Friday, December 31, 2010

Francella - Un día de furia

Conheci Francella no filme "El secreto de sus ojos" como companheiro alcoólatra do personagem de Darín, um papel apenas discretamente cômico. No iutubio a gente encontra um monte de sketches do programa de televisão que ele tinha e vários são sensacionais, bem melhores que os correspondentes brasileiros.
"Un día de furia" é uma série que traz um tipo classe média cheio de boas intenções mas já desconfiado de que a farsa que é a paródia latino americana do mundo norte-americano, que já é uma farsa de eficiência e alegria em si mesmo, vai desmoronar. A farsa vai desmoronando, ele vai perdendo a cabeço e aí...
Eis aqui um dos meus favoritos:


Wednesday, December 29, 2010

Prosa minha: vida de cachorro


Fim de conto, homenagem ao nosso querido, saudoso Totó:
"Enquanto a companheira se prepara para fugir pela porta que abre, o velho cão em pele e osso recosta a cabeça pesada sobre as patas em cruz e cai num sono profundo embalado pelo zumbido dos carros lá fora. Sonha com um gato malhado de olhos amarelados repugnantes, um pombo arrogante cheio de penas eriçadas, deliciosos chinelinhos peludos e sua verdadeira querida dona, que no sonho tinha um pedaço de pão besuntado de manteiga e um osso sujo de sangue em cada mão e cheirava a laranja podre, a cigarro apagado, a benzina e água de colônia, a pipoca e lã, urina e sabão e bosta de cachorro e chamava com a voz doce de amor e alegria. fiu, fiu, totooó, vem cá lindinho vem... E no sonho o cão e a dona saíam juntos pela rua, ele se deliciando com cada poste e cada canto cheio de cheiros bons e os vira-latas com os olhos queimando de inveja rosnando com o pêlo das costas arrepiados latindo seis pernas, meleca de coleira... e os dois desfilando triunfalmente, ele cheirando cada poste e canto e cobrindo com uma catarata de urina aromática cada ponto estratégico e voltando para casa lindo glorioso feliz um cão com dono dono do mundo, e o gato repugnante e o pombo arrogante e o chinelo peludo cruzando a sua frente despudoradamente, convidando para o prazer da indignação esbaforida e a sua verdadeira querida dona solta a guia da coleira e aí..."

Monday, December 27, 2010

Umberto Eco sobre Wikileaks

"El primer aspecto de WikiLeaks es la confirmación del hecho de que cada dossier abierto por un servicio secreto (de cualquier país) está compuesto exclusivamente de recortes de prensa. Las “extraordinarias” revelaciones americanas sobre los hábitos sexuales de Berlusconi no hacen más que informar de lo que desde hace meses se puede leer en cualquier periódico (salvo aquellos cuyo propietario es Berlusconi), y el perfil siniestramente caricaturesco de Gadafi era desde hace tiempo un tema corriente entre los artistas de cabaret.

La regla según la cual los dossiers secretos no deben contener más que noticias ya conocidas es esencial para la dinámica de los servicios secretos, y no únicamente los de este siglo. Si va usted a una librería consagrada a publicaciones esotéricas, verá que cada obra repite (sobre el Grial, el misterio de Rennes-le-Château, los Templarios o los Rosacruces) exactamente lo mismo que dicen las obras anteriores. No se trata únicamente de que el autor de textos ocultos sea reacio a embarcarse en nuevas investigaciones (o que no sepa dónde buscar información sobre lo inexistente), sino de que quienes se consagran al ocultismo sólo creen aquello que ya saben, aquello que les confirma lo que ya les habían dicho."

O texto completo está aqui.

Sunday, December 26, 2010

Recomendo: para quem gosta de Jane Austen com Curry

A indústria cinematográfica indiana tem, além de filmes em Hindi, filmes falados em Tamil, que são feitos no sul do país em Chennai, na província de Tamil Nadu. Lá fizeram um adaptação muito boa de Sense and Sensibility de Jane Austen, bem melhor que essa idéia esquisita de juntar zumbis e monstros aquáticos com Austen que emplacou por aqui. Kandukondain Kandukondain [em inglês "I have Found it"] tem sacadas geniais como fazer do coronel veterano da colonização na Índia ser um capitão do exército indiano que perde a perna na intervenção da Índia no conflito no Sri Lanka [quando os rebeldes falantes da língua Tamil foram combatidos pelos indianos]. Isso além da heroína cair num bueiro numa enxurrada e da música linda, principalmente quando a gente tem legendas para entender a letra:


Thursday, December 23, 2010

Umberto D, ou sem medo de ser infeliz...

Esse filme de Vittorio de Sica foi violentamente rejeitado na Itália na época em que foi lançado. Era 1952 e as misérias da Itália ninguém mais queria ver. O final do filme está aqui. De Sica disse que ainda que tenha comido o pão que o diabo amassou com o fracasso do filme, não o mudaria em nada, exceto as crianças que aparecem no final. Uma interpretação tocante de um professor aposentado que foi abordado no meio da rua e convidado a fazer o filme. Carlo Battisti pediu para passar em casa antes de ir se encontrar com De Sica e, de tão nervoso, colocou duas gravatas. Assim ganhou o papel.

Tuesday, December 21, 2010

Poesia Mexicana - Rosario Castellanos [de novo]

Consejo de Celestina
Desconfía del que ama: tiene hambre,
no quiere más que devorar.
Busca la compañía de los hartos.
Esos son los que dan.

Diálogos con los hombres más honrados, 1972

Sunday, December 19, 2010

Reciclando de 2007 - Proque o tempo passa mas nem tanto


Recebi essa mensagem daquele tipo de dinossauro pré-blog e facebook que fica mandando email para deus e o mundo com piadas sem-graça, mensagens de anjos etc. Acho isso uma invasão desnecessária, principalmente hoje em dia. Minhas barbaridades eu escrevo aqui e só lê quem quer e não fico enfiando tudo pela caixa de correio de deus e o mundo. E as barbaridades que eu quero ler eu procuro na rede. Eis a mensagem, incluindo o repasse:

Sent: Monday, 19 November, 2007 6:58:53 AM
Subject: Assistencialismo - Absurdo!
Amigos e Amigas,
BOA SEMANA!!!
Repassando...
Fiquei INDIGNADO!
REVOLTANTE!!!
Mas, em cada cabeça uma sentença, já dizia nossos antigos...
Abraços

