) de ir além dos limites da época em que foi produzida.

Em "Um poeta lírico", por exemplo, temos a história de um exilado grego na Inglaterra, um poeta que trabalha como camareiro em um hotel onde o narrador se hospeda. O narrador nos conta do sofrimento de Koriscosso por amar a uma colega de trabalho que só tem olhos para um policial que patrulha ali por perto do hotel.

"Pobre Korriscosso! Se êle ao menos a pudesse comover... Mas quê! Ela despreza-lhe o corpo de tísico triste: e a alma não lha compreende... Não que Fanny seja inacessível a sentimentos ardentes, expressos em linguagem melodiosa. Mas Korriscosso só pode escrever as suas elégias na sua língua materna... E Fanny não compreende grego... E Korriscosso é só um grande homem—em grego..."

Korriscosso sofre porque o seu melhor - sua capacidade de tratar com as palavras - desaparece na Inglaterra. Em grego ele é eloquente e sedutor com as palavras, mas seu inglês só lhe dá para passar a imagem de um homem triste e melancólico e de corpo franzino.