Sunday, February 28, 2010

Poema meu: Oração

Oração


Vamos pedir piedade
Pois há um incêndio sob a chuva rala



Eu não quero nada,
eu não preciso de nada,
não gosto nem desgosto de mais nada,
não prefiro nada.
Dia ou noite, sim ou não,
tudo ou nada, tanto faz.

Me odeie, me ame,
me pise, me engane,
me roube, me mate,
esqueça de mim,
chore por meu nome,
cuspa no meu prato,
conte a verdade,
minta até os ossos.
Nada me afeta,
nada me comove,
nada mais me fere,
nada me alivia,
nada me aborrece,
nada me diverte,
nada me atribula,
nada me dá paz.

Estou morto por dentro, estou livre.
Não tenho mais raiva,
não tenho mais medo.
Matei todos os desejos em mim.
Matei meus sonhos
e meus pesadelos,
a soma de tudo o que não fui.
Bebi meu sangue e comi meu corpo
Apaguei meu rosto
e minha memória.
Morto agora igual por dentro e por fora,
não tenho em mim nenhum sonho
serei adubo de mim,
o estrume das derrotas futuras,
parede sem porta,
serei aquele que morreu por nada,
aquele que não nasceu.

Saturday, February 27, 2010

Recordar é viver: aconteceu ontem em Santos



Deu na FSP ontem:
Numa sala de cerca de 18 m2, trancada com cadeado, no segundo andar do Palácio da Polícia em Santos atrás de dois elevadores, duas estantes de madeira guardam cerca de 600 pastas e caixas, que abrigam entre dez e 15 dossiês cada uma. O arquivo do Deops-SP (Departamento Estadual de Ordem Política e Social) dormia ali, infestado por cupins, traças e poeira. O delegado da polícia civil em Santos Waldomiro Bueno Filho, responsável pelo arquivo, é acusado de ser um dos torturadores de Vladimir Herzog.

Friday, February 26, 2010

Clarice Lispector: Qualquer gato, qualquer cachorro

A via crucis do corpo é um livrinho fininho no qual, supostamente, Clarice Lispector “chuta o balde”. Chamado de “pornográfico”, o livro foi publicado em 1974, numa época que ainda vai ser conhecida algum dia, suspeito, como o “tempo de baldes chutados”. Numa curta explicação que introduz o livro Clarice diz: “ Uma pessoa leu meus contos e disse que aquilo não era literatura, era lixo. Concordo. Mas há hora para tudo. Há também a hora do lixo.” [12]

Segue um trecho interessante de A via crucis do corpo, tirado de um dos três textos que se ligam à “Explicação” que introduz o livro, escritos todos [diz o narrador] no dia das mães e no dia anterior e posterior. Esses três textos misturam diário, crônica e ficção e aparecem lá pelo meio do livro, intercalados por contos.

- Você? a você só importa a literatura.
- Pois você está enganado. Filhos, famílias, amigos, vêm em primeiro lugar.
Olhou-me desconfiado, meio de lado. E perguntou:
- Você jura que a literatura não importa?
- Juro, respondi com a segurança que vem de íntima veracidade. E acrescentei: qualquer gato, qualquer cachorro vale mais do que a literatura. [37]

A biografia de Clarice escrita em inglês por Benjamin Moser, que eu li como um simples diletante, tem dois aspectos interessantes: vê Clarice como uma imigrante judia vinda de uma família que foge de um pogrom na Ucrânia e carrega consigo as cargas dessa dura história de vida e vê Clarice como uma pessoa que passou uma infância em extrema pobreza em Recife. Quando ele veio aqui apresentar seu livro, Moser me disse uma coisa interessante que reproduzo aqui de memória: "muita gente no Brasil acha que Macabéa é produto da criatividade de uma dondoca de classe média alta, baseado nas experiências com suas empregadas domésticas, mas não é nada disso: Macabéa é a própria Clarice.” Os Clariciólogos, laicos, ecumênicos ou ortodoxos, podem discutir e questionar essa maneira de ver Clarice Lispector nos seus próximos "concílios". Eu, como alguém que gosta muito do que ela escreveu mas tenho muita preguiça de canonizações literárias, achei interessante, ainda que possa ser só meia verdade.