História do Zelador que pediu para ser demitido !!!
Interessante e verídico!
IRREAL para um PAIS como o BRASIL!!!
IRREAL... partindo de um opositor ferrendo da POLÍTICA SOCIAL anterior...
O zelador de um prédio em Natal/RN, pediu à administração do
condomínio onde trabalhava que o demitissem.
Contou o motivo; tem dois cunhados desempregados, lá mesmo em Natal, e que, por conta da bolsa escola, cartão cidadão, cartão alimentação, vale gás, transporte gratuito, vale-refeição (acreditem - Vale-refeição) e demais benefícios do nosso governo, dadas a título de esmola, vivem melhor que ele.
Aí paramos e fomos fazer umas continhas:
1. Bolsa escola - R$ 175 para cada filho que freqüente as aulas (suponhamos que sejam apenas dois) = R$ 350,00 (em dinheiro);
2. Cartão cidadão (cujo intuito é restituir a cidadania) = R$ 350,00 (em dinheiro);
3. Vale gás (um por mês) = R$ 70,00;
4. Transporte (calculamos 4 passagens diárias, que é uma boa média)
R$ 8,00/dia x 20 dias = R$ 160,00;
5. Vale refeição (um por dia) R$ 3,50/dia x 30 dias x 4 pessoas (ele
a esposa e os dois filhos) = R$ 420,00;
Total em dinheiro - R$ 700,00
Total em serviços - R$ 650,00
Total mensal - R$ 1.350,00
Obs.1 : O salário do zelador acrescido de horas extras e tudo mais
girava em torno de R$ 830,00/mês.
Obs. 2: Tudo isso é o estabelecido pela *LEI No 10.836 , DE 9 DE
JANEIRO DE 2004*.
Se você duvidar, consulte:
Como o zelador tem três filhos em idade escolar, para ele é vantajoso ficar desempregado e ter esses benefícios. Seu 'salário desemprego' irá girar em torno de R$ 1.525,00, quase o dobro do que ganha trabalhando.
Como diria o Boris Casoy (expurgado da TV por se opor ao Lula): -
'ISTO É UMA VERGONHA!'.
Sabe quem paga por isso?
'NÓS', os 'OTÁRIOS' que damos um duro danado e passamos restrições que só nós sabemos?
Distribuir a renda, eu acho correto, mas isso é ESMOLA em exagero.
Porque você acha que o Nordeste em peso votou no Lula?
Porque você acha que 'ele' pode ser reeleito mais 'n' vezes?
REFLITA E DEPOIS LEMBRE-SE QUE A DECLARAÇÃO DO TEU IMPOSTO DE RENDA DEVE SER ENTREGUE ATÉ O DIA 30 DE ABRIL, TODOS OS ANOS. VEJA PARA ONDE VAI O TEU IMPOSTO.

Agora aqui vai a minha glosa, ou seja, a tal "sentença de cada cabeça", ou seja a minha:
Curioso que no email que nem repassador nem repassado parecem se indignar com alguém que tem três filhos em casa receber um salário de 830 reais por mês.
Além do mais acho óbvio que qualquer ser humano razoável descartaria, se pudesse, qualquer emprego que lhe oferecesse um salário miserável. Sei de gente que trocaria seu salário de 8.300 reais por um de 18.300 mesmo que o segundo fosse todo ele proveniente de um judiciário que obriga o cidadão comum a esperar anos por uma sentença ou que concede diploma de deputado ao Maluf.
O Brasil poderia ser dividido ainda hoje entre os com-zelador e os sem-zelador, entre os quais, claro, estão incluídos os zeladores. De um lado, gente que nunca lavou uma privada, nunca varreu um quintal, nunca cavou um buraco com uma pá no sol quente, nunca pintou uma parede, nunca consertou um portão quebrado, nunca nem fez uma cama nem lavou muito menos passou uma peça de roupa, nunca cozinhou um almoço completo que não fosse em dia de festa. Do outro, uma grande maioria que faz isso tudo nas suas próprias casas e nas casas do pessoal do outro lado.
Os dois lados tem uma coisa fundamental em comum que os iguala de certa forma fundamental: em sua grande maioria todos se informam pelo Jornal Nacional e se divertem com as novelas da Rede Globo diariamente.
E aposto que essa minha "mensagem" ninguém ia querer repassar.

Friday, December 17, 2010

Da série rir para não chorar, ou uma interpretação otimista dos sinais ambíguos:



Todos os caminhos levam à Vitória (e a Niterói e Cabo Frio)!

E descendo eu ainda passo também por Campos…


E o fotógrafo Tomaz Solberg ainda teve a presença de espírito de tirar sua foto no meio de um temporal!


Wednesday, December 15, 2010

Perguntas. perguntas, perguntas...

"Quem aqui não teve uma namoradinha que precisou abortar? Meus amigos, vamos encarar a vida como ela é."

Sergio Cabral, governador do Rio de Janeiro, ontem, durante evento com empresários via João Villaverde.

Três perguntas:

1. Quando ele disse "namoradinha" se referia exatamente a que tipo de relacionamento? Qual é a diferença entre uma namorada e uma namoradinha? Seria o aborto um assunto de namoradinhos [ou de cinquentões nostálgicos]? Ou seria um assunto mais de namoradinhas? Seria também assunto de namoradas? As outras mulheres, que não são namoradas ou namoradinhas, não tem nada com o assunto? Será que a Igreja é tão contra a legalização do aborto porque nunca teve namoradinhas? Será que a Igreja nunca teve namoradinhas?

2. Parece que ele estava naquele momento falando a um público exclusivamente masculino. Por que não havia empresárias no evento? Se pelo menos 20% do público na sala onde a declaração foi feita fosse feminino, o governador diria a mesma coisa?

3. Vamos encarar a vida de quem como ela é? A minha, a sua, a do governador, a dos empresários? Ou estaria o governador se referindo aos contos de Nelson Rodrigues? Ou teria o governador se transformado momentaneamente em um personagem de Nelson Rodrigues?

Tuesday, December 14, 2010

Folha de São Paulo em busca do Leitor Médio

O colunista Antônio Cícero do seu blogue anuncia sua saída:

“Embora eu tenha tido, na Folha, leitores fiéis e de grande qualidade, parece que a quantidade dos mesmos era menor do que a que convém a uma coluna da ‘Ilustrada’ de sábado. Em outras palavras, meus artigos eram considerados difíceis e/ou desinteressantes pelo leitor médio.”


E no site da folha a nova colunista Fernanda Torres anuncia sua entrada no sábado:

"Gosto de ciência, história, comportamento, literatura e arte, mas adoraria entender de física, matemática, filosofia, geologia, poesia...".

"Não há nada mais duvidoso do que uma atriz que escreve. Vamos ver se tenho fôlego..."

"Como atriz, jamais trabalhei pensando em um público alvo. Isso deve ser uma falha, quanto mais hoje em dia, quando ninguém dá um passo sem uma pesquisa de opinião"


E o “novo” time de articulistas da Ilustrada fica assim:

Luiz Felipe Pondé (segundas), João Pereira Coutinho (terças), Marcelo Coelho (quartas), Contardo Calligaris (quintas), Carlos Heitor Cony (sextas), Fernanda Torres/Drauzio Varella (sábado) e Ferreira Gullar (domingos).

