Monday, September 30, 2013

Diário de Viagem: Tenochtitlán 1

Claustro de Sor Juana


1. A Cidade do México é única no mundo. Não há lugar no Brasil, por exemplo, que chegue aos pés dela. Aqui estão, numa só cidade, Ouro Preto, São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Machu Picchu. Com uma rede imensa de metrô [que custa 25 centavos de dólar ou menos de 70 centavos de real]...



2. O centro da cidade, por exemplo, tem construções magníficas do século XVI, XVII, XVIII e XIX, além de ruínas pré-colonização espanhola [a cidade já era muito grande antes da chegada dos sanguinários de Cortez]. Além disso tem uma confusão de vendedores de rua e gente arrancando um trocado fazendo todo o tipo de performance na rua. E ruas e ruas especializadas no comércio de, por exemplo, papel ou mecânica ou tecidos.


3. Por exemplo, no centro está o convento de Sor Juana, transformado em universidade com direito à um maravilhoso restaurante [o curso de culinária da universidade é famoso]. O convento de San Ildefonso foi transformado em colégio e tem suas paredes cobertas por murais maravilhosos de Orozco e outros muralistas.
Pátio interno de San Idelfonso

A catedral e o Zócalo


4. No centro está, por exemplo, a imensa catedral metropolitana que começou a ser construída em 1534 e foi terminada em 1813 e que dominado um dos lados do gigantesco zócalo [praça central] da cidade.


Entre Bucarelli e Balderas, na praça da Ciudadela, o Danzón

5. No centro também está a maravilhosa ainda que despretensiosa "praça do Danzón", onde gente em geral humilde transforma uma pracinha com cara de interior do Brasil em um animado baile improvisado. Ao som de boleros e cumbias e quetais, homens e mulheres de todas as idades e formato se sentam pelos bancos e fontes da praça e convidam e são convidados para dançar. Vi aí vários casais momentâneos darem, para mim e quem mais estivesse ali, verdadeiros shows de dança. Não falo de pirotecnias exóticas mas de uma execução perfeita e animada do arroz com feijão. E falo de exemplos vivos da busca simples de dois corpos em momentos de prazer por prazer.



6. Isso não é nem um décimo do que o centro da cidade tem a oferecer. Restaurantes antigos, biroscas, ruínas dos astecas, um museu de arte popular sensacional, livrarias etc. Eu já perambulei pelo centro da Cidade do México quatro vezes e tenho a convicção de que ainda não o conheço direito.   

Saturday, September 28, 2013

Postais: Gombrowicz

Foto minha: Diamantina
"The artist who realizes himself inside art 
will never be creative. 
He must remain on its peripheries 
where art meets life."
Diário de Witold Gombrowicz, 1953

Friday, September 27, 2013

Thursday, September 26, 2013

Hilda Hilst, porque quando o bicho pega ela joga gasolina no fogo


Ilustração: Página de um caderno de notas meu
A CANTORA GRITANTE

Cantava tão bem
Subiam-lhe oitavas
Tantas tão claras
Na garganta alva
Que toda vizinhança
Passou a invejá-la.
(As mulheres, eu digo,
porque os maridos
às pampas excitados
de lhe ouvir os trinados,
a cada noite
em suas gordas consortes
enfiavam os bagos).
Curvadas, claudicantes
De xerecas inchadas
Maldizendo a sorte
Resolveram calar
A cantora gritante.
Certa noite... de muita escuridão
De lua negra e chuvas
Amarraram o jumento Fodão a um toco negro.
E pelos gorgomilos
Arrastaram também
A Garganta Alva
Pros baixios do bicho.
Petrificado
O jumento Fodão
Eternizou o nabo
Na garganta-tesão... aquela
Que cantava tão bem
Oitavas tão claras
Na garganta alva.

