Monday, July 06, 2020

Diário de Quarentena no fim de Minas (perdi a conta)



Que a respiração siga e esteja nesse ritmo por todo o dia.



Renata.

Palavras de um crente, o entroncamento entre a democracia radical e o catolicismo

O padre Lamennais acabou sendo excomungado. Mas seu ensaio Palavras de um crente articulou ainda na primeira metade do século XIX essa conjunção poderosa entre a democracia radical e o cristianismo.

Dois trechos significativos: 

Deus não vos formou para serdes o rebanho de alguns outros homens. Ele vos criou para livre mente viver em sociedade como irmãos. Ora um irmão nada tem a ordenar a outro irmão. Os ir mãos se ligam entre si por convenções mútuas, e estas convenções constituem a lei; e a lei deve ser respeitada, e todos devem unir-se para impedir que a quebrantem, porque ela é a salvaguarda de todos, a vontade e o interesse de todos. [43]

Amai a Deus sobre todas as couzas, e o proximo como a vós mesmo, e a escravidão desapparecerá da terra. [44]

Friday, July 03, 2020

Commonplace books

Como será que se chamam os "Commonplace Books" em português? São cadernos que as pessoas mantinham onde anotavam coisas que lhes chamavam a atenção: poesias, receitas, trechos de livros etc. John Locke tem até um livreto que ensina às pessoas as melhores técnicas para manter esse tipo de caderno.

Eis algumas notas de um dos meus:

"Eu penso na morte da raça humana. A longa e estranha viagem desse primata sem pelos."
Bob Dylan


"Somos um mamífero especial, único capaz de levantar falso testemunho."


"O significado de qualquer evento passado não apenas transcende sempre qualquer causa que se lhes dê; o passado em si só existe no evento em si."
Hannah Arendt


"Estamos mais em perigo por causa dos sãos que dos insanos."
Susan Nardin Vincour


"O que significa saber o que são o certo e o errado em abstrato, mas não ser capaz de fazer essa distinção na prática."
Susan Nardin Vincour


"POETA

Um sapo foi comendo vagalumes sem importar-se com o seu sabor amargo até que pela sua pança inchada brilhasse uma luz sublime."
Alejandro Jodorovsky


Thursday, June 18, 2020

Ainda Gonçalves Dias (me desculpem)

Diz a nota biográfica da Academia Brasileira de Letras sobre Antônio Gonçalves Dias que 

"A consciência da inferioridade de origem, a saúde precária, tudo lhe era motivo de tristezas." 

Notem bem nos termos dessa frase que se coloca para o leitor como meramente objetiva: a frase implica claramente que a origem (mestiça, bastarda?) do escritor maranhense filho de português com mestiça era, sim, de fato, "inferior"! 

Meu primeiro instinto é exclamar, "Inferior para quem, cara pálida?" (e agora as aspas são para mim mesmo). A tal frase, tão neutra e serena, apenas nos informa que Gonçalves Dias tem "consciência" desse "fato" (embrulha-se aqui num só pacote chamado "tudo" fato, consciência do fato e "saúde precária") e que a "inferioridade" e a "consciência da inferioridade" do poeta são "motivo de tristezas" que marcam sua poesia "eminentemente biográfica".  

Fico com um trecho de uma carta do próprio Gonçalves Dias a Alexandre Teófilo de Carvalho Leal, "mano e amigo", escrita do Rio de Janeiro, onde Gonçalves Dias foi professor e educador com um salário que não pagava um terço do custo de vida da capital de acordo com ele mesmo:

“Demais não sou cortesão, não o quero ser, não o pretendo ser; não queria sobretudo aparecer ao público diverso do que sou”. 

A frase vinda do próprio autor está carregada de consciência, não apenas do que ele era, mas do que ele queria que o público visse. Não vejo aqui nem o mais discreto senso de inferioridade, muito antes pelo contrário. O contexto da frase é uma subvenção de 300 contos para publicar um livro, dinheiro que vem com a exigência implícita de dedicar o livro ao "benemérito" que se fazia de mecenas com o dinheiro do estado. A exigência implícita, provavelmente, tão normal e serena quanto o tom da frase da nota biográfica da ABL, é pragmaticamente recusada por Gonçalves Dias, pois 300 contos não é tanto dinheiro assim de qualquer maneira. Prometem-lhe pagar 1000 contos no seu emprego de professor e secretário do novo Liceu de Niterói, mas depois da inauguração ele descobre que só vai receber mesmo 800 contos - imagino a naturalidade tranquila do safado que cortou em 20% o salário, já insuficiente, do mestiço que tinha se formado com louvores em Coimbra (a melhor universidade de língua portuguesa da época). O mestiço que conhecia a língua portuguesa de cabo a rabo, que era membro do IHGB, que era tradutor do alemão, que escreveu a melhor literatura do período e pertence a um grupo bem restrito de escritores que influenciaram profundamente a cultura brasileira. 

