Monday, October 31, 2011

Da série tenho preguiça de:

3. Críticos que falam mal de um determinado projeto pressupondo que o autor quisesse fazer uma coisa que ele obviamente nunca quis. Assim, você perde seu tempo lendo o sujeito que reclama que um livro de hai-kais é lacônico, que um romance de 1200 páginas é muito longo, que um livro confessional é muito confessional, que um filme de Hollywood é comercial, que uma peça de teatro sem diálogo não tem diálogo etc. A maior das enrolações críticas é julgar um filme do Spielberg pelos parâmetros do Bergman e um filme de Bergman pelos parâmetros do Spielberg: só dá obviedades.

Sunday, October 30, 2011

Da série tenho preguiça de:

2. Críticos de qualquer espécie que se propõe a “resumir” um filme/livro pelo método Frankenstein: “o livro X é um Harry Potter chileno com pitadas de Saramago e um clima de comercial de Sempre-Livre.” Uma variação tão terrível quanto é “resumir” um diretor/autor pelo mesmo método, eg “a escritora Y é uma mistura de Clarice Lispetor e Elizeth Cardoso” e, variante ainda mais nojenta, “fulana é um sicrano de saias.”

Saturday, October 29, 2011

Da série tenho preguiça de:

Tenho preguiça de críticos de cinema que falam em “estética televisiva” como se fosse um nome feio.

Wednesday, October 26, 2011

99%


Agora é oficial: o relatório do Budget Office do Congresso americano revela que a renda do 1% mais rico dos Estados Unidos cresceu 275% nos últimos 30 anos, pulando de 8% em 1979 para 17% da renda total em 2007. Um quinto da população tem mais renda que os outros quatro quintos juntos. Os ricos pagam menos impostos, os pobres recebem menos ajuda.


Tuesday, October 25, 2011

O ético e o cachorro louco


Em sua última turnê como primeiro-ministro, Tony Blair visita o diabo redimido. Um final melancólico para um governo que chegou ao poder prometendo uma política externa ética...

Monday, October 24, 2011

E no Papai Noel, quem acredita?

[à direita: Em 2003, o marido de Carla Bruni recebeu o tirano para uma visita de cinco dias ao país de Brigitte Bardot. Sarkozy dizia em 2007: "se não abraçamos nações que tomam o caminho da respeitabilidade, que diremos a aqueles que tomam o mesmo caminho na direção oposta?"]

[à esquerda: em 2010, diz o The Guardian que o rei da bunga-bunga e o mesmo tirano acertavam visitas de mulheres italianas a Trípoli para conhecer a cultura dos homens líbios de perto.]


Espera aí, deixa eu ver se entendi: uma revolução que recebe apoio entusiasmado do ocidente em nome da preservação da convenção de genebra termina com o déspota sendo linchado, assassinato sumariamente e exibido como troféu antes que ele, levado a julgamento, confirmasse detalhes de anos de relações "preferenciais" com a Europa ocidental...
E em Papai Noel, quem acredita?

Thursday, October 20, 2011

Poesia Americana 3: Claudia Rankine

"Am I dead? Though this question at no time explicitly translates into Should I be dead, eventually the suicide hotline is called. You are, as usual, watching television, the eight-o'clock movie, when a number flashes on the screen: I-800-SUICIDE. You dial the number. Do you feel like killing yourself? the man on the other end of the receiver asks. You tell him, I feel like I am already dead. When he makes no response you add, I am in death's position. He finally says, Don't believe what you are thinking and feeling. Then he asks, Where do you live?"

O resto está aqui.

Tuesday, October 18, 2011

A história brasileira e as ações afirmativas

Trecho da entrevista de Luiz Felipe de Alencastro à Revista da Fapesp:

