Sunday, July 31, 2016

I don't. I don't! I don't hate it! I don't hate it!"

Uma passagem marcante de Absalom, Absalom! hoje em dia me marca de um outro jeito, diferente de antes. É o seguinte diálogo, entre o colega canadense Shreve Cannon e Quentin Compson, num quarto gelado da Universidade de Harvard:

Sol no Assoalho ou The Iron New England Light, 2006
"Tell about the South," said Shreve McCannon. "What do they do there? How do they live there? Why do they?…Tell me one more thing. Why do you hate the South?"

"I don't hate it," Quentin said, quickly, at once, immediately; "I don't hate it," he said. "I don't hate it he thought, panting in the cold air, the iron New England dark: I don't. I don't! I don't hate it! I don't hate it!" 


Ela me marca diferente hoje porque é o que eu sinto hoje a respeito de um país que, num lance de amarga ironia, é parte integrante do meu trabalho e um fantasma inexoravelmente mais apagado ano após ano.

É o que sinto porque todas discussões e bate-bocas sobre o afastamento de Dilma Rousseff da presidência são rituais fúteis frente a um golpe que vai se executando passo a passo, com o respaldo de mídia, congresso e justiça. Tanto faz o que você acha ou deixa de achar sobre um assunto que está, essencialmente, resolvido.

A falta, o erro, a insuficiência são meus também. Detesto aquele ritual pelo qual as pessoas se descolam da cultura de onde vêm e põem-se a criticar um "eles" fantasmagórico que não os incluem. Por isso entendo como Quentin se sente, como talvez Faulkner se sentisse. Além do mais não há mais lugar dentro de mim para esse jogo besta de orgulho e vergonha. Não quero mais isso. Gritar "VERGONHA" fazendo biquinho de Boris Casoy, é um clichê besta que eu não quero repetir.

Thursday, July 28, 2016

Traduções: Prazer e desconforto


Recentemente tive o privilégio de trabalhar na tradução para o inglês de um velho poema chamado “Dialego entre hu pastor e hu Irmitaõ" parte do memorial de Pero Roiz Soares escrito na virada entre os séculos XVI e XVII entre 1565 e 1628. 
 
De um lado a sensação prazeirosa de ler bem de perto um texto de uma época em que gramáticas, dicionários, academias e escolas ainda não tinham engessado o português nem traçado fronteiras e controles de aduana entre português e espanhol. Saudades de uma liberdade que entre reformas e tratados ortográficos eu nunca tive. 

Do outro lado o desgosto de constatar o quão antigo e articulado já era o anti-semitismo europeu, e reconhecer aquela retórica venenosa misturando preconceitos religiosos e étnicos num apelo populista contra as elites vendidas que trairam o povo cristão com um indulto aos judeus. 


Monday, July 25, 2016

Reflexões de um imigrante legal nos Estados Unidos em 2016

A verdade é que no bi-partidarismo toda eleição já é segundo turno e muitas vezes nos toca a votar no que parece o menos pior. Mas mesmo quando os candidatos são extremamente parecidos, eles são diferentes em muitas coisas importantes. E nesse caso nem é preciso ser muito sutil para ver as imensas diferenças entre os dois candidatos.

E também é verdade que costuma ganhar quem consegue animar a gente a descolar o traseiro da poltrona e ir, muitas vezes num dia de semana de trabalho normal, se plantar por horas numa fila imensa para deixar o seu voto. Dependendo do seu patrão, só vota quem pode perder um dia de trabalho.

E também é verdade que ganha a eleição quem mobiliza mais gente para votar nos estados onde o resultado pode ir para um lado ou para o outro. Esses não são necessariamente os estados mais populosos, embora também não sejam, em geral, estados com população muito pequena. Traduzindo para uma situação brasileira, seriam estados como Mato Grosso, Paraná, Espírito Santo, Acre ou Ceará. 

A verdade é que no resto do país o sistema que rege é quase um bi-PRIismo que o voto distrital, nos termos em que existe por aqui, reforça. Cada vez que sai o resultado do censo, o partido no poder dentro de um estado re-desenha os distritos e o novo desenho - dividindo votos opositores e/ou concentrando governistas - quase sempre reforça a hegemonia daquele mesmo partido. O último prefeito republicano de New Haven, onde vivo no momento, saiu do poder em 1931 e, desde então, só democratas governaram a cidade. 

