Friday, September 28, 2012

Admirável velho mundo novo


De camisa azul, o neo-liberalismo; de cabelo comprido o neo-positivismo; e de blusa azul escura, o neo-fundametalismo religioso. Obviamente os três estão com pressa e uma baita fome de cérebros. Não sei se a foto foi tirada em Bagdá ou em Nova Iorque. Talvez em São Paulo.



Os Anglicanos, claro, não têm Papa, aquele tal infalível. Eles têm Rowan Williams, o bispo Anglicano chefe. Ele anda tentando lidar diplomaticamente com grupos da sua igreja na Inglaterra que ameaçam ir embora para a Igreja Católica. A causa desse motim religioso é a ordenação de "bispas" na Igreja Anglicana Inglesa. Ratzinger, o infalível de Roma fez a gentileza de convidar publicamente os rebeldes para "voltar" ao manto de Roma, onde mulheres nunca vão além de freiras.

Numa entrevista Rowan Willians, que é também teólogo, fez a seguinte reflexão:

"One of the odd things about fundametalism in its American form, but not exclusively, is that it's paradoxically a very modern thing. A crude 19th century reaction to a crude 19th century scientism - a kind of mirror image of that positivist yes-or-no knowledge that you can pin down."

São os mortos-vivos do século XIX: o cientificismo revivido na fé cega no DNA como explicador de tudo e na química como cura potencial de todos os males, inclusive os sociais. O fundamentalismo religioso que pretende também oferecer respostas finais sobre todos os aspectos da vida. O aspecto regressivo é o elo entre o conservadorismo ultramontano e a ciência de corte positivista que atribui tudo ao código genético e inspira muitos ateus militantes. Ambos estão em alta nesse nosso novo século, formas religiosa e laica do mesmo fanatismo. Ambos vivem ainda amarrados como gêmeos siameses a um terceiro filhote do século XIX também ressuscitado no final do século passado: o liberalismo econômico, chamado de neo-liberalismo. E nem adianta fugir para as montanhas, por já dinamitaram quase todas procurando minério de ferro e carvão e as que sobraram estão ocupadas com retiros espirituais de renovação da fé.

Wednesday, September 26, 2012

Receita para a cura da cegueira

Tenho uma receita para a cura da cegueira crônica que afeta muitos brasileiros no que toca ao quesito racismo e discriminação racial no Brasil. Essa receita é complicada e custa caro, mas funciona para quase todos os brasileiros da nossa tropa da elite. Talvez não funcione para alguns poucos afortunados do fenótipo Xuxa; afinal como dizia Lima Barreto, no Brasil tem de tudo, até Godos. Mas para o resto todo do país "branco", onde essa peculiar cegueira mais se spresenta, funciona.
Vá para um país do norte da Europa ou para algum lugar bem "branco azedo" nos Estados Unidos e viva lá por uns dois meses, pelo menos. Quando nosso caro membro da elite "quase Goda" não for atendido ou for mal-atendido num café ou restaurante, quando tiver uma bolsa revistada sem mais nem menos na saída de uma loja, quando for parado pela polícia no trânsito, quando pedirem que ele mande uma foto da família antes de receber uma resposta sobre uma vaga no clube da cidade, ele vai começar a perceber, de repente, um certo olhar, um olhar peculiar, dirigido a ele, não todo o tempo, mas com uma consistência notável. Mesmo se ele tiver uma cara que dê para passar por português ou espanhol, por exemplo, ele vai perceber um discreto tom de decepção quando informar ao seu interlocutor 100% Godo que ele não é italiano ou francês, mas "apenas" Latino Americano. E mais além, ele talvez até vá perceber um tom de incredulidade condescendente nos seus interlocutores quando insistir na ideia ridícula de os que brasileiros não são como os outros latino-americanos.
Aí, quem sabe, quando o nosso mancebo voltar ao seu querido Brasil onde todas as portas se abrem gentis e todos os capachos aceitam seus bem lustrados sapatos, ele talvez olhe além de dois palmos a frente do nariz e perceba que aquele olhar peculiar, que aquela incredulidade condescendente, está sendo atirado todos os dias para nossos irmãos brasileiros de pele mais escura, não o tempo todo, não por todo o mundo, mas de uma forma diabolicamente consistente.  

