Thursday, February 25, 2016

Um convite para conhecer um mundo: Nollywood

Sinto um rancor quase palpável nas palavras de alguns compatriotas quando reclamam do pouco reconhecimento que a cultura brasileira recebe fora do país [e às vezes até dentro do país]. O rancor não é apenas quase palpável, mas é também reconhecível, porque eu já o senti. Mas depois de anos  morando fora e ensinando literatura e cultura brasileira, mudei completamente. Eu acho que quem perde por não conhecer Machado de Assis, Guimarães Rosa, Villa-Lobos ou Pixinguinha são exatamente aqueles que não os conhecem. As obras e seus autores [pelo menos quando se trata de autores mortos] não perdem nem ganham tanto assim. Ora, se nós conhecemos Cole Porter e Miles Davis e também Cartola e Chico Buarque enquanto os estadounidenses só conhecem dois dos quatro, quem está em vantagem? Assim sendo, não sinto rancor nenhum. Mas também não sinto qualquer tipo de pena condescente pelos que não conhecem os inúmeros tesouros da cultura brasileira porque acho que, ao invés de se lamentar em rancores ou penas, deveríamos tratar de reconhecer de uma vez nossas próprias, imensas ignorâncias.

Somos de uma ignorância abismal e queremos ficar dando lição de moral aos outros ignorantes do planeta? Melhor arregaçar as mangas e tratar de enxergar onde é que nossas deficiências estão. Dou um exemplo bastante grotesco da nossa ignorância. Quais são as duas maiores indústrias do cinema no mundo? A primeira é da Índia e a segunda é a nigeriana. Vou me concentrar na segunda porque não tenho a menor dúvida em afirmar que qualquer contato com a cultura na Nigéria é um trabalho de reencontro muito importante para a cultura brasileira. Principalmente se pensamos em um país africano importantíssimo de 170 milhões de pessoas. E se pensarmos que vivemos coçando a cabeça e debatendo formas de desenvolver o cinema brasileiro estudando até os cavacos mais obscuros da cultura cinematográfica francesa ou italiana, mas não percebemos as lições valiosas que pode nos dar um país que tinha até bem pouco menos de 30 salas de cinema e mesmo assim criou um setor econômico de 5 bilhões de dólares produzindo 2.600 filmes por ano e exportando esses filmes com muito sucesso para vários países. Muita coisa boa ou não tão boa assim feita por Nollywood está disponível online no youtube, por exemplo. Ofereço um exemplo: Invasion 1897 de Lancelot Oduwa Imasuen, que fez fortuna com filmes como "Last Burial", "Games Women Play" e "Behind Closed Doors".

[É claro que seria decepcionante para muita gente xique e muderna da nossa nação Rivotril descobrir que uma indústria cultural vibrante no Brasil teria mais de Axé Music do que de Bossa Nova, mas isso já é assunto para outro dia...] 


Sunday, February 21, 2016

Traduzindo: "Árvores e calçadas" de Brenda Ríos

Brenda Ríos
Árvores e calçadas

Tenho visto árvores que arrebentam o cimento das calçadas, exibindo raízes nuas sem crescer muito alto; são pequenas e fortes, como o amor rancoroso. Não têm orgulho, se humilharam em casa e agora ficam ali com suas minúsculas vinganças contra os pedestres que tropeçam quando não veem suas raízes fazendo ondas no caminho. 

Monday, February 15, 2016

Noções de Produtividade ou "só quando o relógio pára o tempo volta à vida"

Faulkner pastou como um escritor jovem com ambições imensas vivendo numa cidade do interior do Mississippi. Editou pequenos livros escritos e ilustrados à mão como Marionettes. Publicou poesia sem maior sucesso. Tentou se alistar na força aérea para a Primeira Guerra Mundial, também sem sucesso. Na universidade da cidade, onde chegou a ter algumas aulas, ganhou o apelido de Count No Count [algo como Conde Não-Vale-Nada] pela mistura peculiar de comportamento altivo, vagabundagem completa e total indiferença ao mundo em sua volta. Dez anos mais tarde, ainda quase um desconhecido, Faulkner escreveria As I Lay Dying [Enquanto Agonizo] à noite, enquanto alimentava de carvão as caldeiras que aqueciam a universidade no turno noturno.

Mais preocupado em escrever do que em fazer qualquer outra coisa, Faulkner chegou a receber de presente de familiares preocupados um posto de correio na cidade, no qual ele se comportava com exemplar mescla de incompetência e falta de vontade. A carta curta e grossa com que ele pediu demissão do seu cargo é primorosa:
Página do livro auto-editado Marionettes


"Enquanto eu viver no sistema capitalista, minha expectativa é ver minha vida influenciada pelas exigências das classes endinheiradas. Mas maldito seja se eu me propuser viver a postos de qualquer patife passando por aqui que tenha dois centavos para investir num selo postal.

