Tuesday, October 30, 2018

Recordar é viver

Meu dilema agora é o seguinte: entre 1937 e 1945 nós tivemos uma ditadura semi-fascista com a participação direta de militares vários na instalação do regime e na administração do aparato repressor. O Estado Novo acabou e nós preferimos deixar quieto, inclusive elegendo um dos generais daquele golpe como presidente da república na primeira eleição livre que tivemos. Mal conseguimos nos manter como um país democrático por 20 anos. Aí veio 1964 - e pra quem não sabe, o general comandando as tropas no primeiro de abril era o mesmo oficialzinho integralista que falsificou o tal "Plano Cohen" que justificou 1937. Filinto Müller - o carrasco-mor do Estado Novo - foi senador por Mato Grosso e logo virou líder da ARENA no Congresso expurgado por cassações múltiplas.

Aí tivemos outra ditadura que começou em 1964 e devia durar pouco - os militares do Brasil eram liberais diziam os especialistas da época. A Ditadura Militar durou pelo menos 20 anos - deveríamos contar como fim da transição a promulgação da constituição de 1988. A caça aos comunistas nas escolas e universidades e repartições e jornais destrui carreiras, vidas e famílias e criou um clima de dedo-durismo oportunista. Gente inteligente de todas as correntes, inclusive liberais moderados, foram perseguidos. Quando aquela ditadura acabou o país estava em frangalhos, com hiperinflação e recessão e saques de supermercados e bombas em bancas de jornal. Mas nós resolvemos, de novo, deixar quieto. A lei de Anistia safada em que o regime incluiu os que faziam o seu serviço sujo continua sem qualquer contestação, sendo usada para que o judiciário lave as mãos contra criminosos abomináveis daquele aparato repressor.

Meros trinta anos de democracia e em 2018 um capitãozinho de meia-tigela montado num general mequetrefe começa [a que tudo indica] mais um ciclo autoritário. O amplo apoio que hoje veio oficializado no voto, existiu também em 1937 e em 1964. As omissões e hipocrisias que nos atormentam hoje grassavam também naqueles períodos. No Estado Novo Graciliano Ramos amargou um bom tempo numa prisão decrépita por ter pisado nos calos de umas famílias elegantes em Alagoas. Casos igualmente fúteis aconteceram aos borbotões em 1964. Gilberto Gil e Caetano Veloso foram importunados e depois presos e depois forçados a um exílio de anos por falarem de coisas perigosas como "caminhar pelo vento sem lenço sem documento" ou por usar cabelo comprido e roupas "exóticas". Para não deixar que o ridículo sirva de apaziguamento vamos então a exemplos nada fúteis das duas ditaduras: Olga Benário foi deportada grávida para um campo de concentração nazista por ser comunista e o deputado Rubens Paiva foi torturado barbaramente e depois assassinado simplesmente porque não concordava com o regime autoritário. Pouco se sabe sobre os responsáveis por essas barbaridades, ridículas ou trágicas, e NADA foi feito no sentido de responsabilizá-los alguém além de um genérico pedido de perdão do Estado brasileiro. 

Espero que da próxima vez [se eu estiver vivo] a gente seja um pouco menos leviano e inconsequente com o nosso passado. Mas aí leio coisas escritas por Machado de Assis há bem mais de 100 anos atrás como "Evolução" ou "Teoria do Medalhão" e, sinceramente, acho difícil. Leviandade e inconsequência são marcas registradas da nossa cultura há muito tempo. Estamos sempre atrás de uma solução mágica para problemas complexos que não exijam muito esforço intelectual ou emocional. Basta fazermos X e todos os nossos problemas se acabam magicamente. Afinal de contas, esforço intelectual ou emocional é uma coisa "muito chata", né? Como dizia o pai-conselheiro do futuro homem de sucesso no conto do Machado, "Condeno a aplicação, louvo a denominação". Adoramos falar em coisas chiques como social-democracia ou livre-iniciativa, modernidade ou pós-modernidade, mas sair da mera denominação dá um trabalho danado e... "ai, que preguiça!" responde o Macunaíma de Mário Andrade. A cada esquina cibernética multiplicam-se os especialistas em Paulo Freire e Gramsci que nunca leram uma página dos dois autores, especialistas em educação que nunca deram uma aula, especialistas em relações exteriores que nunca estudaram diplomacia, especialistas em Venezuela que não conhecem Romulo Gallegos ou Andrés Bello.


