Thursday, August 30, 2018

Traduzindo o monólogo de Segismundo de Calderón de la Barca

Goya, 1799

Monólogo de Segismundo [1636]

Sonha o rei que é rei, e vive,
com este engano, mandando,
dispondo e governando;
e este aplauso, que recebe
emprestado, no vento escreve,
e em cinzas lhe converte
a morte, maldita morte!
Haverá quem tente reinar
vendo que há de despertar
no sonho da morte?
Sonha o rico na sua riqueza
que mais cuidados lhe oferece;
Sonha o pobre que padece
sua miséria e sua pobreza;
Sonha o que a medrar começa,
Sonha o que afana e pretende,
Sonha o que agrava e ofende,
e no mundo, em conclusão,
todos sonham o que são,
ainda que ninguém o entenda.
Eu sonho que estou aqui
Destas prisões encarregado
e sonhei que em outro estado
mais lisonjeiro me vi.
O que é a vida? Um frenesi.
O que é a vida? Uma ilusão,
uma sombra, uma ficção,
e o maior dos bens é pequeno:
que toda a vida é sonho,
e os sonhos, sonhos são.


[No original de La vida es sueño de Calderón de la Barca] 
Sueña el rey que es rey, y vive
con este engaño mandando,
disponiendo y gobernando;
y este aplauso, que recibe
prestado, en el viento escribe,
y en cenizas le convierte
la muerte, ¡desdicha fuerte!
¿Que hay quien intente reinar,
viendo que ha de despertar
en el sueño de la muerte?
Sueña el rico en su riqueza,
que más cuidados le ofrece;
sueña el pobre que padece
su miseria y su pobreza;
sueña el que a medrar empieza,
sueña el que afana y pretende,
sueña el que agravia y ofende,
y en el mundo, en conclusión,
todos sueñan lo que son,
aunque ninguno lo entiende.
Yo sueño que estoy aquí
destas prisiones cargado,
y soñé que en otro estado
más lisonjero me vi.
¿Qué es la vida? Un frenesí.
¿Qué es la vida? Una ilusión,
una sombra, una ficción,
y el mayor bien es pequeño:
que toda la vida es sueño,
y los sueños, sueños son.


Thursday, August 23, 2018

Obituário: Aretha Franklin

1. Aretha Franklin escrevia canções sobre relacionamentos e sobre desejo como uma mulher adulta e de carne e osso, e por isso mesmo os seus maiores sucessos passam longe daquelas mesmices que abastecem até hoje 90% do que toca nas paradas rádio. Claro que isso tem impacto no mundo de língua inglesa principalmente.



2. Somos todos formatados culturalmente, desde sempre e desde sempre não apenas pela família [imersa ela na cultura específica] mas depois pelos rituais coletivos, que numa cultura de massa são promovidos por rádio, televisão, cinema etc. A cultura de cada um é seu maior tesouro e sua prisão, pois a sua produção nos ensina e nos desensina o que sabemos e tudo o que ignoramos. Daí que a briga por canais de divulgação de produções culturais outras, com visões várias e inteligência, seja uma briga essencial.



3. Nesse sentido Aretha Franklin foi muito mais importante do que parece. Um grupo imenso de pessoas aprendeu com ela o valor imenso de mulheres negras que, além de não parecerem extra-terrestres de beleza idealizada [e, francamente, inatingível], possuem cabeça e coração e uma voz articulada para se expressar. Claro que isso tem impacto no mundo de língua inglesa principalmente.



4. Mais não era esse impacto que dirigia a produção de Aretha Franklin. Aretha Franklin nunca foi nem quis ser Nina Simone. As várias canções que ficaram no coração e na memória de tanta gente estão carregadas de vontade de gozar a vida, de falar alto e claro, de fazer e aparecer. De falar de sofrimento, de desejo, de raiva e de paixão. Esse desengajamento é um engajamento a se notar, principalmente para quem vive a medir tudo numa cultura pelo seu valor político.



5. As canções de Aretha Franklin estão também imersas numa tradição que viveu,  mais ou menos até a época de Aretha, confinada num gueto dentro da cultura dos Estados Unidos. Alguns poderiam pensar que Aretha teve sorte por aparecer numa época em que uma mulher negra compositora e pianista poderia construir uma carreira de sucesso e ter reconhecimento. Eu já acho que sorte mesmo tivemos nós.

Tuesday, August 21, 2018

Rir dos outros cegos sem rir de nós mesmos


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As pessoas riem alto com anúncios como esse, pelo absurdo que ele hoje claramente representa. Mas posso dar cinco exemplos de absurdos que acontecem quase todos os dias bem debaixo dos nossos olhos e aos quais parecemos estar completamente cegos.

1. Dezenas de anúncios do comércio grande e miúdo repetem a mesma inversão digna de um 1984 de George Orwell: "compre para economizar, economize comprando". Venha economizar gastando seu dinheiro conosco.

