Sunday, March 31, 2013

Agruras

Essa jóia de José Emilio Pacheco é para quem já escreveu [ou tentou escrever] um livro como o que estou escrevendo agorinha:


La maleza y la la sombra
En torno de una idea original
difunde su maleza la retórica,
su óxido fatigado la repetición,
su tormenta de vaho el paso en falso.

En torno de una idea original
hay una muchedumbre de lugares comunes,
frases mal construidas, expresiones
que no ajustaron con el pensamiento.

En torno de una idea original
crece la sombra y la aridez se agolpa.
Irás y no volverás, 1969-1972

Foto da Maleza [mato], tampando o riachinho na beira da estrada. Escrever repetindo-se é tomar o chão batido da estrada. Escrever sem se repetir é arriscar-se numa embranhada perigosa no mato. A rapadura é doce, mas é dura!

Algumas perguntas safadas sobre o vernáculo tupiniquim como praticado na imprensa nos dias de hoje




1.    UNIVERSITÁRIO. (S.) Por que é que nunca leio uma manchete do tipo “Analfabeto Assalta Loteria” ou “Traficante com Segundo Grau Completo é Preso no Aeroporto” mas percebo com insistência notícias sobre “universitários” suspeitos de atividades criminosas?

2.    UNIVERSITÁRIO (ADJ.) Ainda sobre o mesmo termo adjetivo agora não substantivado, por que é que esse tal estilo musical se chama “Sertanejo Universitário”? Existe “Pagode Analfabeto Funcional”? “Forró Doutorando”? “Axé da Secundária”?

3.    MUSA (S.) Outro termo me intriga: “musa”. Musa da Novela, Musa do Futebol, Musa do Karatê, Musa do Tribunal, Musa da CPI… Serão elas chamadas de musas por serem inspiração à arte do onanismo? Não seria mais honesto chamá-las de “A Gostosona da Olimpíada” ou qualquer coisa assim?  

4.    BUM-BUM (S.) Ainda me intriga também o uso constante da palavra “bum-bum” em textos de jornalismo onde se comenta a anatomia do traseiro de alguém – poderia-se perguntar porque escreve-se tanto sobre os traseiros das pessoas mas isso não é pergunta que se faça – sexo e morte vendem papel desde que o mesmo começou a ser impresso com letrinhas ou desenhos humanos. Esse termo me surpreende porque sempre me soa infantilizado. É um termo que você talvez use com crianças ou entre crianças pequenas mas não para conversar entre adultos. Por que que ao comentar a anatomia feminina os jornalistas preferem “bum-bum” para a bunda mas optam pelo mais formal e adulto “seios” para o que eles deveriam então chamar de “mamá”?

Saturday, March 30, 2013

Sob o efeito nocivo da penicilina

Mas cuidado com os efeitos deletérios da pílula de mofo...
 1. O local onde ficava o principal palco do movimento punk em Nova Iorque [CBGB] hoje abriga uma boutique que vende jaquetas de couro de alta costura [sem tachinhas] por mais de dois mil dólares.

2. O Museu de Arte Metropolitan em Nova Iorque está promov
endo uma exposição sobre moda punk. Os shows sobre moda estão entre os mais bem sucedidos do museu nos últimos anos e a expectativa é a de mais um grande sucesso de público.

O primeiro impulso é seguir a corrente geral: fazer a crítica moralista, apontando para a falsidade dos valores do movimento punk ou para o oportunismo dos traidores do movimento. Mas quando eu leio coisas assim, seja sobre Roquenrrol ou o PT ou o movimento hip-hop, minha vontade é parar na terceira linha. Não porque não exista aí alguma verdade, mas porque o moralismo é de uma chatice infinita.
Eu me recuso terminantemente a colocar o que seja no lugar da santíssima trindade que eu recusei aos doze anos na frente de todos os meus colegas no colégio jesuíta num breve momento de notoriedade que felizmente não durou nem quinze minutos. Nem poesia, nem literatura, nem revolução, nem roque, nem arte, nem modernismo, nem vanguarda, nem transgressão. Chega de ficar rezando para esses cadáveres do século passado em busca de uma ilusão de redenção. E chega de ficar chorando pelo fim dessa meleca toda.  E principalmente chega de colocar a inteligência no piloto automático!

