Saturday, May 31, 2008

Recomendação: consenso só no paredão

Alexandre Nodari tem um blogue da pesada: inteligente, praticante de uma crítica profunda, além do lugar comum.
Recentemente comentei um post dele e reproduzo minha resposta aqui:
Eu me irrito profundamente quando me vejo quase obrigado a defender esse governo daqueles que se opõe a ele em nome de uma pretensa defesa da ética - defesa que eu tenho certeza que vai se transformar em fumaça no dia em que o PSDB/PFL retomar triunfalmente a Brasília. Minha irritação vem do simples fato de que minhas muitas objeções principais ao governo Lula continuam a ser ignoradas no pretenso "debate político" nacional que vive chafurdado em um udenismo moralista, nos obrigando a falar de honestidade ao invés de falar de ideologia, por exemplo. Uma dessas minhas objeções ignoradas no debate público brasileiro vem desse vergonhoso estelionato eleitoral, que é quase uma regra em um mundo "democrático" que vive uma crise agonizante que todo mundo finge que não vê: governo "gerencial" obedecendo às boas maneiras do consenso de Washington com todos os dogmas neoliberais absolutamente intactos. Basta ver o que aconteceu com o trabalhismo inglês para entender o que aconteceu com o PT de José Dirceu e Lula: rumo ao "centro", rumo ao vazio completo, rumo ao desastre.

Friday, May 30, 2008

Da série profetas do apocalipse

Antiguos compañeros se reúnen
Ya somos todo aquello
Contra lo que luchamos a los veinte años.
José Emilio Pacheco, Desde entonces, 1975-1978

Thursday, May 29, 2008

Ai, São Paulo!

Essa é para os meus companheiros de montanha ou sertão que às vezes babam ovo por São Paulo, sem falar em vários paulistas [paulistanos principalmente] que eu conheço e que, acho que sem saber, vivem babando ovo em si mesmo. Das 4.830 escolas de São Paulo avaliadas pelo Enem no ano passado, a melhor escola da rede ESTADUAL não passa de 913ª posição. Se isso é que é ser do primeiro mundo, Deus nos livre a nós, pobres calangos-fritos do sertão ou da montanha, de tanto “desenvolvimento”…
PS. E isso também não faz de São Paulo nem um pouco pior que o resto do Brasil. Eu não vou cair na armadilha de negar quem acha SP o máximo para cair na furada de achar que SP é pior que o resto do Brasil e especialmente culpado pelas nossas mazelas. Somos mais ou menos iguais, para bem e para mal. Em outras palavras: despeje hoje 200 milhões de dólares em BH, misture bem e minha cidade vira um porcaria igualzinha a SP.

Wednesday, May 28, 2008

Melville no Rio de Janeiro


Melville esteve no Rio de Janeiro em 1843 como marinheiro em uma fragata americana . Publicou em 1850 um livro sobre esse ano em que esteve com a marinha passando pelo Peru e depois ficando um bom tempo no Rio de Janeiro. O livro [White-Jacket] é fácil de achar online. Aqui está só um belo parágrafo em que ele promete não descrever, e descreve, vários lugares do Rio que ainda são familiares a quem conhece a cidade hoje em dia – apesar da ortografia maluca dos nomes, que dão uma idéia de como soa o português aos ouvidos de um estrangeiro.


[…] We lay in Rio some weeks, lazily taking in stores and otherwise preparing for the passage home. But though Rio is one of the most magnificent bays in the world; though the city itself contains many striking objects; and though much might be said of the Sugar Loaf and Signal Hill heights; and the little islet of Lucia; and the fortified Ihla Dos Cobras, or Isle of the Snakes (though the only anacondas and adders now found in the arsenals there are great guns and pistols); and Lord Wood's Nose--a lofty eminence said by seamen to resemble his lordship's conch shell; and the Prays do Flamingo--a noble tract of beach, so called from its having been the resort, in olden times, of those gorgeous birds; and the charming Bay of Botofogo, which, spite of its name, is fragrant as the neighbouring Larangieros, or Valley of the Oranges; and the green Gloria Hill, surmounted by the belfries of the queenly Church of Nossa Senora de Gloria; and the iron-gray Benedictine convent near by; and the fine drive and promenade, Passeo Publico; and the massive arch-over-arch aqueduct, Arcos de Carico; and the Emperor's Palace; and the Empress's Gardens; and the fine Church de Candelaria; and the gilded throne on wheels, drawn by eight silken, silver-belled mules, in which, of pleasant evenings, his Imperial Majesty is driven out of town to his Moorish villa of St. Christova--ay, though much might be said of all this, yet must I forbear, if I may, and adhere to my one proper object, _the world in a man-of-war_.

