Wednesday, February 27, 2013

Poesia Mexicana: Kyn Taniya


Foto minha: Escultura do museu DeCordova
Mi cabeza
Luis Quintanilla

Mi cabeza es una ave herida
que ya no encuentra nido.

            Mi cabeza,
            pálida y rubia,
            Rubia y rizada.

Recuerdo aún cuando dormía
sobre las blandas almohadas
de una cama blanca y tranquila.

            Hoy,
            mi cabeza es un globo:
            un globo sin rumbo
            escapado de mis dedos.

¡Ah, si pudiese estar llena de vino
como los focos de luz!

            Cuánta poesía, cuánta alegría
            todavía cabría, si pudiera llenarte
            de luz…

            Luna. Nubes. Almohadones de una
            cama blanca y tranquila.
            Han pasado campos, ciudades y montes
            y sigue desfilando el horizonte.

“¡Buenas noches!”, madre mía…
¡Qué horror!

Ya no queda más que su reflejo
en el espejo glacial de los ríos
y todos los ríos la llevaron al mar;
al mar infinitamente negro
en dónde se perdió mi cabeza.

Monday, February 25, 2013

Poesia minha

Detalhe de escultura do museu DeCordova em Massachussets
A bandeira pendurada no mastro da sua casa

Between the motion
and the act
falls the shadow
“The Hollow Men”

O que vejo quando olho
a bandeira pendurada
no mastro da sua casa
não são as fronteiras,
(essas cicatrizes visíveis,
óbvias, intransponíveis,
de guerras, saques e conquistas).

O que vejo quando olho
a bandeira pendurada
no mastro da sua casa
são forças sutis
misteriosas, antigas,
impregnadas desde a partilha
das relíquias de reis e santos,
desde o banquete dos timbiras.

O que vejo quando olho
a bandeira pendurada
no mastro da sua casa
são rios profundos
subterrâneos de água escura,
que sobem lentos às veias
até nos turvar os olhos
na frente embaçada do espelho.

O que vejo quando olho
a bandeira pendurada
no mastro da sua casa
são ventos que vem de dentro
que nos separam e unem
entre estranhos e estrangeiros
e resistem ao vaivém
de poder e de dinheiro,
soprando vida em tudo,
armados até os dentes
de desejos e afeições,
devotos dessa frieza
toda impessoal e cega
de máquinas que nos medem,
mas mais antigos e fortes
que elas; capazes portanto
de sobreviver ao fim
que, imagino e espero,
não demora muito.

O que vejo na bandeira
é o mistério em mim mesmo
me comendo e alimentando por dentro
e enchendo as velas
dum catálogo de espelhos:
O pocamadrismo,
o cosmopolitismo do pobre
e o orgulho secretamente
ferido do cosmopolita de Ipanema,
o fígado de prometeu,
a lei de Herodes,
as veias abertas,
uma montanha e um par de rios,
o malinchismo de Miami,
o complexo de mazombo,
a cosmética da fome,
os labirintos de metáforas,
a elegância dos príncipes das letras
e suas duas mil sinecuras,
a bruta realidade das revoluções traídas,
a pátria de chuteiras,
o ame-o ou deixe-o,
e o futuro que não chega.

Thursday, February 21, 2013

Fazendo auto-stream of consciousness

Vendo Sofie Gråbøl como Sarah Lund no drama policial Forbrydelsen, penso em como Fernanda Torres podia fazer coisas muito melhores do que essas comédias histéricas da Rede Bobo.
Lendo uma entrevista penso comigo mesmo na diferença entre dizer que "de boas intenções o inferno está cheio" e citar Pascal dizendo que ”Nunca se faz tão perfeitamente  o mal como quando se faz de boa vontade”?

Escutando Fiona Apple dizer num determindado momento em uma canção recente que "My teardrops seasoned every plate," eu penso no poder extraordinário que pode ter melodrama sincero, sem ironia engraçadinha.