Essa tal penicilina me dá um mal-humor insuportável...

Friday, March 29, 2013

Leituras durante a gripe

"I am among those few people who have constantly drawn attention to this: you must (and you must do it well) put philosophers’ biographies back in the picture, and the commitments, particularly political commitments, that they sign in their own names, whether in relation to Heidegger or equally to Hegel, Freud, Nietzsche, Sartre, or Blanchot, and so on."
Derrida citado em interessante resenha da biografia dele escrita por Benoît Peeters que você pode ler aqui.

“Crise” hoje em dia significa simplesmente “você deve obedecer!”. Creio que seja evidente para todos que a chamada “crise” já dura decênios e nada mais é senão o modo normal como funciona o capitalismo em nosso tempo. E se trata de um funcionamento que nada tem de racional.
“O capitalismo é uma religião, e a mais feroz, implacável e irracional religião que jamais existiu, porque não conhece nem redenção nem trégua. Ela celebra um culto ininterrupto cuja liturgia é o trabalho e cujo objeto é o dinheiro”
Agamben em entrevista aqui.


Wednesday, March 27, 2013

Escavando notas: procurando os Bernardellis


Oxford dictionary of dance - Le Violon du Diable
Ballet in two acts with choreography and libretto by Saint-Léon, music by Pugni, sets by Despléchin and Thierry, and costumes by Lormier. Premiered 19 Jan. 1849 at the Paris Opera, with Cerrito and Saint-Léon. In the ballet, a retelling of the Faustian legend, the young violinist Urbain is in love with Hélène and allows the sinister Doctor Matheus (Satan in disguise) to bewitch his violin so that its beautiful sound will win over the reluctant Hélène. When Matheus comes to claim the violinist's soul, Urbain refuses. The ballet ends happily when Urbain is delivered from evil and the lovers are united. At the ballet's premiere Saint-Léon played the violin as well as dancing the role of Urbain.

Tuesday, March 26, 2013

Poesia Mexicana: José Emilio Pacheco em três momentos


Manifiesto
Todos somos “poetas de transición”:
La poesía jamás se queda inmóvil.
Irás y no volverás, 1973 

Foto minha: da série "Pedras"

Antiguos compañeros se reúnen
Ya somos todo aquello
Contra lo que luchamos a los veinte años.
Desde entonces, 1975-1978


Los mares del sur
Felicidad de estar aquí en esta playa
aún sin Milton ni Sheraton.
Arena como al principio de la creación, victoria
de la existencia. Mira cómo salen
del cascarón las tortuguitas.

Observa cómo avanzan sobre la playa ardiente
hacia el mar que es la vida y nos dio la vida.
Prueba esta agua fresquísima del pozo.
No comeremos ni siquiera almejas
por no pensar en nada que recuerde la muerte.

Los paraísos duran un instante.

Llegan las aves, bajan en picada
y hacen vuelos raspantes y se elevan
con la presa en el pico: las tortugas
recién nacidas. Ya no son gaviotas:
es la Luftwaffe sobre Varsovia.

Con que angustia se arrastran hacia la orilla,
víctimas sin más culpa que haber nacido.
Diez entre mil alcanzarán la orilla.
Las demás serán devoradas.

Que otros llamen a esto de selección natural,
equilibrio de las especies.

Para mi es el horror del mundo.
Ciudad de la memoria, 1986-1989

Sunday, March 24, 2013

Artistas Mexicanos Contemporâneos no Brasil

Gabriel Orozco fez "Turista Maluco" na Bahia

Damián Ortega fez essa instalação do lado de fora da Bienal de São Paulo

Dr. Lakra fez essa obra num velho poster de Getúlio Vargas

Friday, March 22, 2013

Sobre dor de cotovelo ou canções de dor de corno: "Sara" de Bob Dylan

Várias canções do sensacional Blood on Tracks parecem se referir à separação de Bob Dylan da sua esposa depois de 12 anos de casamento. “You’re a Big Girl Now,” “Idiot Wind,” e “Shelter From the Storm” são dignas daqueles Chico Buarques mais tristes.
Agora, "Sara" [nome da sua ex-esposa] é outra história. Imagine que um desses barangos de música sertaneja caísse num caldeirão de LSD e lesse Drummond e Bandeira por três anos todos os dias. Depois imagine que esse tal Frankenstein sertanejo tomasse um pé na bunda da esposa depois de 12 anos de casado. O resultado seria “Sara”:
Sara
Bob Dylan

I lay on a dune, I looked at the sky,
When the children were babies and played on the beach.
You came up behind me, I saw you go by,
You were always so close and still within reach.