Claro que nesse tipo de coluna não tem como acertar toda a semana, mas desses aí só três ainda me interessa ler e outros três eu nem passo os olhos em cima. Grandes estrategistas esses da FSP: perdem os leitores que ainda têm e duvido que ganhem leitores novos com essa mistura de imitações baratas de Paulo Francis e Carlos Lacerda e outras rabugentices preocupadas com a “crescente efeminação dos machos”. Sinceramente não consigo imaginar o barbeiro que eu frequento na Rua do Ouro trocando sua assinatura do Estrago de Minas ou do Estadão para poder ler Fernanda Torres na FSP no sábado…

Sunday, December 12, 2010

Música que fez minha cabeça 2 – Camarón de la Isla

Eles eram um bando jovens nascidos na parte mais miserável no sul esturricado de uma pobre Espanha enterrada num pesadelo católico/fascista de trinta anos. E usavam roupas e penteados que pareciam do tempo da Jovem Guarda ou de algum ídolo brega brasileiro. E falavam com sotaque forte de pé rapado, comendo o Ss no fim das sílabas e os Ds dos particípios. E usavam só apelidos ao invés de nomes e sobrenomes: o cantor era um cigano, que por ser muito branquelo azedo tinha o apelido de “Camarão da Ilha” e era acompanhado por um filho de portuguesa conhecido como o “Paco [apelido de Francisco] da Luzia” e depois também por um outro cigano cabeludo conhecido apenas como Tomatito [Tomatinho].

Eu tinha uns 17 anos e quando Camarón de la Isla abria a boca para cantar “Como el agua” – mesmo numa fita K7 fuleira num gravadorzinho vagabundo – legiões de anjos e demônios da minha adolescência saíam voando pela sala.

Como el agua

Limpiaba el agua del rio

como la estrella de la mañana,

limpiaba, cariño mio,

al manantial de tu fuente clara,

ay, como el agua, como el agua, como el agua.

Como el agua clara

que baja del monte,

así quiero verte

de día y de noche,

ay, como el agua, como el agua, como el agua.

Yo te eché mi brazo al hombro

y un brillo de luz de luna

iluminaba tus ojos.

De ti deseo, todito el calor,

para ti mi cuerpo si lo quieres tu:

Fuego en la sangre

nos corre a los dos,

ay, como el agua, como el agua, como el agua

Si tus ojillos fueran aceitunitas verdes

toda la noche estaría muele que muele, muele que muele

toda la noche estaría muele que muele, muele que muele

ay como el agua, ay como el agua, ay como el agua

Luz del alma me adivina,

que a mi me alumbra mi corazón,

mi cuerpo alegre camina

por que de ti lleva la ilusión,

ay como el agua, como el agua, como el agua

Friday, December 10, 2010

Entre o México e o Brasil I - Pedras


Foto: Gabriel Orozco: Piedra que cede

A educação pela pedra

Uma educação pela pedra: por lições;

para aprender da pedra, freqüentá-la;

captar sua voz inenfática, impessoal

(pela de dicção ela começa as aulas).

A lição de moral, sua resistência fria

ao que flui e a fluir, a ser maleada;

a de economia, seu adensar-se compacta:

lições de pedra (de fora para dentro,

cartilha muda), para quem soletrá-la.

Outra educação pela pedra: no Sertão

(de dentro para fora, e pré-didática).

No Sertão a pedra não sabe lecionar,

e se lecionasse não ensinaria nada;

lá não se aprende a pedra: lá a pedra,

uma pedra de nascença, entranha a alma.

Thursday, December 09, 2010

Moreira da Silva romântico

Entre as personagens fascinantes de Beatriz Kushnir está Estera Gladkowicer, mulher da vida que foi namorada de Moreira da Silva. Para Estera Moreira da Silva esqueceu o Kid Morengueira e cantou em 1937 uma romântica Judia Rara, feita em parceria com Jorge Faraj, um filho de libaneses, e Roberto Martins. Estera morreu em 1968 por overdose de barbitúricos.

A rosa não se compara
a essa judia rara
criada no meu país
rosa de amor sem espinhos
diz que são meus carinhos
e eu sou um homem feliz

Os olhos dessa judia
cheios de amor e poesia
dorme o mistério da noite
brilha o milagre do dia

A sua boca vermelha
é uma flor singular
e meu desejo uma abelha
em torno dela a bailar.

Wednesday, December 08, 2010

Contraste entre entrevistadores, além das intenções, em termos de competência

Não é absolutamente minha intenção comparar Nixon com José Dirceu, mas sim comparar um jornalista que se prepara de verdade para fazer um sujeito admitir algo que ele ainda insistia em negar numa entrevista e um bando de patetas que não fazem o mínimo em termos de preparação e ficam achando que um sujeito vai confessar alguma coisa só porque eles querem...






Monday, December 06, 2010

Recomendo: Baile de Máscaras de Beatriz Kushnir

O assunto é a história de associações beneficentes de auxílio mútuo das comunidades de prostitutas e cafetinas judias [as chamadas "Polacas"] no Rio de Janeiro e em São Paulo. Tráfico humano, uma namorada de Moreira da Silva, a origem hebraica da palavra "sacanagem", lutas pelo poder dentro da associação, a luta para a compra de terrenos para oferecer um cemitério judaico digno aos "impuros" e outras histórias fascinantes. A autora tem um blogue sobre o livro com fotos incríveis - e ela tem ainda outro livro de história, fundamental para entender o período dos anos de chumbo, Cães de Guarda.

Friday, December 03, 2010

"Los Señores del Narco" - Para quem continua vibrando com a "Guerra do RJ"

O México está em polvorosa com a sua Guerra do Narco. O parlamento calou-se com um livro bomba que parece que vai deixar qualquer wikileak sobre funcionários do governo mexicano implorando por ajuda americana e admitindo ter perdido o controle da situação no chinelo:
"Los Señores del Narco"

Me permiti uma tradução livre e adaptada de um trecho da entrevista:

"Meu livro não é um livro que alente essa falsa idéia que [complete aqui, por exemplo, o nome dos últimos chefes traficantes presos no Rio de Janeiro] são homens intocáveis, que estão metidos no morro, fugindo da justiça porque são muito audazes, são muito inteligentes, são todo poderosos. Isso é falso. Como esses homens que muitas vezes sequer possuem uma educação primária são os “senhores do tráfico”? Os Senhores do Tráfico não são esses, ou não apenas eles, mas sim ilustres politicos, policiais, empresários, militares, gente que querem fazer crer que são muito respeitáveis. [complete aqui o nome dos últimos traficantes presos no Rio de Janeiro] não poderiam existir, não seriam nada, não teriam um dólar se não fosse pela cumplicidade de banqueiros, de empresários, de funcionários públicos, de policiais, de secretários de segurança publica, de militares."