Wednesday, February 24, 2010

Primeiras respostas

Centenas de emails e mensagens chegaram ao Às moscas com respostas para as perguntas do post passado. Ofereço aqui as primeiras respostas:
1. Argentina
2. Cuba
3. Venezuela
4. Chile

Tuesday, February 23, 2010

Responda se for capaz

1. Qual é o país do doce de leite, do gaúcho, do churrasco, do truco e do "quilombo"?
2. Qual é o país do açúcar e do tabaco?
3. Qual é o país do malandro?
4. Qual é o país da cueca?
5. Qual é o país do arroz com feijão?
6. Qual é o país do bolo de aipim [o bolo doce, com coco]?
7. Qual é o país da manga e da jaca e do tamarindo?
8. Qual é o país da canja de galinha?
9. Qual é o país do café?
10. Qual é o país da cerveja?
11. Qual é a cidade do carnaval?
12. Qual é o país do pastel?

Saturday, February 20, 2010

Sadismo, ternura ou sadismo com ternura?


Trecho inesquecível de conto de Juan Rulfo, La Cuesta de las Comadres [traduzi umas coisinhas para facilitar mas acho que Rulfo a gente só não lê em Espanhol se não consegue ler em espanhol de jeito nenhum].

"La luna grande de octubre pegaba de lleno sobre el corral y mandaba hasta la pared de mi casa la sombra larga de Remigio. Lo vi que se movía en dirección de un tejocote y que agarraba el guango [machado] que yo siempre tenía recargado allí. Luego vi que regresaba con el guango en la mano.

Pero al quitarse él de enfrente, la luz de la luna hizo brillar la aguja de arria [ver ilustração], que yo había clavado en el costal [saco de pano]. Y no sé por qué, pero de pronto comencé a tener una fe muy grande en aquella asusta. Por eso, al pasar Remigio Torrico por mi lado, desensarté la aguja y sin esperar otra cosa se la hundí a él cerquita del ombligo. Se la hundí hasta donde le cupo. Y allí la dejé.

Luego luego se engarruñó como cuando da el cólico y comenzó a acalambrarse hasta doblarse poco a poco sobre las corvas y quedar sentado en el suelo, todo entelerido y con el susto asomándosele por el ojo.

Por un momento pareció como que se iba a enderezar para darme un machetazo con el guango; pero seguro se arrepintió o no supo ya qué hacer, soltó el guango y volvió a engarruñarse. Nada más eso hizo. Entonces vi que se le iba entristeciendo la mirada como si comenzara a sentirse enfermo. Hacía mucho que no me tocaba ver una mirada así de triste y me entró la lástima. Por eso aproveché para sacarle la aguja de arria del ombligo y metérsela más arribita, allí donde pensé que tendría el corazón. Y sí, allí lo tenía, porque nomás dio dos o tres respingos como un pollo descabezado y luego se quedó quieto."

Thursday, February 18, 2010

Com ou sem eloquência?

Dizem que os escribas que vendiam seus serviços em praça pública em Guadalajara no fim do século XIX [tipo Dora do filme Central do Brasil de Walter Salles] escreviam uma carta [normalmente petições] "a veinticinco centavos sin elocuencia y a cincuenta centavos con elocuencia".

Escolha a opção de sua preferência:

1. Estatística
A) A eloquência naquela época só valia 25 centavos.
B) A eloquência naquela época já valia 50% de um texto.
C) A eloquência naquela época já aumentava o valor de um texto em 100%.
D) Não se pode afirmar nada a respeito do valor da eloquência sem dados estatísticos precisos a respeito da eficiência das petições com eloquência em comparação a petições sobre assuntos semelhantes sem eloquência no mesmo período.

2. Lingüíçtica [encheção de]:
A) “Economizar na eloquência” não é mesmo apenas uma questão de estilo.
B) Os gringos roubaram daí [entre muitas outras coisas] a expressão: “money talks”.

Wednesday, February 17, 2010

Poema meu


foto de Tony Lopes em http://i.olhares.com/data/big/73/731094.jpg
[cortei toda a gordura que achei possível mas quem sabe encontro mais para cortar semana que vem; revisei o texto todo com cuidado; e principalmente desisti de misturar prosa e poesia. O que é pior: alguém dizer que seus poemas são ruins, fracos, bobos e ninguém dizer nada? Cada silêncio pode ser presumido como vindo de alguém que acha o que vc faz uma merda, mas uma presunção é melhor ou pior que uma certeza nesse caso?]


Sobre o Amor




Uma aura quase cheiro de desastre:
dois olhos duros, amarelos, de gato,
me estudando, sóbrios, especuladores,
com a indiferença atenta de um bebê

Esse tipo aí, conheço pelo cheiro,
me atira um desses que moram em barco
e só comem camarão congelado.
Eu retruco afiado, seco, um jacaré:
caráter é carne, caroço e casca:
punhal de que não se vê o fio e o cabo.