Monday, June 15, 2020

Ficções quase reais

Quando eu tinha meu blogue, era o que eu mais escrevia. Estou meio sem prática, tentando voltar. Então... eis o que tenho feito no Word.

Garotos e garotas
Há uma falta que não consigo distinguir. Ela ocupa lugar em mim. Eu sinto e é muito claro e físico, mas não, não estou falando de sexo. Se a questão fosse essa, a solução era fácil. O que eu estou falando é maior, bem maior. Maior que eu e implacável. É esse bolo na garganta, é esse grito sufocado como foi sufocar o grito no Kamikaze do parque de diversões furreca que todo ano visitava a cidade. Explico. Eu tinha onze anos e estava satisfeito. Vi os meninos mais legais da minha sala duas fileiras à frente. Planejei esbarrar neles quando o brinquedo parasse e tivéssemos que descer as escadas. Depois que me reconhecessem e me convidassem a andar com eles, eu ia me despedir da mãe e descobrir como é estar com os caras e falar com as garotas. E então, no dia seguinte, eu participaria das conversas, estaria nas rodas, faria parte delas. Estava tudo já planejado. Da primeira vez que o brinquedo ficou de cabeça para baixo, porém, eu quis chamar minha mãe. Mas era vergonhoso chamar a mãe. Eu me calei. Segurei o banco com todas as forças e empurrei meu corpo contra ele até o cinto de segurança ficar obsoleto. Os outros garotos, e mesmo as garotas, largavam seus braços estendidos no ar. Eles também gritavam, urravam e sorriam cheios de pavor. Eu não. Diferente, permaneci seguro e calado, com a boca cheia de ar e o coração aterrorizado. A cada volta do brinquedo, o ar da boca passava um pouco para o coração. Mais e mais, eu sentia que ele inchava. Quando acabou, meu peito estava a ponto de estourar. Desci devagar as escadas, segurando o corrimão preocupado em não cair. Minhas pernas tremiam. Minha mãe me esperava lá embaixo. Todos os outros garotos e garotas passaram por mim em pequenos bandos. Eu os ouvi contar uns aos outros como sentiram medo ou tiveram coragem e, sem dizer nada, segurei firme a mão de minha mãe. Ela me ofereceu sorvete de chocolate. Não aceitei e contei que estava enjoado. Então ela riu dizendo que tinha avisado sobre o Kamikaze. Demos uma volta, observando os outros brinquedos. “Só mais um?” ela me ofereceu. “Eu quero ir embora” respondi. “Nem o carrinho bate-bate?”, ela insistiu, “vamos ficar aqui e aí você vê como funciona, depois me diz se quer tentar”. Vi as pessoas entrarem no ringue: alguns adultos, muitas crianças e adolescentes, dois ou três conhecidos meus da escola e mais dois ou três vizinhos de rua. A música. As faíscas que se soltavam no encontro de uma espécie de antena que havia na parte de trás dos carrinhos e subia até tocar a tela de metal que corria rente ao teto. Os gritos. Os risos. Os nomes berrados em meio a gargalhadas de pais, mães e amigos que assistiam quem brincava. As batidas dos carrinhos. Tudo. De repente, tudo tinha se tornado demais para mim. Ninguém sabia, mas meu coração estava cheio de nada e não quis experimentar mais nenhuma emoção naquele dia. Insisti que queria ir embora, estava prestes a chorar. Mamãe mudou o jeito de me olhar e fomos para casa. Acho que foi ali que comecei a sentir essa falta. Essa falta que ocupa lugar em mim, que é clara e física, mas que não tem nada a ver com sexo. Essa falta que é maior, bem maior, bem maior do que eu e que é implacável.  Essa falta que é esse bolo na garganta, que é esse grito sufocado, que é esse monte de coisa alguma que não consigo explicar porque não é nada.

Renata M. Cordeiro

Sunday, June 14, 2020

Poesia minha

Tupis com Espírito Santo

Sonhos, sonhos. Estou vendo o que você é; o que você foi é passado.
Livro dos mortos, Luciano de Samósata


Toco agora a carne viva
da minha lembrança.
O passado que não passa
mesmo quando cansa.
Era o meio-dia
dos meus quinze anos,
na esquina de Tupis
e Espírito Santo,
a primeira vez
que senti o turbilhão
de imagens e ideias
que naufragou desde então,
tantas vezes repetidas,
minha parca consciência,
meu siso, minha alegria,
meu inquieto coração.
Ali eu era um barquinho
no meio do furacão,
me agarrando aos ferros
de uma razão cercada,
ferida e incapaz
de vestir com senso o caos.
Os meus olhos reviravam
o céu paralítico.
Ignorando tornozelos
e pulsos atados
a um flamboaiã em chamas
e o tronco cravado
de flechas quebradas,
S. Sebastião tocava
o velho tango argentino,
que é hoje bandeira e hino:
Tudo o que eu vivi morreu.
Tudo o que eu perdi é meu.
Meu veneno é meu remédio.
Não espere nada mais.