Monday, September 24, 2012

último post sobre Joyce - Joyce e o Local


4.  Joyce e Dublin:
Joyce, como Guimarães Rosa, como Faulkner, como Juan Rulfo, como Woody Allen, como Mário de Andrade, como muita gente interessante do século passado, era um localista. O que é que eu quero dizer? Eu me explico no meu livro que [espero] esteja para sair a qualquer momento pela Editora UFMG. Aqui eu explico muito pouco, por falta de tempo e preguiça mental. Ao invés disso, exemplifico:
Um ano antes de publicar o Ulysses Joyce escreveu para uma tia para perguntar a ela se “it was possible for an ordinary person to climb over the area railings of No7 Eccles street, either from the path or the steps, lower himself from the lowest part of the railings till his feet are within 2 feet or 3 of the ground and drop unhurt.”
 E aqui um pedacinho do capítulo 17:

“What action did Bloom make on their arrival at their destination?
At the housesteps of the 4th of the equidifferent uneven numbers, number 7 Eccles street, he inserted his hand mechanically into the back pocket of his trousers to obtain his latchkey.
Was it there?
It was in the corresponding pocket of the trousers which he had worn on the day but one preceding.
Why was he doubly irritated?
Because he had forgotten and because he remembered that he had reminded himself twice not to forget.
What were then the alternatives before the, premeditatedly (respectively) and inadvertently, keyless couple?
To enter or not to enter. To knock or not to knock.
Bloom's decision?
A stratagem. Resting his feet on the dwarf wall, he climbed over the area railings, compressed his hat on his head, grasped two points at the lower union of rails and stiles, lowered his body gradually by its length of five feet nine inches and a half to within two feet ten inches of the area pavement, and allowed his body to move freely in space by separating himself from the railings and crouching in preparation for the impact of the fall.
Did he fall?
By his body's known weight of eleven stone and four pounds in avoirdupois measure, as certified by the graduated machine for periodical selfweighing in the premises of Francis Fraedman, pharmaceutical chemist of 19 Frederick street, north, on the last feast of the Ascension, to wit, the twelfth day of May of the bissextile year one thousand nine hundred and four of the Christian era (jewish era five thousand six hundred and sixtyfour, mohammedan era one thousand three hundred and twentytwo), golden number $, epact 13, solar cycle 9, dominical letters C B, Roman indication 2, Julian period 6617, MXMIV.
Did he rise uninjured by concussion?
Regaining new stable equilibrium he rose uninjured though concussed by the impact, raised the latch of the area door by the exertion of force at its freely moving flange and by leverage of the first kind applied at its fulcrum gained retarded access to the kitchen through the subadjacent scullery, ignited a Lucifer match by friction, set free inflammable coal gas by turning on the ventcock, lit a high flame which, by regulating, he reduced to quiescent candescence and lit finally a portable candle.

Thursday, September 20, 2012

Joyce e a psicanálise




Joyce tinha uma filha esquizofrênica e por isso conheceu Jung. Jung não gostou nem um pouco de Joyce e disse que o escritor era “a man of small virtue, inclined to extravagance and alcoholism.” Joyce também não foi com a cara de Jung, a quem ele chamava de “the Swiss Tweedledum who is not to be confused with the Viennese Tweedledee,” aproveitando para sacanear Freud de brinde.  

Freud é o da esquerda... ou será o da direita. Bom, Jung é o outro.