Aceita o outro meu truco e pede seis:
negócio de amor é balela:
a gente só ama mesmo o que não tem;
e quando encosta um dedo de leve,
ele abre as asas e vai embora.

Respondi sucinto só:
o amor não morre;
ele vai embora,
e aí quem morre
é você, fulminado, carcomido,
cego, e pior:
sem nem saber que.
Só é corajoso
quem descrê da boa sorte.

Ele pediu oito:
esse amor, quando ele pega
bate a carteira dos dois e cai fora;
fica a carne pendurada
dos dois no açougue,
tentando, sozinha,
acender um fósforo
numa lata cheia d’água.

Azar.
Baixei as malas no chão
tranquei a porta do quarto
brigando com as chaves.
Quando me virei
lá estava ela,
nua, descalça,
nem vergonha, nem modéstia:
a fome.

Tuesday, February 16, 2010

Recordar é viver: Arruda no Catatau

Em entrevista à revista Veja, em julho, intitulada “Ele deu a volta por cima”, Arruda disse que é “impossível governar sem fisiologismo”. Quando questionado sobre qual era é o seu limite em relação à fisiologia, ele respondeu:

– É o limite ético. É não dar mesada, não permitir corrupção endêmica, institucionalizada. Sei que existe corrupção no meu governo, mas sempre que eu descubro há punição.


Trecho do post do Catatau sobre o governador de Brasília. O julho em questão é o de 2009.

Diga-se de passagem que Arruda dançou no senado em 2001 por fraudar uma votação para a cassação do mandato de Luis Estevão, seu atual vice-governador.

Monday, February 15, 2010

Um dos motivos para a crise financeira na Grécia: as dívidas contraídas para a realização das olimpíadas. Como sempre acontece [está acontecendo agora em Vancouver com os jogos de inverno], os grandes planos que previam a participação da iniciativa privada não passaram de planos que nunca saíram do papel.

Sunday, February 14, 2010

Friday, February 12, 2010

Um pouco de Carlos Drummond de Andrade


Ser

O filho que não fiz
hoje seria homem.
Ele corre na brisa,
sem carne, sem nome.

As vezes o encontro
num encontro de nuvem.
Apoia em meu ombro
seu ombro nenhum.

Interrogo meu filho,
objeto de ar:
em que gruta ou concha
quedas abstrato?

Lá onde eu jazia,
responde-me o hálito,
não me percebeste,
contudo chamava-te
como ainda te chamo
(além do amor)
onde nada, tudo
aspira a criar-se.

O filho que não fiz
faz-se por si mesmo.

Thursday, February 11, 2010

Em defesa do detalhe


“Le détail d’une chose peut être le signe d’un monde nouveau, d’un monde qui comme tous les mondes, contient les attributes de la grandeur.”
Bachelard

Monday, February 08, 2010

Poema meu: Passagem

[Um dia há pelo menos 10 anos atrás numa manhã ensolarada eu assitia uma aula meio devagar na Letras e comecei esse arremedo de Walt Whitman. Depois numa manhã sozinho num café de Belo Horizonte e um par de horas depois, enquanto esperava a hora de dar uma aula dentro do carro, terminei a primeira versão dele. E continuo revisando o safado desde daquela época. Deve ser a maldição do Leaves of Grass...]


arco de sangre, puente de latidos,
llévame al otro lado de esta noche,
adonde yo soy tú somos nosotros,
al reino de pronombres enlazados…
Octavio Paz



Olho pra fora, não fujo, não quero mais me sentir outro, de fora;
quero a comunhão barata do barulho dos carros, da gente, do rádio.
Ainda está tudo do lado de fora, do outro lado da mesa, o outro lado da porta de vidro:
gente dando as mãos, atravessando a rua, chorando, sorrindo,
sozinhos, em bando, em dupla,
nascendo, amadurecendo, secando, morrendo.
Um par de folhas de um broto cai no chão,
a chuva cai e leva as duas juntas,
que escurecem podres e já não são mais folhas,
tudo o que há e que houve e que há de ser depositando-se em centenas de anos,
em camadas no sangue, nos ossos, na carne, na língua, tão minha quanto de quem mais quiser,
minha e dos dois garotos que passam lá fora conversando um futuro besta,
minha e da mulher que passa carregando seus desapontamentos nas costas,
minha e do senhor que se arrasta como um deus de chapéu e terno riscado,
minha e de você que me lê agora e é assim meu quase irmão, meu pai e meu filho
e reconhece aqui agora alguma coisa de dentro de um quase par,
um avesso que quase completa e termina o que você é, foi, e pode ainda ser ou não ser.

