Wednesday, October 31, 2007

Quando o que não se diz diz mais do que o que se diz

Na mídia aprende-se mais notando o que não foi dito do que lendo o que foi dito. Por exemplo, o deputado acusado de assassinato, Ronaldo Cunha Lima, é chamado apenas de "deputado federal" na imprensa em geral. Já outros deputados em seus momentos de notoriedade, por exemplo o "professor Luisinho" ou Devanir Ribeiro são sempre "deputados do PT".
E para ser mais claro: acho que TODOS os deputados em seus momentos de notoriedade deveriam ser associados a seus partidos e também acho que esses momentos de notoriedade deveriam ser revistos com alguma constância, principalmente na época das eleicões.
Meu assunto é outro: para um leitor mais atento as omissões da imprensa revelam mais do que qualquer coisa.
Outro exemplo diferente: Armírio Fraga é entrevistado em grande jornal brasileiro e fala entusiasmado sobre a "revolução capitalista" no Brasil, mas ninguém pergunta a ele sobre a necessidade de quarentena para funcionários que ocuparam altos postos nos bancos centrais.
Porque será que era "de mau gosto" falar na imprensa sobre um certo filho ilegítimo de político famoso, filho e mãe que eram sustentados por uma certa grande empresa mais ao menos na época em que Renan Calheiros era Ministro da Justiça e não se ouvia falar nada de mal a seu respeito? O filho ilegítimo do Senador é pior? O senador é pior que o ministro?

Monday, October 29, 2007

Argentina e Brasil, violência e justiça

O padre Christian Von Wernich foi condenado à prisão perpétua na Argentina por seus crimes durante a ditadura militar. Von Wernich esteve envolvido em sete assassinatos, 31 casos de tortura e 42 seqüestros.
Ninguém discute a escala muito maior da violência da ditadura argentina: em apenas 7 anos foram, nas mais conservadoras estimativas, 9.000 mortos.
Quem mata e tortura mais é pior, mas quem mata e tortura menos não é melhor por causa disso. Até quando as violências da ditadura militar brasileira vão ser varridas para debaixo do tapete? Execução sumária não é morte em tiroteio e tortura é tortura em quaquer lugar, inclusive nos Estados Unidos. Uma sociedade julga por dois motivos. Olhando para trás, a justiça julga e pune para compensar prejudicados e castigar os responsáveis por esses prejuízos; olhando para o futuro, a justiça julga e pune para evitar na medida do possível que os erros continuem ou se repitam. Mas uma sociedade também é julgada pelas gerações seguintes, por sua covardia, por sua hipocrisia, por sua omissão.

Friday, October 26, 2007

Recomendação

Quer conhecer uma poeta excelente? Rosario Castellanos:


Consejo de Celestina
Desconfía del que ama: tiene hambre,
no quiere más que devorar.
Busca la compañía de los hartos.
Esos son los que dan.