Sara, Sara,
Whatever made you want to change your mind?
Sara, Sara,
So easy to look at, so hard to define.

I can still see them playin' with their pails in the sand,
They run to the water their buckets to fill.
I can still see the shells fallin' out of their hands
As they follow each other back up the hill.

Sara, Sara,
Sweet virgin angel, sweet love of my life,
Sara, Sara,
Radiant jewel, mystical wife.

Sleepin' in the woods by a fire in the night,
Drinkin' white rum in a Portugal bar,
Them playin' leapfrog and hearin' about Snow White,
You in the marketplace in Savanna-la-Mar.

Sara, Sara,
It's all so clear, I could never forget,
Sara, Sara,
Lovin' you is the one thing I'll never regret.

I can still hear the sounds of those Methodist bells,
I'd taken the cure and had just gotten through,
Stayin' up for days in the Chelsea Hotel,
Writin' "Sad-Eyed Lady of the Lowlands" for you.

Sara, Sara,
Wherever we travel we're never apart.
Sara, oh Sara,
Beautiful lady, so dear to my heart.

How did I meet you? I don't know.
A messenger sent me in a tropical storm.
You were there in the winter, moonlight on the snow
And on Lily Pond Lane when the weather was warm.

Sara, oh Sara,
Scorpio Sphinx in a calico dress,
Sara, Sara,
You must forgive me my unworthiness.

Now the beach is deserted except for some kelp
And a piece of an old ship that lies on the shore.
You always responded when I needed your help,
You gimme a map and a key to your door.

Sara, oh Sara,
Glamorous nymph with an arrow and bow,
Sara, oh Sara,
Don't ever leave me, don't ever go.


Pediram à cantora Jessica Pratt escrevesse aqui sobre sua canção de amor favorita e ela escolheu "Sara" e disse o seguinte:
“’Sara’ has always stuck out in my mind as one of the most gut-wrenching love songs of all time. It’s a deeply personal song that comes as a sober closer to a fantastical, dream-like album with songs about boxers, mob bosses, mythical brides, lovers and outlaws in Mexico. With forlorn lyrics about lost domestic bliss, Dylan reveals intimate moments from an entire relationship, as though the whole thing’s flashing before his eyes. There’s something about the song’s biographical nature that makes it all the more painful, and with that legendary line, stayin’ up for days in the Chelsea Hotel writing “Sad-Eyed Lady of the Lowlands” for you, he references a love song he had written for the same women nearly 10 years earlier. His plea feels genuine, but there’s an element of guilt and sappiness to his tone that gives you the impression he knows he doesn’t deserve her anymore. In the end, it’s the futility of his words that make each howling refrain of her name turn the knife a little deeper. It’s harrowing to witness the desperation of a man who put so much work into remaining mysterious bare his anguish to the world in one last grand gesture to keep the woman he loves.”

Eu prossigo com a minha tese: esse é um clássico de fossa brega!

Thursday, March 21, 2013

Sor Juana escreve enigmas


Eles foram escritos para um  grupo de freiras ilustradas portuguesas que faziam parte da "Asamblea de la Casa del Placer" e são, até hoje, os últimos versos de sor Juana Inés de la Cruz. Eu, que adoro redondilhas, adorei:

 
¿Cuál es aquella homicida
que, piadosamente ingrata,
siempre en cuanto vive, mata,
y muere cuando da vida?

¿Cuál será aquella aflicción
que, con igual tiranía,
es callarla cobardía,
decirla desatención ?

¿Cuál puede ser el dolor
de efecto tan desigual;
que, siendo en sí el mayor mal,
remedia otro mal mayor?

¿Cuál es la sirena atroz
que en dulces ecos veloces
muestra el seguro en sus voces,
guarda el peligro en su voz?