Tuesday, May 27, 2008

Eu, o “excêntrico”?

Volta e meia eu me sinto um ET. Por exemplo, a gente não pega qualquer tipo de sinal de TV em casa, nem antena nem cabo. Não é que a gente nunca assista televisão, mas aqui a gente só assiste DVDs ou alguma coisa rápida de vez em quando na internet. Novela, jogo de futebol ou jornal de TV só na casa dos outros, ou seja quase nunca.
Também fico completamente fora da média nacional de leitura. Eu realmente adoro ler e dizem que no Brasil é mais fácil alguém arrombar seu carro e levar um par de meias velhas do que um livro novinho.
E agora deu no jornal: pesquisa da UnB com quase 2 mil profissionais brasileiros mostra que 85% das mulheres e 95% dos homens preferem ser liderados por homens no trabalho.
E eu que achava que era brincadeira quando as pessoas me perguntavam se não era difícil trabalhar com mulheres… Foram mulheres a minha orientadora de doutorado e os três membros do meu comitê e é mulher a chefe do meu departamento. Eu gostei, não porque elas são mulheres mas porque elas trabalham bem e eu me afinei, suponho, com o estilo delas.
Mas não me sinto nem um pouco menos brasileiro por causa disso. Talvez não tão típico, mas quem de nós não é atípico em alguma coisa? Conheço brasileiros que não gostam de futebol, brasileiros que não bebem cerveja, brasileiros que são vegetarianos, etc. Eles são tão brasileiros quanto eu, ora bolas. E pobre de um povo que se definisse por sua paixão pela Rede Globo, sua indiferença pelos livros e seu preconceito contra as mulheres…

Sunday, May 25, 2008

Da série grandes filósofos da república


O ABC da política pelo então ministro Rubens Ricúpero:
“Eu não tenho escrúpulos: o que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde.”

Thursday, May 22, 2008

Pequena Homenagem a Francisco Cervantes



Francisco Cervantes era um mexicano que amava o Brasil com a mesma intensidade com que eu amo o México. Eis aí uma pequena amostra da sua poesia:










Mínimo homenaje a Burle-Marx


Una mañana al despertarme
Me asaltó el cielo más azul
Que pude imaginarme…
Pensé: ¡Qué azul más
Digno de Burle-Marx
Y sus jardines!
Y el azul, con sus alas,
Buscaba en los confines
Los jardines de Burle Marx.

Wednesday, May 21, 2008

Notícia

Notícia: a revista gaúcha Palpitar conta agora com dois poemas e um conto meus. Vale a pena de qualquer maneira conhecer a simpática revista que felizmente ignora solenemente os muros que andam separando em nome de uma especialização tecnicista a acadêmia, a literatura e o jornalismo.

Tuesday, May 20, 2008

Século XIX ou século XXI

Os algarismos romanos são interessantes: bastam mover um pauzinho de lugar e 19 vira 21...

"Os partidos, força é confessar que eles estão longe de existir entre nós. Não passam de casuais agregações desconexas, onde formigam incoerências e incompatibilidades a cada passo; não vão além de ajuntamentos compostos, em virtude de circunstâncias fortuitas, como relações, parentescos, interesses, e mantidas apenas pelo que têm os respectivos indivíduos de encetar vida nova, depois do tempo e dos sacrifícios despendidos, pela força do hábito, ou pelo temor de incorrer na pecha de apostasia."
Conde Afonso Celso, 1886

Monday, May 19, 2008

Noel Rosa, o Profeta

Quem dá mais por uma mulata que é diplomada
Em matéria de samba e de batucada
Com as qualidades de moça formosa
Fiteira, vaidosa e muito mentirosa?
Cinco mil réis, duzentos mil réis, um conto de réis!

Ninguém dá mais de um conto de réis?
O Vasco paga o lote na batata
E em vez de barata
Oferece ao Russinho uma mulata

Quem dá mais por um violão que toca em falsete
Que só não tem braço, fundo e cavalete
Pertenceu a Dom Pedro, morou no palácio
Foi posto no prego por José Bonifácio?
Vinte mil réis, vinte e um e quinhentos, cinqüenta mil réis!