Mas a questão posta aqui e agora na minha frente é outra:
é sair de dentro da angústia cega e fazer papel e tinta da dor surda
que encharca o corpo e aperta cabeça e peito,
porque feito papel e tinta este grito tartamudo,
que ninguém vê nem quando me olha bem de frente,
vai enfrente e me deixa livre desta falta do que ainda não fui.

O barulho lá fora faz uma pausa de repente,
mas o alicate de cabo amarelo continua apertando a coluna
e o coração vermelho e cansado continua queimando com o estômago aceso.
Outros barulhos aqui dentro corroem o silêncio que cresce de dentro
e dizem que existe saída, ainda que não exista alívio em sair pra vida.

Então eu vou: faço a tal passagem de uma só vez –
chamem de morte, chamem de amor,
chamem de lei natural das coisas da terra –
é uma passagem e é mais e menos:
tão pequena que quase desaparece no ar,
mesmo com o sol a pino.
E está aqui, bem na minha frente,
mais alta que este muro polvilhado de cacos de vidro:
um silêncio mais alto que o barulho dos caminhões e ônibus descendo a rua.

Escorre pelas grades da janela da sala,
contorna o vidro e salta;
cai no jardim salpicado de guimbas de cigarro e copos de plástico.
Cá embaixo,
na manhã emaranhada pelo sol do dia 10 de fevereiro,
vejo ainda a sala
onde ainda estou e já não estou
e onde 23 outros eus doem
espremidos entre o que ainda podem
e o que já não podem em um mundo, uma vida e um corpo
que não param de envelhecer nem um segundo.
Aqui embaixo,
sou a experiência de uma pedra
e a inocência de um torrão de terra,
e me redivido em mil outras coisas menores,
também possuidoras de suas próprias definições para o amor
e mortas como eu.
Lá e aqui o mundo das idéias não passa de um vapor quente
que se desapega do chão quando o sol esquenta,
onde tudo é como este poema,
escrito e inescrito além e aquém de si mesmo,
dentro e fora ao mesmo tempo.

Thursday, February 04, 2010

Rodrigo Fresán: sobre a memória

La memoria es el playback de nuestra vida y, en ocasiones, nosotros no hacemos otra cosa que mover los labios sin emitir sonido alguno, porque es nuestra memoria la que canta a través de nosotros. A lo sumo, en contadas ocasiones, cantamos un poco, desafinamos; pero la memoria nos ayuda poniendo a girar la música de nuestro pasado, nuestros Greatest Hits cada tanto remasterizados, cada tanto incorporando un bonus-track, versiones alternativas de la misma canción de siempre. Hay un momento imperceptible pero terrible y trascendente en que, pienso, finalmente estamos llenos de pasado, de memoria, por lo que nuestro presente y lo que nos queda del futuro no es más que un constante actuar ---cantar--- de acuerdo con lo que nos ordena y nos sugiere todo aquello que tuvo lugar hace tiempo. De ahí que los ancianos suelan recordar sucesos remotos con mayor facilidad que aquello que hicieron hace unas horas. El ayer es el refugio y ya no hay nada nuevo que pueda ocurrirnos, porque todo lo que nos puede llegar a suceder tiene su rumbo ya prefijado en un mapa viejo de la isla electrojaponesa de Karaoke.
[do romance Mantra, escrito pelo argentino Rodrigo Fresán sob encomenda da editora Mondadori, que escolheu autores latino americanos e pediu-lhes que escrevessem um romance sobre uma cidade pré-definida - para vocês verem como Chacrinha tinha razão quando dizia que "nada se cria, tudo se copia", não só na televisão como no mundo editorial]

Tuesday, February 02, 2010

Alberto Manguel: prisoners of their own language

"Sometime in the Age of Thatcher, Reagan and Mulroney, English-speaking readers became ignorant. First, translation into English was practically stopped: today, less than 0.1% of everything published in English is a translation, and that includes Japanese computer manuals. (...)
English-speaking readers locked themselves into something worse than an imperial mentality, since the empire forced them at least to look outside England: into a state of stolid contentment.
Readers and writers in English today know practically nothing of what is taking place in the cultures of the rest of the world. Step into a bookstore in Bogotá or Rottendam, Lyons or Bremen, and you can see what the writers from other countries are doing. Ask in Liverpool, Vancouver or Los Angeles who Antonio Lobo Antunes or Cees Nooteboom are (...) and you will be met with a blank stare. But such a question would probably not be asked because English-speaking readers have become prisoners of their own language, living off whatever the publishing industry chooses to feed them."

Trecho de “Publishing Today”, ensaio disponível em sua íntegra em http://www.alberto.manguel.com/