[…] de repente tinha 750 mil africanos e os filhos deles, os netos, todos ilegalmente nas mãos de soi-disant proprietários. Mas nenhum desses proprietários foi condenado por sequestro e quase todos os indivíduos livres continuaram a ser mantidos na escravidão. Este é o fato escandaloso, um dos maiores crimes do século XIX, ocorrido no Brasil, que não se ensina nas nossas escolas e faculdades: as duas últimas gerações de escravos no Brasil não eram escravos e estavam ilegalmente mantidos como propriedade de alguém, como cativos. Alguns abolicionistas foram ao tribunal, Ruy Barbosa, Joaquim Nabuco, José do Patrocínio, Luís Gama, e conseguiram libertar uns 500 indivíduos entre as centenas de milhares ilegalmente escravizados. Isso virou um tabu na história do Brasil e hoje pouca gente sabe que a escravidão era não somente imoral, mas era também, e sobretudo, ilegal. José do Patrocínio, em 1880, na Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, fez o cálculo do que o fazendeiro, a viúva e até o pedreiro que tinha escravo deviam para essa gente ilegalmente mantida em escravidão. Quando hoje se fala em indenização sempre aparece o pessoal que é contra a cota para dizer que isso é importado dos negros dos Estados Unidos, que, por sua vez, copiaram o exemplo dos judeus depois da Segunda Guerra Mundial. Mas a reivindicação no Brasil é de 1880."

Pense nisso antes de se levantar contra qualquer tipo de ação afirmativa no Brasil: 750 mil africanos sequestrados e trabalhando ilegalmente como escravos no Brasil entre a independência e a abolição. O que receberam esses africanos, seus filhos e netos com o fim da escravidão a que eles foram submetidos ilegalmente? Nada? Não, algo ainda pior: além de nem um tostão de indenização, zero de apoio para educar seus filhos e zero de ajuda para encontrar terra para cultivar ou casa para morar, esses homens, mulheres e crianças enfrentaram racismo e discriminação oficial e extra-oficial, enquanto colonos imigrantes eram trazidos de fora para substituí-los no trabalho no campo e nas cidades.


Sunday, October 16, 2011

Diário da Babilônia - New Haven Green



Foto da direita de Óscar González

A foto da direta mostra o sábado passado no Green de New Haven [a velha praça gramada da época colonial, quando servia de pasto comum]. Ali um grupo ainda pequeno de pessoas se reuniu para protestar contra cortes nos serviços públicos que ajudam uma multidão de gente sem emprego ou sub-empregada, contra um regime que propõe cada vez menos impostos pagos pelos mais ricos e cada vez mais ricos e contra guerras intermináveis terceirizadas a peso de ouro: contra tudo o que faz com que o país mais rico do mundo esteja rumando a passos largos em direção à ruína.


Esse mesmo Green estava abarrotado de gente há quarentas anos [foto da esquerda] e não sei se as coisas vão chegar a esse ponto, mas o jogo não é menos importante: fazer com que as pessoas que entendem o que está acontecendo se levantem e coloquem seus votos nas urnas nas próximas eleições presidenciais e do congresso americano. Só assim os Estados Unidos não viverão mais quatro anos de um governo de direita que faça o que pretendem os grandes barões da extrema direita americana [os irmãos Koch e os Art Pope da vida] voltaremos a 1929. Mas a história não se repete e Roosevelt não vai sair da tumba para arrumar as coisas outra vez.


Thursday, October 13, 2011

Civilização e barbárie, ou as aparências enganam


"Nosotros tenemos un código de cartoneros, por ejemplo: no tomar cuando se trabaja, no dejar la calle sucia. Tener en cuenta el vecino, aunque el vecino no le conteste el saludo, uno saludar igual. Ser cordial. Todo eso está escrito y lo respetamos."
Depoimento de Virginia Pimentel no livro Cartoneros de Eduardo Anguita, 159.