Thursday, December 02, 2010

Poema meu: Saudades da Aldeia desde New Haven


Todas as cartas de amor são

Ridículas.

Álvaro Campos

O Tietê é mais sujo que o ribeirão que corre minha aldeia,

mas o Tietê não é mais sujo que o ribeirão que corre minha aldeia

porque não corre minha aldeia.

Poucos sabem para onde vai e donde vem

o ribeirão da minha aldeia, 


que pertence a menos gente 


mas nem por isso é mais livre ou menos sujo.

O ribeirão da minha aldeia 


foi sepultado num túmulo de pedra

para não ferir os olhos nem molhar os inventários

da implacável boa gente da minha aldeia,

mas, para aqueles que vêem em tudo o que lá não está, 


a memória é o que há para além

do riberão da minha aldeia

e é a fortuna daqueles que a sabem encontrar.


Não penso em mais nada

na miséria desse inverno gelado

estou agora de novo em pé

sobre o ribeirão da minha aldeia.

Tuesday, November 30, 2010

Homenagem ao Ribeirão Arrudas


O Tietê é mais sujo que o ribeirão que corre minha aldeia,

Mas o Tietê não é mais sujo que o ribeirão que corre minha aldeia

Porque não corre minha aldeia.



Saturday, November 27, 2010

Além da novelinha para Homer Simpson

Além muito além da novelinha para Homer Simpson que o sistema Globo e grande imprensa nos oferece goela abaixo está a opinião de Luiz Eduardo Soares, contundente e muito mais informativo em seu blogue, do qual reproduzo apenas um pequeno trecho:
"O tráfico que ora perde poder e capacidade de reprodução só se impôs, no Rio, no modelo territorializado e sedentário em que se estabeleceu, porque sempre contou com a sociedade da polícia, vale reiterar. Quando o tráfico de drogas no modelo territorializado atinge seu ponto histórico de inflexão e começa, gradualmente, a bater em retirada, seus sócios –as bandas podres das polícias-- prosseguem fortes, firmes, empreendedores, politicamente ambiciosos, economicamente vorazes, prontos a fixar as bandeiras milicianas de sua hegemonia.
Discutindo a crise, a mídia reproduz o mito da polaridade polícia versus tráfico, perdendo o foco, ignorando o decisivo: como, quem, em que termos e por que meios se fará a reforma radical das polícias, no Rio, para que estas deixem de ser incubadoras de milícias, máfias, tráfico de armas e drogas, crime violento, brutalidade, corrupção? Como se refundarão as instituições policiais para que os bons profissionais sejam, afinal, valorizados e qualificados? Como serão transformadas as polícias, para que deixem de ser reativas, ingovernáveis, ineficientes na prevenção e na investigação?"

Wednesday, November 24, 2010

Poesia minha

Lendo Birthday Letters I

A poesia não salva ninguém

além de si mesma

mesmo nos poemas dos suicidas

dos frustrados dos covardes

dos doentes terminais

dos perversos fúteis

mesmo quando em última instância

a poesia lá de fato habita

mesmo quando é o último recurso

dos desesperados

a poesia não salva ninguém

além de si mesma.

A poesia floresce

lá onde menos se espera

rabiscada na parede

dum banheiro torpe

nos olhos injetados dum leitor

ainda mais torpe

lá onde moram monstros engenhosos

e a maldade condensada em dor

jorra sem esforço

dos poros do mundo

a poesia floresce

lá onde menos se espera

Para a poesia

o poema é como uma luva fria

guardando vazia

a memória da mão

para a poesia

o poema só se abre a um nada

um corpo que morre num colchão nu

no chão frio de uma cela vazia

onde tudo o que não é morte

é um ponto cego

para a poesia

o poema é como uma luva fria.

Monday, November 22, 2010

Ainda sobre Lobato, ainda de forma indiretíssima:

"German literature, too, labored under the influence of the political excitement into which all Europe had been thrown by the events of 1830. A crude Constitutionalism or a still cruder Republicanism, were preached by almost all writers of the time. It became more and more the habit, particularly of the inferior sorts of literati, to make up for the want of cleverness in their productions, by political allusions which were sure to attract attention. Poetry, novels, reviews, the drama, every literary production teemed with what was called 'tendency,' that is with more or less timid exhibitions of an anti-governmental spirit. In order to complete the confusion of ideas reigning after 1830 in Germany, with these elements of political opposition there were mixed up ill-digested university-recollections of German philosophy, and misunderstood gleanings from French Socialism, particularly Saint-Simonism; and the clique of writers who expatiated upon this heterogeneous conglomerate of ideas, presumptuously called themselves 'Young Germany,' or 'the Modern School.' They have since repented their youthful sins, but not improved their style of writing."
Trecho de Revolution and Counter-revolution in Germany escrito por Engels, fã (junto com seu chapa barbudo) do "reacionário" Balzac e do "pequeno-burguês" Dickens.

Traduzindo só a parte central:
"Tornava-se cada vez mais um hábito, particularmente entre os literatos de segunda categoria, compensar pela falta de inteligência em suas produções com alusões políticas que certamente atraíam atenção. Poesia, romances, resenhas, teatro, toda a produção literária estavam carregadas com o que era chamado 'tendência, que é uma exibição mais ou menos tímida de espírito anti-governamental."
Mais sobre o assunto, eu recomendo Marxism and Literature de Raymond Williams.

Saturday, November 20, 2010

Quem tem medo de dançar com a Catrina?

A Catrina de Diego Rivera, de mãos dadas com um Diego menino, vestindo um longo cachecol/Quetzalcoatl:










Rivera relia essa Catrina, invenção do genial José Guadaleupe Posadas:











E a Catrina século XXI em Hasta los Huesos de René Castillo:

Wednesday, November 17, 2010

Como sempre atrasado...

Para quem quiser pensar com menos maniqueísmo nas eleições e na tese do país dividido, este mapa do Estado de São Paulo é uma ótima opção. Passando o mouse por cima dele você tem o resultado do segundo turno, município por município no país inteiro. Como toda a representação, ela é passível de leituras distorcidas [por exemplo, um município imenso mas com pouca gente fica super-dimensionado], mas é uma representação mais sutil do resultado, também pela diferença entre vermelho/azul mais forte ou mais claro.
Os poucos e heróicos gatos pingados que acompanham esse blogue sabem que eu estou sempre atrasado, no mínimo três semanas atrás do noticiário. É fruto do meu temperamento bovino...

Tuesday, November 16, 2010

desencavando outra tradução minha

A história de uma hora

Kate Chopin

Sabendo-se que a Senhora Mallard sofria de um problema no coração, tomou-se todo o cuidado para dar-lhe a notícia da morte de seu marido da forma mais gentil possível.