E é também verdade que a democracia é uma briga de foice no escuro, onde vale quase tudo, inclusive mentir muito, cultivar pânicos e preconceitos e fazer maremotos de marolinhas ridículas. É um jogo sujo que fica ainda mais sujo porque se veste de uma retórica que jura fidelidade a "sonhos", "futuro brilhantes", "ética", "justiça", etc. Todos devidamente desprovidos de aspas. Uma briga de foice de tubarões vestidos de anjinho de procissão. 

Mas eu cresci num sistema muito outro. Era muito outro o sistema em que eu cresci, apesar da insistência dos meios de comunicação censurados e/ou auto-censurados em silenciar e em divulgar todas as juras de amor à democracia da parte dos civil-milicos de antanho que se agarravam ao poder com unhas e dentes. Não era uma briga de foice - era um massacre onde só um lado tinha foices e o outro tinha, no máximo, um par de canivetes enferrujados. 

Por isso me cansa o discurso de nojo e revolta com a política "democrática". Uso o adjetivo "democrático" entre aspas para enfatizar a consciência importante de que não existe democracia absoluta ou perfeita, mas existem democracias melhores ou piores. As reformas são necessárias e bem vindas, mas mesmo as melhores reformas costumam consertar muitas coisas enquanto pioram outras poucas e criam talvez um par de novos problemas.

Todos aqueles que têm sonhos de pureza e perfeição deveriam apertar os narizes bem forte e lutar, com voto e militância, para conseguir o que der para conseguir, que é sempre muito menos do que o que se precisa mas que é muito melhor que o inferno que está aqui e agora. Por trás dos sonhos de pureza e perfeição estão, muitas vezes, princípios importantes: o desejo de igualdade, a indignação com a injustiça, a vontade de melhorar. É urgentemente preciso ser, nos termos de Paulo Freire, radical sem ser sectário.

Saturday, July 23, 2016

Claudia Rankine, Serena Williams e a poesia que rompe a bolha e chega ao público além dos círculos de poesia nos Estados Unidos


Claudia Rankine escreveu de forma brilhante sobre Serena Williams no seu livro Citizen, livro de poesia incrivelmente bem sucedido para os padrões do século XXI. Aqui ela fala um pouco sobre o que interessa a ela no caso da tenista:



Aqui ela lê trechos do seu livro e comenta de forma muito interessante sobre o uso de ilustrações no livro. A partir do 14o minuto [mais ou menos] ela lê e comenta um dos trechos sobre Serena e a irmã Venus Williams:



A própria Serena Williams recentemente recitou um poema famoso de Maya Angelou em Winbledon:

Wednesday, July 20, 2016

Notas para livros impossíveis: sobre encontros fortuitos na biblioteca


Erwin Panofsky [1892-1968]
Pelo menos uma vez por semana levo meus filhos para a biblioteca pública da cidade onde vivo. Segunda-feira, enquanto minha menina joga com uma amiga no clube de xadrez e meu filho faz as coisas dele no segundo andar. onde fica a seção infantil, eu gosto de descer e catar a esmo um ou dois livros que me pareçam interessantes. Desta vez trombei com uma pequena jóia do historiador Erwin Panofsky, uma reflexão retrospectiva sobre 3 décadas de contato com o meio acadêmico nos Estados Unidos. Transcrevo aqui oito trechos curtinhos desse encontro fortuito com uma velha figura dos maus tempos de recalcitrante estudante de arquitetura há mais de 20 anos atrás.

1. Panofsky contrasta curadores e bibliotecários nos Estados Unidos "que se consideram em primeiro lugar como orgãos de transmissão" com os europeus "que se enxergam como guardiões ou conservadores" dos tesouros que guardam em suas instituições.

2. Descreve o ideal da sua profissão como "um espírito de descoberta e experimentação temperados pelos escrúpulos da erudição."

3. Fala sobre as possíveis vantagens da distância e os limites de certas delimitações impostas pela cultura em que estamos inseridos chamando a atenção para os limites que os estudiosos europeus se impunham ao pensar sempre em termos de fronteiras nacionais e regionais e pela distância geográfica e cultural que favoreciam uma abordagem mais livre.

4. Fala da importância de existir em outra língua para ganhar uma perspectiva crítica do uso da própria língua natal: "Ao tentar se fazer compreender em inglês, o historiador da arte educado em alemão percebe que sua terminologia era, às vezes, desnecessariamente obscura ou simplesmente imprecisa." 