Diálogos con los hombres más honrados, 1972

Thursday, October 25, 2007

Poesia Contemporânea

Quando algumas pessoas falam sobre poesia [ou prosa] contemporânea no Brasil, sinto um certo ranço saudosista, dos bons tempos em que a produção era bem menor e os grandes mestres modernistas escreviam seus clássicos. Só que esse saudosismo é alimentado por uma visão altamente distorcida do nosso passado recente. A produção não era tão pequena assim e muita porcaria foi escrita naquela época e depois completamente esquecida e os tais clássicos modernistas não eram absolutamente vistos assim.
Há quem se queixe da falta de “direção” da poesia contemporânea e critique o “ecletismo” em vigor. Essa tal “direção” tão clara que as pessoas vêem na produção anterior é um construção feita posteriormente por pessoas que tinham um certo [não necessariamente suficiente] distanciamento e fizeram uma seleção, um corte na produção variadíssima da época. Nada contra fazer seleções ou cortes, mas não dá para achar que a seleção representa o todo. Ou alguém aqui acha mesmo que absolutamente ninguém escrevia sonetos parnasianos ou simbolistas nos anos 30?
O que acontece hoje é que as pessoas publicam com muita facilidade por causa da tecnologia acessível e mais barata, ou pelo menos enchem páginas e páginas da internet com seus poemas. Obviamente a maioria é uma porcaria. Antigamente essas porcarias seriam esquecidas em revistas literárias de poucos números encalhadas em baús mofados. Hoje vivem boiando no espaço da www ou enchendo outros baús, cheios de livros que ninguém leu e que começam a tomar bolor.
O aumento da produção em si é positivo; acho mesmo que todas as pessoas que gostam de poesia [infelizmente não são tantas assim; sou professor universitário e sei disso] deveriam escrever poemas antes de tudo para si mesmas e depois oferecê-los livremente uns aos outros. Faria bem às pessoas e não tão mal aos outros, que na pior das hipóteses podiam forrar com os poemas a gaiola dos seus passarinhos.
O que me incomoda um pouco na produção contemporânea é o corporativismo das pessoas que se organizam em grupos que se elogiam mutuamente e criam um clima em que o espírito crítico é substituído pela linguagem rasteira da resenha promocional de jornal. Também vejo em muitas pessoas o sonho meio aburguesado [e bastante ingênuo] de que elas podem um dia tornar-se escritores "profissionais", escrevendo em tempo integral e vivendo das vendas de seus livros, algo que leva muitas pessoas a toda sorte de populismos bobos em vão.

Sunday, October 21, 2007

Disfarce para a Farsa

Os japoneses têm muito medo da violência, ainda que os níveis de criminalidade no Japão sejam um sétimo dos do Estados Unidos, onde aliás as pessoas também têm medo da violência, ainda que a criminalidade no Estados Unidos tenha diminuído muito, a níveis muito abaixo da criminalidade do Brasil, onde as pessoas também têm muito medo ainda que os níveis de homicídios tenham caído muito também mas, voltando aos japoneses, eles criaram soluções sensacionais para que o cidadão comum se proteja: uma saia que se transforma em um disfarce de máquina de vender refrigerantes, uma mochila que se transforma em disfarce de extintor de incêndio e até uma bolsa que se disfarça de tampa de bueiro!
[veja os slides do New York Times no link abaixo]
http://www.nytimes.com/slideshow/2007/10/20/world/20071020_JAPAN_SLIDESHOW_index.html
No caso brasileiro, eu proporia que a classe média amedrontada adaptasse a idéia dos japoneses e se disfarçasse também. Mas, como tampas de bueiro e máquinas de vender refrigerante não são tão comuns no Brasil, que tal se essa classe média se disfarçasse de pobre, que é uma coisa que a gente encontra quase em qualquer canto no Brasil?
Para isso nossos amedrontados cidadãos contariam com a ajuda de personal fashion trainers™ recrutados diretamente nas gigantescas comunidades carentes e bolsões de miséria [veja só: combatendo o desemprego, matamos duas caixas d'água com um coelho só].
Claro que isso não resolveria muito o problema, já que as estatísticas que se encontram nas pequenas notas lá pela página 26 dos jornais indicam que não é a classe média, mas sim as pessoas mais pobres as que mais sofrem com a violência urbana. Mas um pouco de paz de espírito não tem preço, não é mesmo?
Mas outra coisa me preocupa nesse projeto de mimetização contra o crime: disfarçar esse pessoal todo de pobre colocaria a vida de muito deles mesmos em risco já que a classe média apavorada está um pouco mal acostumada e talvez não aceite ser esculachada impunemente por policiais no meio da rua sem qualquer justificativa. Eles talvez não saibam que, disfarcados de pobre, as consequências de qualquer objeção mais veemente ao esculacho policial possa redundar em ... mais violência, talvez até do tipo letal. Pois a brutalidade policial que a classe média aplaude como o melhor remédio contra os criminosos que lhes põem tanto medo dificilmente se restringe aos criminosos propriamente ditos - ainda que seja fácil dizer que todo o mundo que morreu em confrontos com as forças da lei e da ordem eram traficantes facínoras, mesmo porque quase nenhum dos presuntos em questão têm parentes que lêem jornais. Os facínoras em questão são invariavelmente pés-de-chinelo e se confundem facilmente com a maioria dos pés de chinelo, que não é facínora.
Talvez pudéssemos resolver a questão vendendo disfarces de criminoso facínora de terno e gravata aos criminosos facínoras pés-de-chinelo - eles certamente gostariam de gozar das mesmas benesses que seus companheiros de classe média gozam. Recrutaríamos mais Personal Fashion Trainers™, agora entre os moradores dos ghettos endinheirados das grandes cidades brasileiras. O problema é ter acesso a eles; teríamos que passar pela segurança na porta dos condomínios... Talvez se nós nos disfarçássemos de jardineiro ou doméstica...