Meu irmão me lembra que fez um ano ontem que meu pai morreu. Me lembraram na terça que no dia 16, dia em que finalmente consegui pegar meu livro no correio, recebia ano passado a notícia da minha promoção, matéria mais importante do que parece, porque não ser promovido significava perder o emprego. Meu pai morreu quatro dias depois da minha promoção e eu não podia sair dos EUA por causa do Green Card, outra novela sem graça que me empatou quase cinco anos. E aí eu me lembro da brincadeira do meu pai de me chamar de "filho do sétimo dia" porque eu desaparecia e aí quando ele morresse eu só ia saber a tempo de ir à missa do sétimo dia. Pois bem. Ainda que eu tenha recebido a notícia no mesmo dia em que ele morreu, para mim não deu nem para isso. Só me sobrou esse poema melopatético:

Hino do Filho de Sétimo Dia

"¿Qué es la vida? Un frenesí.
¿Qué es la vida? Una ilusión,
una sombra, una ficción,
y el mayor bien es pequeño;
que toda la vida es sueño,
y los sueños, sueños son."
– Pedro Calderón de la Barca, 'La vida es sueño'
Saio cedo,
não me importa o frio,
nem me incomoda o medo.
Sempre fui assim:
esse homem esquisito
que ninguém não podia entender.

Desastrado improviso,
obra má, de má argila,
sou também irmão
e seu semelhante.

Meu pai já morreu;
o que ele me deu
e o que ele me tirou
inteiram a fôrma
exata da minha dor.

Meu pai aviava,
meticuloso e ardente,
o elixir da longa morte
que hei de tomar
todo dia de manhã,
daquela segunda-feira
há sete dias passada
até o resto da vida.

Começou a temporada de caça!
Chegou minha hora!
Chegou minha vez!
Frenesi ou ilusão,
sombra ou ficção:
todos os meus sonhos
dançam sua morte
com os pés no chão;
são cinzas, cabem agora
na palma da minha mão!






Monday, February 18, 2013

Além de Messi

O sensacional Francella, daqueles comediantes que acerta no ponto tantas vezes. Essa é uma série ["Dia de Furia"] em que os pequenos desesperos da vida pequeno burguesa furam a bolha feliz do mundo como dos comerciais de televisão.

Thursday, February 14, 2013

Dia dos namorados [em Babylon]

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Come, sweet rain
Frank O’Hara

The blueness of the hour 
when the spine stretches itself
into a groan, then the golden cheek 
on the dirty pillow, wrinkled by linen.
Odor of lanolin, the flower
pressed between thundering doubts of self, 
cleaving fresh air through the week 
and loading hearts to the millennium. 
Go, sweet breath! come, sweet rain,
bewildering as a tortoise 
embracing the Indian ocean,
predictable as a porpoise
  diving upon his mate in cool
  water which is not a pool.

Amor também é cultura: esse é o lanolin, uma espécie de cera tirado das ovelhas. Minha esposa salvou-se de rachar a pele muitas vezes com um produto feito com ele. Tem cheiro... de cera de abelha sem cheiro de mel.

Bewildering as a tortoise!




Amor também é cultura: esse golfinho cabeçudo se chama [em inglês] Porpoise!


Outro poema campeão, de Murilo Mendes, perfeito para o dia:


Cantiga de Malazarte
Eu sou o olhar que penetra nas camadas do mundo,
ando debaixo da pele e sacudo os sonhos.
Não desprezo nada que tenha visto,
todas as coisas se gravam pra sempre na minha cachola.
Toco nas flores, nas almas, nos sons, nos movimentos,
destelho as casas penduradas na terra,
tiro os cheiros dos corpos das meninas sonhando.
Desloco as consciências,
a rua estala com os meus passos,
e ando nos quatro cantos da vida.
Consolo o herói vagabundo, glorifico o soldado vencido,
não posso amar ninguém porque sou o amor,
tenho me surpreendido a cumprimentar os gatos
e a pedir desculpas ao mendigo.
Sou o espírito que assiste à Criação
e que bole em todas as almas que encontra.
Múltiplo, desarticulado, longe como o diabo.
Nada me fixa nos caminhos do mundo.

Poemas, 1925-1929

Tuesday, February 12, 2013

Escavando Notas: Refletindo sobre o melodrama com Peter Brooks

Se a histeria é uma forma de escrita corporal, no qual um afeto reprimido é representado no corpo e o melodrama é um impulso no sentido da dramatização, da intensificação e da expressão para uma dramaturgia da hipérbole, do excesso, da excitação, então a telenovela é um gênero histérico. A analogia não me satisfaz porque a histeria é um fenômeno que exclui a agência. A pessoa se comporta histericamente sem querer e o melodrama é uma composição ficcional que, tão planejada/espontânea como qualquer outra, envolve escolhas criativas. Esse negócio de histeria não esgota o que o melodrama quer fazer.

Bacon Melodramatizando Velázquez?