Moral da estória:
Se o teu canto é bonito,
Cuida que não seja um grito.
Bufólicas, 1992

Wednesday, September 25, 2013

6


6.     A resistência às reformas propostas pela médica sem-cara-de-médica Josephine Baker vinha dos médicos gente-fina daqueles “bons tempos”:

In the late 1910s, Baker and other reformers drafted a bill to create a nationwide network of home-visiting programs and maternal and child health clinics modeled on the programs in New York. But the American Medical Association (AMA)—backed by powerful Republicans averse to spending money on social welfare—claimed the program was tantamount to Bolshevism. Baker was in Washington the day a young New England doctor explained the AMA’s position to a congressional committee:

“We oppose this bill because, if you are going to save the lives of all these women and children at public expense, what inducement will there be for young men to study medicine?” Senator Sheppard, the chairman, stiffened and leaned forward: “Perhaps I didn’t understand you correctly,” he said: “You surely don’t mean that you want women and children to die unnecessarily or live in constant danger of sickness so there will be something for young doctors to do?” “Why not?” said the New England doctor, who did at least have the courage to admit the issue: “That’s the will of God, isn’t it?”

Monday, September 23, 2013

5


5.     De como a médica sem cara de médica mudou radicalmente as condições de vida da “Cozinha do Inferno”:

“Until then, the Health Department had sought to track down sick children and refer them to physicians, a mostly futile endeavor in the days before antibiotics and modern medicine. Baker decided that the new bureau’s mission would instead be prevention. The city had an established and efficient system of birth registration. As soon as a child was born, her name and address were reported to the Health Department. Baker reasoned that if every new mother were properly taught how to feed and care for a baby and recognize the signs of illness, the mother would have a much better chance of keeping the child alive.

In her first year at the Bureau of Child Hygiene, Baker sent nurses to the most deadly ward on the Lower East Side. They were to visit every new mother within a day of delivery, encouraging exclusive breast-feeding, fresh air, and regular bathing, and discouraging hazardous practices such as feeding the baby beer or allowing him to play in the gutter. This advice was entirely conventional, but the results were extraordinary: that summer, 1,200 fewer children died in that district compared to the previous year; elsewhere in the city the death rate remained high. The home-visiting program was soon implemented citywide, and in 1910, a network of “milk stations” staffed by nurses and doctors began offering regular baby examinations and safe formula for older children and the infants of women who couldn’t breast-feed. In just three years, the infant death rate in New York City fell by 40 percent, and in December 1911, The New York Times hailed the city as the healthiest in the world.”

Sunday, September 22, 2013

4 - "The suicide ward"


4.     Essa descrição do Lower East Side, a favela de Nova Iorque na virada do século:

“The Lower East Side of New York was one of the most densely populated square miles on the face of the earth in the 1890s. The photo-essayist Jacob Riis famously described it as a world of bad smells, scooting rats, ash barrels, dead goats, and little boys drinking beer out of milk cartons. Six thousand people might be packed into a single city block, many in tenements with sanitary facilities so foul as to repel anyone who dared approach. City health inspectors called the neighborhood “the suicide ward”; one tenement was referred to—in an official New York City Health Department report, no less—as an “out and out hog pen.”

Diarrhea epidemics blazed through the slums each summer, killing thousands of children every week. In the sweatshops of what was then known as “Jewtown,” children with smallpox and typhus dozed in heaps of garments destined for fashionable Broadway shops. Desperate mothers paced the streets trying to soothe their feverish children, and white mourning cloths hung from every story of every building. A third of the children born in the slums died before their fifth birthday.”

3

-->3.   Esse trecho aí embaixo me chamou atenção pela expressão, “that little pest, the normal child”, além do próprio tema  do curso - o único que a Dra. Baker não passou de primeira - ser "A criança normal":

"The only course she failed was “The Normal Child,” taught by Dr. Annie Sturges Daniel, a pioneer health educator who also campaigned for better housing conditions for the poor. Baker had to retake the class and in studying for it became fascinated with “that little pest, the normal child” whom she would go on to make the focus of her career."

Saturday, September 21, 2013

Ainda um brasileiro lendo


2.     A descrição da protagonista do livro, uma médica diferente, uma pioneira que na época seria certamente caracterizada como “sem cara de médico”:

"Born in 1873, Baker grew up in a modestly prosperous Poughkeepsie family and studied medicine at the Women’s Medical College in Manhattan, run by Emily Blackwell, the sister of the more famous Elizabeth, America’s first woman doctor. Baker graduated second in her class."