Sua irmã, Josephine, foi quem lhe contou, em frases desconexas, cheias de insinuações veladas que revelavam ao mesmo tempo em que ocultavam o que queriam dizer. Richards, o amigo de seu marido, também estava lá, ao seu lado. Fora ele quem passara pelo escritório do jornal quando lhe chegaram as informações sobre o desastre de trem com o nome de Brent Mallard no topo da lista de “mortos.” Mal se assegurara da veracidade da notícia através de um segundo telegrama, ele apressou-se em trazer a triste mensagem para antecipar-se a qualquer outro amigo menos cuidadoso e gentil.

Ela não recebeu a notícia como muitas outras mulheres já o fizeram – com uma incapacidade paralizadora de aceitar o seu significado – e chorou imediatamente, com súbito e violento abandono, nos braços da irmã. Quando o vendaval da tristeza esgotou-se, ela foi para o seu quarto, sozinha. Não permitiu que ninguém a acompanhasse.

Lá estava a ampla e confortável poltrona voltada para a janela aberta. Ali ela deixou-se afundar, oprimida por uma exaustão física que atormentava o seu corpo e parecia alcançar-lhe a alma.

Pelo quadrado aberto à sua frente ela podia ver o topo das árvores que vibravam com a vida nova da primavera. Um hálito delicioso de chuva pairava no ar. Na rua lá embaixo um mascate anunciava seus produtos a plenos pulmões. Notas de uma canção cantada por alguém longe dali chegavam-lhe timidamente e um sem número de andorinhas chilreavam pelos telhados.

Havia retalhos de céu azul que apareciam aqui e ali por entre as nuvens, que juntas empilhavam-se umas sobre as outras no oeste em frente à sua janela.

Ela sentou-se com a cabeça atirada para trás, sobre a almofada da poltrona, praticamente imóvel exceto quando um soluço subiu-lhe até a garganta e a sacudiu, como uma criança que chora até cair no sono e continua a soluçar em seus sonhos.

Ela era jovem, com um rosto claro e calmo cujas linhas indicavam uma certa repressão e até mesmo uma certa dureza. Mas agora havia apenas uma expressão sem brilho nos seus olhos que fitavam aqueles retalhos de céu azul lá fora ao longe. Não era o olhar oblíquo de uma reflexão, mas sim uma simples indicação da suspensão de qualquer tipo de pensamento inteligente.

Alguma coisa se aproximava dela e ela a esperava, amedrontada. O que era? Ela não sabia; era algo sutil e elusivo demais para que se pudesse dar-lhe um nome. Mas ela sentia essa coisa, arrastando-se lentamente pelo céu, alcançando-a através dos sons, dos aromas, da cor que enchiam o ar.

Seu colo arfava ofegante. Ela começava agora a reconhecer o que era essa coisa que se aproximava para possuí-la, e lutava para repeli-la com a sua vontade – tão desprovida de força para tal quanto teriam sido as suas mãos delgadas.

Quando ela finalmente abandonou-se, uma palavrinha suspirada escapou por entre os seus lábios ligeiramente apartados. Ela disse, uma e outra vez, entre murmúrios: “livre, livre, livre!” Veio-lhe um olhar vazio e uma expressão de terror que logo em seguida a deixaram. A partir daí seus olhos permaneceram alertas e brilhantes. Seu pulso era rápido e o sangue corria aquecendo e relaxando cada centímetro do seu corpo.

Ela não parou para se perguntar se o que ela sentia era uma alegria monstruosa ou não. Uma percepção clara e exaltada tornara-lhe capaz de desconsiderar esse tipo de insinuação como algo insignificante.

Ela sabia que choraria de novo quando visse as mãos do marido, gentis e carinhosas, cruzadas sobre o peito inerte e o rosto, que nunca lhe dirigira um olhar salvo com amor, agora fixo, cinzento, morto. Mas além desse momento amargo ela vislumbrava uma longa procissão de dias que viriam e pertenceriam a ela somente. E ela abriu e estirou os seus braços para eles, dando-lhes as boas vindas.

Não haveria ninguém para viver por ela durante aqueles anos vindouros; viveria para si. Nenhuma vontade poderosa dobraria a sua própria com aquela persistência cega com a qual homens e mulheres acreditam ter o direito de impor a sua própria vontade sobre a vontade de uma criatura que é seu par. Uma intenção gentil ou uma intenção cruel não faria tal ato parecer-lhe menos criminoso, quando considerado naquele breve momento de iluminação.

E ainda assim ela o amara – às vezes. Freqüentemente, não. O que importava! O que poderia lhe importar o amor, esse mistério não-resolvido, em face ao possuir essa auto-afirmação que de repente ela reconhecia como o mais poderoso impulso de seu ser!

“Livre! Corpo e alma livres!” ela continuava sussurando.

Josephine estava ajoelhada diante da porta fechada, com os lábios colados na fechadura, implorando para entrar. “Louise, abra a porta! Eu imploro; abra a porta –você vai adoecer. O que é que você está fazendo, Louise? Pelo amor de Deus, abra a porta.”

“Vá embora. Eu não vou adoecer.” Não, pelo contrário: ela estava ali exatamente bebendo um dos elixires da vida através daquela janela aberta.

Sua imaginação agora percorria solta os dias à sua frente. Dias de primavera e dias de verão, e todos os tipos de dias que seriam só dela. Murmurou então uma breve súplica por uma vida longa. Há não mais que um dia antes de agora ela pensara com um arrepio que a vida poderia ser longa demais.

Ela levantou-se afinal e abriu a porta, atendendo aos apelos inoportunos da sua irmã. Havia um triunfo febril em seus olhos e ela portava-se inadvertidamente como se fosse a deusa da Vitória. Tomou a irmã pela cintura e as duas juntas desceram as escadas. Richards esperava por elas lá embaixo.

Nesse momento alguém abriu a porta da frente com uma chave de trinco. Era Brently Mallard que entrava em casa, um pouco cansado pela viagem, carregando serenamente sua maleta e seu guarda-chuva. Ele estivera longe da cena do acidente e sequer tomara conhecimento de que houvera um. Ficou pasmo com o grito lancinante de Josephine e com a pronta tentativa de Richards de escondê-lo da vista de sua mulher.

Mas Richards não foi suficientemente rápido.

Quando os médicos chegaram disseram que ela havia morrido do coração – da alegria que mata.