--> Claro que a história segue mudando e cada ciclo autoritário e diferente do anterior em vários aspectos. Mas um circulo vicioso pode ser uma espiral de equívocos. Tomara que eu esteja errado. Tomara.

Sunday, October 28, 2018

Ensaio da Mangüaça 1

Os computadores e a internet alteraram radicalmente a nossa noção de espaço, principalmente a partir dos telefones conectados às redes sociais. Sinto que sei disso melhor que pessoas mais jovens do que eu, pessoas que já nasceram dentro deste mundo. Meu quarto de dormir, provavelmente o que havia de mais íntimo na minha vida privada, tornou-se de repente ponto de contato com um público imenso. São amigos, simples conhecidos, parentes, algumas figuras de um passado distante, colegas de trabalho e de profissão e mesmo alguns completos desconhecidos que formam esse público que, de repente, tem acesso a esse meu espaço mais íntimo. E eu tenho acesso à intimidade deles - uma certa versão maquiada dessa intimidade, é claro. Cada um usa os filtros que lhe convém - alguns se desnudam ao ponto do embaraço, outros se mantém rígidos atrás de fotos hiper-coloridas de pratos de comida e bouquets de flores e sorrisos resplandecentes.

Esse curto circuito entre as distâncias que se desmancham e as intimidades que se revelam é principalmente muito violento. Não apenas porque a falta de cuidado com as distâncias descamba facilmente para a intromissão e a invasão. Sinto que a vida articulada pelas redes sociais, a vida vivida dentro delas, é um vida de apelos violentos aos nossos afetos. Somos instados agressivamente a amar e a odiar as coisas, os eventos e as pessoas. São violências ao mesmo tempo íntimas e públicas. Não é bom aparecer para tanta gente assim dessa maneira: vistos de perto demais, de uma forma que revela ao mundo nossos defeitos com uma intensidade insuportável. É como a pele de um ser humano comum vista com uma potente lente de aumento, que se transforma numa superfície monstruosa.

Não é bom se sujeitar a assistir assim de tão perto a intimidade dos outros também de qualquer maneira. Mas o que acontece quando a intimidade se mistura com a política, com as últimas notícias e com o mundo das colunas sociais? Tudo revelado de perto, em detalhes. Eu acho que devo saber que os mais vulneráveis sofrem e quero ser capaz de fazer alguma coisa para ajudar, mas sinto que ser exposto a vídeo de decapitações e linchamentos e violações é sofrer futilmente com essa violência toda. Isso não é solidariedade, é masoquismo.

Retirar-se é estratégia de sobrevivência. Preservar-se para continuar vivo. Não sei em quê o mundo se beneficiaria com a implosão da minha saúde psíquica. Preciso de energia vital para viver plenamente o que eu acredito ser a única vida que possuo. Para isso sinto que é fundamental me resguardar. Digo isso sabendo que isso não deve ter nada a ver com algum álibi para alienar-se do mundo. Quero saber o mais que posso sobre quem sou e que tempo e espaço são esses nos quais me calhou viver minha vida. Mas em nome da sanidade, sei que preciso me poupar.