¿Cuál puede ser el cuidado
que, libremente imperioso,
se hace a símismo dichoso
y a sí mismo desdichado?

¿Cuál es aquella deidad
que con tan ciega ambición,
cautivando la razón,
toda se hace libertad?

¿ Cuál será aquella pasión
que no merece piedad,
peligra en necedad
por ser toda obstinación?

¿Cuál puede ser el intento
que, con hipócrita acción,
por sendas de recreación,
va caminando al tormen to?

¿Cuál será la idolatría
de tan alta potestad
que hace el ruego indignidad,
la esperanza grosería?

¿Cuál será aquella expresión
que cuando el dolor provoca,
antes de voz en la boca,
hace eco en el corazón?

¿Cuáles serán los despojos
que, al sentir algún despecho,
siendo tormen ta en el pecho,
es desahogo en los ojos?

¿Cuál puede ser el favor
que, por oculta virtud
si se logra es inquietud,
y si se espera es temor?

¿Cuál es la temeridad
de tan alta presunción
que, pudiendo ser razón,
pretende ser necedad?

¿Cuál el dolor puede ser
que en repetido llorar
es su remedio cegal;
siendo su achaque no ver?

¿Cuál es aquella atención
que con humilde denuedo,
defendido con el miedo
da esfuerzos a la razón?

¿Cuál es aquel arrebol
de jurisdicción tan bella
que, inclinando como estrella,
desalumbra como sol?

¿Cuál es aquel atrevido
que, indecentemen te osado,
fuera respeto callado,
y es agravio proferido?

¿Cuál podrá ser el portento
de tan noble calidad
que es con ojos ceguedad
y sin vista entendimiento?

¿Cuál es aquella deidad
que, con medrosa quietud,
no conserva la virtud
sin favor de la maldad?

¿Cuál es el desasosiego
que, traidoramen te aleve,
siendo su origen la nieve
es su descendencia el fuego?

Wednesday, March 20, 2013

Brasil e México em tempos de colônia: sobre as finezas do amor

Sor Juana Inês de la Cruz se meteu em uma tremenda encrenca com a sua “Carta Atenagórica,” uma crítica contundente ao sermão de Antonio Vieira que citei no ultimo post. A verdade é que, neste caso, Vieira encontrou, em espanhol, uma “fera” tão boa quanto ele no manejo das palavras. Sor Juana e Vieira fala sobre a natureza do amor e suas “finezas” e o raciocínio da freira Mexicana  sobre qual teria a maior fineza de Cristo é preciso como uma faca que acabou de ser afiada:

Luego para ser del todo grande una fineza ha de tener costos al amante y utilidades al amado. Pues pregunto, ¿cuál fineza para Cristo más costosa que morir? ¿Cuál más útil para el hombre que la Redención que resultó de su muerte? Luego es, por ambos términos, la mayor fineza morir.”

E depois mais tarde:

“Es el amor de Cristo muy al revés del de los hombres. Los hombres quieren la correspondencia porque es bien propio suyo; Cristo quiere esa misma correspondencia para bien ajeno, que es el de los propios hombres. A mi parecer el autor anduvo muy cerca de este punto, pero equivocólo y dijo lo contrario; porque, viendo a Cristo desinteresado, se persuadió a que no quería ser correspondido. Y es que no dio el autor distinción entre correspondencia y utilidad de la correspondencia. Y esto último es lo que Cristo renunció, no la correspondencia. Y así, la proposición del autor es que Cristo no quiso la correspondencia para sí sino para los hombres. La mía es que Cristo quiso la correspondencia para sí, pero la utilidad que resulta de esa correspondencia la quiso para los hombres.”


Imagens: Juana ainda jovenzinha [já com um livro na mão) e Juana já freira [na biblioteca que eu não sei mas gosto de imaginar que estava no magnífico claustro onde ela viveu, hoje sede de uma excelente universidade Mexicana.