Monday, November 15, 2010

Fascismo Made in Brazil: Comentário típico de qualquer reportagem de O Globo

Essa violência ninguém agüenta mais!!!! Eu sou contra a violência mas tinha era que matar esse cara, mas antes tinha que castrar e esfolar ele todo!!!! CADEIA NESSA GENTE, na mãe dele que não ensinou nada pro filho, na irmã que não fez nada e na esposa que bem que aproveitou tbm, essa cachorra com certeza tem culpa no cartório. É muita corrupção esse povo ignorante CONTROLE DE NATALIDADE gente burra merece roubalheira favelado só impostos ninguém agüenta esse pessoal dos direitos humanos punir vigiar politicamente correto depois vem buscar o dinheiro essa mulambada TEM QUE MATAR!!! PENA DE MORTE NELES!!!!

Ass. Morteaviolencia

Saturday, November 13, 2010

O troco

O pop/rock britânico dos anos 60 era para Bettye LaVette uma onda musical que deslocou para um canto ela e todos os outros grandes cantores negros de R&B nos anos 60. Ironicamente foi interpretando essa canção pouco conhecida do The Who que LaVette finalmente chamou a atenção de um público maior, acontecimento seguido por um disco bem legal de reinvenções de canções de Beatles e Companhia por ela mesma.

Bettye LaVette performs Reign Down O'er Me from Walter Smith on Vimeo.

Wednesday, November 10, 2010

Sobre história e racismo [uma reflexão indireta, portanto, sobre a polêmica sobre Monteiro Lobato]

Yale costumava exibir um certo retrato de Elihu Yale, homem que doou dinheiro, uma boa biblioteca e, assim, deu seu nome à instituição. Nesse retrato constava [no canto esquerdo como vocês podem ver] um escravo de bandana que segura uma carta de joelhos ao pé de Elihu. O retrato de Elihu [e sua impressionante peruca] foi exibido durante décadas numa das salas mais importantes da universidade, o “Corporation Room” onde os trustees se encontram. Você pode vê-lo, por exemplo nessa foto da revista Time, tirada durante a cerimônia de despedida de Charles Seymor, reitor da universidade de 1937 a 1951 [e note como a foto da revista já corta o inconveniente escravo quatro anos antes do começo do Civil Rights Movement de Martin Luther King].

Em 2007 o retrato e seus dois personagens saíram desse lugar símbolo de prestígio e poder para algum depósito bem trancado [suponho], gesto simbólico que foi acompanhado de uma justificativa meio desajeitada: o quadro daria a impressão incorreta que Elihu era proprietário de escravos; o escravo teria sido adicionado posteriormente à pintura por ser um símbolo de status comum no século XVIII - podemos ver, à direita, pela janela, os navios do poderoso mercador.

A retirada do retrato do lugar onde estava é, para mim, digna de aplauso. Junto com a chegada de um retrato de Edward Bouchet [primeiro aluno negro de Yale] a um lugar de destaque na principal biblioteca da universidade ele tem valor simbólico importante. Mas o sumiço completo daquele primeiro retrato é uma lástima, porque é um apagamento do passado. Agora podemos todos esquecer que os grandes homens das Américas exibiam seres humanos escravizados junto com suas perucas lustrosas e outros objetos de status e fingir que eram todos abolicionistas, pelo menos de coração, desde sempre? E porque será que ninguém fala sobre os "produtos" que os navios bucolicamente ancorados no retrato levavam? Será que isso levaria a conclusões como as que chegaram em Brown em 2006, onde todo mundo se lembrava de um irmão Brown [o abolicionista] e esquecia o outro [o mercador de escravos]?

Monday, November 08, 2010

José Emilio Pacheco - Em homenagem às eleições presidenciais


Antiguos compañeros se reúnen

Ya somos todo aquello

Contra lo que luchamos a los veinte años.

Desde entonces, 1975-1978

Wednesday, November 03, 2010


Foto: Dia de Finados - Mixquic, Cidade do México [clique na foto]

"O fato tem que ser melhorado no escrito para que o povo creia no acontecido."
Antônio Biá, personagem de Narradores de Javé de Eliane Caffé.

Friday, October 29, 2010

Conto que traduzi há um tempão

Era uma vez

Margaret Atwood

- Era uma vez uma garota pobre, linda e muito boazinha, que vivia com sua madrasta malvada em uma casa na floresta.

- Floresta? Floresta é um negócio passé, entende? Eu já estou cheia desse negócio de vida selvagem. Não é uma imagem adequada para a nossa sociedade, hoje em dia. Vamos de urbanidade, para variar.

- Era uma vez uma garota pobre, linda e muito boazinha, que vivia com sua madrasta malvada em uma casa na cidade.

- Agora melhorou. Mas eu tenho que questionar seriamente essa termo, pobre.

- Mas ela era pobre!

- Pobreza é uma coisa relativa. Ela vivia numa casa, não é?

- É.

- Então, em termos socioeconômicos, ela não era pobre.

- Mas o dinheiro não era dela! Justamente a questão da história é que a madrasta malvada a obrigava a vestir roupas velhas e a dormir ao pé da lareira –

- Ahá! Eles tinham uma lareira! Com a pobreza, deixa eu te dizer, não tem lareira. Vamos ali na periferia, vamos subir a favela, vamos descer ali embaixo do viaduto, onde as pessoas dormem em caixotes de papelão à noite e eu te mostro o que é a pobreza!

- Era uma vez uma garota da classe média, linda e muito boazinha –

- Pode parar aí. Eu acho que a gente podia cortar esse bela, você não acha? As mulheres de hoje em dia já têm que lidar com padrões de beleza intimidadores demais do jeito que as coisas estão, com todas essas peruas nas propagandas. Será que você não podia fazê-la mais, bem, mais do tipo médio?

- Era uma vez uma garota que era um pouquinho acima do peso e meio dentuça, que –

- Eu não acho que seja legal ficar fazendo graça com a aparência das pessoas. Além do mais, você está incentivando a anorexia.

- Eu não estava fazendo graça! Eu estava só descrevendo –

- Deixe as descrições prá lá. Descrições são opressoras. Mas você pode dizer de que raça ela era.

- Que raça?

- Você sabe, negra, branca, indígena, mulata, asiática. Essas são as escolhas. E eu já vou lhe dizendo de uma vez que eu já estou cheia de branco. É cultura dominante para cá, cultura dominante para lá –

- Eu não sei que raça.

- Bom, provavelmente seria a sua raça, não?

- Mas isso não tem nada que ver comigo! É sobre essa garota que –

- Tudo é sempre sobre você.

- Eu estou achando que você não quer ouvir história nenhuma.

- Tá bom, prossiga. Você podia fazê-la de uma minoria. Isso ajudaria.

- Era uma vez uma garota de descendência indeterminada, tão comum quanto boazinha, que vivia com sua madrasta malvada –

- Outra coisa. Boazinha e malvada. Você não acha que nós devíamos transcender esses epítetos moralistas, preconceituosos e puritanos? O que eu quero dizer é que uma boa parte disso tudo é uma questão de condicionamento, não é mesmo?