Este, Senhor, é meu pedido de demissão."

No original: "As long as I live under the capitalistic system, I expect to have my life influenced by the demands of moneyed people. But I will be damned if I propose to be at the beck and call of every itinerant scoundrel who has two cents to invest in a postage stamp.
This, sir, is my resignation."
 Na superfície da vida social, Faulkner estava claramente "jogando fora a sua vida", "desperdiçando oportunidades de uma vida decente", servindo como objeto de escárnio ou pena para familiares e outras pessoas da cidade. Além dessa superfície pequeno burguesa de cidade do interior de província, Faulkner estava cozinhando na cabeça e no papel maravilhas desse quilate:

"Os relógios assassinam o tempo... o tempo está morto e assim permanece enquanto for estalado entre as rodas de escape; só quando o relógio pára o tempo volta à vida".

No original: “Clocks slay time... time is dead as long as it is being clicked off by little wheels; only when the clock stops does time come to life.”  

Thursday, February 11, 2016

Poesia Mexicana - Salvador Novo

-->
Salvador Novo
EL AMIGO IDO
Salvador Novo

Me escribe Napoleón:
"El Colegio es muy grande,
nos levantamos muy temprano,
hablamos únicamente en inglés,
te mando un retrato del edificio..."

Ya no robaremos juntos dulces
de las alacenas, ni escaparemos
hacia el río para ahogarnos a medias
y pescar sandías sangrientas.

Ya voy a presentar sexto año;
después, según las probabilidades,
aprenderé todo lo que se deba,
seré médico,
tendré ambiciones, barba, pantalón largo...

Pero si tengo un hijo
haré que nadie nunca le enseñe nada.
Quiero que sea tan perezoso y feliz
como a mí no me dejaron mis padres
ni a mis padres mis abuelos
ni a mis abuelos Dios.

--> Traduzi o poema bem depressa assim:

O AMIGO IDO
Salvador Novo

Me escreve Napoleão:
"O Colégio é muito grande,
nos levantamos muito cedo,
só falamos em inglês,
te mando um retrato do edifício..."

Já não roubaremos juntos doces
das despensas, nem fugiremos
para o rio para nos afogar pela metade
e pescar melancias sangrentas.

Já vou começar a sexta série;
depois, segundo as probabilidades,
aprenderei tudo o que se deva,
serei médico,
terei ambicões, barba, calças compridas...

Mas se tiver um filho
Não deixarei que ninguém lhe ensine nada.
Quero que seja tão preguiçoso e feliz
como não me permitiram ser os meus pais
nem aos meus pais os meus avós
nem aos meu avós Deus.
 

Wednesday, February 10, 2016

Babylon & Pindorama entre o stop&frisk e o esculacho de todos os dias e os Michael Browns e as chacinas de todos os anos



Claudia Rankine, uma excelente poeta em atividade nos EUA
"Stop and Frisk" é o nome dado a uma prática policial. O policial aborda e revista um "indivíduo qualquer" baseado em "uma suspeita razoável" de atividade criminal. Os indivíduos quaiquer são quase invariavelmente negros ou latinos e a suspeita fica por conta da imaginação do policial em questão. Claudia Rankine fez um poema/script e John Lucas um vídeo com o título "Stop-and-Frisk", que vocês podem assistir acima. 

O refrão diz o seguinte:

E você não é o suspeito mas ainda assim você se enquadra na descrição do suspeito porque só há um suspeito que é sempre o suspeito que se enquadra na descrição.
[no original: And you are not the guy and still you fit the description because there is only one guy who is always the guy fitting the description.]

Práticas de abordagem frequentemente muito mais agressivas são rotina no Brasil e são conhecidas pela população pelo nome de "esculacho".
Ricardo Aleixo, um excelente poeta em atividade no Brasil

Claro que eventualmente o stop&frisk/esculacho de todos os dias descamba para algo bem mais chocante. Sobre esses momentos tristes que se repetem com uma regularidade ainda mais triste, convido vocês a lerem o poema de Ricardo Aleixo "Na noite calunga do bairro Cabula", que começa assim [o poema pode ser lido na íntegra com ilustrações feitas pelo autor aqui]:



Na noite imóvel, a
mais longa e espessa,


morri quantas vezes
na noite calunga?

A noite não passa
e eu dentro dela

morrendo de novo
sem nome e de novo

morrendo a cada
outro rombo aberto

na musculatura
do que um dia eu fui.