Tuesday, September 18, 2012

Joyce e a produtividade poética dos trocadilhos



Bom, além do acaso, Joyce acreditava muito no poder da mais humilde das figuras de linguagem: o trocadilho. Quando reclamavam da vulgaridade dos trocadilhos, Joyce lembrava o “Pedro, tu és pedra” da Bíblia e dizia, “The Holy Roman Catholic Apostolic Church was built on a pun. It ought to be good enough for me.” 

Guimarães Rosa e Leminski certamente concordariam.

Sr. Tenochtitlán e Sra. Jequitinhonha se casam em cerimônia oficiada pelo eminente Pe Calavera no templo do Terceiro Corpo aqui no meu escritório.

Sunday, September 16, 2012

Literatura é bom e eu gosto - Joyce 2


2. Joyce e o acaso

James Joyce não tinha nem sombra do messianismo de Ezra Pound nem do pedantismo de TS Eliot e não achava que a literatura substituía nem deus nem religião nem a vida nem nada. A sua única fé mesmo era provavelmente no acaso: “Chance furnishes me with what I need. I’m like a man who stumbles; my foot strikes something, I look down, and there is exactly what I’m in need of.”

Foto Minha: Rua Palmira

Wednesday, September 12, 2012

Literatura é bom e eu gosto - Joyce 1


Eu me aborreço rápido com a adoração que muitas pessoas têm por figuras como Baudelaire, Mallarmé, Proust, Pound, Eliot, Joyce, etc. Esse negócio de ficar rezando num panteão de santos padroeiros da literatura, mesmo que eles sejam um doidão como Rimbaud ou Bukowski, é muito chato e às vezes francamente ridículo. Mas eu me calo – em público – porque não acho justo com todos esses defuntos que geralmente não tem culpa nenhuma. Aviso isso antes de começar uma série sobre um desses santos, talvez pela obra dele ser tão anti-panteão.


Joyce e o amor:

Joyce era um apaixonado que escreveu grandes cartas para Nora, com quem teve dois filhos. Algumas dessas cartas são chamadas de pornográficas e outras não. Bom, o próprio Ulysses ficou proibido na Inglaterra e nos Estados Unidos por mais de dez anos por ser um livro pornográfico e portanto não me perguntem como é que separam as cartas das cartas de amor. O famoso Bloomsday, o 16 de junho de 1904 que Joyce escolheu para o Ulysses, foi o dia em que os dois saíram juntos pela primeira vez e ele descreve o encontro numa carta maravilhosa:
“I was not I who touched you long ago at Ringsend. It was you who slid your hand down down inside my trousers… and frigged me slowly until I came off through your fingers, all the time bending over me and gazing at me out of your saintlike eyes.” Em bom português: o mundo inteiro hoje comemora o dia em que Nora bateu punheta para Joyce! Anos depois ele ainda se referia a ela assim, “I thought of one who held me in her hand like a pebble, from whose love and in whose company I have still to learn the secrets of life.” 

Tuesday, September 11, 2012

Escavando notas - Mais Manoel Bonfim


Um dos lances mais ousados [até hoje] de América Latina: Males de Origem é quando Manoel Bonfim enquadra a independência brasileira como mais uma independência latino-americana. O padrão delas todas é a preponderância do que ele chama de "elemento refratário" e compara aos dentes do parasita colonial que permanecem agarrados ao corpo dos novos países. 

"Fez-se a independência da colônia exclusivamente para os refratários. No momento, toda a separação se reduziu a substituir o título do chefe do governo – não é mais rei, é imperador; a nação passa a ter uma Constituição sua, copiada da antiga, copiada pelo próprio imperante, eterno distribuidor de constituições; deram-lhe um parlamento seu, que o monarca dissolveu quando quis; e fez-se tornar a Portugal alguns centos de soldados. Tudo mais aqui fica: “todas as pessoas de ordem civil, eclesiástica e militar que a
corte portuguesa deixou no Rio de Janeiro ocupando os altos cargos”. A mesma máquina administrativa, com os mesmos processos, e privilégios, e parasitas; os mesmos costumes, e até a mesma freguesia financeira – a Inglaterra. “Todos os partidos se tornaram separatistas; tornaram–se brasileiros todos os empregados públicos, magistrados dos tribunaissuperiores e outros...” [179]

Bonfim explica a preponderância desses refratários na América Latina ao conservadorismo [que ele chama de "conservantismo"] que é um comportamento preponderante de uma relação parasitária. O parasita, que domina a relação, deseja ardentemente que tudo se mantenha como está. 