Era a sexta-feira
dos meus quinze anos
na esquina de Tupis
e Espírito Santo.
Meu amigo me largara
no meio-dia do nada.
Eu apelava em silêncio
a quem pudesse ouvir:
S. José da Boa Morte,
Carpinteiro Operário
e Ibejis de Montezuma,
Sentinelas do Acaiaca,
Me atendam em silêncio,
porque Deus nos empenhou
desde o começo dos tempos
uma só magra palavra
que contém nela o mundo.
Só se escuta essa palavra
no mais absoluto
e puro silêncio:
O hirto silêncio de muro
de pano abafando boca
de pedra esmagando ramos
de caldo grosso e vermelho
que mata o Rio Doce,
que mata o Paraopeba,
que mata o tempo.
Esse é o silêncio de Deus

Cambaleei Tupis abaixo,
ciscando tristezas
nas cardinas e canhanhas
das calçadas portuguesas
e nas cantarias planas
da pedreira Prado Lopes
lambuzadas de asfalto
revolvia minhas mágoas.
Desabalei as escadas
do Parque Municipal,
calado, cosida a mão
ao áspero corrimão.
No Teatro de Emergência
buscava ar em mim mesmo;
sorvia o medo da morte
buscando em mim um faquir
que deslembrasse da dor
pra que o tempo remexesse
os minutos devagar
e desfizesse em mim
esse sorvedouro denso,
esse ar viscoso,
esse estertor pesado,
esse sopro viciado.

Me encontrou ali um velho
articulando miséria –
a velha seca, asmática
fatal, que empenha móveis,
relógios, anéis,
sapatos e paletós
casacos, jaquetas,
até que só reste osso
de um espantalho falaz.
Na mão cacos de um livro
sequestrado dum entulho,
recheado de quimeras
que eu conhecia bem.
Entre preposições mochas
e vírgulas duvidosas,
ele me fez um convite
que meus pares me ensinavam
pedir um soco na cara
ou um borbotão de gritos:
Velho safado mais torpe;
velho rapina perverso.
Nunca fui par dos meus pares
e ali já não dava conta
de tanta força penosa.
Só dei conta de um não
como um cão se encolhe.
Sumiu minha sede viva –
água que a areia engole.
Larguei as minhas muletas –
meus sonhos mais bestas,
meus sofrimentos infantes –
e fui-me embora dali,
cobrindo pé ante pé
os dez quilômetros cinzas
entre o centro e a casa
que já não era mais minha.
No meio do meu caminho
desabou um temporal:
a água cavava a terra
de debaixo dos meus pés.
O carbono podre
da Antônio Carlos
infecciona até hoje
os meus pesadelos
e tudo o que eu sou.

O que eu sou hoje
é esse passado
que não me atravessa.
Minhas saudades são dúbias.
Amo o que detesto
e detesto o que amo
em Belo Horizonte.
As jaboticabas negras
emplastrando as calçadas.
O Arrudas berro d’água
passando o rodo no Centro.
Os rios encloacados,
o minério na garganta.
No verão todos os anos
as catástrofes das águas;
Todo dia o ano inteiro
as catástrofes dos donos
das Minas e das Gerais.

E o meu poema se abre.





Thursday, June 11, 2020

Traduções minhas: trecho de Temporada de huracanes de Fernanda Melchor

Acabei de ler Temporada de Huracanes da escritora mexicana Fernanda Melchor. Há muito tempo não leio algo tão forte e tão corajoso. Extremos da humanidade explorados com energia vital pulsante e precisão de linguagem. Traduzi um trecho que diz tanto ao Brasil dos cemitérios abarrotados e das valas comuns:

