Wednesday, January 30, 2008

Já diziam os antigos:

Dinheiro, carinho e reza, ninguém despreza.

A casa de má fama é onde gente séria entra mas não passa.

Tem gente que é assim: guarda o passado em casa, em lugar fresco perto do pote, e vai buscar da rua outras raivas pequenas, tudo para ajuntar à massa-mãe do ódio grande, até chegar o dia de tirar vingança.

Monday, January 28, 2008

Corpo

Corpo

O corpo grita e chora
e quer tudo agora
porque sabe o que o consome
e arde e queima.

Friday, January 25, 2008

Herói

Herói

Tudo nele é raso
e nunca vai além da próxima esquina:
rouba no preço, no peso,
na nota, no frete,
na engorda, na espera,
pedindo um dia a mais,
guardando um laço de fita
debaixo do colchão,
com água até o pescoço,
gastando o sofá puído
na frente da televisão:

Tiraram a menina do buraco.
Prenderam o assassino do banqueiro.
Vai faltar cerveja no carnaval.
Nasceu o bebê elefantinho.


O mesmo verme que rói os ossos dele
nos rói os ossos todos aos poucos também.

Morre a crítica ou faltam veículos para ela?

Vera Lins publicou um artigo muito interessante no Suplemento Literário do Minas Gerais que foi reproduzido na internet [http://www.digestivocultural.com/ensaios/ensaio.asp?codigo=229]
O artigo fala sobre a arte da crítica e é também uma quase autópsia do ensaio crítico no jornalismo brasileiro.
Abdicando do pensamento crítico e abraçando a entrevista e a reportagem promocional, surge o que o crítico Alcides Pécora chamou de "glosa da glosa": repete-se o que o artista disse para provar ao leitor que o artista é o que o artista disse. Mais ou menos como um cachorro que fica rodando, correndo atrás do rabo - e todos os livros e exposições e filmes sem excessão são sempre ótimos, é claro. A existência desse artigo, paradoxalmente, nega a inexistência de crítica no Brasil - felizmente. Mas o artigo toca no ponto mais sensível: o que não existe é o veículo que ofereça, com consistência e critério, um espaço para essa crítica encontrar-se com o leitor.
O problema é eminente jornalístico e não se restringe à área cultural. O recém falecido jornalista Paulo Patarra deu uma ótima entrevista [http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=430FDS008] em que respondendo a uma pergunta sobre a imprensa brasileira na área política, disse o seguinte:
"É tempo de 'fitagem': quem ganha (ou compra) gravação – de som e/ou imagem – tem manchete. E cadê a reportagem? No mais, tomem-se frescuras, cerco às celebridades, exaltações aos imbecis, dedo no gatilho até pra esquerdóides."
A fitagem a que ele se refere não é só recente a recente enxurrada de escândalos ou pseudo-escândalos em cima de telefones grampeados, mas também é o hábito de simplesmente reproduzir depoimentos gravados em entrevistas coletivas eternamente.

Thursday, January 24, 2008

Poesia Mexicana - Xavier Villaurrutia

Esse é mais um poeta mexicano menos conhecido do que merece fora do seu país:

POESÍA
Eres la compañía con quien hablo
de pronto, a solas.
Te forman las palabras
que salen del silencio
y del tanque de sueño en que me ahogo
libre hasta despertar.
Tu mano metálica
endurece la prisa de mi mano
y conduce la pluma
que traza en el papel su litoral.
Tu voz, hoz de eco
es el rebote de mi voz en el muro,
y en tu piel de espejo
me estoy mirando mirarme por mil Argos,
por mí largos segundos.
Pero el menor ruido te ahuyenta
y te veo salir
por la puerta del libro
o por el atlas del techo,
por el tablero del piso,
o la página del espejo,
y me dejas
sin más pulso ni voz y sin más cara,
sin máscara como un hombre desnudo
en medio de una calle de miradas.

Monday, January 21, 2008

O que queria dizer Joaquim Nabuco?

O que queria dizer Joaquim Nabuco?
"Para nós a raça negra é um elemento de considerável importância nacional, estreitamente ligada por infinitas relações orgânicas à nossa constituição, parte integrante do povo brasileiro."
[...]
"Nós não somos um povo exclusivamente branco, e não devemos portanto admitir essa maldição da cor; pelo contrário, devemos tudo fazer por esquecê-la."
Se tomássemos a frase isolada, um milhão de coisas."
[...]