Thursday, September 19, 2013

Um brasileiro lendo sobre os EUA 1

Cinco trechos de uma resenha recente da New York Review of Books me chamaram a atenção:

1.     Uma descrição do que eu suponho que nós poderíamos chamar de “os bons tempos de acordo com a Igreja Católica":

“In an era when reliable birth control was unavailable and abortion was unsafe and illegal, hundreds of newborns were abandoned each year in New York City. Babies turned up in parks and alleyways or on the doorsteps of fashionable houses. These foundlings were assumed to be illegitimate and until 1870 weren’t even welcome at Catholic charity orphanages. Most ended up in squalid municipal almshouses with the paupers, drunks, and insane; nearly all of them died."

Wednesday, September 18, 2013

Escavando notas


O trecho que usei para o postal de ontem vem dessa passagem de um texto curto de Cruz e Souza sobre o piano [“Piano e coração"]:

“Quando o piano musicaliza, caracteriza, espiritualiza as longas escalas cromáticas, os adoráveis allegros, os interessantes pizzicatos, quem fala primeiro que os cérebros artísticos é o coração.
Ele canta mais alto que todos os órgãos humanos
O coração é o pulso do cérebro artístico.
Pela temperatura e o grau de sentimento de um, o músico estabelece a proporção
do outro.
Um dirige, outro executa.
Um tem a fórmula, outro funciona.
Um é o oxigênio, outro o carvão.
Um faz o relâmpago, outro produz o raio.
Coração e cérebro aliam-se, homogeneízam-se.
Assim o piano, eternamente assim.”

As pessoas tendem a desgostar desse tipo de prosa pelo seu “excesso” de adjetivos e advérbios [os “adoráveis” e “interessantes” e “eternamentes” da vida]. Também pelo tom emotivo com que a voz se apresenta, sem ironias, ao leitor. 22 é quase um reflexo condicionado nas letras brasileiras, inclusive com seus próprios maneirismos. É uma pena.

Tuesday, September 17, 2013

Postais: O coração é o pulso do cérebro artístico

Artista: Letícia Galizzi, Sem título, 2013

"O coração é o pulso do cérebro artístico."
Cruz e Souza, cuja obra completa numa edição muito legal agora se encontra aqui.

Monday, September 16, 2013

Postais: Every form of desire


"Every form of desire is already a form of representation."
Fredric Jameson, Representing Capital - A Reading of Volume One

Friday, September 13, 2013

Diário da Babilônia: Life During Wartime


-->
Life During Wartime
Talking Heads

Heard of a van that is loaded with weapons
Packed up and ready to go
Heard of some grave sites, out by the highway
A place where nobody knows
The sound of gunfire, off in the distance
I'm getting used to it now
Lived in a brownstone, I lived in the ghetto
I've lived all over this town
This ain't no party, this ain't no disco
This ain't no fooling around
No time for dancing, or lovey dovey
I ain't got time for that now
Transmit the message, to the receiver
Hope for an answer some day
I got three passports, couple of visas
Don't even know my real name
High on a hillside, trucks are loading
Everything's ready to roll, I,
I sleep in the daytime, I work in the night time
I might not ever get home
This ain't no party, this ain't no disco
This ain't no fooling around
This ain't no mud club, or C. B. G. B.
I ain't got time for that now
This ain't no party, this ain't no disco
This ain't no fooling around
No time for dancing, or lovey dovey
I ain't got time for that now
Heard about Houston? Heard about Detroit?
Heard about Pittsburgh, PA?
You ought to know not to stand by the window
Somebody see you up there
I got some groceries, some peanut butter
To last a couple of days
But I ain't got no speakers
Ain't got no headphones
Ain't got no records to play
Why stay in college? Why go to night school?
Gonna be different this time?
Can't write a letter, can't send a postcard
I can't write nothing at all
This ain't no party, this ain't no disco
This ain't no fooling around
I'd love you hold you, I'd like to kiss you
But I ain't got no time for that now
Trouble in transit, got through the roadblock
We blended in with the crowd
We got computers, we're tapping phone lines
I know that ain't allowed
We dress like students, we dress like housewives
Or in a suit and a tie
I changed my hairstyle so many times now
I Don't know what I look liked
You make me shiver, I feel so tender
We make a pretty good team
Don't get exhausted, I'll do some driving
You ought to get you some sleep
Burned all my notebooks, what good are notebooks?
They won't help me survive
My chest is aching, and it burns like a furnace
The burning keeps me alive


Wednesday, September 11, 2013

Diário da Babilônia: Monopartidarismo

Eleições para prefeito. São quatro candidatos, todos do mesmo partido. Uma cidade com um só partido antecipa suas eleições quando faz a primária desse partido, que por sinal está no poder há mais de 50 anos e elegeu o mesmo prefeito por mais de 20 anos [a reeleição para prefeito é livre].