Thursday, October 18, 2007

Da série os gênios da raça I

Olhem que beleza:
“Vejo o mercado de educação como um supermercado. Estou vendendo um produto. Só que, em vez de vender tomate, meu produto é um assento para o aluno estudar.”
Economista Marcelo Cordeiro, da Fidúcia Asset Management, especializado em buscar investimentos para o setor de educação em depoimento para Carta Capital.

Nosso lobo em pele de Marcelo Cordeiro vende "assento", ou seja, seu cliente preferencial é a parte da anatomia que alguns chamam de preferência nacional. Melhor eu ser mais explícito porque posso estar sendo lido por algum aluno das instutuições servidas pelo senhor Lobo em Pele de Cordeiro: a sua bunda, meus caros, é o foco da mira dessa gente! Tire o seu da reta antes que seja tarde demais!

Ou como diria o Chacrinha, "Olha o tomate, aí!"

Monday, October 15, 2007

É duro ter que dizer o óbvio

Se Cidade de Deus centra foco nos traficantes e Tropa de Elite na polícia, agora só nos falta um terceiro filme para completar a trilogia: um que fale da maioria da população que vive em favelas e bairros pobres brasileiros, que não tem envolvimento direto com crime nem polícia embora sofra as consequencias da brutalidade de AMBOS.
É duro ter que dizer o óbvio, mas o óbvio não aparece em muitos posts raivosos espalhados por aí, depoimentos de gente frustrada que vocifera contra o terceiro mundo em que vive sem perceber que o seu discurso olho-por-olho dente-por-dente é que é verdadeiramente subdesenvolvido: Bandido é bandido mesmo, e por isso deveria ser preso, julgado e condenado. Quem tortura ou elimina sumariamente quem seja, junta-se aos bandidos que supostamente combate.

Friday, October 12, 2007

Mash-up: Morte sem fim

"¡Hazme, Señor,
Un puerto en las orillas de este mar!"


Eis o meu poema,
pesadelo surdo
da carne, que queima,
punciona, rói, sangra.

Flor que se abre pra dentro,
estéril, cheia
de mim, repetindo; presa
na epiderme que me define,
cheia de mim.

Eu, seco como a sede do gesso,
padecendo a fome do ar que respira,
por um Deus inalcançável,
rancor da molécula.

Pântano de espelhos,
solidão em chamas.
Surdo pesadelo da carne.
Ilhas de monólogos sem eco.
Topo dum tempo paralítico.

Ínfimo do olho
que segue o curso da luz
pela pele da gota de orvalho.

Flor que se abre para dentro,
afogada n’água
estrangulada no copo.

Poema que se afoga na garganta –
Resta o poço ressecado,
esgar de agonia:
o poema.

Tuesday, October 09, 2007

Sobre o amor

Uma aura quase cheiro de desastre:
dois olhos duros amarelos de gato
olhando pra mim e o meu desejo inato
de esconder pelo menos uma beirinha
da verdade embaixo da manga,
do sapato, me estudando
com sobriedade especuladora
e a intenção atenta e indiferente
dum bebê (muito além desse sonoro
peido humano, tão comum hoje em dia,
que atende pelo nome de audácia).

E eu mal-acompanhado
por um desses
dessa tribo de gente que mora
na beira do mar, mas só sabe
comer sardinha enlatada
que me atira logo, cheio de certeza:
“esse tipo aí eu conheço é pelo cheiro.”

Eu retruquei afiado
e seco como um jacaré:
“caráter é caroço e casca:
punhal de que não se vê o cabo.”