5. Fala da importância de ser forçado a lidar com o público mais amplo para, de novo, ganhar perspectiva crítica sobre seu próprio trabalho: "... ser convocado para encarar um público não-especializado e não-familiarizado força o estudioso a se expressar, ao mesmo tempo, de maneira mais compreensível e mais precisa."  

6. Fala sobre a formação intelectual muito além de qualquer transferência de conteúdo: "... o objetivo do processo acadêmico em si não é transmitir ao aluno um máximo de conhecimento, mas sim um máximo de flexibilidade - não tanto ensinar um assunto, mas um método. [...] ... a capacidade de se transformar num especialista em qualquer domínio que atraia a sua imaginação..."

7. Fala sobre o que eu estava fazendo ali naquela mesa meio nanica no andar destinado às crianças na biblioteca pública: "É principalmente ali onde não temos nada a ver que acabamos encontramos aquilo que precisamos."
Erwin Panofsky, 1952

8. E cita um ditado latino para defender a necessidade do ócio: "Só é livre aquele que não faz nada de vez em quando" [Liber non est qui non aliquando nihil agit]

  

Monday, July 18, 2016

Porque NUNCA cito pesquisa de opinião sobre qualquer assunto

As pessoas adoram pesquisas de opinião, principalmente quando elas confirmam a opinião pessoal que elas têm sobre um determinado assunto. O jogo se repete de maneira, para mim, entediante: as mesmas pessoas fazem alarde sobre as pesquisas cujo resultado lhes interessam e uma semana depois questionam a validade das pesquisas cujo resultado não me agradam. Faz tempo que eu li um longo artigo sobre as pesquisas de opinião e decidi NUNCA MAIS citar pesquisas de opinião de qualquer tipo. 

Pensem numa amostra de 1.000 pessoas que fosse representativa da população brasileira para fazer uma pesquisa de opinião, digamos, sobre a popularidade de um governante ou de um candidato a presidente.

Começando pelo mais fácil, teríamos que encontrar 500 mulheres e 500 homens que respondessem à pergunta proposta.

790 dessas pessoas teriam que ganhar até 3 salários mínimos. Seriam divididos em 395 homens e 395 mulheres? Como as mulheres ganham menos que os homens, suponho que não.

150 viveriam no campo. 75 mulheres que vivem no campo e 75 homens que vivem no campo, então?

250 pessoas teriam que ter entre 0 e 14 anos e aí haveria que se pensar na conveniência de perguntar a uma criança de 6 anos pela sua opinião sobre o tal político.

220 evangélicos e 640 católicos. 110 mulheres evangélicas e 320 católicas. 87 mulheres evangélicas que ganham até 3 salários mínimos e 253 mulheres católicas que ganham até 3 salários mínimos. Entre as 87 evangélicas ganhando até 3 salários mínimos, 21 com deficiência fisíca ou mental. Entre as 253 mulheres católicas ganhando até 3 salários mínimos, 61 com algum tipo de deficiência física ou mental. Entre as 21 evangélicas com deficiência ganhando menos de 3 salários mínimos, 3 teriam que viver no campo.   

100 pessoas teriam que ter mais de 60 anos. Nessa divisão suponho que teríamos que ter umas 55 mulheres e 45 anos, já que os homens morrem mais cedo que as mulheres. 15 teriam que viver no campo e 11 desses 15 teriam que ganhar até 3 salários mínimos. Quantos homens evangélicos com mais de 60 anos morando no campo e ganhando menos de 3 salários mínimos?

E os ajustes para cada região e, no caso de estados imensos e muito populosos, para cada estado?

À medida em que os números vão minguando, a possibilidade de, por pura coincidência, trombarmos com uma super ou sub representação de, digamos, homens evangélicos nordestinos com mais de 60 anos que ganham menos de 3 salários mínimos e vivem em centros urbanos que são absolutamente indiferentes à pergunta em questão é alarmante.

E as pessoas que não querem responder? Depois de cuidadosamente selecionar o número exato de sulinas pardas católicas entre 18 e 35 anos que ganham menos de 3 salários mínimos, como lidar com uma taxa de rejeição à pergunta feita? Como lidar com porta na cara, telefone desligado, "não quero responder" de cada um das centenas de sub-grupos relevantes.

E a influência que as próprias pesquisas têm sobre a opinião que as pesquisas sub-sequentes registram? E a validade de perguntar a alguém sua intenção de voto dois anos antes da eleição? E a necessidade de ajustar os resultados em vista da possibilidade de uma resposta completamente inconsequente?

