Friday, February 26, 2010

Clarice Lispector: Qualquer gato, qualquer cachorro

A via crucis do corpo é um livrinho fininho no qual, supostamente, Clarice Lispector “chuta o balde”. Chamado de “pornográfico”, o livro foi publicado em 1974, numa época que ainda vai ser conhecida algum dia, suspeito, como o “tempo de baldes chutados”. Numa curta explicação que introduz o livro Clarice diz: “ Uma pessoa leu meus contos e disse que aquilo não era literatura, era lixo. Concordo. Mas há hora para tudo. Há também a hora do lixo.” [12]

Segue um trecho interessante de A via crucis do corpo, tirado de um dos três textos que se ligam à “Explicação” que introduz o livro, escritos todos [diz o narrador] no dia das mães e no dia anterior e posterior. Esses três textos misturam diário, crônica e ficção e aparecem lá pelo meio do livro, intercalados por contos.

- Você? a você só importa a literatura.
- Pois você está enganado. Filhos, famílias, amigos, vêm em primeiro lugar.
Olhou-me desconfiado, meio de lado. E perguntou:
- Você jura que a literatura não importa?
- Juro, respondi com a segurança que vem de íntima veracidade. E acrescentei: qualquer gato, qualquer cachorro vale mais do que a literatura. [37]

A biografia de Clarice escrita em inglês por Benjamin Moser, que eu li como um simples diletante, tem dois aspectos interessantes: vê Clarice como uma imigrante judia vinda de uma família que foge de um pogrom na Ucrânia e carrega consigo as cargas dessa dura história de vida e vê Clarice como uma pessoa que passou uma infância em extrema pobreza em Recife. Quando ele veio aqui apresentar seu livro, Moser me disse uma coisa interessante que reproduzo aqui de memória: "muita gente no Brasil acha que Macabéa é produto da criatividade de uma dondoca de classe média alta, baseado nas experiências com suas empregadas domésticas, mas não é nada disso: Macabéa é a própria Clarice.” Os Clariciólogos, laicos, ecumênicos ou ortodoxos, podem discutir e questionar essa maneira de ver Clarice Lispector nos seus próximos "concílios". Eu, como alguém que gosta muito do que ela escreveu mas tenho muita preguiça de canonizações literárias, achei interessante, ainda que possa ser só meia verdade.

2 comments:

sabina anzuategui said...

mais uma opinião de diletante:

"a paixão segundo g.h." também começa num quarto de empregada. ela foi embora e deixou o quarto vazio.

a narradora/patroa entra e fica olhando o armário. então começa o lado filosófico/existencial.

sempre gostei muito das primeiras páginas, falando da empregada. mas nunca vi nenhum comentário sobre isso.

Paulodaluzmoreira said...

a gente tem que tomar cuidado para não introjetar demais os próprios preconceitos da gente na literatura dos outros. é fácil falar... :) Por isso é que é sempre ouvir bom ouvir alguém de outro contexto pensar sobre um autor que a gente conhece.