"Vovô acendeu outro cigarro e apenas sacudiu a cabeça mansamente enquanto os empregados do depósito de Villa olhavam para ele com expectativa. Queriam que ele lhes contasse uma das suas histórias, tinha certeza, mas o velho não ia dar aos dois essa satisfação. Pra quê? Pra depois eles andarem por aí dizendo que a porra do Vovô era um doido de pedra? Que eles fossem pra casa do caralho! Sobretudo esse porra desse magrelo, que foi quem começou com a fofocaria de que Vovô falava com os mortos, e isso porque o próprio velho lhe contou de boa fé, pensando que o lesado entenderia, mas não: saiu do cemitério espalhando pra meio mundo que Vovô ouvia vozes e estava gagá, quando Vovô só tinha tentado explicar a precisão de falar com os cadáveres enquanto os enterrava, caralho; porque por experiência própria as coisas saíam melhor desse jeito; porque os mortos sentiam que uma voz se dirigia a eles, que lhes explicava as coisas e se consolavam um pouco e deixavam de sacanear os vivos. Por isso esperou que os maqueiros fossem embora com a ambulância vazia antes de se atrever a dirigir a palavra aos novatos. Tinha que acalmá-los primeiro, fazer com que eles entendessem que já não precisavam ter medo, que o sofrimento da vida já tinha acabado e que não custava muito a escuridão já ia se acabar. O vento atravessava o descampado e balançava as folhas na copa das amendoeiras e fazia redemoinhos de areia entre as sepulturas mais distantes. Já vem a chuva, Vovô contou aos mortos, enquanto contemplava com alívio as nuvens gordas que se apertavam no céu. Bendito seja, já vem a chuva, repetiu, mas vocês não tenham medo, viu? Uma gota gorda caiu em cima da mão que segurava a pá. Vovô aproximou o punho da boca e lambeu a doçura da primeira chuva da estação. Tinha que se apressar, terminar de cobrir os corpos, primeiro com uma camada de cal e logo com outra de areia, antes que caísse o aguaceiro, e logo colocar a tela de galinheiro em cima da vala, e as pedras por cima da tela, pra que os vira-latas não viessem desenterrar os corpos à noite. Mas vocês fiquem tranquilos, continuou a falar, num murmurar que era só um pouquinho mais que um ronronar. Vocês não tenham medo nem se desesperem, fiquem aí bem tranquilinhos. O céu se acendeu com a luz de um raio, e um estrondo abafado sacudiu a terra. A água não pode fazer nada com vocês agora e o escuro não dura pra sempre. Já viram? A luz brilhando longe? Aquela luzinha que parece uma estrela? É para lá que vocês têm que ir, explicou; para lá é que está a saída desse buraco."   
  

Saturday, June 06, 2020

Sonhadores reconhecem sonhadores

         Certa vez conheci um Vinícius de Moraes. Ele era só um pouco mais alto que eu, tinha os cabelos muito curtos, castanhos claros, em cachos pequenos bem colados na cabeça. E olhos miúdos, cor de mel. Nós topamos um com o outro diante da porta. Ele quase sorriu tímido quando tocou o interfone. Passou um tempo que não medimos, mas ninguém lá dentro atendeu. Vinícius de Moraes apertou de novo o botão. Eu e ele em silêncio ansiávamos por uma resposta e ela não vinha. Então, eu ficava agitada me perguntando se seria mesmo ali. A placa dizia que sim, afinal, nela estava escrito Hostel Cidade Maravilhosa e era aquela a rua da Glória. Não  havia perigo de engano, é verdade. Acontece que eu sou de dúvidas e de sempre me perguntar e conferir. E era por isso que eu conferia endereço no papel amassado quando alguém abriu e saiu e,... Voltou meio corpo pra dentro e gritou: - Fulano, eles chegaram! Depois - era uma jovem bem jovem com traços orientais, sorrindo displicente como se faz em qualquer lugar aos clientes -, escancarando a madeira azul apontou para dentro e nos disse: - pode entrar, gente! Nós entramos.
         Por dentro, a porta que se fechava nas nossas costas era verde e a jovem oriental tinha ido embora. Estávamos no início de um pequeno corredor de paredes azuis, eu e Vinícius de Moraes, lado a lado. Havia um balcão ovalado onde o Fulano se meteu e nos entregou, a cada um, um retângulo em papel-cartão e uma caneta Bic. Naturalmente, eu e Vinícius de Moraes começávamos a responder por escrito as perguntas que o papel-cartão nos fazia e... Fulano explicava que estava almoçando e que era por isso que tinha demorado a nos atender. Pedia desculpas, estava mastigando ainda e era magrelo, muito alto e moreno o Fulano. Bem. Eu sou hipermetrope, e foi graças a isso que descobri que estava na Cidade Maravilhosa com Vinícius de Moraes: usando meus superpoderes de águia bisbilhoteira para ler o nome que ele escreveu no papel enquanto Fulano falava. Acabamos. Entregamos ao Fulano nossos dados rabiscados. Minha letra é um tanto ilegível - é porque sou difícil de decifrar - e o Fulano queria confirmar se meu estado de origem era mesmo Minas Gerais. Eu respondia que sim e Vinícius de Moraes finalmente sorriu sem receio, dizendo: - Eu também!

Monday, June 01, 2020

Sobre "Meditação" Gonçalves Dias: como morre uma cultura/nação/país

Em "Meditação" Gonçalves coloca em diálogo um jovem e um ancião, que discutem a partir de perspectivas diferentes questões relativas ao passado, presente e futuro do Brasil. Num dos momentos altos do texto o Ancião nos joga na cara [na cara de todos os brasileiros] o seguinte:

"A nacionalidade, que é dela? O característico de um povo, que é dele?