Friday, September 07, 2012

Recordar é viver: Parabéns Pátria Adorada


"Quando é que o Brasil entrou a ser verdadeiramente autônomo?... Quando, ameaçando separar-se, forçou a metrópole a abolir estancos e reduzir quintos, ou quando abrigou a corte, foragida da metrópole? Quando entrou em relações com o mundo na qualidade de reino soberano, aberto ao comércio de todas as nações; ou quando, partindo daqui o rei e a corte, passou a ter um governo à parte? Quando Barata e seus
companheiros gritavam os nossos direitos no recinto das cortes portuguesas, ou quando o príncipe, chefe do governo aqui, desobedecia formalmente às injunções da metrópole? Quando o chefe do Estado houve de desistir da coroa portuguesa, ou quando, apesar disto, o forçaram a deixar o Brasil?... Qualquer desses momentos foi mais decisivo para a independência do que essas datas, que a história oficial consagra – o gesto ridículo do Ipiranga, ou a assinatura do tratado mediante o qual o Brasil pagou à antiga metrópole a
importância dos tributos, que ela já não podia cobrar diretamente, em troca de um reconhecimento de que ninguém carecia."
 
Manoel Bonfim, 1905
América Latina: Males de Origem [177-178]

Thursday, September 06, 2012

Prosa Minha - Festas Nacionais


Festas Nacionais


Uma vez por ano aqui em Montezuma, no dia 14 de abril, escolhemos alguém da família Moreira para o que chamamos de Aniquilamento Seletivo, Execução Extra-Judicial ou, simplesmente, Festa da Fé. Escolhemos um Moreira porque eles são muitos, se reproduzem com presteza impressionante e não têm predadores naturais, não fazem a menor falta nos outros 364 dias do ano e são simplesmente perfeitos para os nossos festejos.
O coração dos Moreiras, como o conhecemos, é fibroso, mas doce e saboroso. Não recomendaria um assado pois a carne acaba ficando dura e não entranha bem o tempero. Por melhor que seja a aparência do órgão logo depois de extraído de um corpo macerado mas ainda pulsante e, por um breve instante de jorro e gozo, ainda vivo, há que se esmerar na limpeza e preparo do coração. Limpa-se a carne com faca de ponta, corta-se o resto em filetes bem finos e refoga-se no óleo bem quente com alho, cebola e louro. Depois de uns 10 minutos de refogado, basta adicionar um molho bem gordo de Ora Pro Nobis, duas xícaras de água e cozinhar por mais 30 minutos na panela de pressão.
Preparado dessa maneira, o coração de um Moreira é bem mais saboroso que o seu miserável cérebro, uma carne amarga, babosa e de textura arenosa, que moemos e damos aos porcos da cidade porque achamos qualquer desperdício deplorável. De certa forma, como comemos os porcos que alimentamos com o cérebro que moemos, inventamos aqui na nossa pacata cidade aquilo que o sábio Corbisier dizia nos faltar a todos nós brasileiros: “o instrumento que nos torna capazes de triturar o produto cultural estrangeiro a fim de utilizá-lo como simples material prima”. Sinceramente prefiro a resposta simples das crianças: “o mineiro dá o milho, o porco come o milho e o mineiro come o porco”. 

Tuesday, September 04, 2012

Escavando notas: James e Pound

Fotografia minha: Pedra sempre pedra!
"The whole thing of anything is never told"
Anotação em diário de William James

Mais do mesmo


"It is the business of the artist to make humanity aware of itself."
Ezra Pound, escrevendo sobre William James