O quão perturbadora é a ideia de que toda essa avalanche de pesquisas é uma grande ficção?

Friday, July 08, 2016

De tempos em tempos: Alton Sterling e "the guilty pallor of the white man"

-->
No dia 12 de fevereiro de 1946, portanto há setenta anos, Isaac Woodard Jr., horas depois de deixar oficialmente o exército americano que ele servira durante a segunda guerra, ainda vestido com o seu uniforme, foi denunciado à polícia por um motorista de ônibus que discutira com Woodard por não querer permitir que ele fosse ao banheiro durante uma parada. Espancado brutalmente por um grupo de policiais e depois jogado numa cela de delegacia sem receber qualquer tratamento após ser atingido várias vezes nos olhos com socos e cassetetes, Woodard perdeu a visão permanentemente.
No dia 28 de julho de 1946 Orson Welles se sentou na cabine do rádio para mais um episódio ao vivo do seu programa “Orson Welles Commentaries” e o tema era o que havia acontecido poucos meses antes com Woodard:


Orson Welles era um mestre do rádio, tanto quanto do cinema ou do teatro. O seu programa acabou sendo cancelado logo depois desse programa e Orson Welles, mais uma vez, perdeu seu emprego. Após uma investigação conduzida pelo governo federal, os policiais envolvidos foram a julgamento mas considerados inocentes por um júri composto exclusivamente por brancos.

Alguns anos se passaram. Nos anos 50 a aparição dois soldados negros no seriado cômico “The Phil Silvers Show” ainda seria considerado polêmica e causaria protestos em certas emissoras locais que se sentiam “ofendidas” pela presença dos dois soldados negros. Um dos atores negros no seriado era P. Jay Sidney. Sidney trabalhou por décadas na televisão e no cinema nos Estados Unidos construindo, em suas próprias palavras, “a whole goddamned career of ‘Yassuh, can I git ya another drink, sir?”

P. Jay Sidney


Enquanto isso, Sidney protestava vigorosamente contra a falta de oportunidades para atores negros na televisão. Um colega de ativismo se lembra que, quando Sidney não conseguia a atenção da imprensa para um protesto, ele pedia para uma colega ligar para a polícia e dizer “Tem um criolão lá fora com uma faca na mão!” Infalivelmente em poucos minutos chegavam os policiais e a imprensa logo atrás. É uma amarga ironia que o último papel de Sidney foi uma ponta como carregador de malas negro num filme chamado “A Kiss Before Dying” estrelado por Matt Dylon e Sean Young.

70 anos se passaram desde o covarde e gratuito espancamento que arrancou os olhos de Woodard e o protesto de Welles. 20 anos se passaram desde a morte de P. Jay Sydney e quase 30 anos desde o seu último papel como camareiro/garçom/mordomo/vigia. Os Estados Unidos elegeram duas vezes consecutivas um presidente negro. A televisão nos Estados Unidos hoje têm diversos interessantes programas não apenas com personagens mas com protagonistas negros, homens e mulheres.

Mesmo assim, de tempos em tempos, a tragédia de Issac Woodard Jr. se renova, e, de tempos em tempos, a imagem negativa dos negros como cidadãos de segunda classe, como seres humanos de segunda classe, essa coisa que P. Jay Sidney descreveu “como o ar que respiramos e por isso difícil de reconhecer” intoxica o ambiente de maneira sufocante.

Wednesday, July 06, 2016

Um fantasma de William Faulkner

Beth Grant fez o papel na adaptação de 2013
Três momentos inesquecíveis do capítulo narrado pela defunta Addie Bundren em As I Lay Dying [Enquanto Eu Agonizo] de Faulkner:

1. Sobre como ódio e frustração desembocam em violência física contra os filhos:

"I would look forward to the times when they faulted, so I could whip them. When the switch fell I could feel it upon my flesh; when it welted and ridged it was my blood that ran, and I would think with each blow of the switch: Now you are aware of me! No I am something in your secret and selfish life, who have marked your blood with my own for ever and ever."