Não sabeis vós que a planta exótica perde o mais excelente de seu aroma, e que a roseira dos Alpes produz espinhos, plantada em vales?

Dir-vos-ei que as nações se assemelham os indivíduos.

E se milhões de indivíduos morreram sem nome; também foram povos cujos nomes se deliram dos anais da humanidade.

E como existiram homens sem gênio; povos também existirão sem ele.

Porque eles dirão em sua indolência;

– Por que plantarei um pomar se não hei de provar seus frutos?

E o mesmo dirão vossos filhos, e ainda o mesmo os filhos de vossos filhos; e não plantarão o pomar.

E dirão mais no seu egoísmo: – Se eu incendiar esta devesa*, ainda me sobra para me asilar na calma do verão.
 *devesa é o mesmo que mata

E o mesmo dirão vossos filhos, e ainda o mesmo os filhos de vossos filhos; e incendiarão as suas devesas.

E direis mais: “Não construirei uma ponte sobre este rio, porque uma árvore colossal caiu sobre ele à flor da água; e que me importa que o seu leito se encha de areias, e que não haja comunicação entre os homens que habitam a sua nascença e a sua embocadura?”

E o mesmo dirão vossos filhos, e ainda o mesmo os filhos de vossos filhos; e o tronco permanecerá à flor da água, e o seu leito se encherá de areias, e não haverá comunicação entre os homens que habitam a sua nascença e os que moram na sua embocadura." [48]

O recado é claro: sem cultivo, sem cuidado com o futuro cultivado de geração em geração, não temos caráter [gênio] e nos condenamos ao puro e simples desaparecimento sem deixar traços no futuro. É o que nos apresenta a situação presente: o meio-ambiente na mão de um agro-boy; os direitos humanos na mão de uma fanática religiosa; a diplomacia na mão de um fanático anticomunista; a educação na mão de um obscurantista; a ciência na mão de um vendedor de travesseiros; a saúde na mão de militares; a polícia na mão da milícia; a economia e a administração pública na mão de alguém odeia os pobres e o governo.  

Sunday, May 31, 2020

Recomendações

Vou puxar por um lado que suponho ninguém mais vai. 15 filmes muito bons. 2 do Chile e o resto de Argentina ou México. Aí vai:

1. La danza de la realidad [Alejandro Jodorowsky],
2. Crónica de una fuga [Adrián Caetano],
3. Leonera [Pablo Trapero],
4. Garage Olimpo [Marco Becchis],
5. El ciudadano ilustre [Gastón Duprat & Mariano Cohn],
6. Mi obra maestra [Gastón Duprat],
7. La Ciénaga [Lucrecia Martel],
8. Roma [Alfonso Cuáron],
9. Biutiful [Alejandro Iñárritu],
10. En el hoyo [Juan Carlos Rulfo],
11. La camarista [Lila Avilés],
12. El aura [Fabián Bielinsky],
13. El abrazo partido [Daniel Burman],
14. Machuca [Andrés Wood],
15. Luz silenciosa [Carlos Reygadas].

Saturday, May 30, 2020

Obituário: José María Galante

O corona matou José María Galante, um símbolo da resistência ao franquismo e da tentativa (fracassada) de levar aos tribunais os carrascos e torturadores daquele regime fascista que sufocou a Espanho até os anos 70. Galante nunca aceitou a anistia de 1977 na Espanha, semelhante em certos aspectos a que o governo militar baixou na mesma época no Brasil. Seu torturador, Antonio González Pacheco morreu em maio também, ironicamente também por causa do Corona, mas morreu ainda com suas condecorações e sua gorda pensão de aposentadoria. José María Galante perdeu outras batalhas: não queria a Espanha na OTAN nem bases americanas no seu país.

Gonçalves Dias, pensando o Brasil através da poesia

Caderno meu
Todo mundo conhece a canção do exílio, reescrita como paródia tantas vezes no século XX. Mas não se conhece o melhor de Gonçalves Dias. No longo texto "Meditação", Gonçalves Dias segue [e acho que supera] o Lamennais de "Confissões de um crente". É o melhor texto brasileiro da primeira metade do século XIX que eu li até hoje. Prosa poética romântica da melhor qualidade, porque Gonçalves Dias dominava o português como poucos até hoje. Ele supera portanto Lamennais; mas o faz na forma, não no conteúdo. Lamennais articula no seu livro um cristianismo radicalmente democrático quando diz coisas como:

"O que não ama seu irmão é sete vezes maldito, e o que se faz inimigo de seu irmão é maldito setenta vezes sete vezes. É isto porque os reis, os príncipes e todos aqueles que o mundo chama grandes foram malditos: não amaram seus irmãos, e os trataram como inimigos."