Monday, March 18, 2013

Escadas de Jacó

“Duas coisas viu Jacó no que viu, que muito e com muita razão lhe assombraram, não a vista, senão o entendimento. E quais foram? A primeira que, sendo a escada para descer Deus, a descida era muito maior que a escada. Pois a descida maior que a escada? Sim. Porque a escada chegava da terra ao céu, que é distância limitada, e a descida era de Deus ao homem, que é distância infinita. E vendo unir dois extremos infinitamente distantes, quem, ainda estando muito em si, não ficaria atônito e assombrado? A segunda causa, e não menor, do mesmo assombro, foi que por meio da Encarnação do Verbo, assim revelada a Jacó, vinha a conseguir muito mais o menor anjo do que a soberba de Lúcifer tinha afetado. Porque Lúcifer quis ser igual a Deus, e fazendo-se Deus homem, ficava Deus por este lado sendo inferior ao menor anjo.”
Antônio Vieira, Sermão do Mandato de 1655, manhã 

Nessa escada eu subi e é a melhor tradução em pedra dessa ideia doida que é a tal escada de Jacó...
 

Friday, March 15, 2013

Somos muchos aunque seamos tan pocos


Arte Minha: s_mething is m_ssing
"—Ya ves, todo esto no sirve de nada —dijo el escultor, barriendo el aire con un brazo tendido—. No sirve de nada, Noemí, yo me paso meses haciendo estas mierdas, vos escribís libros, esa mujer denuncia atrocidades, vamos a congresos y a mesas redondas para protestar, casi llegamos a creer que las cosas están cambiando, y entonces te bastan dos minutos de lectura para comprender de nuevo la verdad, para...
            —Sh, yo también pienso cosas así en el momento —le dije con la rabia de tener que decirlo—. Pero si las aceptara sería como mandarles a ellos un telegrama de adhesión, y además lo sabes muy bien, mañana te levantarás y al rato estarás modelando otra escultura y sabrás que yo estoy delante de mi máquina y pensarás que somos muchos aunque seamos tan pocos, y que la disparidad de fuerzas no es ni será nunca una razón para callarse. Fin del sermón. ¿Acabaste de leer? Tengo que irme, che."

Trecho de "Recortes de Prensa" de Julio Cortázar

Thursday, March 14, 2013

Poesia minha: A paz do momento

Foto Minha: Acordando com a primavera

A paz do momento

Por baixo da casca
folhada de gelo
as águas escuras
assentam o limo
nas pedras do fundo.

Em profundo silêncio
o nada conspira
contra a paz do momento.

No jardim devastado
do fim do outono
enterrei uma dúzia
de tulipas e lírios.
Dormem em silêncio
o inverno inteiro
até o primeiro degelo.

Depois da tempestade
juntei e cortei sozinho
todos os galhos quebrados.
Queimei-os na lareira da sala,
deixei que as cinzas esfriassem,
juntei as cinzas num saco
e levei de volta ao jardim.

Cortei meu dedo,
o sangue açucara
por cima do corte
onde dorme a cicatriz
fresca no casulo.

Salpicadas aos poucos
as cinzas flutuam
no espelho d’água
um instante antes
de se dissolver.

Tuesday, March 12, 2013

todavía hablan del mercado del arte como si fuera el diablo: es como culpar al mar de que te ahogaste


Reflexão do artista mexicano Gabriel Orozco sobre o mercado:

“El mercado es una arena donde se desenvuelve el individuo en función de su ideología, sus intereses, sus valores. El mercado no tiene la culpa. Muchos en México todavía hablan del mercado del arte como si fuera el diablo: es como culpar al mar de que te ahogaste. El mercado en realidad es otro espacio del arte, como el museo, la calle o la sala de la casa; otro espacio donde el arte circula públicamente. El mercado tiene un impacto en la vida pública, y así hay que entenderlo, como a las instituciones en general. Las subastas, la especulación, ésa es la parte más vistosa, el show del mercado; pero es mucho más que eso. Hay sobre todo un aspecto del mercado que no ha sido analizado por los teóricos del arte: la manera en que producimos una obra de arte. Y esto es crucial en mi trabajo. Cuánto dinero gastas, qué material utilizas, cómo lo trabajas: desde ahí, hay una actitud particular. Parte de mis exploraciones como artista tienen que ver con esto: la conciencia del sistema económico de producción del objeto artístico, que va a influir no solamente en el resultado estético (si es de oro o de cartón, si es grande o pequeño, si es frágil o resistente, si es impermeable o no lo es…), sino que además va a imponer unas reglas de distribución y de consumo en el mercado cultural y financiero de la obra. La actitud política, económica e ideológica de un artista comienza en el momento en que decide cómo va a ejecutar una obra. Y esto tiene consecuencias incluso en el destino de la pieza, dónde va a terminar: en un museo, en una casa, en una institución pública o en un basurero.”