- Era uma vez uma garota, tão comum em sua aparência quanto bem ajustada, que vivia com sua madrasta, que não era uma pessoa nem muito aberta nem afetuosa porque ela mesma tinha sofrido abusos durante a infância.

- Melhor. Mas eu já estou cheia de imagens negativas de mulheres! E as madrastas – ela sempre pagam o pato! Porque você não muda para padrasto? Faria muito mais sentido de qualquer jeito, levando em consideração o comportanmento que você vai descrever. E põe aí uns chicotes e umas correntes também. Nós todas sabemos muito bem como são esses homens de meia-idade, pervertidos e reprimidos –

- Ei, espera aí um minuto! Eu sou um homem de meia –

- Você fica na sua, Seu Abelhudo. Ninguém pediu para você meter o bedelho, ou o que você quiser chamar esse seu troço aí. Isso aqui é entre nós duas. Prossiga.

- Era uma vez uma garota –

- Quantos anos ela tinha?

- Não sei. Ela era jovem.

- Esse negócio vai acabar em casamento, não é?

- Bom, eu não queria estragar o suspense do enredo, mas – sim.

- Então você pode largar dessa terminologia condescendente. É mulher, minha amiga. Mulher.

- Era uma vez –

- Que história é essa de era? Chega do passado que já morreu. Quero que você me conte uma história sobre o presente.

- Uma vez –

- E aí?

- E aí, o quê?

- E aí, porque não duas vezes?

Thursday, October 28, 2010

Gregory Isaacs

Vejam como eu sou um homem otimista. Enquanto tanta gente nunca foi lá e quando pensa no Maranhão e se lembra da família Sarney, aliada de todos e antes de tudo de si mesma, eu não: quando eu penso no Maranhão, além de morrer de vontade de ir passar pelo menos uma semana por lá, me lembro que lá no Maranhão eles curtem há muito tempo o sensacional [infelizmente recém-falecido] Gregory Isaacs:



Every time I hear the music and I make a dip, a dip
Slave master comes around and spank I with his whip, the whip
But if I don’t get my desire
Then I'll set the plantations on fire
My temperature is getting much higher
Got to get what I require

‘Cause every time we do the work sometimes we are hurt, oh yeah
Boss never do a thing but hold on to his girth
But if I don’t get my desire
Then I'll set the plantations on fire
My temperature is getting much higher
Got to get what I require

Every time I hear the music and I move my hip, my hip
Slave master comes around and spank I with his whip, a whip
Slave master, I’m the shepherd of my pasture
I say you work me to scorn so long me make me gwaan
‘cause I’m accustomed to your whip

But if I don’t get my desire
Then I'll set the stations on fire
My temperature is getting much higher
Got to get what I require

Monday, October 25, 2010

Hora de Poesia: Cacaso

Lar Doce Lar

p/Maurício Maestro


Minha pátria é minha infância:

Por isso vivo no exílio.

Na corda bamba: poesia, 1978

Friday, October 22, 2010

estou achando quase impossível...


Flávia Cera tem um blogue muito interessante. Concordo com algumas coisas e discordo de outras, mas o que me atrai no blogue dela é o tom, um tom que eu agora percebo presente em muitos, mas não todos os meus blogues favoritos. Digo isso inspirado também por uma conversa que tive com a minha cara-metade sobre essas eleições e sobre um certo alívio de não ter que encontrar certas pessoas e ouvir certas barbaridades. Eu não acho que a barbaridade seja só uma questão de conteúdo, mas também de tom. Esse tom dos blogues de que eu estava falando é o tom das conversas que eu gostaria de ter nesses tempos difíceis. Porque uma opinião pode ser contundente e um discurso crítico pode estar engajado mas essa opinião contundente não precisa ser bélica e esse discurso crítico não pode ser panfletário.

Acho que essa campanha eleitoral está sendo marcada pelos limites da nossa cultura autoritária, intolerante, violenta. A declaração de voto agora quase vira declaração de guerra, porque os defensores do outro candidato invariavelmente, quase instantaneamente, começam a atirar insultos [ingênuo, babaca, otário, hipócrita, fanático, cínico, etc]. Acho que o voto em Serra é um tremendo equívoco, mas faço questão de aceitar que os outros votem no Serra também. E assim eu penso: "se pudermos conversar sobre o assunto, tudo bem; se não der então vamos ter que mudar de assunto" - só que mudar de assunto não nos interessa porque certos assuntos, como o aborto, a legalização das drogas e o casamento entre pessoas do mesmo sexo têm que ser discutidos mesmo. O debate entre opiniões contrárias no Brasil freqentemente descamba da contundência para o xingamento e daí chega às vias de fato, porque nós somos autoritários, intolerantes, violentos; mas não podemos silenciar.

Eu me lembro de uma entrevista com Helio Oiticica para um livro sobre a polêmica das Patrulhas Ideológicos no final dos anos 70. O entrevistador pergunta a ele quais as perspectivas para a implantação do socialismo no Brasil e ele se vira e diz assim: “Socialismo no Brasil? Eu estou achando quase impossível, o Brasil é um país bem fascista…”

Eu espero apenas que essa vertente fascista da cultura brasileira fique cada vez mais visível para que assim mais gente se disponha a combatê-la de frente, oferecendo um outro discurso, capaz de contundências mas com respeito e uma certa dose humildade, coisas que fazem parte da nossa cultura também.

Thursday, October 21, 2010

Recordar é viver: os 2 desaparecimentos de Jorge Julio López [27-10-76 > 18-09-06]

Parte 2. “Una noticia, por mala que sea”

Em 2003 as lei “Ponto Final” e “Obediência Devida” e os indultos de Menem foram anulados na justiça e no congresso com o apoio do novo presidente Kirchner. Em 2004 Etchecolatz pegou 7 anos pelo crime de roubo de bebês de prisioneros politicos, mas Etchecolatz foi mandado a cárcere privado, sob protestos veementes dos organismos defensores dos direitos humanos na Argentina.

Em 2006 as leis de proteção aos criminosos da ditadura argentina tinham sido definitivamente derrubadas e Etchecolatz estava sendo novamente julgado pelo crime de genocídio, no dia 28 de junho de 2006 Julio López era uma das testemunhas de acusação. Aqui podemos ver algumas partes do testemunho de Julio López no julgamento de Etchecolatz:




Acho o testemunho em si fortíssimo, talvez dispensando comentários, mais forte quando se pensa no seu desaparecimento pouco depois, ao fim do julgamento, Etchecolatz foi condenado a prisão perpétua. Mas Julio López não assistiu a leitura da sentença, um momento catártico para muitos argentinos: desapareceu no dia 18 de setembro de 2006 em La Plata trinta anos depois de seu sequestro pelo regime militar argentino. Até hoje López não foi encontrado. O título dessa segunda parte do post é parte de um apelo feito pela família de Julio López.