Gonçalves Dias não chega a condenar todos os príncipes e "grandes" do mundo por tratarem os seus irmãos como inimigos. Mas tem uma visão bastante dura do período colonial. Os portugueses saem assim:

"Eram homens sordidamente cobiçosos, que procuravam um pouco de oiro, pregando a religião de Christo com armas ensangüentadas.

[…]

Eram homens que pregavam a igualdade tractando os indígenas como escravos—envilecendo-os com a escravidão, e açoitando-os com varas de ferro."

E depois de palavras contundentes de admiração pelos povos indígenas [basta ler o que gente como José Bonifácio escrevia sobre os índios para se ter uma ideia do contraste radical]. Gonçalves Dias nos dá uma descrição da colonização como massacre prolongado por todo o terrritório:

"Começou então a lula porfiada, que de Porto-Seguro lavrou até á margem esquerda do Prata—e d'ali correu às margens do Amazonas com a rapidez do ar empestado.

Ouvia-se de instante a instante o som profundo, cavernoso e agonisante de uma raça que desaparecia de sobre a face da terra.

E era horrível e pavoroso esse bradar do desespero como seria o de milhões de indivíduos que ao mesmo tempo se afundassem no oceano.

E cadáveres infindos, expostos á inclemência do tempo e á profanação dos homens, serviam de pasto aos animais imundos."




Friday, May 29, 2020

Gonçalves Dias, patrono dos letristas da MPB

A caricatura

Na caricatura, como em outras imagens, Gonçalves Dias parece um romântico francês. Observem a diferença com relação à foto abaixo. Não preciso nem comentar mais, né?

Quem conhece as letras de grandes canções de Pixinguinha, Cartola ou Nelson do Cavaquinho, às vezes se deixa enganar por quem diz que eram parnasianas. Isso demonstra desconhecimento do poesia parnasiana. O primeiro grande poeta musical do Brasil é Gonçalves Dias. Não conto aqui com Domingos Caldas Barbosa, porque este era mais que tudo letrista mesmo. E indico a sua precedência com relação a Castro Alves, que era muita vezes mais bombástico, mas, nos seus momentos mais líricos, também era um grande "letrista".

Várias estrofes de Gonçalves Dias me parecem muito adequadas para a música brasileira do século XX. Fico, na brevidade daqui, com apenas dois exemplos. O homem era fera musical em dois metros fundamentais para o português. Os decassílabos, um pouco mais lentos e introspectivos:

Simpáticas feições, cintura breve,
Graciosa postura, porte airoso,
Uma fita, uma flor entre os cabelos,
Um quê mal definido, acaso podem
Num engano d'amor arrebatar-nos.
Mas isso amor não é; isso é delírio,
Devaneio, ilusão, que se esvaece
Ao som final da orquestra, ao derradeiro


O homem era mais fera ainda nas redondilhas, verso da oralidade por excelência: 
A foto

Enfim te vejo! — enfim posso,
Curvado a teus pés, dizer-te,
Que não cessei de querer-te,
Pesar de quanto sofri.
Muito penei! Cruas ânsias,
Dos teus olhos afastado,
Houveram-me acabrunhado
A não lembrar-me de ti!

Monday, May 25, 2020

Diário da quarentena no fim de Minas II

Eu estava numa vídeo-chamada com um primo querido de Belo Horizonte. Falávamos de arte, de oportunidades para a arte. Verdade seja dita, meus sentimentos estão em câmera lenta. A palavra arte está batendo numa parte de mim que amortece o impacto. Penso sem querer pensar: para que serve a arte em um mundo sem futuro? Para distração de isolados e desesperados? Então não é arte, é entretenimento. Mas haverá outro mundo depois desse que se esvai? Haverá arte?
Entro numa vídeo-conferência, uma reunião de trabalho. Sou sempre a pessoa que escreve as atas e não será diferente dessa vez. Vejo o rosto da minha chefe e tento escutar o que ela está dizendo. De repente, quando dou por mim, percebo que estou numa vídeo-conferência. Vejo o rosto da minha chefe e tento escutar o que ela está dizendo. De repente, quando dou por mim, percebo que estou em uma vídeo conferência. Vejo o rosto da minha chefe e tudo em volta parece rodar. Onde está minha atenção? Sumiu de novo. E voltou. E sumiu. E voltou. Não tenho controle de mim.
Tive um sonho louco essa noite. Não consigo transformá-lo em narrativa de tão doido. Lembro porém, com clareza alucinatória, que acordei ouvindo: - Não se preocupe, Pero Vaz de Caminha está relatando nossa chegada.