Tuesday, October 11, 2011

Poesia Minha - Vida em degelo

























Vida em degelo

uma aresta gigantesca de gelo

emerge do fundo ermo do mar

rasga com o corpo o ar frio e seco

ajusta-se ao seu leito desigual

encara o sol da meia-noite indiferente

flutua dura e cega aresta de água e sal

dissolvendo-se em regresso

é só um fantasma banal

do nosso longo epílogo lento

uma imensa lápide em branco

um Titanic às avessas

não há nada

por trás do seu silêncio

Monday, October 10, 2011

Entre duas línguas


Antes de junho Olívia só falava inglês. Entendia tudo o que nós dizíamos em português, mas só respondia em inglês, com uma ou outra palavrinha de português adicionada ao vocabulário em conversas conosco. Ela inclusive nos chamava de “mummy” and "daddy" ao invés de mamãe e papai. Em junho fomos passar dois meses e meio em Belo Horizonte e matriculamos Olívia na escolinha do irmão. Ela enfrentou o desafio com uma coragem que me espantou: imagine ser transplantado sem entender porque ou como para um outro planeta onde agora todas as pessoas falam como os seus pais e, tendo em media três vezes o seu tamanho conseguem à sua revelia te abraçar e beijar e pegar, coisas que não aconteciam em absoluto no seu planeta de origem – que simplesmente desapareceu, já que você ainda não entende muito bem a idéia de deslocamento assim no abstrato. Bom, em duas semanas Olívia começou a falar português, ainda inserido em frases em inglês (“I want nadar”, “I like vovó”, etc) e, em menos de um mês já não usava uma palavra sequer de inglês no seu farto vocabulário de 2 anos e meio. Ela outro dia me explicou porque não gostava de um certo tio metido a brincalhão: “ele atrapalha muito, papai.”

No final de agosto voltamos aos EEUU e aí Olívia se recusava terminantemente a falar inglês, seja na nova escola ou seja com qualquer pessoa. Agora Olívia me dizia que vivíamos no Brasil e que ela estudava no “Mundinhos” [sua escola em Belo Horizonte, Miudinhos] e sua “processora” era a Clarice. Agora, um mês depois, Olívia se sente em casa na escolinha nova, mas quase entra em pânico ao sinal de qualquer mudança na sua rotina. Tanto no Brasil como aqui, me chama a atenção que as pessoas acham que Olívia não entende o que elas falavam porque ela não responde a elas na língua em que foi perguntada, mas aqui isso é muito, muito comum – talvez 80% dos pais das crianças na escolinha dela sejam estrangeiros como nós.

Como a própria Olívia me explicou outro dia, “eu sou muito forte, papai!”


Sunday, October 09, 2011

Entre duas línguas

Três trechos interessantes do ensaio biográfico de Saul Bellow que o New York Review of Books acaba de publicar:

Sobre identidade:

“So, in my first consciousness, I was, among other things, a Jew, the child of Jewish immigrants. At home our parents spoke Russian to each other, we children spoke Yiddish with them, and we spoke English with one another. At the age of four we began to read the Old Testament in Hebrew, we observed Jewish customs, some of them superstitions, and we recited prayers and blessings all day long. Because I had to memorize most of Genesis, my first consciousness was that of a cosmos, and in that cosmos I was a Jew. I suppose it would be proper to apply the word ‘archaic’ to such a representation of the world as I had—archaic, prehistoric. This was my ‘given’ and it would be idle to quarrel with it, to try to revise or efface it.”

Sobre a língua materna:

“One’s language is a spiritual location, it houses your soul. If you were born in America all essential communications, your deepest communications with yourself, will be in English—in American English. You will neither lie nor tell the truth in any other language. Without it no basic reckonings can be made. You will not reflect on your own death in Hebrew or in French. Your English is the principal instrument of your humanity. And when the door of the gas chamber was shut many of the German Jews who called upon God for the last time inevitably used the language of their murderers, for they had no other.”

Sobre o status de “penetra” no baile da cultura occidental:

In twentieth-century Europe the métèque writers appear in considerable numbers. Métèque is defined in French dictionaries as “outsider” or “resident alien,” and the term is pejorative. The word appears in the OED as “metic,” although it is not in general use here. The novelist Anthony Burgess refers to métèques and makes a strong defense of the métèque writer—the nonnative who, being on the fringe of a language and the culture that begot it, is alleged to lack respect (so say the pundits) for the finer rules of English idiom and grammar, for “the genius of the language.” For, says Burgess, the genius of the English language, being plastic, is as ready to yield to the métèque as to the racially pure and grammatically orthodox:

If we are to regard Poles and Irishmen as métèques there are grounds for supposing that the métèques have done more for English in the twentieth century (meaning that they have shown what the language is really capable of, or demonstrated what English is really like) than any of the pure-blooded men of letters who stick to the finer rules.