Friday, January 18, 2008

A convivência amigável entre pessoas de pontos de vista opostos

A convivência amigável entre pessoas de pontos de vista opostos costuma ficar muito difícil quando entra em jogo, de alguma forma, a luta pelo poder. Isso porque a luta pelo poder freqüentemente envolve o desejo de “eliminar” seus oponentes [desejo que toma feições tragicamente concretas em tempos de totalitarismo, quando o desejo de eliminar os oponentes de repente torna-se tentadoramente possível]. A luta pelo poder transforma rapidamente as convicções em dogmas e, primeiro esconde, depois elimina qualquer espaço para dúvidas e, conseqüentemente, para a crítica. Eliminadas todas as dúvidas, estamos prontos para fazer caricaturas grotescas de nossos “inimigos” e cobrir de tintas heróicas nossos “heróis”. Assim, para usar um exemplo recente, Chávez é, num passe de mágica, um ditador sanguinário e imbecil ou um herói revolucionário libertador. Chávez não é santo, nem uma nova encarnação do diabo. A verdade é claramente outra coisa, mas as pessoas que tentam manter o bom senso [dentro de suas convicções, não defendo aqui de forma alguma o relativismo] são acusadas, no caso, ou de se alinhar com o ditador ou de se vender aos Estados Unidos. Serão os tempos, ou será a natureza humana?

Obs. Esse post foi motivado pelo texto “amizade e política (2)” de 18/01/2008 no blogue de Marcelo Coelho

Wednesday, January 16, 2008

Blogues sem jornais e blogues de jornais

Diz a propaganda do Estado de São Paulo que a diferença entre um blogue e um jornal na internet é que o primeiro é escrito sem qualquer tipo de “controle de qualidade” e por isso não é confiável, ao contrario do segundo. Mas olha que interessante o que se encontra nos blogues do próprio vetusto jornal:
“As eleições americanas estão ainda mais agitadas do que se previa. Entre os pré-candidatos, meu ideal era ver uma disputa entre Barack Obama e Rudolph Giuliani. São os dois candidatos menos politicamente corretos ou previsíveis. Hillary Clinton é a cara do velho Partido Democrata, com sua ênfase num Estado mais protetor; Mike Huckabee e John McCain são os republicanos por essência, conservadores em questões morais e agressivos em política externa. Obama tem um discurso de união, que não faz proselitismo racial, mas esbarra no fato de não ter muita experiência administrativa. Giuliani, ex-democrata, é o preferido de regiões como Nova York, mas menosprezou as primárias em estados menores e, um tanto quanto sofisticado ou impreciso em suas opiniões, não conseguiu achar um discurso que seduzisse os republicanos mais arraigados. Ainda há muito por rolar, em especial a superterça no dia 5 de fevereiro, mas não será fácil ver o embate que imagino. De qualquer modo, com a maior participação de jovens e mulheres, é possível sentir que uma simples continuidade de Bush não é o que os EUA desejam. Sem risco de otimismo, isso já é um baita avanço.”
1. Ser um candidato “menos politicamente correto e previsível” é o ideal do gênio que escreveu o texto acima. Que tal então transferirmos a sapiência e profundidade da Teoria Piza de política para o Brasil e eleger alguém do Casseta e Planeta para presidente?
2. Huckabee e McCain são “agressivos em política externa” – já dá para ver que o nosso analista politico de fundo de quintal nunca leu uma opinião de Rudolph Giuliani a esse respeito. Ele prometeu começar uma Guerra contra o Irã para não deixar o país obter armas nucleares; disse que waterboarding só era tortura quando feito pelos “bad guys” e que a “mídia liberal” era responsável pela má reputação dessa técnica de interrogação e disse que iria ameaçar diplomatas americanos de coisas impublicáveis e eles não defendessem mais agressivamente a política externa Americana. “The era of cost-free anti-Americanism must end,” foi o que Giuliani disse no seu artigo na revista Foreign Affairs, quando esta convidou os candidates a candidato a expor suas opiniões sobre política externa.
3. Ah, o candidato acima é na opinião do nosso blogueiro avalizado pelo Estadão “um tanto quanto sofisticado ou impreciso em suas opiniões”.
4. Pat Robertson apoia Giuliani mas o problema dele é que “não conseguiu achar um discurso que seduzisse os republicanos mais arraigados”.
5. E finalmente nosso analista completa com um triunfal “é possível sentir que uma simples continuidade de Bush não é o que os EUA desejam”. Realmente toda essa “profunda” análise do contexto politico das primárias americanas serve para Piza descobrir que o presidente Americano que é desaprovado por pelo menos 60% dos americanos não agrada aos americanos.