PS. Tenho que citar uma pessoa que conheci ano passado por intermédio da minha companheira de trabalho Moira Fradinger: a viúva do cineasta argentino desaparecido Raymundo Gleyzer, Juana Sapire que, em uma conversa informal, me contou sobre o caso de Julio López, quando eu disse que agora a Argentina era uma democracia. Os brasileiros precisam conhecer muito melhor o resto da América Latina e a Argentina, por exemplo, para conhecer Gleyzer, um documentarista SENSACIONAL que começou sua carreira filmando no nordeste brasileiro em 1964. Para isso vale a pena conferir o documentário sobre Gleyzer.


Tuesday, October 19, 2010

Recordar é viver: os 2 desaparecimentos de Jorge Julio López [27-10-76 > 18-09-06]

Primeira Parte: Fanáticos ou Cínicos?

Jorge Julio López, pedreiro de profissão, nascido em Buenos Aires em 1929, era militante peronista e ficou preso de 1976 a 1979 em um dos 600 Centros Clandestinos de Detenção criados e mantidos pelo regime militar argentino em sua guerra de extermínio contra a subversão. Foi assim que Julio López teve a infelicidade de conhecer Miguel Etchecolatz, Diretor de Investigações da Provincia de Buenos Aires, cujo governador, o general Ibérico Saint Jean, declarou em 1977: "Primero mataremos a todos los subversivos, luego mataremos a todos sus colaboradores, después... a sus simpatizantes, enseguida... a aquellos que permanecen indiferentes y, finalmente, mataremos a los tímidos" [International Herald Tribune, París, 26 de mayo de 1977].

Julio López não morreu e em 1986, depois da ditadura, Miguel Etchecolatz foi julgado e condenado a 23 anos de prisão por crimes contra os direitos humanos. Seu julgamento foi anulado graças a lei “Obediência Devida”, baixada durante o governo Alfonsín em 1987 sob a pressão dos “carapintadas” de Aldo Rico, militares de baixa patente que se amotinaram em protesto contra a “perseguição” injusta dos civis, dizendo: "si quienes dieron las órdenes van a la justicia no tenemos ningún problema en ir todos a la justicia, pero ningún hombre de bien que vista uniforme militar puede ampararse escudándose en el sacrificio de sus subalternos".

Em 1998, com a chegada ao poder de Menen (que concedeu indultos aos militares ainda presos, inclusive a Aldo Rico), Etchecolatz estava tão seguro de sua impunidade que publicou um livro, La otra campana del Nunca Más (referência explícita ao livro que catalogava os ccrimes da ditadura argentina, cuja versão brasileira ficou conhecida como Brasil – Nunca Mais), defendendo seus atos como a ação de um cristão responsável que tinha que combater a subversão do ateísmo comunista que ameaçava a Argentina livre.

Aqui podemos ver Etchecolatz em programa de televisão argentino Hora Clave:





O que me chama a atenção é a dureza do entrevistador, Mariano Grondona. Uma dureza surpreendente para um direitista católico que apoiou o golpe militar e, antes mesmo do golpe, apoiou entusiasmado a José López Rega, o criador dos esquadrões da morte anti-subversão (os infames AAA) no governo de Isabelita Perón. Em 1977, em pleno genocídio que terminaria com 30.000 desaparecidos, Grondona dizia “Nadie diría que el presidente Videla, por ejemplo, sea un ‘duro’; todos lo pensamos, por el contrario, como un hombre naturalmente abierto para el diálogo y el entendimiento”.

Seria Grondona um dos “cínicos” ou dos “fanáticos” de que ele fala no começo da sua pergunta a Etchecolatz?

Sunday, October 17, 2010

Chegaremos lá?


Mais duas semanas de campanha eleitoral nesse nível e acho que sim...

Thursday, October 14, 2010

De um Mineiro sobre buracos cavados na terra

E já que a moda agora é falar de mineiros saindo de dentro da terra, eis o "Áporo" do mineiro Drummond, que escreveu sobre um tempo tão ou mais escuro do que este em que vivemos agora:


Um inseto cava

cava sem alarme

perfurando a terra

sem achar escape.



Que fazer, exausto,

em país bloqueado,

enlace de noite

raiz e minério?



Eis que o labirinto

(oh razão, mistério)

presto se desata:



em verde, sozinha,

antieuclidiana,

uma orquídea forma-se.

Wednesday, October 13, 2010

Delírios de Cafeína, ou Porque Bob Dylan e Chico Buarque têm tudo a ver

Eu prometi aos meus bilhões de leitores e agora cumpro. Eis aqui outra canção de Bob Dylan que me lembra o mesmo "esquema" de várias canções do Chico Buarque. Estão aqui:
1. a circularidade da letra que sempre volta para bater no verso que dá título a canção, reforçado pela sequência de acordes que termina no verso e começa de novo;
2. uma derivada sem tiques modernosos nem distanciamento irônico de uma tradição musical nacional, no caso Dylan bebe no Folk e no Country como Chico bebe no samba carioca;
3. um clima de romantismo meio decadente de cabaré alemão, completo com neon, hotel fajuto e marinheiros na calçada;
4. uma fossa de arrebentar bem no meio cinzento dos anos 70;
5. a rima fixa, perfeita, quase mecânica às vezes carrega de sentido a letra meio non-sense e assim "she was born in Spain / and I was born too late" parece fazer todo o sentido e ao mesmo tempo parece debochar um pouco do clima romântico;
6. e finalmente, Dylan tem uma voz bem melhor, mas mesmo assim ele faz questão de soar meio taquara rachada de vez em quando [deve ser para homenagear o Chico]!

Simple Twist of Fate – Bob Dylan

They sat together in the park

As the evening sky grew dark

She looked at him and he felt a spark

tingle to his bones

It was then he felt alone

and wished that he'd gone straight

And watched out for a simple twist of fate.

They walked alone by the old canal

A little confused I remember well

And stopped into a strange hotel

with a neon burning bright

He felt the heat of the night

hit him like a freight train

Moving with a simple twist of fate.

A saxophone someplace far off played

As she was walking on by the arcade

As the light bust through a-beat-up shade

where he was waking up

She dropped a coin into the cup

of a blind man at the gate

And forgot about a simple twist of fate.

He woke up the room was bare

He didn't see her anywhere

He told himself he didn't care

pushed the window open wide

Felt an emptiness inside

to which he just could not relate

Brought on by a simple twist of fate.

He hears the ticking of the clocks

And walks along with a parrot that talks

Hunts her down by the waterfront docks

where the sailors all come in

Maybe she'll pick him out again

how long must he wait

One more time for a simple twist of fate.

People tell me it's a sin

To know and feel too much within

I still believe she was my twin

but I lost the ring

She was born in spring

but I was born too late

Blame it on a simple twist of fate.