Escrevi o texto acima antes do resultado eleitoral. Agora seremos governados por um homem que combina temperamento explosivo e intolerante com pouquíssima capacidade de compreensão da realidade. Só me resta crer que essas limitações impedirão esse sujeito de grandes feitos. Porque o que ele gostaria de fazer seria devastador para o Brasil e para os brasileiros: rios de sangue "na ponta da praia". Mais de 50% dos votos válidos não concordam com essa visão das coisas, isso é um fato duro, mas incontestável. Não sei quando voltaremos a poder votar - se dependesse do nosso presidente, nunca mais. Melhor encarar a verdade de frente: o Brasil é um país que adora soluções mágicas e periodicamente febril e 2018 vai se juntar a outros vários anos [os mais recentes deles 1960 e 1989] em que o país tem o ímpeto febril de eleger [ou enfiar no poder] um "maluco" para dar um jeito em "tudo isso o que está aí". Mantenho o "maluco" sempre entre aspas, pois já dizia minha avó que maluco é quem rasga dinheiro e os nossos palhaços de vassoura em punho nunca rasgaram dinheiro que não fosse dos outros. O "maluco" da vez não é um civil e nem sequer um militar adestrado em anos de hierarquia. Traz a tiracolo um Chicago Boy extremista completamente desprovido de experiência pública e dependemos agora completamente da força do compromisso entre os dois para saber a extensão da demolição. Sou capaz de apostar que ao primeiro sinal de colapso o Capitão desabraça o aprendiz de libertário com a mesmo facilidade com que ele abraçou o pentecostalismo. As máscaras caem e só fica a sede de poder absoluto e perpétuo para fazer correr os tais rios de sangue com os quais eu tenho certeza que ele sonha.

Continuo em favor do recolhimento, consciente de que minha opção é a escolha de alguém que mora muito longe do Brasil. Não sei sinceramente o que dizer a amigos e familiares que agora estão em perigo pelo que são e pelo que fazem na vida e tem que sair para a rua e ganhar a vida amanhã. Não sei sinceramente o que dizer aos colegas que vivem do ensino de literatura no país cavalgadura que agora se apresenta aos nossos olhos e vão, quase todos, ser administrados por uma gangue de energúmenos. Saídas coletivas, saídas individuais, não sei.
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Monday, October 15, 2018

Quando a barra pesa, só Drummond 7


Encerro sete dias de luta em luto com esse último poema de Carlos Drummond de Andrade sobre tempos difíceis. O poeta está cansado de preconizar "a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção" mas também nos alerta sobre a tentação orgulhosa que é essa "pressa de confessar tua derrota e adiar para outro século a felicidade coletiva". Não podemos perder. Ainda não perdemos. Não estamos sozinhos. Caetano, um exemplo vivo de que o Brasil não é podre, lê o poema e depois comenta:




Elegia 1938
Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.

Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guardas chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.

Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.

Caminhas por entre os mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.


Sunday, October 14, 2018

Quando a barra pesa, só Carlos Drummond de Andrade resolve 6

Chegamos ao sexto dia da série. Uma boa parte da melhor poesia de Carlos Drummond de Andrade foi escrita num período difícil dentro do Brasil e fora. Dentro encarávamos a Revolução de 30, a guerra civil em 1932, o Integralismo, o golpe em 1937, a ditadura do Estado Novo entre 37 e 45. Fora assistíamos o fascismo de Mussolini, o Estado novo de Salazar, a ascensão do nazismo, a guerra civil espanhola e a Segunda Guerra Mundial. Não é por nada que os poemas de Drummond muitas vezes oscilavam entre a tristeza desesperançada e os apelos por esperança e luta. 


O poema de hoje é soturno, sem deixar grandes esperanças frente a "esse anoitecer / mais noite que a noite.". O poeta "disperso" não consegue articular mais do que a determinação de ser aquele que desfia a recordação das vítimas comuns. 
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Sentimento do mundo 

    Tenho apenas duas mãos
    e o sentimento do mundo,
    mas estou cheio de escravos,
    minhas lembranças escorrem
    e o corpo transige
    na confluência do amor.

    Quando me levantar, o céu
    estará morto e saqueado,
    eu mesmo estarei morto,
    morto meu desejo, morto
    o pântano sem acordes.

    Os camaradas não disseram
    que havia uma guerra
    e era necessário
    trazer fogo e alimento.
    Sinto-me disperso,
    anterior a fronteiras,
    humildemente vos peço
    que me perdoeis.

    Quando os corpos passarem,
    eu ficarei sozinho
    desfiando a recordação
    do sineiro, da viúva e do microscopista
    que habitavam a barraca
    e não foram encontrados
    ao amanhecer

    esse amanhecer
    mais noite que a noite.

Não gosto muito do piano nem das imagens, mas achei essa leitura do poema de Drummond, junto com dezenas de explicações de cursinho para o livro de mesmo nome que, suponho, deve ter sido tema de vestibular recentemente.