Monday, January 07, 2008

Popularidade e Qualidade I

Tudo o que presta não tem popularidade; o que mobiliza corações e mentes das massas urbanas ou suburbanas empobrecidas ou remediadas é necessariamente uma porcaria. Paulo Coelho faz sucesso porque é ruim, mal escrito, superficial. Lavoura Arcaica não vende nem um centésimo porque é bom. Essa é uma equação elitista furada que não é furada porque é elitista; é furada porque qualidade e popularidade não estão relacionadas dessa maneira. Umberto Eco explica isso com muito mais clareza quando fala de pessoas que querem estar sempre contra a moda e terminam tão dirigidas pela moda quando os outros que a seguem fielmente. Popularidade e qualidade não estão relacionadas de maneira alguma e essa equação é mais uma das várias maneiras de escamotear a questão da qualidade, dar-lhe um parâmetro de julgamento muito mais fácil, já que aferir a popularidade de um programa de TV, livro, revista ou blogue é coisa simples de se fazer. Podemos debater dias e dias sobre quem é melhor poeta, Drummond ou Cabral, mas para saber qual dos dois é o mais popular basta consultar os números das respectivas editoras. Tão ridículo quando o imbecil que diz que sua novela não pode ser tão ruim quanto dizem os críticos já que milhões de pessoas se sentam em seus sofás noite após noite, é o sujeito que acha que sua peça de teatro é uma maravilha porque quase ninguém vai vê-la e quem vai, sai no meio do espetáculo. Aliás a prova cabal da falsidade da equação que propõe qualidade e popularidade como valores inversamente proporcionais está no fato de muita coisa não vende nada, não tem a menor popularidade e é muito ruim.
Resta então entender: porque diabos coisas ruins como os romances de Paulo Coelho e as novelas de televisão são tão populares?
Aguardem o próximo capítulo...

2 comments:

Djabal said...

Coloque uma pitada de conteúdo artístico e as coisas fluirão mais claramente.
Hoje em dia todos escrevem porque não há necessidade de atender ao critério artístco para tanto. Para esclarecer os pontos cegos de nossa existência. E esse fator limitante restringia aqueles que queriam ser 'artistas', só os que atendiam algo desse critério eram lidos com atenção e interesse.
Hoje se escreve sobre sentimentos. Ora todos temos sentimentos portanto, todos somos escritores.
Ficou estremamente fácil ser artista. Vamos ser também?
Abraços.

Paulodaluzmoreira said...

Djabal, não sei se entendi exatamente o que vc quis dizer, mas para mim está aí um outro ponto cego como o que comentei no post. Escrever sobre sentimentos não é tão fácil quanto parece, afinal não basta simplesmente ter sentimentos - é preciso saber como escrever. Aliás eu acho que dá para escrever até sobre sentimentos que a gente não tem, mas é preciso saber como fazer e o buraco da escrita é muito, mas muito mais embaixo do que muita gente pensa. É muito difícil, toma tempo, energia intelectual e emocional, concentração, amor pelo ofício e muita leitura.
Abs.