Entrevista a María Minera em 2006


Gabriel Orozco: Pelota Ponchada, 1993

Monday, March 11, 2013

O que significa ter um filho de 11 anos em 2013?

Desenho: Samuel da Luz, 2013
Samuel está no meio de um processo de duas semanas de testes importantes para ele e para a escola. São exames anuais de matemática e inglês que ele faz duas vezes, uma no começo do ano letivo [que aqui começa em setembro] e outro agora, como que aferindo o quando ele evoluiu nas duas matérias nesse ano.
Gosto de desenhar e ele também, e às vezes empresto meus cadernos para ele fazer um desenho, isso quando ele não usa os seus ou qualquer papel à disposição. Há poucos dias atrás ele desenhou a si mesmo assim: sentado numa carteira de sala de aula, cercado por relógios e um pássaro (que ele diz representar a professora), que fazem círculos em torno dele. Repare que no desenho ele parece ter sido levantado do nível do chão, onde estão vários seres de tamanhos e atitudes diferentes, além de uma caixa e uma casa. Aí na parte de baixo do desenho está o que ele chama de "mundo da imaginação", um mundo só dele, de introspecção e silêncio aqui de fora, mas de alegria, movimento e diversão. Achei particularmente interessante para mim a posição inesperada dos dois mundos, ao contrário do que expressões como "você vive no mundo da lua" ou você vive nas nuvens" sugerem. Isso sem falar nas expressões do mundo da imaginação, que vão da alegria no rostinho redondo, surpressa no gigante e apreensão no serzinho de olhos flutuando no ar.
Durante anos diariamente e hoje em dia de vez em quando, antes de dormir passando a mão no rosto do Samuel, da testa para o nariz, fechando os seus olhos, e sussuro "luz dos meus olhos, luz da minha vida" antes de dar nele um beijo de boa noite. E assim é. 


Foto minha: Samuel da Luz desenhando em NY, 2013

Saturday, March 09, 2013

Escavando Notas: Machado Engajado e México Invadido 4


Os mexicanos, liderados por Benito Juarez, botaram os franceses para correr e fuzilaram Maximiliano, que tinha sido abandonado por seus aliados da Igreja Católica mexicana por não concordar em dar à Igreja Católica o poder desmedido que ela desejava quando apoiou a invasão.  Acredito que essa vitória dos mexicanos garantiu que as novas potências européias (e os Estados Unidos) não fizessem com a América Latina o que fizeram com a África e o Oriente Médio. E a partir daí muita gente no Brasil foi batizada de Juarez em homenagem ao Mexicano. Uma das mais importantes colunas de jornal a favor do republicanismo, de Quintino Bocaiúva, chamava-se "Olhemos para o México".

Anos depois, em Falenas [1870] Machado ainda voltaria aos eventos do reinado de Maximiliano em outro poema, “La Marchesa de Miramar”. Dessa vez ele faz da esposa de Maximiliano, Carlota [que enlouqueceu mesmo de fato], uma heroína trágica a maneira de Dido e imagina o próprio Maximiliano [que tinha só 35 anos quando foi fuzilado] como uma espécie de Macbeth:

“Viúva e moça, agora em vão procuras
No teu plácido asilo o extinto esposo.
Interrogas em vão o céu e as águas.
Apenas surge ensangüentada sombra
Nos teus sonhos de louca, e um grito apenas,
Um soluço profundo reboando
Pela noite do espírito, parece
Os ecos acordar da mocidade.
No entanto, a natureza alegre e viva,
Ostenta o mesmo rosto.
Dissipam-se ambições, impérios morrem.
Passam os homens como pó que o vento
Do chão levanta ou sombras fugitivas.
Transformam-se em ruína o templo e a choça.
Só tu, só tu, eterna natureza,
Imutável, tranqüila,
Como rochedo em meio do oceano,
Vês baquear os séculos.”