Ninguém dá mais de cinqüenta mil réis?
Quem arremata o lote é um judeu
Quem garante sou eu
Pra vendê-lo pelo dobro no museu.
Quem dá mais? [Noel Rosa]

Quem dá mais por um samba feito nas regras da arte
Sem introdução e sem segunda parte
Só tem estribilho, nasceu no Salgueiro
E exprime dois terços do Rio de Janeiro

Quem dá mais? Quem é que dá mais de um conto de réis?
(Quem dá mais? Quem dá mais? Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três!)

Quanto é que vai ganhar o leiloeiro
Que é também brasileiro
E em três lotes vendeu o Brasil inteiro?
Quem dá mais?

Friday, May 16, 2008

Augusto dos Anjos - Debaixo do Tamarindo

Segue um soneto de Eu (1912) dos meus favoritos. Augusto dos Anjos foi uma das minhas paixões da adolescência [ainda adoro os exageros despudorados dele, como esse chorar "bilhões de vezes"].
O tamarindo, árvore de origem africana que se espalha por todos os trópicos desde muito tempo [tanto que o nome científico cita a Índia, onde o tamarindo é muito popular], é uma árvore forte, frondosa, “cheia de personalidade”, também e com uma participação importante em um conto de Juan Rulfo ["Es que somos muy pobres"]. Ah, escrevo esse post saboreando um suco de ... tamarindo.

Debaixo do tamarindo
No tempo de meu Pai, sob estes galhos,
Como uma vela fúnebre de cera,
Chorei bilhões de vezes com a canseira
De inexorabilissimos trabalhos!

Hoje, esta árvore, de amplos agasalhos,
Guarda, como uma caixa derradeira,
O passado da Flora Brasileira
E a paleontologia dos Carvalhos!

Quando pararem todos os relógios
De minha vida e a voz dos necrológios
Gritar nos noticiários que eu morri,

Voltando à pátria da homogeneidade,
Abraçada com a própria Eternidade
A minha sombra há de ficar aqui!

Thursday, May 15, 2008

Gênios da crítica nacional 3

Que tal essa pérola sobre Machado de Assis:
“em Machado os nomes sempre têm sua conotação. Eugênia rima com ingênua. Virgília soa virgem, embora não seja”

Wednesday, May 14, 2008

Perguntas indignadas

Marina Silva renuncia e o acordo da Brasil Telecom e Oi sai com o dinheiro do BNDES. Porque sera que os escandalos que realmente interessam nao sao escandalos pela otica da imprensa brasileira? Uma tapioca ou um dossier ridiculo valem mais que a continuacao do velho estilo tucano de privatizar o patrimonio publico estatizando a fonte de financiamento a custa de BILHOES de reais? Um carro alugado ou uma entrada de teatro sao mais importantes que perder mais uma vez a luta contra politicos/coroneis/grileiros e seus pistoleiros, essas figuras do seculo passado que compram um laptop e fingem estar "desenvolvendo"o Brasil?

Tuesday, May 13, 2008

Para comemorar o 13 de maio: As cotas e as máscaras

Sinceramente acho que o 13 de maio é para comemorar, mas para lembrar e refletir sobre as relações raciais no Brasil. Então lá vai:

As cotas e as máscaras
Ainda que alguém possa fazer um ou outro reparo específico a forma como se quer implantar sistemas de cotas no Brasil, acho que as cotas são fundamentais por uma questão de justiça. Acho que esses reparos podem ser feitos ser qualquer comprometimento da idéia em si como forma de ajustes durante o processo de implementação e que portanto não faz sentido ser contra as cotas por causa disso. Muito antes pelo contrário, acho que é hora de clareza de posições: e as cotas servem exatamente para dar clareza a esse que é um dos vários debates que são tradicionalmente escamoteados no Brasil. Esse escamoteamento não é novo e não tem nada de inocente – não se trata daquilo que Machado de Assis uma vez chamou de “inconsciente hipocrisia”. Não é à toa que somos um dos países mais desiguais do mundo. Na época do império todos no Brasil eram a favor da abolição, mesmo os principais responsáveis por quase 50 anos de enrolação dessa questão. Da mesma forma hoje todos, inclusive os ruralistas, são a favor da reforma agrária. No Brasil até o general/presidente Ernesto Geisel era a favor da democracia!!! Assim vamos caminhando para a igualdade racial e para a reforma agrária a moda dos milicos: em uma “transição lenta, gradual e segura” que se depender dessa gente dura até os fins dos tempos. As cotas impedem essas pessoas que não querem mudar absolutamente nada nas relações sociais e raciais no Brasil de continuarem fingindo que são a favor da igualdade "em tese". Nós sabemos que essas pessoas não querem ser obrigadas a competir pela primeira vez em condições menos desiguais com aqueles que eles dizem considerar como iguais "em tese".