Monday, January 14, 2008

Mote e glosa sobre jornalismo cultural

O mote:
“Historicamente ligado à academia, o jornalismo cultural brasileiro durante muitas décadas foi feito exclusivamente de (e para) doutores, que utilizavam as páginas dos jornais para falar de suas teses a respeito de determinado autor ou livro. Para isso dispunham de espaço quase que ilimitado, totalmente fora dos padrões do jornalismo atual, onde o número de caracteres (toques) de cada texto é rigorosamente calculado e perde cada vez mais espaço para a publicidade. A linguagem acadêmica dos textos, por vezes hermética, era também um fator que afastava o leitor "comum" dos suplementos de cultura, tornando o espaço um nicho exclusivo de letrados. Símbolo de ruptura desse modelo, o caderno "Mais!", lançado em 1992 pela Folha de São Paulo, rompeu com o formato acadêmico dos suplementos, que desde os anos 1950 — época em que surgia a "Ilustrada" —, eram feitos exclusivamente por gente da academia. Produto direto da transformação gráfica e editorial empreendida pelo "Projeto Editorial da Folha" (1985-86), o "Mais!" substituiu o "Folhetim", caderno dominical que circulou até 1989 e que mantinha características dos primeiros suplementos: poucas fotos, predominância do preto-e-branco, projeto gráfico sofrível e textos longuíssimos, que não raras vezes preenchiam todo o espaço físico do jornal, de ponta a ponta.
O "Mais!" apostou em um jornalismo leve, que além de literatura contemplasse outros temas como sociologia, antropologia, história e artes plásticas. Tudo isso em textos enxutos — quando comparados aos cadernos anteriores — que dessem cabo à diversidade de opiniões. Os acadêmicos passaram então a dividir espaço com escritores, repórteres e críticos desvinculados das universidades, tendo que adaptar seus textos a um novo padrão, bem menos denso e mais acessível do ponto de vista da linguagem.”

O texto integral [de Luis Rebinski Júnior] se encontra em http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=2439

A glosa:
Vou tentar ser “conciso”, “rápido“ e “fácil”:
1. Quem é esse leitor “comum” que parece ser compreendido como o oposto desse outro ser misterioso, o “letrado”? O sujeito que lê o caderno de cultura afinal de contas não é mais letrado? Então para quê ele lê o caderno de cultura?
2. Um texto “menos denso” é o quê? Menos idéias por centímetro quadrado de papel? A falta de densidade não parece uma perda do tal precioso e escasso tempo desses curiosos leitores “comuns”?
3. E o tal novo texto além de ter que ser “conciso”, precisa também ser “menos denso”…
Um texto “conciso” e “menos denso” é o equivalente para mim a uma sopa bem aguada servida numa taça de café. Esse jornalismo cultural “mais acessível”, “de leitura fácil e rápida”, não passa de um engodo de gente que se acha inteligente e culta, mas não tem tempo para ler nem o caderno de cultura do domingo, quanto mais um livro inteiro quanto mais uma mísera dúzia de livros por ano.

Obs. Nada tenho contra o Rebinski, que escreveu um artigo informativo sobre o assunto. Fico ainda sem saber qual é a opinião pessoal dele sobre o assunto. A minha opinião [é preciso ser mais claro talvez] é que nem antes nem agora os suplementos de cultura estavam ao nível da cultura brasileira, mas agora eles são ainda piores.

Saturday, January 12, 2008

Os representantes das massas populares

Os representantes das massas populares

têm pressa, eles têm medo,
comem cru, comem azedo,
não sabem, nem querem saber
e não se encontram no momento.

Friday, January 11, 2008

Um conto/poema em prosa de Julio Torri

Esse é para fazer refletir quem acha que artifício e sinceridade são opostos perfeitos...