A candidata devidamente abençoada pelo prefeito e pelo governador do estado recebe mais da metade dos votos na primária. Um dos outros três candidatos ainda resolve insistir e desafiá-la nas eleições como candidato independente.

Quem achou que eu estava descrevendo alguma cidade dominada pelo PRI mexicano enganou-se. Trata-se de New Haven em Connecticut, onde eu vivo. Na maior parte do país o bipartidarismo dos Estados Unidos trata-se de um monopartidarismo.  E se eu votasse, talvez votaria na vencedora, portanto não se trata de depoimento contrariado de alguém que não gosta do prefeito ou da sua provável substituta.

Tuesday, September 10, 2013

Diário da Babilônia: Uma grande sacada para cidades calorentas sem praia

O que fazer durante o calor numa cidade sem praias como Belo Horizonte? A prefeitura de New Haven aqui nos EUA oferece em algumas de suas praças públicas a preciosa opção acima: uma espécie de "chuveirão" para as crianças [e adultos] brincarem e se refrescarem.

Durante o frio o "chuveirão" fica desligado. Durante o verão ele funciona quando alguém aperta esse botãozão vermelho, operado na foto pela minha desconfiada filha, já seca depois de uma seção de brincadeira molhada. Reparem atrás na curtição de crianças de várias idades e em como algumas fontes são feitas para crianças menores também poderem curtir o lugar. Até bebês entram na onda!

Saturday, September 07, 2013

Diário da Babilônia: como engordar os pobres


15% de gordura: $4.99 por libra


10% de gordura: $5.99 por libra

7% de gordura: $6.29 por libra
O exemplo aqui se aplica a qualquer tipo de carne. Quanto mais gordura, mais barata. A mais barata das três acima pode ser cozinhada numa panela sem nem uma gota de óleo e ainda assim, depois de 20 minutos no fogo, você passa a carne na peneira e "obtém" uma xícara cheia de gordura derretida. 

Thursday, September 05, 2013

Diário da Babilônia: Um pouco mais sobre universidades


Trechos interesantes de reportagem recente sobre as humanidades nos EUA. Detalhe importante: o que nós no Brasil chamamos de ciências humanas, nos EUA são divididas em ciências sociais [sociologia, antropologia, economia etc] e humanidades [história, letras, inglês etc].

"... about four million people worked in humanities-related jobs, like museum curator or humanities teacher, from 2007 to 2009. More than 115,000 students earned baccalaureate degrees in the humanities in 2011, a 20-percent increase in absolute terms over a decade earlier. And 84 percent of students who earned bachelor's degrees in the humanities said they were satisfied with their choice of major one year after graduation.
[...]
The share of all bachelor's degrees conferred in the humanities continues to be fairly small, at about 11 percent, though that has been the case for decades. And humanities research receives 0.48 percent of what the federal research budget gives to higher education for science and engineering.
[...]
19 percent of the members of Congress majored in the humanities as undergraduates, a share exceeded by the 26 percent who earned degrees in vocational fields and the 37 percent in the social sciences. The least frequent major was "the sciences," at 8 percent."


Wednesday, September 04, 2013

Diário da Babilônia: um raio X dos alunos de uma universidade privada nos Estados Unidos

Números sobre a nova turma que chegou à universidade privada onde eu trabalho neste ano letivo que começa em setembro:

1. Apenas 6.72% do total de 29.610 candidatos conseguiu uma vaga na universidade;

2. metade dos que entraram recebem algum tipo de auxílio financeiro [calculado de acordo com a renda da família];

3. 55% dos que entraram estudaram em escolas públicas americanas;

4. 12% são os primeiros em suas famílias a frequentar uma universidade;

5. 10% vieram de fora dos Estados Unidos;

6. 37.1% são "students of color";

7. 10% são "multiraciais";

8. Nenhum deles escolheu qualquer tipo de carreira ainda [o jornal me informa que 12% estão interessados em uma especialização em engenharia.