R.M.C

Perplexidade

Otimistas e pessimistas, informo-lhes que pertenço a um minoritário, o grupo dos perplexos. Mas digam-me aí, o que vou dizer para os que já perderam alguém para a pandemia? Tenho uma conversa assim marcada para amanhã. Parentes muito queridos que perderam um pai, um avô.

E talvez alguém possa aproveitar e tentar me fazer entender outras coisas. Faz mesmo alguma diferença se os mortos eram contra ou a favor do confinamento? Alguém pode me explicar como tanta gente pode atribuir intenções políticas a um vírus? E pior até, como se pode falar tanto em conspirações que envolvem milhões de pessoas nos quatro cantos do planeta?

Minha perplexidade só aumenta com o passar dos dias. Quer dizer que agora usar máscara no rosto ou lavar as mãos quando chega em casa passou a ser um gesto político? Um gesto até mesmo provocativo? Faz um mês que o governo dos EUA (o país mais rico do mundo) anunciou uma parceria pomposa com grandes gigantescas cadeias de comércio para criar centros de testes. Uma dessas empresas, a Target, até agora abriu UM centro! Como não estar perplexo?

E como assistir a uma reunião de ministério pior do que uma reunião de torcida organizada e não ficar perplexo? "Ah, eu já sabia que seria isso mesmo!" Dizem uns. "O que é que tem falar muito palavrão?" Perguntam retoricamente outros, como se minha perplexidade fosse um hipocrisia pudica. E a minha perplexidade se dirige ao fato de que, ainda assim, a pesar de tudo, um em cada cinco ou seis brasileiros ainda apoiam, mesmo com esse desastre, o governo do "e daí?" Alguns balbuciam, "mas, e o Petê?" ou "ele não é o único a dizer besteiras." Mais de 500 mortos por dia e a sua resposta é essa?

E deixe-me explicar que quando falo de perplexidade não falo de surpresa. Por exemplo, que algumas pessoas aqui nos EUA pensem que mesmo assim está tudo bem, não me surpreende. Mas isso não significa que eu não possa continuar perplexo. Já me espantava a capacidade de um país de manter-se em guerra durante 19 ANOS e trilhões de dólares gastos sem obter nada com isso e mesmo assim muita gente achar que continua tudo bem. Parece que os aspectos mais absurdos do 1984 de George Orwell viraram o novo normal. O livro era uma sátira, não era uma profecia!

Daí a minha perplexidade, me desculpem a franqueza. Pode parecer inocência ou hipocrisia, mas não é. Mantenho os olhos bem abertos. Continuo tentando me informar e continuo refletindo. Talvez daqui há uma década alguém consiga dar um formato narrativo coerente a tudo isso. Agora, no presente, está difícil.

Wednesday, May 20, 2020

Saudades da Pedra

Foto minha: Brumadinho
O soneto é de Cláudio Manoel da Costa:

Destes penhascos fez a natureza
O berço, em que nasci! oh quem cuidara,
Que entre penhas tão duras se criara
Uma alma terna, um peito sem dureza!

Amor, que vence os tigre por empresa
Tomou logo render-me; ele declara
Contra o meu coração guerra tão rara,
Que não me foi bastante a fortaleza.

Por mais que eu mesmo conhecesse o dano,
A que dava ocasião minha brandura,
Nunca pude fugir ao cego engano:

Vós, que ostentais a condição mais dura,
Temei, penhas, temei; que Amor tirano,
Onde há mais resistência, mais se apura.

Saturday, May 16, 2020

Diário da quarentena no fim de Minas Parte I

Há tanto silêncio quanto barulho aqui.
Cinco horas da tarde, faça chuva ou faça sol, seja feriado, domingo ou segunda, as vacas caminham pelas ruas mugindo baixinho em direção ao estábulo que fica no outro quarteirão. Minha cadelinha entra em desespero e começa a latir. Se alguém tiver esquecido o portão de casa aberto, ela foge e avança nas vaquinhas que respondem com coices que nunca acertam o alvo. Dia desses fui tentar pegá-la e quase levei chifrada.
No terreno vizinho existe uma pequena matinha que o proprietário tentou arrancar. Ele não usou motosserra na tentativa, não. Ele usou calcário e bodes. Foi multado, mas não pagou e talvez nunca pague. O calcário sumiu. A mata está  verde. Os bodes ainda estão lá. E como berram!
Há uma estradinha rural ao término da rua. Vejo carros passarem. Placas do Rio de Janeiro, do Espírito Santo, de São Paulo e Brasília. Ao que tudo indica, as pessoas já estão fugindo para os montes. E trazem consigo um vírus bárbaro invisível. Já são três mortes confirmadas.
Mês passado eu fui ao supermercado com a mãe. Estávamos de máscara. Um senhor se sentiu ofendido com a nossa cautela e começou a fazer discurso político contrário ao isolamento como se não fosse pra nós.
Hoje, desci para o centro de carro. Todos na rua usavam máscara. Umas protegiam o queixo, outras o nariz e ainda havia algumas enroladas no pescoço do ser humano enquanto ele tomavam sorvete. Temos uma UTI com respirador e, até onde eu sei, nenhum médico especialista em cuidados intensivos. O fim do mundo se aproxima.