Uma solução para essa insuficiência e essa atitude superior do crítico com relação ao que ele estuda que eu acho lamentável, é complementar a idéia de um estilo histérico com outra maneira de abordar o melodrama, dizendo que o melodrama é um estilo que se recusa a proclamar a banalidade do dia-a-dia pequeno-burguês, insistindo no cidadão ordinário/comum como alguém envolvido em escolhas altamente significativas, insistindo que a realidade desse cidadão pode ser altamente significativa, crucial, importante.

Nada disso diz absolutamente nada sobre a qualidade do melodrama, que sofre com um agudo preconceito de classe. Um melodrama como melodrama pode ser sensacional ou horroroso. Se julgado a partir do ponto de vista "superior" [daí meu pé atrás com a tal analogia com a histeria], ele sempre vai ser desprezado, mesmo quando ele for GRANDE.

Dolores del Río era bem mais discreta...
Carminha está mais para...

María Félix em Doña Bárbara!









Saturday, February 09, 2013

Jessica Pratt - Bushel Hyde

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Bushel Hyde
Jessica Pratt

I am calling out to you from an older place.
Words mean more than they did before in that older place
In the time before us all
There was a time before us all
In the time before us all

If you leave here you have better know
which way you have better go
Because you know
which way the spirit goes

Time was longer than when we were in that older place
Wills were harder than ever then in that older place
In the time above us all
In the time below us all
In the time between us all

Since you left here you had better show which way does the spirit go
Because you left you know which way it goes

Desenho meu: Bushel Hyde

Wednesday, February 06, 2013

Telenovela para um elenco de 3 atores e meio




Três atores de quaquer sexo [X, Y e Z]
Um carro
Uma laje ou  casa noturna

X manda Y preparar Z.
X discute com Y.
X fala para Y que Z e W não foram reconhecidos na casa noturna/laje.
X manda uma mensagem para Y.
X afirma a Y que Z é confiável.
X ouve Y e Z falando sobre o bebê que estava no carro de W e desconfia.
X se esconde na casa noturna/laje de Y.
X exige que Y pague o dinheiro que Z roubou de W. 

X manda Y investigar Z.
X chega com Y na casa noturna/laje.
X tenta mostrar as fotos de W e Z para Y.
X chora abraçada a Y.
X assiste à fita de segurança da casa noturna/laje de Y.
X não atende ao telefonema de Y.
X reclama de Y para Z.
X mostra a Y as fotos que tirou dela com Z.
X orienta Y a tentar reconhecer o homem que está com Z no carro.
X leva Y de volta ao alojamento da casa noturna/laje. 

Monday, February 04, 2013

Acharam o esqueleto de Ricardo III

Acharam o esqueleto de Ricardo III. Eu me lembrei de Jeff Conboy, um querido amigo que eu descobri ter sido morto pelo câncer numa viagem recente à cidade, quando já não havia mais sombra dele na cidade. Jeff me introduziu a muitas maravilhas de Shakespeare em Belo Horizonte. Eis o trecho do começo da peça em que o rei vilão fala de si mesmo e do seu corpo disforme:
 
Aqui o texto inteiro da peça. 
E me lembrei também de uma colagem que fiz em cima de esqueletos mortos pela peste negra:

Colagem de minha autoria: A corrosão do tempo


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E me lembrei também de um velho poema meu:
Cantiga da fratura exposta


Faustus: Where are you damn’d?
Mephistophilis: In Hell.
Faustus: How comes it then that thou art out of hell?
Mephistophilis: Why this is hell, nor am I out of it.


Pobre esqueleto enterrado  em mim,
sonha em ser livre e não sabe:
do corpo ao caixão,
mudamos de cela;
A morte não leva a nada.

Saturday, February 02, 2013

Diário da Babilônia

Estive em Walden:



Visitei a réplica da casa que Thoreau construiu. No meio do inverno foi impossível não lembrar do trecho do livro sobre o inverno na cabana:

"AFTER A STILL winter night I awoke with the impression that some question had been put to me, which I had been endeavoring in vain to answer in my sleep, as what how when where? But there was dawning Nature, in whom all creatures live, looking in at my broad windows with serene and satisfied face, and no question on her lips. I awoke to an answered question, to Nature and daylight. The snow lying deep on the earth dotted with young pines, and the very slope of the hill on which my house is placed, seemed to say, Forward! Nature puts no question and answers none which we mortals ask. She has long ago taken her resolution."

Walden é um livro magnífico e pode ser lido em inglês com notas e ilustrações aqui. Além do mais a tradutora Denise Bottman criou uma ótima fonte para o Walden aqui.