2. Outras dezenas de anúncios e programas de televisão variados repetem outra inversão digna de um Beckett: "envelheça cada vez mais jovem", sem perceber que o único antídoto efetivo contra o envelhecimento é justamente a morte.

3. Mais um bando imenso de pessoas, principalmente candidatos a todo tipo de cargo político, seja do executivo ou do legislativo, repetem incansavelmente, às vezes aos berros: "quanto mais armas e guerra, mais segurança e paz" - pelo menos metade disso aí é tirado ipsis litteris da distopia de Orwell.

4. Meu filho fez dezessete anos, mesma idade da guerra do Afganistão. Os Estados Unidos estão em guerra declarada há todo esse tempo mas a guerra terceirizada parece não afetar nada no dia-a-dia de um povo anestesiado. Em 17 anos nada é conquistado, não há derrotas mas também não há vitórias. Pelo andar da carruagem ficaremos assim, em guerra, o resto da vida.

5. Isso para não falar de bombardeios regulares a pelo menos sete outros países: Iêmen, Paquistão, Iraque, Somália, Líbia, Síria e Sudão. Os aviões que fazem esses não tem pilotos, então não respondem a nenhum código ou regulamento da força aérea. Mas os meios de comunicação insistem que eles são precisos - "cirúrgicos" é o termo preferido.


Saturday, August 18, 2018

De volta a Oklahoma

Abrindo caixas, fechando contas, lendo correspondências atrasadas, resolvendo pendências novas e antigas, vou encaixando minhas horas de escrita e leitura de volta à minha rotina. Antes das sete horas, já ajustados aos costumes e horários daqui, vamos todos jantar no fast-food baratinho de comida chinesa chamado Panda Express, uma franquia espalhada pelo país inteiro [acho]. 

Sentados bem ao nosso lado, um casal bem mais velho nos olha com aqueles olhinhos azul piscina apertados entre rugas queimadas de sol, com umas caras de poucos amigos ao escutar a gente falando entre nós mesmos numa língua estrangeira - isso se tornou uma coisa comum por aqui desde que Trumpete e cia soltaram os seus cachorros xenófobos pelas estepes e pradarias dos meios de comunicação de massa, despertando o furor anglo-saxão dormente no peito de muita gente. Cadeiras se roçam levemente e Letícia vira-se, sorrindo, e pergunta em inglês fluente e perfeito se eles precisam de mais espaço. Não, está tudo bem, respondem nossos vizinhos com aquela mesma cara de quem acabou de comer um rolinho de primavera estragado, uma expressão típica que me recebe em muitos lugares onde eu vou por aqui e que eu resolvi batizar de "Welcome to Oklahoma".  O detalhe é que logo depois, quando o senhor se levanta para pegar guardanapos ou qualquer coisa que o valha, vemos que ele tem um baita revólver amarrado na cintura entre o bermudão e a camiseta de verão! 

Um revólver na cintura numa calma tarde ensolarada de verão de uma cidade de 120 mil habitantes com índices de criminalidade pífios [inexistentes em comparação aos brasileiros]. Um revólver na cintura num pacato restaurante chinês num shopping plaza [desses centros de lojas com estacionamentos no meio que se encontra em qualquer canto dos Estados Unidos]. Um revólver na cintura. 

Thursday, August 09, 2018

Resumo da Manguaça: Brasil 2018

1. Um pouco mais de dois meses no Brasil passaram voando. As calçadas de BH e RJ de novo coalhadas de miseráveis e as cidades [e as redes sociais] coalhadas de proto-fascistas que me ameaçam dizendo que eu devo "já ir me acostumando".

2. Persistem nessa pressão as relações sociais mais humanas, de roça ali no meu canto da Serra coladinho na favela do Cafezal, apesar da chegada de novos imensos edifícios padrão-coxinha e dos grupos zumbis de Zaps-paranóia. Meus tênis têm mais de cinco anos e meu celular é uma furreca; assim ando sossegado pela rua.

3. Muitos de meus amigos são, como eu, professores/pesquisadores universitários da área de humanas. Entre salários que chegam atrasados e parcelados em fatias, as universidades sitiadas afundam e os professores se escondem em desespero silencioso.

4. Por motivos de necessidade assisti e dois dias consecutivos de Jornal Nacional salpicados de CBN e GNews. A grande teia de meios de comunicação continuam martelando sua mensagem, na esperança de finalmente convencer o eleitor de que viver sem aposentadoria e sem estabilidade mínima de emprego é a salvação do país e que uma máfia, por limpinha e cheirosa, é melhor que a outra porque é muito muderna e neo-liberal.

5. A morte e a doença visitaram nossas famílias com afinco: acidentes, operações, crises de ansiedade, resfriados, alergias, indisposições intestinais, sangue, grandes e pequenas tragédias dos dois lados. Difícil mas importante poupar os meninos de tanta negatividade. Importante mas difícil.