O mal ator de suas emoções
Julio Torri


E ele chegou à montanha onde vivia o ancião. Seus pés estavam ensangüentados por causa das pedras no caminho e o brilho dos seus olhos manchado pelo desalento e pelo cansaço.
- Senhor, sete anos se passaram desde que vim pedir-lhe conselho. Os varões dos mais remotos países louvavam sua santidade e sua sabedoria. Cheio de fé escutei as suas palavras: “ouve a teu próprio coração, e o amor que tenhas por teus irmãos não ocultes.” E desde então não encobria minhas paixões aos homens. Meu coração foi para eles como guia em águas claras. Mas a graça de Deus não desceu sobre mim. As mostras de amor que dei a meus irmãos, eles as tomaram por fingimento. E veja então como a solidão obscureceu o meu caminho.
O ermitão o beijou três vezes na testa; um leve sorriso iluminou a sua face e ele disse:
- Encobre o amor que tenhas a teus irmãos e dissimula tuas paixões ante os homens, porque és, meu filho, um mal ator de tuas emoções.


El mal actor de sus emociones
Julio Torri

Y llegó a la montaña donde moraba el anciano. sus pies estaban ensangrentados de los guijarros del camino, y empañado el fulgor de sus ojos por el desaliento y el cansancio.
- Señor, siete años ha que vine a pedirte consejo. Los varones de los más remotos países alaban tu santidad y tu sabiduría. Lleno de fe escuché tus palabras: “Oye tu propio corazón, y el amor que tengas a tus hermanos no lo celes.” Y desde entonces no encubría mis pasiones a los hombres. Mi corazón fue para ellos como guía en agua clara. Mas la gracia de Dios no descendió sobre mí. Las muestras de amor que hice a mis hermanos las tuvieron por fingimiento. Y he aquí que la soledad oscureció mi camino.
El ermitaño le besó tres veces en la frente; una leve sonrisa alumbró su semblante, y dijo:
-Encubre a tus hermanos el amor que les tengas y disimula tus pasiones ante los hombres, porque eres, hijo mío, un mal actor de tus emociones.

Source: http://es.geocities.com/silviafpriego/mal_actor_de_sus_emociones.htm

Wednesday, January 09, 2008

Resenha: Herdando uma bilbioteca – Miguel Sanches Neto

A importância da crônica na literatura brasileira não é fruto do acaso, muito menos de alguma afinidade natural entre a nossa cultura e o gênero. A crônica é tão presente entre nós porque os escritores brasileiros precisam complementar seus ganhos escrevendo para jornais e revistas. O gênero e a imprensa estão intimamente ligados desde quando o formato clássico da crônica consolidou-se nas páginas dos jornais no século XIX.
As “Familiar Essays” Vitorianas, por exemplo, eram mais longas, mas já entremeavam reflexões e narrativas despretensiosas buscando a cumplicidade dos leitores com um tom informal e ameno de conversa entre amigos. Desse formato clássico vem uma impressão de facilidade que é enganosa. Pode não ser muito difícil produzir crônicas feitas na medida para sobreviver um dia ou semana até virarem forro de gaiola de passarinho, mas são poucos os cronistas que se alçam acima da média e realmente merecem uma edição posterior em livro.
Esse é o caso de Miguel Sanches Neto: seu Herdando uma biblioteca é todo composto de crônicas que giram em torno do hábito da leitura e de colecionar livros. Um dos temas centrais do livro já aparecia num clássico inglês do gênero: “Old China” de Charles Lamb. Sanches Neto e Lamb refletem sobre a paixão de colecionador e sua relação com o objeto amado, comparando os tempos de vacas magras - quando cada peça nova era uma grande conquista a ser celebrada intensamente - com a relativa fartura e facilidade atuais.
As crônicas de Herdando uma biblioteca se elevam acima da média ao deixar de lado o abuso do lugar comum e a condescendência do autor para consigo mesmo e para com o leitor, evitando assim desembocar no sentimentalismo pequeno-burguês ou no saudosismo piegas que estragam grande parte das crônicas de jornal. Além disso, Sanches Neto evita o autocentramento excessivo que uma coleção de crônicas autobiográficas sugeriria e escapa, por exemplo, à tentação de pintar com cores excessivamente dramáticas as dificuldades da sua infância pobre no interior do Paraná.
Mas há quem fuja dessas armadilhas para cair em outras piores. Em tempos de muita estridência e pouca consistência, cronistas com espaço privilegiado na imprensa hoje em dia martelam os leitores com um polemicismo apelativo, fazendo espalhafato por nada de verdadeiramente interessante. É uma agressividade que nada tem de novo: poderíamos chamá-la de complexo de mazombo, algo que aflige nossa classe pensante desde os tempos de Gregório de Mattos na Bahia colonial. Seu empenho é dado pelo ressentimento de quem se acha melhor que o lugar onde vive e se sente vítima de um ambiente que não lhe permite desenvolver as suas potencialidades e o tom é sempre de pessimismo e desencanto, oscilando entre o sentimento de superioridade em relação ao país e ao povo e o complexo de inferioridade em relação ao primeiro mundo.
Sanches Neto navega esse campo minado entre bonachões e histéricos sem apelações nem concessões, fazendo com que a despretensão da crônica trabalhe a seu favor. Quando defende o roubo ocasional de um livro de biblioteca (“Herdando uma Biblioteca II”) ou sugere como contornar o maremoto de informações inúteis que ameaça nos sufocar (“Da arte de ler jornais”), ele o faz sem agressividade gratuita nem moralismo raivoso. Trata de livros e leitura sem esconder o seu amor incondicional pelos dois, mas também sem apelar para as estridências de praxe contra nosso analfabetismo crônico ou nossa falta de amor pelos livros e pela leitura em geral. De quebra, Herdando uma biblioteca consegue um feito admirável: ser um livro de crônicas que tem unidade temática sem se tornar repetitivo – fruto de uma revisão cuidadosa, incomum em coleções de textos esparsos, que evita repetições desnecessárias.