Thursday, February 04, 2016

Sobre línguas e inocências

O escritor açoriano João de Melo abriu um encontro de escritores dizendo o seguinte:


João de Melo
“Viajamos numa língua comum que nunca foi instrumento de dominação, nem centro de qualquer colonialismo básico, e muito menos de um império que nunca existiu. Reclamamos, pois, a inocência histórica da língua portuguesa. Com ela, invocamos com solidariedade que se irmanou num sentimento fraterno dos povos, aquém e além de sistemas políticos e sociais”.

Não tenho acesso ao discurso inteiro, então não quero ficar aqui tripudiando do escritor, mas acho que há duas maneiras diferentes de respondar àqueles que falam em inocência da língua portuguesa para tentar manter viva, entre outras coisas, a ideia absurda de uma colonização gentil promovida por Portugal. 

Uma primeira maneira é aceitar os termos da proposição feita e contestá-la em seus próprios termos. Nesse sentido podemos, por exemplo, deixar que o Marquês de Pombal fale por si mesmo:

Parágrafo Sexto da Lei do Diretório dos Índios do Marquês de Pombal de 1757: "Sempre foi máxima inalteravelmente praticada em todas as Nações, que conquistaram novos Domínios, introduzir logo nos povos conquistados o seu próprio idioma, por ser indisputável, que este é um dos meios mais eficazes para desterrar dos Povos rústicos a barbaridade dos seus antigos costumes; e ter mostrado a experiência, que ao mesmo passo, que se introduz neles o uso da Língua do Príncipe, que os conquistou, se lhes radica também o afeto, a veneração, e a obediência ao mesmo Príncipe. Observando pois todas as Nações polidas do Mundo, este prudente, e sólido sistema, nesta Conquista
Olha o Pombal aí
se praticou tanto pelo contrário, que só cuidaram os primeiros Conquistadores estabelecer nela o uso da Língua, que chamaram geral; invenção verdadeiramente abominável, e diabólica, para que privados os Índios de todos aqueles meios, que os podiam civilizar, permanecessem na rústica, e bárbara sujeição, em que até agora se conservavam. Para desterrar esse perniciosíssimo abuso, será um dos principais cuidados dos Diretores, estabelecer nas suas respectivas Povoações o uso da Língua Portuguesa, não consentindo por modo algum, que os Meninos, e as Meninas, que pertencerem às Escolas, e todos aqueles Índios, que forem capazes de instrução nesta matéria, usem da língua própria das suas Nações, ou da chamada geral; mas unicamente da Portuguesa, na forma, que Sua Majestade tem recomendado em repetidas ordens, que até agora se não observaram com total ruína Espiritual, e Temporal do Estado."


Podemos ainda chamar a atenção para não mais que quatro palavras do nosso léxico, e enfatizar especificamente a relação peculiar entre seus sentidos atuais e seus antigos usos na longa e triste época da escravidão [pouco menos de quatro séculos] durante o domínio português e depois dele ainda por mais de sessenta anos no Brasil indenpendente:

1. BOÇAL: rude, grosseiro, ignorante, inculto, sem sentido
E
escravo recém-chegado da África que ainda não falava o português.

2. LADINO: astuto, esperto, espertalhão, pilantra, manhoso

escravo africano ou índio que já havia sido aculturado em contraste ao BOÇAL.

3. CRIOULO: usado para denotar uma pessoa da cor negro, frequentemente com conotações negativas
E
escravo nascido no Brasil, em contraste ao LADINO e ao BOÇAL.

4. MOLEQUE: menino, garoto, patife, safado, sem integridade, canalha, mau-caráter, irresponsável, menino que vive nas ruas, garoto travesso, brincalhão, gozador, trocista

criança escrava, nascida de uma mãe escrava ou nascida livre porém sequestrada, confinada e forçada à escravidão.


Foto de Augusto Stahl de 1865
 Mas há uma segunda forma de contestar essa afirmativa meio estapafúrdia, negando sua premissa básica, que é essa relação simplista entre a língua que falamos e a história dos estados nacionais aos quais estamos vinculados. A personalização de uma língua, chamada de "inocente" como se fosse um ser humano e como se então tivesse uma responsabilidade moral com relação ao que se faz com a língua como instrumento é absurda. É mais ou menos como culpar um martelo pelo que "ele" quebra ou uma faca pelo que "ela" corta. Língua nenhuma é inocente. A relação entre a língua e os que a usam é bem mais complexa que a relação entre um martelo e um carpinteiro ou entre um pecado e um pecador. Usamos a língua e ela nos usa, moldamos até certo ponto a língua que nos moldou também até certo ponto. Com ela amamos, odiamos, salvamos, matamos, libertamos e aprisionamos uns aos outros e nós mesmos. E o respeito por outro ser humano e pelos seus direitos não é apenas uma simples questão de escolher ou de inventar um léxico "inocente" - quem dera as coisas fossem tão fáceis.