Meu mau-companheiro aceitou meu truco
e pediu um longo seis em forma de aparte:
“Eu digo e repito quantas vezes você quiser ouvir o que eu sempre digo desde que virei gente: esse negócio de amor é uma bela duma balela. É tanta gente por aí dizendo que ama isso, que ama aquilo, que ama não-sei-o-quê, mas a gente só ama mesmo só o que ainda não tem; amor a gente encosta um dedinho de leve nele, ele abre as asas e vai embora. O melhor nessa vida é largar mão de tudo e não ter precisão de nada, principalmente o que não pode ser seu sem esforço além do seu próprio puro ordinário. Melhor mesmo fica tudo se o que a vida nega ao caboclo nessa vida também nunca interessa nem a ele nem a ninguém. Então a gente vai e se esconde na barra da saia da gente mesmo e finge acreditando que tudo ou é bobagem ou é obrigação e se esconde principalmente da gente mesmo, que o desprezo que a gente sente pela gente mesmo é o pior dos venenos sem soro. Esse povo todo fala de amor. Pra mim não tem nem sentido nenhum tentar satisfazer nada: tem é que arrancar tudo o que parecer amor desse corpo, que esse corpo aliás é uma outra bela duma balela, uma puta velha vendendo seu paraíso de cartolina para retardados mentais, uma porcaria duma gaiola em que a gente vive dentro assim preso sem conseguir nem se sentar nem se por de pé até chegar o dia da gente pedir arrêgo e ir embora dele e morrer.”

Mal acompanhado além da conta,
tentei de novo ser só sucinto:
“o amor não morre;
ele vai é embora,
e aí quem morre é você,
fulminado, carcomido,
cego, e pior:
sem nem saber que.
E além do mais você me desculpe,
mas coragem não existe
sem descrer na boa sorte.”

Ele não vacilaceitou nem essa minha última proposta de empate e pediu oito:
“O que eu sei é que o tal amor bate as asas e vai embora e aí ficam os dois com a carne pendurada no açougue, um de frente pro outro, tentando cada um sozinho acender um fósforo numa lata cheia d’água.”

Azar.
Eu baixei as malas no chão e tranquei
a porta do quarto brigando com as chaves
e quando eu me virei lá estava ela,
nua, descalça, nem vergonha, nem modéstia:
a fome.

Friday, October 05, 2007

Ô sujeito mais objeto, seu!

Pior do que o sujeito ter que se sujeitar a essa matilha de hienas lobotomizadas que inventam esses concursos de contos em que os contos precisam ter a palavra cactus e 1500 caracteres e coisas do tipo é o sujeito respirar fundo e se sujeitar mesmo assim e ver seus contos rejeitados!
Pior do que isso a matilha de gorilas da objetividade querer obrigar o sujeito a produzir papel que ninguém nem abre muito menos lê. Mas pelo menos esses te pagam…
Ô sujeito mais objeto, seu!

Thursday, October 04, 2007

Boas oportunidades de investimento

Boas oportunidades de investimento

O governo mexicano, com a ajuda do governo americano, acelerou o número de apreensões de drogas e prendeu gente um pouco mais graúda do tráfico. O resultado foi que o preço do papelote subiu 24% para quase US$120. No atacado o produto registra hoje preços de $30.000 dólares por quilo.
São as leis da oferta e da demanda. A mão invisível do mercado já exibiu comportamento semelhante no passado. A demanda continua firme, então logo aparece gente nova com disposição para o negócio para preencher o vácuo deixado pelos cartéis desmantelados.
De Medellin e Cali para Sinaloa e Tijuana para onde? Rio e São Paulo? Lima? Santiago? Quem se habilita?
Ah, essa notícia aparece logo antes de Bush levar ao congresso uma proposta de um pacote de ajuda de 1 bilhão de dólares para “ajudar o México a combater os narcotraficantes.” Mais uma grande oportunidade de negócio…

Wednesday, October 03, 2007

Gosta de cinema?

Gosta de cinema? Não suporta a imbecilidade rasa da sub-crítica dos jornais com suas estrelhinhas e bonequinhos e uma conversa mole de quem não entende patavinas de cinema? Então experimente a revista eletrônica Contracampo:
http://www.contracampo.com.br/