Tuesday, January 08, 2008

Poesia Mexicana - Carlos Pellicer

Carlos Pellicer aprende a ser moderno com Tablada e trabalha como secretario Jose Vasconcelos [de Raza Cosmica]. Pellicer escreve muiuto sobre a luminosadade e o mundo concreto que ele admira e observa. Não é um poeta da subjetividade, mas também não é um poeta seco que recusa a subjetividade. E tem um grande domínio da língua, um prazer quase palpável com a linguagem.

RECINTO

ESTUDIOS
I
Relojes descompuestos,
voluntarios caminos
sobre la música del tiempo.
Hora y veinte.
Gracias a vuestro
paso
lento,
llego a las citas mucho después
y así me doy todo a las máquinas
gigantescas y translúcidas del silencio.

II
Diez kilómetros sobre la vía
de un tren retrasado.

El paisaje crece
dividido de telegramas.

Las noticias van a tener tiempo
de cambiar de camisa.

La juventud se prolonga diez minutos,
el ojo caza tres sonrisas.

Kilo de panoramas
pagado con el tiempo
que se gana
perdiendo.

III
Las horas se adelgazan;
de una salen diez.
Es el Trópico,
prodigioso y funesto.
Nadie sabe qué hora es.


II
Que se cierre esa puerta
que no me deja estar a solas con tus besos.
Que se cierre esa puerta
por donde campos, sol y rosas quieren vernos.
Esa puerta por donde
la cal azul de los pilares entra
a mirar como niños maliciosos
la timidez de nuestras caricias
que no se dan porque la puerta, abierta…

Por razones serenas
pasamos largo tiempo a puerta abierta.
Y arriesgado es besarse
y oprimirse las manos, ni siquiera
mirarse demasiado, ni siquiera
callar en buena lid…

Pero en la noche
la puerta se echa encima de sí misma
y se cierra tan ciega y claramente,
que nos sentimos ya, tú y yo, en campo abierto
escogiendo caricias como joyas
ocultas en las noches con jardines
puestos en las rodillas de los montes,
pero solos, tú y yo.

La mórbida penumbra
enlaza nuestros cuerpos y saquea
mi ternura tesoro,
la fuerza de mis brazos que te agobian
tan dulcemente, el gran beso insaciable
que se bebe a sí mismo
y en su espacio redime
lo pequeño de ilímites distancias…

Dichosa puerta que nos acompañas,
cerrada, en nuestra dicha. Tu obstrucción
es la liberación destas dos cárceles;
la escapatoria de las dos pisadas
idénticas que saltan a la nube
de la que se regresa en la mañana.