2. O pedido de casamento:

Anse vem querendo pedir a mão de Addie Bundren em casamento e fala em falar com os pais dela:
'I aint' got no people. So that won't be no worry to you. I don't reckon you can say the same.'
'No. I have people. In Jefferson.'
His face fell a little. 'Well, I got a little property. I'm forehanded; I got a good honest name. I know how town folks are, but maybe when they talk to me...
'They might listen,' I said. 'But they'll be hard to talk to.' He was watching my face. 'They're in the cemetery.'
'But your living kin,' he said. 'They'll be different.'
'Will they? I said. 'I don;t know. I never had any other kind.'

3. A maternidade

"That was when I learned that words are no good; that words don't even fit even what they are trying to say at. When he [Cash, seu primeiro filho] was born I knew that motherhood was invented by someone who had to have a word for it because the ones that had the children didn't care whether there was a word for it or not. I knew tha tfear was invented by someone who never had the fear; pride, who never had pride. I knew that it had been, not that they had dirty noses, but that we had had to use one another by words like spiders dangling by their mouths from a beam, swinging and twisting and never touching, and that only through the blows of the switch could my blood and their blood flow as one stream. I knew that it had been, not that my aloneness had to be violated over and over each day, but that it had never been violated until Cash came. Not even by Anse in the nights."



Friday, July 01, 2016

Lições da história de um esplêndido fracasso

Noel Polk
Irritados com prosa difícil de Faulkner, os editores mexeram muito em Absalom, Absalom! , que é o único romance cuja versão “restaurada” por Noel Polk apresenta mudanças substanciais. Polk descreve o processo de edição:  

Clifton Fadiman, autor da resenha
“The editors of Absalom, Absalom! […] made massive alterations, deleting dozens of passages of sometimes 10 lines or more, altered punctuation to shorten some of his long sentences, and, for example, clarified deliberately ambiguous relative pronoun antecedents because, as they note in the margins, they couldn’t figure out what kinds of challenges Faulkner was presenting in the new novel. Since he preserved the typescript that the editors worked from, it was pretty easy to restore those cuts and make an Absalom more nearly what Faulkner wrote.”

Pelo jeito a mão pesada dos editores não adiantou nada. A resenha da revista New Yorker (uma poderosa instituição nas letras gringas que nunca morreu de amores por Faulkner muito antes pelo contrário) foi simplesmente implacável: 

“… I do not comprehend why Absalom, Absalom! was written, what the non-Mississippian is supposed to get out of it, or, indeed, what it is all about. Nor do I understand why Mr. Faulkner writes the way he does. And, having gone so far, I may as well break down and state my conviction that Mr. Faulkner’s latest book is the most consistently boring novel by a reputable writer to come my way during the last decade.”

O livro vendeu tão mal que os mesmos editores proibiram que ele desse ao livro mais conhecido como Wild Palms o nome de If I Forget Thee Jerusalem para que a referência bíblica não criasse associações com Absalom, Absalom!

Faulkner nos anos 40 dando duro em Hollywood
“… they told him, Absalom had been such a bust in the bookstores and they didn’t want to risk another novel with a biblical title; Faulkner was furious (one of the very few times he actually objected to an editorial decision), but had no choice but to accede."

O próprio Faulkner gostava de falar dos seus romances como “fracassos”. Quando perguntam se ele se sentiu satisfeito ao terminar The Sound and the Fury, Faulkner respondeu assim [podemos ouvir sua voz aqui]:

“No, I don't. That's the—the one that I love the best for the reason that it was the most splendid failure. I think that—that they all failed. Probably the reason the man writes another book is that he tried to—to tell some very important and very moving truth and failed. He's not satisfied, so he tries again. He writes another book, trying to tell some—the same moving truth, since there's only one truth, and they fail. And this one I worked hardest at. It's—it's like the—the idiot child that the parents love the best. This one was the—the most splendid failure, but I—I wish I hadn't done it because if I could do it now, I think I could do it better. Of course, I couldn't, [audience laughter] but I would like to try it again if I had never written it.”

Faulkner mais ou menos na época de Absalom, Absalom!
Absalom, Absalom! é um dos fracassos mais esplêndidos que eu conheço e a recepção do romance me ensinou muito. Acho um equívoco me encher de sentimento de superioridade e simplesmente ridicularizar aqueles que, naqueles anos em que Faulkner não havia ainda sido canonizado [literalmente transformado em santo], não tiveram durante a leitura a paciência ou o respeito que eu acho que Absalom, Absalom! merece. Melhor aprender, humildemente, que é preciso tentar enxergar além dos panteões de santos literários e ler com paciência e respeito o texto que se esconde entre as capas de cada livro.