Monday, May 12, 2008

O universal como recalque

As questões de gênero, de etnia e de classe não são diferentes da questão nacional ou mesmo da questão regional no estudo da literatura. Temos aí cinco recortes possíveis [entre muitos outros] para se ler um texto produtivamente e todos os cinco recortes são válidos desde que se reconheça algo que para mim é o óbvio: nenhum deles exaure o texto completamente. A partir desse reconhecimento humilde dos limites humanos de uma crítica qualquer, questões de gênero, etnia, classe, nação e região são recortes legítimos como formas de abordar o texto, e vão funcionar na medida em que o crítico tenha criatividade, bom senso e conhecimento para tirar o melhor proveito de cada um. Manuel Bandeira era homem, era branco, era de uma classe alta em decadência econômica, era basileiro e era pernambucano. E era muitas outras coisas também: era um homem do seu tempo, era um pernambucano morando no Rio de Janeiro, era um homem com um perfil psicológico específico só dele, era um tradutor ativo, era um professor e divulgador das literaturas latino americanas de língua espanhola no Brasil, era um modernista mais velho que os outros modernistas, etc. Eu não vejo limites e sim potencialidades incríveis a ser exploradas quando adotamos esses recortes ou mesmo quando cruzamos dois ou mais desses recortes de leitura [por exemplo, quando juntamos o recorte étnico ao da classe social, do gênero ao regional].
Essa pretensa obsessão com o “universal” nada mais é que um desejo de recalcar todos ou alguns desses aspectos em um dado texto. Esse gesto de recalque é feito pretensamente para não “diminuir” o texto. Há não ser que alguém se proponha a um projeto que leve à sério as ironies borgianas de crítica labiríntica, com caminhos que se bifurcam infinitamente ou livros de areia ou alephs TODA leitura crítica exerce uma redução [um recorte ou um deslocamento] no texto. Fora disso existem bons e maus críticos e os maus críticos serão maus de qualquer jeito com ou sem recortes. A crítica que pretensamente se preocupa com o universal flutuando no éter, “livre” do particular, opta pelo pior tipo de recorte/deslocamento: o recalque. Esse universal não existe senão na cabeça de certas pessoas que insistem à essa altura do campeonato em colocar a literatura em uma torre de marfim. É, na melhor das hipóteses, um gesto defensivo de resistência ao que poderíamos chamar genericamente de stalinismos [que reduziriam a literatura a uma função instrumental] que acaba sendo um tiro no pé. Em geral é expressão de um elitismo detestável que enxerga em si mesmo o ser humano em geral e nos outros meros desvios dessa entidade sublime.
O resultado desse recalque é muitas vezes cômico em sua miopia: não há nada mais regionalista do que certas ficções que abraçam a vida de centros urbanos como a cidade de São Paulo ou Nova Iorque em suas particularidades mais minuciosas, e não há nada de errado nisso! Esse tipo de “regionalismo urbano” pode ser bom ou ruim, o resultado não depende exclusivamente dessa escolha.

[escrevi esse texto instigado por post de Ricardo Domeneck no site Modos de Usar e Cia]

Friday, May 09, 2008

Curto ensaio sobre a paranóia

Curto ensaio sobre a paranóia

O paranóico é o sujeito que se transforma num intérprete compulsivo de tudo - tudo à sua volta, da peruca do vizinho à cor dos ônibus, tem um sentido importante e precisa ser explicado. Salvador Dali tem um texto interessante em que ele classifica a estética daqueles quadros dele em que uma montanha é um rosto, etc de “paranóica”.
O combustível da paranóia é um sentimento primário de que ninguém escapa: medo. Mas isso em si não explica muito porque é claro que nem todo medroso é um paranóico. Além do medo o paranóico tem fé no sentido coerentes de todas coisas do mundo, uma convicção de que, por exemplo, se alguém tem câncer ou morre atropelado é por algum motivo “superior”. Mas, de novo, essa fé, como aquele medo, em si, não explica o paranóico. Afinal essa é uma fé que move muita gente que não padece desse mal. Para essas pessoas essa fé implica em tranquilidade ou pelo menos um consolo para a aceitação difícil de cânceres e atropelamentos que continuam acontecendo à revelia dos que acreditam na força do pensamento positivo, do corpo fechado, etc. Em um paranóico essa fé quase sempre se fixa na idéia de uma conspiração poderosa, uma fé que não apazigua, não dá paz, muito antes pelo contrário.
Eu sinceramente não vejo razão alguma para acreditar em alguma lógica superior que dê sentido para os cânceres e os atropelamentos que invariavelmente cruzam o caminho de cada um de nós. Os paranóicos despertam a minha compaixão por outro motivo: porque eu sei que eles sofrem muito com o medo. E sofrer com o medo não é uma experiência alheia à minha existência e, suspeito, à existência de ninguém. Mas, além da compaixão, os paranóicos me fascinam quando são realmente criativos nas suas interpretações do mundo. A maioria dos paranóicos não é assim: seus medos são banais e suas interpretações fantasiosas idem. Agora, quando a doença ataca pessoas que são talentosas e criativas... sai de baixo!
Mas o mundo da paranóia visto assim, como um universo estritamente pessoal, fica revelado pela metade. O aspecto individual é só parte do fenômeno. O outro aspecto do fenômeno paranóico é bem mais sinistro: o aspecto coletivo. A maioria dos nossos medos são compartilhados coletivamente e a paranóia pode se expressar como uma epidemia que se espalha pelo tecido social. Essas epidemias, geradas geralmente por um conjunto de fatores mais ou menos desarticulados, quando canalizada por alguém com talento e sede de poder, dá em Auschwitz ou pelo menos em Guantánamo.
Ou será que eu estou ficando paranóico? Não. Não se trata de uma epidemia planejada por meia-dúzia de figurões em um hotel cinco estrelas. Uma série de fatores concretos [fome, recessão, desemprego, crime, violência, traumas, guerras, etc] se combina com uma série de discursos ideológicos [racismo, nacionalismo, xenofobia, misoginia, homofobia, etc] e um grupo de pessoas articulam esses dois tipos coisas [um tipo concreto e objetivo e o outro abstrato e subjetivo] em um discurso paranoicamente coerente que de repente incendeia as pessoas. Essa paranóia como fenômeno coletivo é um mecanismo privilegiado de propagação da ignorância. O que constitui uma ironia e tanto, já que na origem da paranóia está exatamente esse desejo humano de lidar com o medo interpretando o mundo e produzindo sentido.
Uma ironia, sim, mas não propriamente um paradoxo. O paranóico é um ser doente. Quem já conheceu um distúrbio mental de perto [em si ou em um ente próximo] sabe que a idealização romântica da loucura é uma bobagem. Cabe refletir e questionar as fronteiras entre o que definimos coletivamente como loucura e sanidade, mas isso não significa que as duas categorias tenham perdido o sentido. O respeito pelo doente mental como ser humano não passa por ignorar a doença que existe mas sim por ajudar aquele ser humano na medida do pssível a lidar com algo que traz a esse ser humano e aos que vivem a sua volta, muito sofrimento.

Wednesday, May 07, 2008

A ambiguidade e o diabo

Através do excelente blogue do Idelber Alvelar, “O biscoito fino e a massa” cheguei a um texto interessante de Alan Pauls sobre 1968, que começa assim:

“Grosso modo, os 40 anos de Maio 68 produziram três reações:

1) ‘Maio 68 é responsável por todos os males que vivemos hoje: falta de autoridade, relativismo absoluto, crise dos valores’;

2) ‘Maio 68 é responsável por todas as conquistas das quais o presente pode se gabar: pluralismo, direitos das minorias, laicismo, anti-autoritarismo’;

3) ‘Maio 68 teve coisas geniais e coisas estúpidas’.

A pior, a mais medíocre, conformista, ignorante e reacionária é obviamente a terceira.”