Monday, January 07, 2008

Popularidade e Qualidade I

Tudo o que presta não tem popularidade; o que mobiliza corações e mentes das massas urbanas ou suburbanas empobrecidas ou remediadas é necessariamente uma porcaria. Paulo Coelho faz sucesso porque é ruim, mal escrito, superficial. Lavoura Arcaica não vende nem um centésimo porque é bom. Essa é uma equação elitista furada que não é furada porque é elitista; é furada porque qualidade e popularidade não estão relacionadas dessa maneira. Umberto Eco explica isso com muito mais clareza quando fala de pessoas que querem estar sempre contra a moda e terminam tão dirigidas pela moda quando os outros que a seguem fielmente. Popularidade e qualidade não estão relacionadas de maneira alguma e essa equação é mais uma das várias maneiras de escamotear a questão da qualidade, dar-lhe um parâmetro de julgamento muito mais fácil, já que aferir a popularidade de um programa de TV, livro, revista ou blogue é coisa simples de se fazer. Podemos debater dias e dias sobre quem é melhor poeta, Drummond ou Cabral, mas para saber qual dos dois é o mais popular basta consultar os números das respectivas editoras. Tão ridículo quando o imbecil que diz que sua novela não pode ser tão ruim quanto dizem os críticos já que milhões de pessoas se sentam em seus sofás noite após noite, é o sujeito que acha que sua peça de teatro é uma maravilha porque quase ninguém vai vê-la e quem vai, sai no meio do espetáculo. Aliás a prova cabal da falsidade da equação que propõe qualidade e popularidade como valores inversamente proporcionais está no fato de muita coisa não vende nada, não tem a menor popularidade e é muito ruim.
Resta então entender: porque diabos coisas ruins como os romances de Paulo Coelho e as novelas de televisão são tão populares?
Aguardem o próximo capítulo...

Teoria?

Teoria literária deveria sempre ser escrita em forma de poema CURTO [quanto mais curto melhor]. Melhor que prescrever é dar o exemplo: outro dia estava eu tomando uma xícara de chá admirando a paisagem gelada do inverno desse meu exílio voluntário quando vi passar pela neve suja da rua um espectro que identifiquei como - melhor não dizer aqui o seu nome ignóbil. Escrevi então em sua homenagem esse breve poema contemplativo:


Uma máquina verbal que proíbe
e sanciona
e assim configura o possível.

Friday, January 04, 2008

Adendo

Um monte de gente detesta poesia hoje em dia, coisa que eu lamento. Mas eu nem acho que isso seja um sinal de qualquer coisa terr�vel, afinal me disseram outro dia que Mao Ts� Tung era um �timo poeta e Hitler parece que realmente gostava muito de Wagner. N�o custa dizer que essas coisas tamb�m n�o servem para denegrir a poesia ou Wagner. Gostar de poesia ou de literatura ou de pintura ou de qualquer forma de arte n�o salva ningu�m de nada, n�o faz ningu�m melhor que ningu�m. N�o � por a�. Quem quiser anunciar as artes como b�lsamos para o esp�rito a moda dos vitorianos que achavam que a “alta cultura” era a �ltima defesa contra as hostes b�rbaras saiba que est� vendendo gato por lebre.

Tuesday, January 01, 2008

Mensagens de ano novo

1. Para quem acha que estudar literatura é inútil eu cito o caso da contadora que denunciou as falcatruas da Enron nos EUA. Formada em literatura e contabilidade ela disse que foi a capacidade de leitura crítica que aprendeu em ciências humanas que a despertou para uma leitura mais desconfiada dos livros de contabilidade da quadrilha de Kenneth Lay.
2. Para quem simplesmente não gosta de poesia eu simplesmente digo: vocês não sabem o que estão perdendo. Há muita poesia horrível no mundo, eu confesso [poemas curtos horríveis são facéis de fazer, principalmente em comparação a um romance horrível, que por mais horrível que seja, leva meses de trabalho de datilografia]. Mas um bom poema é como um bom conto ou um bom romance e talvez até mais - você pode ler um bom livro de poesia em uma tarde e depois ficar relendo e repensando cada poema do livro o resto do ano. Mas poesia a gente deveria sempre ler em conjunto!
3. Para quem não gosta do Brasil: o Brasil está mesmo muito longe de ser uma maravilha, mas isso não quer dizer que o Brasil não tenha muito o que ensinar ao resto do mundo - eles não querem aprender porque o mundo inteiro está ocupado demais copiando os EUA, inclusive nós mesmos. Odiar o Brasil simplesmente não muda nem melhora nada, nem mesmo a capacidade crítica do indivíduo indignado. O que mais nos falta é justamente crítica inteligente...