Burgess’s Irishman is Joyce, his Pole Joseph Conrad, and we can easily add to his list Apollinaire in French, Isaac Babel, Mandelstam, and Pasternak in Russian, Kafka in German, Svevo in Italian (or Triestine), and for good measure V.S. Naipaul or Vladimir Nabokov. Indeed it is not easy in this cosmopolitan age to remove the métèques from modern literature without leaving it very thin.

[…]

In the US, a land of foreigners who may or may not be in the process of forming a national type (who can predict how it will all turn out?), a term like métèque or metic is inapplicable. To renew the purity of the tribe was a French project, and a man whose French is acceptable to the French is, at least in the act of speaking, a claimant to aristocratic status. But gentile New York and Brahmin Boston never dominated American speech, and the aristocratic pretensions of easterners were good for a laugh in the rest of the country. Yet when our own metics, the Jewish, Italian, and Armenian descendants of immigrants, began after World War I to write novels, they caused great discomfort, and in some quarters, alarm and anger.”

Thursday, October 06, 2011

O santo e a fábrica de suicídios

Antes de escrever mais um epitáfio sentimental sobre Steve Jobs, pergunte-se: de onde saiu o seu bonito iPad e o meu lustroso iMac? Das mãos de gente que faz, em média, 120 horas extras mensais, trabalhando uma semana de 70 horas, ou seja 10 horas por dia o ano inteiro sem domingo ou feriado. O salário mensal: 250 reais, dependendo ainda da produtividade. Longe de casa, 300.000 trabalhadores comem e dormem na fábrica. Resultado: uma epidemia de suicídios. A fonte é o jornal CONSERVADOR Daily Telegraph...
Não se trata aqui de demonizar Steve Jobs ou a Apple, mas de dar contorno mais bem definido ao "milagre chinês" [não é por acidente que uso aqui o termo que se aplicou ao Brasil de Médici] e sua relação íntima com o "milagre tecnológico" da economia supostamente "pós-industrial" da . Somos um organismo esquizofrênico, de um lado caminhando a passos firmes no século XXI e do outro chafurdando no atoleiro do século XIX.

Não é irônico que os 300.000 chineses na fábrica da Foxconn trabalhem para manufaturar produtos para o sábio que disse, entre outras coisas, "Your time is limited, so don't waste it living someone else's life"?

Tuesday, October 04, 2011

E 2 palitos sobre censura [o óbvio ululante, outra vez)


Impressionante também o número de pessoas na internet que são "contra qualquer tipo de censura". Como se toda a censura fosse necessariamente patrocinada pelo governo. Ninguém considera, por exemplo, as restrições econômicas à livre expressão que controlam com mão de ferro o acesso às salas de cinema e à televisão no mundo todo. E há que lembrar também que a auto-censura é um princípio fundamental da vida em comunidade. Se vejo minha vizinha sair de casa e acho o carro dela horrível, tenho que ser capaz de me conter e não dizer nada a ela. Algumas pessoas por aí parece que têm incontinência verbal e depois não querem nem pegar o paninho para limpar a sujeira que fizeram fora do vaso (que aliás, não por acaso, também é conhecido por privada). É meu direito criticar o mal gosto da minha vizinha com na minha vida privada. Aliás, no aconchego do meu vaso e com a porta trancada eu tenho direito de ser racista, machista e escroto. Da porta de casa para fora ou conectado à internet, a coisa obviamente muda de figura. Por favor, lembrem-se do óbvio: facebook ou blogue ou Twitter = meio-da-rua. No meio da rua, fraldas geriátricas verbais não são censura, meus caros: são requisito obrigatório para quem não sabe ainda a diferença entre o banheiro e a sala de visita.

Sunday, October 02, 2011

Problemas de privacidade

Muita gente reclamou das mudanças no fcbk, alguns até se retiraram em protesto. Ninguém tem que gostar de mudanças em lugar nenhum, mas estranhei quando algumas pessoas falaram em desrespeito à privacidade. Acho que as pessoas ainda não entenderam que a internet é um espaço público. Comunicações privadas deviam ser feitas por email - talvez nem assim, dependendo do conteúdo. O pessoal fica pondo fotos comprometedoras e falando as mesmas abobrinhas que fala na mesa do bar na internet e depois fica queimado?