A terceira opção me parece na melhor das hipóteses fruto do desejo de falar sem dizer coisa alguma. Em geral é algo bem pior que isso; trata-se de anular as diferenças para deixar que o consenso de Washington continue a desfilar os seus tanques, metafóricos e literais, pelo mundo.
Mas é preciso pintar a ambiguidade com matizes mais ricos. Essa história de falar sem dizer nada me lembra aquela história do sujeito que chegou no interior de MG e perguntou a um habitante da cidade:
- O que é que o pessoal daqui acha do prefeito?
- Tem gente que gosta e tem gente que não gosta.
- Mas e você, o que acha?
- É.
Para mim a anedota acima não revela nem hipocrisia, nem maldade, muito menos a pretensa “natureza conciliatória” do mineiro. É um exemplo lapidar [como é do feitio das expressões de sabedoria popular] do uso da ambiguidade [e da ironia] como estratégia de sobrevivência [e mesmo combate velado] em sociedades extremamente violentas e hierarquizadas – e quem acha que isso são coisas da república velha, lembrem-se os fiscais do trabalho em Unaí.
Há o outro lado dessa mesma moeda num par de outros ditados igualmente mineiros, infelizmente pouco conhecidos:
- Que remédio tem quem ama senão por o pé na lama?
- Pata do capeta não deixa rastro no atoleiro.
Adoro esses dois ditados porque acho que eles se completam, não apenas nas referências comuns a deixar marcas no barro, mas na idéia de que comprometer-se é tomar o caminho do amor, já que o recalque é a estratégia do diabo. Diabo que para mim existe no sentido que um outro mineiro, Ribaldo [ser fictício, mas talvez mais verdadeiro que eu ou você], definiu: “o diabo vige dentro do homem […] Solto por si, cidadão, é que não tem diabo nenhum.”

Monday, May 05, 2008

Nova série: sabedoria popular em ação

Em 1938 Nelson de Senna publicou um livro pitoresco, na verdade um esboço do que ele teria conseguido reunir se vivesse mais um pouco e tivesse tempo de sistematizar em um dicionário tudo o que juntou sobre a cultura negra no Brasil. Das profundezas desse livro cheio de tesouros tirei um ditado que se adequa bem, não só a essa recente experiência do Ronaldinho com as agruras da celebridade, mas com a caretice machista do mundo do futebol:

"Que remédio tem quem ama senão pôr o pé na lama?"

Saturday, May 03, 2008

Porque é tão difícil comer Queijo de Minas fora de Minas?

Porque não querem deixar os mineiros fazerem queijo como sempre fizeram? Quer saber? Leia a excelente reportagem em
http://p.php.uol.com.br/tropico/html/textos/2968,1.shl
De quebra você fica conhecendo Trópico, uma das melhores revistas brasileiras online!

Friday, May 02, 2008

Manual de anti-ajuda de Franz K.





"A farinha e o açúcar as atrairiam, o gesso esturricaria o de-dentro delas. Assim fiz. Morreram."
Clarice Lispector



Às vezes é preciso saber que há
também a hora do lixo e é preciso
ser concreto como uma anta
e cego como um prego.
Já dizia um escravo na barra do tribunal:
“no galinheiro a barata não tem vez”.
Explicar a galinha não absolve
nem liberta a barata do bico do sapato,
nem do açúcar, da farinha e do gesso.

A faca corta, a pedra quebra,
a fome não depende de ponto de vista,
mesmo sendo toda sua não se dissolve
nem no seu reconhecimento,
nem na sua ignorância,
nem mesmo no seu desespero.

Mesmo que você queira
com força, persistência e engenho
poder com a fome, a faca e a pedra
o açúcar, a farinha, o gesso,
a galinha ou o bico do sapato,
quando você acorda,
escova os dentes e sorri para o espelho dizendo:
“eu posso com a dor e a fome,

com a faca que corta minha pele
e a pedra que amassa meu dedo
com o açúcar, a farinha e o gesso,
com a galinha e o bico do sapato”,
mesmo assim, você ainda assim não pode, José.

Senão então,
vejamos o bilhete no bolso do suicida:
“Não faço exame,
não tenho câncer;
não tenho câncer,
não estou morrendo;
não estou morrendo,
continuo aqui, vivo,
quieto no meu canto.
PS. Açúcar, farinha e gesso
misturadas em partes iguais.”