R.M.C.

Thursday, May 14, 2020

Obituário: Sérgio Sant'anna

"O sujeito que o recrutara por um salário mínimo lhe dissera que ele ainda tinha sorte, pois o desemprego grassava no país. Era um sujeito que gostava de usar verbos desse tipo, de dicionário, que lhe pareciam conceder dignidade e pompa às suas palavras, embora ele não chegasse a materializar em sua mente tais substantivos abstratos. Autoridade e importância, sim, eram prerrogativas das quais ele se revestia em seu cargo, ele ali sentado com a gravata e a palavra, enquanto que os homens que desfilavam à sua frente permaneciam de pé e mudos, a não ser por certas respostas quase monossilábicas como "sim senhor", ou "não senhor" quando se tratava de vícios como a cachaça. Se audiência fosse um pouco mais qualificada, ele discorreria também um pouco mais sobre os problemas do país, que provinham do atraso do povo, a desonestidade e incompetência dos políticos, agravadas pelo gigantismo do estado. Na intimidade do lar, ele apontava ainda causas como as condições climáticas, uma colonização de degredados e a mistura de raças. Ele era um homem da iniciativa privada numa posição de comando intermediário, embora achasse que ganhava pouco, o que era amenizado pela perspectiva de subir alguns degraus, desde que fosse perseverante e duro até o ponto da inflexibilidade."

Trecho de "Um discurso sobre o método" de Sérgio Sant'anna, onde ele descreve com precisão e brevidade um homem comum que foi o gérmen do homem comum que elegeu o atual presidente da república do Brasil 

"O Brasil é um filme de terror." 
Último post do perfil de Sérgio Sant'anna no FCBK

Saturday, May 09, 2020

Obituário: Little Richard



Nos meio dos anos 50 ele era claramente, obviamente gay na sua performance. O topete Madame Pompadour, a maquiagem, as roupas, os gritos agudos. E era um negro da Georgia, criado num humilde cortiço, trabalhando como lavador de pratos, nos anos 50. E tocava uma música "selvagem": gritada, repetitiva, sensual, obsessiva, rápida. Primeiro, em 1956, vieram "Tutti Frutti" e depois "Long Tall Sally"; depois veio "Lucille" em 1957 e "Good Molly Miss Molly" em 1958. Naquele domínio total do puritanismo classe média, Little Richard rebolava, revirava os olhinhos, fazia caras e bocas, tocava piano com violência - Jerry Lee Lewis era muito superior no mesmo estilo de música. As letras às vezes eram poemas non-sense e não tinham importância pelo "conteúdo": no breque de Tutti Frutti, o que era: "a wop bob alu bob a wop bam boom"? Era o veículo para uma voz que era pura alegria sexual despudorada e livre.

Claro que, numa sociedade segregada e racista, ainda iriam esperar por um Elvis Presley para fazer aquela música estourar de verdade. Nenhuma delas chegou ao topo da parada. Simultaneamente, Pat Boone fazia versões [aguadas] das mesmíssimas canções e chegava ao topo da parada - qualquer semelhança com a dinâmica racial da "Axé Music" não é mera coincidência.

E aí, no final dos anos 50, Little Richard abandonou tudo e foi para um seminário virar pastor! E pela vida afora ele iria e voltaria entre o roque e o gospel. Desde que foi expulso de casa pelo pai [adivinhem porque motivo...] E alternaria entre entrevistas em que se dizia gay ou "omnisexual" e entrevistas em que chamava o homossexualismo de um horror "contagioso" e uma ofensa a Deus.

Mas os Beatles, os Rolling Stones, Bob Dylan, Elton John e outros da mesma geração tocavam Little Richard nas suas respectivas garagens e shows de espelunca - há versões deles para todas elas. E sem Ricardinho na música americana não haveria James Brown e não haveria Prince. Os Beatles ainda adolescentes abriam os concertos de Little Richard em Hamburgo! Aqui uma canção deles que é claramente calcada em Little Richard:



Jimi Hendrix na banda de Little Richard
E o sucesso dessa geração trouxe Little Richard de volta, pela primeira vez em 1964, com um rapazinho chamado Jimi Hendrix na guitarra [com quem ele teve atritos porque Hendrix era "aparecido demais"]. De volta à música "profana" [e põe profana nisso!]. Abaixo em 1973, vemos Little Richard no que eu acho que seu auge, proclamando-se "rei do roquenrrol" para uma platéia completamente entregue: